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revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003 |
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O Brasil, o óbvio e o obtuso na vida do filósofo Vilém Flusser - Uma aproximação com Stefan Sweig e Roland Barthes Viviane de Santana Paulo
Faz
parte da condição humana Escrever
é como um labirinto de espelhos
A longa permanência no Brasil
determinou sua linha de pensamento e fez de Flusser não só um pensador
europeu, pois teve a maioria de suas obras escrita em alemão, mas marcou
seu lugar na história da filosofia no Brasil. Ele é considerado, por
alguns especialistas na área, como o genuíno filósofo brasileiro. Vilém
Flusser começou a infiltrar-se na vida cultural brasileira no fim da década
de 50, através de artigos publicados no jornal O Estado de São Paulo e de
colaborações na Revista Brasileira de Filosofia. Em sua coluna semanal
"Ponto Zero" na Folha de
São Paulo, o filósofo fazia uma espécie de análise fenomenológica do
cotidiano brasileiro. Vale a pena mencionar que naquela época
muitos europeus abandonavam o continente tomado pelo regime fascista e
buscavam refúgio na América Latina. No caso do Brasil, entusiasmavam-se
fortemente com a receptividade do povo, com a mescla de culturas e a
miscigenação das raças. O contraste com a Europa era abissal e, à
primeira vista, sentiam-se como no paraíso. Diferente de Stefan Zweig, que
viveu no Brasil apenas dois anos, Flusser estava totalmente integrado e
arraigado na cultura brasileira. Stefan Zweig, escritor judeu austríaco,
nascido em 1881, já possuía renome internacional ao imigrar para o Brasil
em 1941. Foi poeta, dramaturgo, ensaísta e romancista. Influenciado pelo
idealismo alemão de Goethe e Schiller, suas atividades e obras humanistas e
pacifistas resultaram na queima de seus livros na época da ascensão do
totalitarismo na Europa. Stefan Zweig, falecido dois anos depois do
nascimento de Vilém Flusser, radicou-se na Inglaterra, onde viveu de 1934 a
1940, neste mesmo ano imigrou para o Brasil e em 1942 suicidou-se
acompanhado da esposa, numa casa alugada em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
O entusiasmo pelo país e a necessidade de abrangê-lo, de compreendê-lo
dentro de um contexto mundial unem os dois intelectuais estrangeiros. O
livro de Stefan Zweig Brasil, País
do Futuro (1941) é uma verdadeira declaração de amor ao país, assim
como o livro de Vilém Flusser Brasilien
oder die Suche nach dem neuen Meschen (1994), (Fenomenologia
do brasileiro: em busca do novo homem - RJ
- 1998), é uma explanação da cultura brasileira através de diversos
ângulos, no intento de captar a genuína identidade brasileira. Brasil,
País do Futuro, embora tenha sido uma declaração de amor ao
Brasil, foi menosprezado pelos intelectuais brasileiros da época, que
desconfiaram ser o livro uma encomenda do regime militarista de Getúlio
Vargas. Tal desconfiança isolou o escritor estrangeiro da intelectualidade
brasileira. No caso de Vilém Flusser, este chegou
como um refugiado qualquer ao Brasil e com o tempo foi adquirindo
reconhecimento e fama, além de ter vivido completamente integrado no
circulo intelectual da época. Flusser, em suas observações sobre o
Brasil, vai mais adiante e, devido ao longo tempo de vivência no país,
abrangeu aspectos mais profundos em suas teorias. Para ele o Brasil era um
país submergido na penúria, em todo o canto se via miséria, e
paradoxalmente estava ali o solo onde a semente de uma nova forma de vida
criativa e digna poderia crescer. Flusser tentava "sintetizar
a cultura brasileira
não só a partir de culturemas ocidentais, mas também levantinos,
africanos e extremo-orientais". O
filósofo "judeu-tcheco-paulistano" atingiu o auge de seu
entusiasmo pelo Brasil acreditando ser a forma de vida brasileira um modelo
para o mundo inteiro e se sentia tão verbunden com o povo brasileiro, unido a este povo, que engajar-se
por ele, significava atribuir um sentido em sua vida. E foi assim durante
trinta e dois anos, até a sua fuga do regime militar para a França. A doce
ilusão acabava-se. Regressou à Europa em 1972, resignado e mais uma vez
foragido. Viveu nove anos em Robion na França. Em 1991, na fronteira da Tchecoslováquia com a Alemanha, o filósofo,
ensaísta, escritor, crítico de arte e professor morre por acidente de
automóvel.
