revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003






 

Em casa ou na rua, sensuais e gordas: esculturas de Eliana Kertész

Mirian de Carvalho

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Eliana KertészAo impulso do volume projetando-se no espaço, a Escultura - mais que qualquer outra arte - nos atrai à imagética da visualidade e à apreensão tátil, agindo simultaneamente. Despertando-nos sensações visuais e táteis, inúmeras peças pré e proto-históricas, assim como um número imenso de esculturas dos períodos posteriores - nas várias regiões do planeta - nos revelam seu enraizamento em arquétipos da fertilidade e ou do sensualismo, dando carnes ao corpo feminino. Essa volumetria captada de modo sinestésico, localizando-se no todo ou na parte, pode ser observada em algumas estatuetas de barro dos Karajá, apresentando transbordantes seios, quadris e nádegas - partes do corpo feminino enfatizadas, igualmente, em outras tantas peças africanas feitas em madeira, devendo aqui ser mencionada a delicadeza geométrica da bonequinha Ashanti, exibindo fartos seios de lenho. Tais atributos plásticos se incluem em vários momentos da estatuária indiana, feita de pedra ou de outros materiais, dando destaque ao sexo nos corpos ritmados em volume sinuoso.

Eliana KertészDespertando diálogos sensoriais, nas figuras criadas por Eliana Kertész essa projeção tridimensional eclode em curvas e redondos de marcante exuberância sensual nestas mulheres gordinhas, caracterizando uma incursão pelo Barroco nos tempos atuais, traduzindo-se nas curvas de um pan-barroquismo [1], cujas vertentes incluem inúmeras perspectivas e possibilidades no plano das expressões artísticas. Visitando a obra de Eliana, se faz nítida a memória sensorial do Barroco, reinterpretado por ela através de arquétipos que se inscrevem na anterioridade do próprio estilo de época. Em terras do Brasil e na Europa, esses arquétipos pulsam nas imagens religiosas e nas profanas, esteticamente relacionadas, conduzindo-nos - numa leitura hodierna  - a uma raiz comum, geradora de movimentos qualitativos da linha, do ritmo e do volume comuns ao Barroco de época e a certas obras que, através dos tempos, compartilham essa herança arquetípica. Não se trata de transposição de recursos barrocos à obra atual, mas de matriz plástico-imagística recorrente em períodos artísticos diversos [2], surgindo hoje através de concepções estéticas várias, nas obras de muitos artistas relacionados ao Pós-Modernismo.

Sob esse prisma, percebemos movimentos nas linhas cumprindo qualidades volumétricas, a inscrever as esculturas de Eliana Kertész numa estética do redondo. Essa estética nos faz intuir símbolos que nos remetem ao intumescido úmido nos frutos, à convexidade-concavidade imaginária e tátil nas conchas, ninhos, e outros objetos produzidos pelo homem, pelas aves e pelos invertebrados, entreabrindo espaços de redondeza. Criando e entreabrindo lugares de atração. E de prazeroso aconchego e intimidade. Lugares de curvaturas densas, atraindo o visitante a imaginárias concavidades. Lugares que se inscrevam na casca da noz e na pérola, tangenciando simbolismos do alimento e do erotismo no corpo feminino. Simbolismos da sexualidade “em afiado tempo e cio.” Cio do barro. E do corpo.

Com referência às obras de Eliana Kertész, o sensual se inicia na matéria originária destas gordinhas: o barro. Mundo primevo. Sêmen e ventre. Nestas esculturas, a substância básica necessita da ação do líquido para tornar-se receptiva ao toque e nascimento do corpo feminino. Corpo e plasticidade trazidos à luz por mãos iniciadas nas potencialidades e vibrações do material, porque a fertilização da matéria envolve manuseio de carícia, contrapondo forças a partejar impulsos, integrando, gradativamente, rigidez e umidade. Terra e água. Dessa entredoação resultam estágios férteis da pasta e da massa - do barro amassado - conduzindo processos posteriores, implícitos à poética da matéria. Processos que podem culminar nas densidades metálicas do bronze, na leveza das cores da resina, ou no próprio barro levado ao cozimento. Esculturas de metal. De resina. Ou realizadas no próprio barro. Procedimentos técnicos diversos. Fases de uma alquimia emanada do calor operante nas potências do fogo. Mas tudo se inicia no barro: matéria mítica e originária da vida, a pulsar no corpo destas gordinhas - “nascedouro sumidouro/ ao corpo falando o barro.”

