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Em casa ou na rua, sensuais e gordas: esculturas de Eliana
Kertész
Mirian
de Carvalho
Ao impulso do volume projetando-se no espaço, a Escultura -
mais que qualquer outra arte - nos atrai à imagética da visualidade e à
apreensão tátil, agindo simultaneamente. Despertando-nos sensações
visuais e táteis, inúmeras peças pré e proto-históricas, assim como
um número imenso de esculturas dos períodos posteriores - nas várias
regiões do planeta - nos revelam seu enraizamento em arquétipos da
fertilidade e ou do sensualismo, dando carnes ao corpo feminino. Essa
volumetria captada de modo sinestésico, localizando-se no todo ou na
parte, pode ser observada em algumas estatuetas de barro dos Karajá,
apresentando transbordantes seios, quadris e nádegas - partes do corpo
feminino enfatizadas, igualmente, em outras tantas peças africanas feitas
em madeira, devendo aqui ser mencionada a delicadeza geométrica da
bonequinha Ashanti, exibindo fartos seios de lenho. Tais atributos plásticos
se incluem em vários momentos da estatuária indiana, feita de pedra ou
de outros materiais, dando destaque ao sexo nos corpos ritmados em volume
sinuoso.
Despertando
diálogos sensoriais, nas figuras criadas por Eliana Kertész essa projeção
tridimensional eclode em curvas e redondos de marcante exuberância
sensual nestas mulheres gordinhas, caracterizando uma incursão
pelo Barroco nos tempos atuais, traduzindo-se nas curvas de um
pan-barroquismo [1], cujas vertentes incluem inúmeras perspectivas e
possibilidades no plano das expressões artísticas. Visitando a obra de
Eliana, se faz nítida a memória sensorial do Barroco, reinterpretado por
ela através de arquétipos que se inscrevem na anterioridade do próprio
estilo de época. Em terras do Brasil e na Europa, esses arquétipos
pulsam nas imagens religiosas e nas profanas, esteticamente relacionadas,
conduzindo-nos -
numa leitura hodierna -
a uma raiz comum, geradora de movimentos qualitativos da linha, do ritmo e
do volume comuns ao Barroco de época e a certas obras que, através dos
tempos, compartilham essa herança arquetípica. Não se trata de
transposição de recursos barrocos à obra atual, mas de matriz plástico-imagística
recorrente em períodos artísticos diversos [2], surgindo hoje através
de concepções estéticas várias, nas obras de muitos artistas
relacionados ao Pós-Modernismo.
Sob esse prisma, percebemos movimentos nas linhas cumprindo
qualidades volumétricas, a inscrever as esculturas de Eliana Kertész
numa estética do redondo. Essa estética nos faz intuir símbolos que nos
remetem ao intumescido úmido nos frutos, à convexidade-concavidade
imaginária e tátil nas conchas, ninhos, e outros objetos produzidos pelo
homem, pelas aves e pelos invertebrados, entreabrindo espaços de
redondeza. Criando e entreabrindo lugares de atração. E de prazeroso
aconchego e intimidade. Lugares de curvaturas densas, atraindo o visitante
a imaginárias concavidades. Lugares que se inscrevam na casca da noz e na
pérola, tangenciando simbolismos do alimento e do erotismo no corpo
feminino. Simbolismos da sexualidade “em afiado tempo e cio.” Cio do
barro. E do corpo.
Com referência às obras de Eliana Kertész, o sensual se
inicia na matéria originária destas gordinhas: o barro. Mundo
primevo. Sêmen e ventre. Nestas esculturas, a substância básica
necessita da ação do líquido para tornar-se receptiva ao toque e
nascimento do corpo feminino. Corpo e plasticidade trazidos à luz por mãos
iniciadas nas potencialidades e vibrações do material, porque a
fertilização da matéria envolve manuseio de carícia, contrapondo forças
a partejar impulsos, integrando, gradativamente, rigidez e umidade. Terra
e água. Dessa entredoação resultam estágios férteis da pasta e da
massa - do barro amassado - conduzindo processos posteriores, implícitos
à poética da matéria. Processos que podem culminar nas densidades metálicas
do bronze, na leveza das cores da resina, ou no próprio barro levado ao
cozimento. Esculturas de metal. De resina. Ou realizadas no próprio
barro. Procedimentos técnicos diversos. Fases de uma alquimia emanada do
calor operante nas potências do fogo. Mas tudo se inicia no barro: matéria
mítica e originária da vida, a pulsar no corpo destas gordinhas -
“nascedouro sumidouro/ ao corpo falando o barro.”