Para Flusser "os
migrantes são janelas através das quais os nativos podem ver o mundo". Ele reconhecia a situação
especial do homem lançado no desconhecido, onde ele é obrigado a recriar a
sua vida e dominar um novo idioma, novos dogmas e axioma. "Migrar é uma situação
criativa. Mas dolorosa. Toda uma literatura trata da relação entre
criatividade e sofrimento. Quem abandona a pátria sofre. Porque mil fios são
amputados, é como se uma intervenção cirúrgica fosse feita. Quando fui
expulso de Praga, vivenciei o colapso do universo. É que confundi o meu íntimo
com o espaço lá fora. Sofri as dores dos fios amputados. Mas depois
comecei a me dar conta de que tais dores não eram a da operação cirúrgica,
mas de parto. Dei-me conta de que os fios cortados me tinham alimentado e
que estava sendo projetado para a liberdade, a qual se manifesta pela inversão
da pergunta "livre de quê" em "livre para fazer o quê".
E assim somos todos os migrantes: seres tomados de vertigem". Apesar de ter contribuído valorosamente
na questão étnica concomitante à convivência com outras culturas, outro
núcleo de pensamento flusseriano, e o mais saliente no mundo acadêmico,
refere-se às teorias sobre o impacto das novas tecnologias de comunicação
e das imagens técnicas na existência humana. Vilém Flusser ocupou-se,
substancialmente, com o tema relacionado à comunicação. Tratava-se de um pensador eclético e
antiacadêmico, preferindo a linguagem metafórica, subordinada à forma
ensaísta. Alguns textos flusseriano aproximam-se do poético. Desta forma,
o ensaio era para ele um gênero literário controverso ao mundo acadêmico,
tratava-se de uma forma viva, onde o autor estava presente. Enquanto que, o
estilo acadêmico está baseado numa forma rigidamente científica, onde o
autor é despersonalizado. Ele realizava uma mixórdia entre poesia e prosa,
filosofia e jornalismo, tratado e panfleto, cuja estética envolve o leitor
não só intelectualmente, mas também no âmbito emocional. Seu primeiro
livro Língua e Realidade (1963)
é uma análise fenomenológica da língua. Para o poliglota as correntes
filosóficas não poderiam ser observadas abstraídas da filosofia da
linguagem. Considerando que, além de escrever, Flusser traduzia seus textos
para várias línguas. "Escrevo
tudo em alemão, a língua que pulsa mais
forte no meu centro. Traduzo para o português, a língua que melhor
articula a realidade social em que estou engajado. Traduzo então para o
inglês, a língua que melhor articula nossa situação histórica e possui
o repertório mais rico. Ao final, traduzo para a língua na qual desejo que
meu texto seja publicado, ou escrevo uma nova versão em inglês."
Escrever era um processo de traduzir e retraduzir até o esgotamento do
pensamento e da língua, pois somente pelo processo de tradução é que
"as falhas da prática do
escrever e as limitações do
pensamento em uma língua podem ser superadas" A prática multilíngue de escrita, isto
é, de traduzir e retraduzir seus próprios textos, era uma fonte profícua
no desenvolvimento intelectual de Flusser. Pois este processo traz à tona
certas pontecialidades ocultas do pensamento original, revela tantas facetas
subjacentes do pensamento original quantas são possíveis. Através da
tradução e retradução de sua própria escrita os múltiplos significados
do pensamento original são projetados em várias telas, revelados mais a
mais em suas múltiplas dimensões até o esgotamento. Em outras palavras, o
mesmo ponto de vista é analisado e expressado sob diversos ângulos lingüísticos
e diversos ângulos sobre o mesmo objeto são acumulados através da
pluralidade que as diferentes línguas propõem. Vilém Flusser traduzia
sistematicamente tudo aquilo que escrevia para as línguas que dominava. Em
seu livro Kommunikologie (1996)
ele define a relação entre língua original e a língua da tradução como
língua-objeto e língua-meta, sendo a segunda teoricamente subordinada à
primeira, mas nem sempre isto acontece. No caso da retradução a língua-objeto
torna-se a língua-meta, isto é, um texto escrito do francês para o inglês
e de volta para o francês. Curiosamente, para o dono de teorias
profundamente instigantes sobre lingüística, o português era considerado
para ele como "a língua do
excurso, da também chamada associação livre".