Eliana KertészVerdadeiro trabalho de transformação da matéria desejante, estas mulheres nascidas do solo nos chamam aos sentidos do corpo erotizado, levando-nos a imaginar a trajetória dos anjos que desceram à Terra para encontrar a vida da matéria originaria. Enraizadas em memória mitopoética, as gordinhas foram um dia anjos. Anjos barrocos. Memória das igrejas. Memória do lugar. Anjos desejosos de humanidade. Visitando estas obras, podemos reinventar com Eliana a saga da descese à terra, como se registrou em Asas do Desejo - filme de Wim Wenders - surpreendendo os anjos no dia-a-dia do café com pão. E do amor. No filme, seres etéreos, ganhando vida humana. Na estatuária, seres de barro sugerindo o cotidiano. Mulheres irradiantes de carne e pele, seus corpos arredondados e eróticos nos remetem à lenda da origem. Surgidas do barro. Matéria da fecundidade. Placenta e célula. Princípio de humanização. Barro primevo. Com ele voltamos ao solo. Nele, docemente, “sujamos” nossas mãos, pés e roupas, repetindo o jogo infantil da criação. No barro, assistimos ao parto da vida, trazendo à luz estas gordinhas plenas de feminilidade. Exuberantes. Lúdicas. Nuas. Ou vestidas para desnudar o corpo erotizado. Sem arrependimento. Nem culpa.

As gordinhas de Eliana Kertész irradiam vida nas curvas que dançam com Maria Dolores e Valentina. Irradiam vida nos corpos dançantes de Lili Marlene, Maria Felicidade, e de todas as mulheres simbolizadas em cada uma delas. E em cada uma delas simbolizando o feminino ao encontro do masculino. Seja no entrelaçamento do casal Vavá e Vivinha, quando o masculino complementa o feminino em gestual de erotismo. Seja na intuição do masculino, que as completa lânguidas. Úmidas, assim como o barro que necessita da água para gerar a vida. Prontas para o encontro. E felizes.

Eliana KertészRealizando nos volumes femininos uma estética do redondo, a escultora nos induz a pensar uma dimensão política do corpo da mulher, assumindo-se em marcante presença, alheia aos padrões da mídia, ainda que - é importante ressaltar - padrão de beleza física e solução estético-plástica sejam coisas de natureza bastante diversa. Mas, nesse caso, relacionadas. Posto que - longe deste nosso século - ficaram os tempos ingênuos da “arte pela arte”. Hoje, o fazer e a leitura da obra de arte nos permitem procurar e encontrar significações e sentidos amalgamados nos planos do estético e do sociocultural. Significativas nesses dois planos, realizadas em cores e tamanhos vários, estas gordinhas irradiam feminilidade e desafio diante do mundo. Eróticas. De pé. Deitadas. Sensuais. Posando. Movendo-se sobre o suporte. Banhando-se numa fonte… Elas se assumem femininas e gordas. Sejam elas ingênuas ou despudoradas, abrindo-se à sexualidade no ambiente recôndito. Ou em praça pública.

NOTAS 

1 O nome Pan-Barroco foi criado por Ivan Cavalcanti Proença, para caracterizar elos comuns ao estilo literário de época e à Literatura atual. Por analogia, utilizamos a denominação no campo das Artes Plásticas. 
2 Este tema é objeto de nossos estudos atuais, que abordam a relação entre o popular e o erudito na Arte Brasileira. 

Mirian de Carvalho. Doutora em Filosofia, Professora de Estética da UFRJ, Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte, Membro da Associação Internacional de Críticos de Arte. Contato: mir3@terra.com.br. Página ilustrada com obras da artista Eliana Kertész (Brasil).

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