Verdadeiro
trabalho de transformação da matéria desejante, estas mulheres nascidas
do solo nos chamam aos sentidos do corpo erotizado, levando-nos a imaginar
a trajetória dos anjos que desceram à Terra para encontrar a vida da matéria
originaria. Enraizadas em memória mitopoética, as gordinhas foram
um dia anjos. Anjos barrocos. Memória das igrejas. Memória do lugar.
Anjos desejosos de humanidade. Visitando estas obras, podemos reinventar
com Eliana a saga da descese à terra, como se registrou em Asas
do Desejo - filme de Wim Wenders -
surpreendendo os anjos no dia-a-dia do café com pão. E do amor. No
filme, seres etéreos, ganhando vida humana. Na estatuária, seres de
barro sugerindo o cotidiano. Mulheres irradiantes de carne e pele, seus
corpos arredondados e eróticos nos remetem à lenda da origem. Surgidas
do barro. Matéria da fecundidade. Placenta e célula. Princípio de
humanização. Barro primevo. Com ele voltamos ao solo. Nele, docemente,
“sujamos” nossas mãos, pés e roupas, repetindo o jogo infantil da
criação. No barro, assistimos ao parto da vida, trazendo à luz estas gordinhas
plenas de feminilidade. Exuberantes. Lúdicas. Nuas. Ou vestidas para
desnudar o corpo erotizado. Sem arrependimento. Nem culpa.
As gordinhas de Eliana Kertész irradiam vida nas curvas
que dançam com Maria Dolores e Valentina. Irradiam vida nos
corpos dançantes de Lili Marlene, Maria Felicidade, e de
todas as mulheres simbolizadas em cada uma delas. E em cada uma delas
simbolizando o feminino ao encontro do masculino. Seja no entrelaçamento
do casal Vavá e Vivinha, quando o masculino
complementa o feminino em gestual de erotismo. Seja na intuição do
masculino, que as completa lânguidas. Úmidas, assim como o barro que
necessita da água para gerar a vida. Prontas para o encontro. E felizes.
Realizando
nos volumes femininos uma estética do redondo, a escultora nos induz a
pensar uma dimensão política do corpo da mulher, assumindo-se em
marcante presença, alheia aos padrões da mídia, ainda que - é
importante ressaltar - padrão de beleza física e solução estético-plástica
sejam coisas de natureza bastante diversa. Mas, nesse caso, relacionadas.
Posto que - longe deste nosso século - ficaram os tempos ingênuos da
“arte pela arte”. Hoje, o fazer e a leitura da obra de arte nos
permitem procurar e encontrar significações e sentidos amalgamados nos
planos do estético e do sociocultural. Significativas nesses dois planos,
realizadas em cores e tamanhos vários, estas gordinhas irradiam
feminilidade e desafio diante do mundo. Eróticas. De pé. Deitadas.
Sensuais. Posando. Movendo-se sobre o suporte. Banhando-se numa fonte…
Elas se assumem femininas e gordas. Sejam elas ingênuas ou despudoradas,
abrindo-se à sexualidade no ambiente recôndito. Ou em praça pública.
NOTAS
1 O nome Pan-Barroco foi criado por Ivan Cavalcanti
Proença, para caracterizar elos comuns ao estilo literário de época e
à Literatura atual. Por analogia, utilizamos a denominação no campo das
Artes Plásticas.
2 Este tema é objeto de nossos estudos atuais, que
abordam a relação entre o popular e o erudito na Arte Brasileira.
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