Vilém Flusser, como teórico da
comunicação, não podia deixar de enfocar a iconografia em seus estudos.
Resultado desse interesse foi Filosofia
da Caixa Preta, editado em português em 1985. O livro é dotado de uma
linguagem denotativa e o aspecto mitológico atribuído à fotografia também
foi descoberto, mais tarde, pelo semiólogo francês Roland Barthes, em A
Câmara Clara (1989). Em Filosofia
da Caixa Preta, a fotografia não é considerada apenas um método tecnológico
de atribuir à escrita uma áurea de magia. Flusser atribui à descoberta da
fotografia a mesma importância de valor histórico equivalente à
descoberta da escrita. Na pré-história os desenhos rupestres eram o meio
de comunicação que perpetuava a mensagem (o desenho traduz o pensamento em
imagem, a escrita traduz o pensamento em signos. E ambos perpetuam a
mensagem, aquilo que está desenhado ou escrito desafia as tempéries do
tempo). Talvez resida aí a magia da iconografia
e da escrita, o que torna estes dois meios de comunicação tão próximos
um do outro: o poder de desafiar o tempo. A trajetória realizada por um
texto ou uma imagem através das épocas cria um nimbo de magnetismo inviolável,
pois a imagem ou o texto será interpretado várias vezes de acordo com as
épocas. A época em que foram criados e a época em que estão sendo
analisados. Isto faz com que sejamos lançados a outro tempo e esta viagem
nos fascina inefavelmente. Análogo a Flusser, Roland Barthes ficou
também conhecido pelo seu estilo literário subversivo, pelos seus textos
repletos de conotações e metáforas. Em A
Câmara Clara, Barthes remete o leitor a uma linguagem repleta de
expressões poéticas. Neste último livro do semiólogo ele traça
considerações de forma pessoal, ainda que crítica, sobre a arte iconográfica
e suas reflexões expandem-se para além da fotografia atingindo a arte em
geral e o real. A Câmara Clara aborda o campo subjetivo envolvendo a fotografia, o
gosto e as impressões que fazem parte da constituição de uma foto e ainda
dá nome ao que antes era indecifrável nesta arte. Para o semiólogo a
fotografia se dividia em dois níveis: o chamado studium,
idéia que pode ser entendida como o campo objetivo, isto é, a realidade
concreta da imagem, isenta da interpretação estética. O studium serve-se das imagens jornalísticas e históricas. Outro nível
é denominado de punctum, idéia
que pode ser entendida como o campo subjetivo da imagem, aquilo que está além
da realidade concreta da foto e atinge a observação estética, a estilização
da imagem. É
evidente o valor da iconografia nos meios de comunicação atuais. A descrição
da história tornou-se inerente à fotografia, com ela criou-se um critério
de veracidade que antes não existia. A imagem prova a verossimilhança do
fato histórico, é ela que prova que tal acontecimento realmente existiu.
Sem a imagem permanece a dúvida e o obscuro da imaginação, a imperfeição
da fantasia. Para a clareza, os contornos e as cores dos fatos a imagem é
imprescindível. "Denn endlich hat die Geschichte ein Ziel, dem entegegen sie läuft,
das Ziel ins Bild gesetzt zu werden (Die Schrift - Hat Schreiben Zukunft,
1989)". (Pois
finalmente a História tem um objetivo, o qual ela almeja, o objetivo de ser
capturada pela imagem). No entanto, a imagem nem sempre é
auto-suficiente, necessita da escrita, da explicação, isto é, da
interpretação de sua mensagem através dos signos. Neste contexto, a
escrita completa a imagem e a imagem a escrita. A hegemonia consiste em ser
a escrita uma espécie de imagem, uma imagem codificada e, assim como a
iconografia, uma imagem estática, díspare das imagens em constante
movimento. O atavismo entre ambas serviu para limar a fantasia humana. A
imaginação abandona o campo abstrato e atinge o território limítrofe do
campo objetivo - o studium do
pensamento.
Em
Filosofia da Caixa Preta, as análises
de Flusser não se estendem amplamente ao nível punctum
da imagem, às considerações estéticas como as reflexões de Barthes. Vilém
Flusser concentrou-se nas observações históricas e sociológicas da
fotografia. Sendo assim, para interpretar a fotografia é necessário passar
pelo crivo cultural do fotógrafo e do meio cultural no qual ela foi
projetada. Não se pode isolar a evolução cultural da evolução da
imagem. Das fotografische Dickicht besteht aus Kulturgegenständen, das heißt aus Gegenständen, welche
"absichtlich hingestellt" wurden. (Für eine Philosophie der
Fotografie). (A
espessura do campo fotográfico é constituída de objetos culturais, isto
é, objetos os quais foram colocados ali "propositalmente").
O fotógrafo, o caçador de imagens,
rastreia somente aquelas imagens que serão compreendidas pelo seu meio
cultural. A
filosofia contida no gesto de fotografar flui para a questão de maior
reflexão na área de filosofia em geral: a questão da dúvida. Die Fotogeste ist die des
"phänomenologischen Zweifels", insofern sie versucht, sich den Phänomenen
von zahreichen Standpunkten aus zu nähern. (Für eine Philosophie der
Fotografie). (O
gesto de fotografar é equivalente à uma "fenomenologia da dúvida",
na medida em que ele tenta, através de diversos ângulos, aproximar-se dos
fenômenos". No momento em que o fotógrafo tenta
aproximar-se do fenômeno usando assim diferentes ângulos, captando
diversos movimentos e aspectos efêmeros do real, ele cria o quantitativo,
outra característica inerente ao gesto de fotografar. Para criar a imagem
adequada o fotógrafo caça ângulos
precisos, informações precisas, mas ele nunca terá, de antemão, a
certeza do resultado e, no meio da quantidade de tentativas, escolher a
imagem correta é mais um processo em que a dúvida faz-se presente e acima
de tudo, o crivo cultural. Desde a primeira fotografia, em 1827, do francês Nicephone Niepce, desde o primeiro processo praticável de fotografia, desenvolvido por L. J. M. Daguerre, em 1839, até a evolução da imagem digital, a fotografia não deixou de ser uma revolução rasante na vida do homem. Ainda mais com a introdução das imagens digitais que alterou profundamente algumas noções e teorias técnicas da fotografia. Na área jornalística, por exemplo, a imagem possui grande e incontestável poder. Recentemente, a escritora norte-americana Susan Sontag lançou um livro de ensaios (Regarding the Pain of Others) sobre o impacto da imagem jornalística no cotidiano do indivíduo, principalmente em época de guerra. Este é o segundo livro da escritora sobre fotografia, o primeiro On Photography (1977) também é uma análise sobre o poder da imagem na vida do homem moderno. Segundo Sontag, a fotografia é um meio de adquirir poder sobre o indivíduo, um instrumento de manipulação e de formação de opinião. Os políticos fazem uso deste poder há muito tempo. Na guerra do Kuwait, por exemplo, as imagens foram simplesmente proibidas. Pela primeira vez tivemos uma guerra sem imagens e uma guerra sem imagens não é guerra, não é nada, torna-se apenas uma falácia distante de nós. A imagem é que traz a guerra para dentro de nossas casas, é a imagem que traz o político a ser votado para comer em nossas mesas; enfim, é a imagem que nos transporta para o local do acontecimento, é ela que nos aproxima daquelas pessoas e acontecimentos alhures e permanece emoldurada e pregada nas paredes da nossa memória. |
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Viviane de santana Paulo (Brasil, 1966). Poeta, ensaísta e romancista.
Formada em Filologia Germânica pela Universidade Friedrich-Wilhelm, em
Bonn. Vive em Berlim e trabalha no Setor de Imprensa e Divulgação da
Embaixada do Brasil na Alemanha. Autora de Passeio
ao Longo do Reno (2002). Contato: vsantana@brasemberlim.de.
Página ilustrada com obras do artista Fernando Casás (Galiza). |