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revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003 |
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André Lamarre: diálogos sobre Surrealismo no Canadá Floriano Martins
AL - O reino de Maurice Duplessis
e do seu partido a União nacional (no poder de 1944 até 1959) foi
estigmatizado pela expressão de “Grande Negrume”. Esse governo
autoritário e paternalista respondia a um conservadorismo profundo da
sociedade do Quebec, que freou as reformas necessárias para uma entrada
no mundo moderno. Paradoxalmente, durante esse período do pós-guerra se
estabeleceram as forças que levaram, a partir do 1960, a significativas
mudanças. A publicação do Refus Global, manifesto escrito pelo
pintor Paul-Emile Borduas (1905-1960) e apoiado por quinze outros
assinantes, constitui uma ruptura simbólica com o Quebec tradicional,
dominado pelo clero católico e definido por uma atitude geral de volta a
si mesmo. Trata-se de uma sociedade fechada que essa intervenção
inflamada tenta sacudir. No entanto, é difícil falar de
“reconquista”. A liberdade de expressão artística e política
reclamada por Refus global nunca existiu antes. O Canadá francês
constitui de fato uma dupla colônia. A Nova-França (1534-1760) estava
submetida à autoridade dos administradores coloniais e ao clero. A
conquista pelos ingleses lançou o lento, mas inexorável processo de
diminuição dos francófonos da América. A propósito do Refus Global
e dos seus assinantes, chamados “os automatistas”, é preciso
especificar que se tratava de um desejo e de um trabalho de invenção de
uma autonomia cultural e política. Contudo, vale dizer que o pensamento
político dos automatistas não é muito elaborado: trata-se de uma forma
de anarquismo liberal que não anuncia diretamente o desenvolvimento do
nacionalismo do Quebec de orientação social-democrático, que se abrirá
durante os anos 1960. É, melhor, uma forma de internacionalismo defendida
por Borduas. Nesse sentido, suas reflexões e suas posições são muito
atuais. Por outra parte, o grupo automatista guarda ligações com o meio
sindical e de esquerda da época. Faz apelo, então, a mais democracia e a
uma liberação global que não está apoiada numa análise política
precisa. É principalmente desde o ponto
de vista intelectual, cultural e artístico que Refus Global tem um
papel determinante. Reivindica uma liberdade de pensamento, uma liberdade
de criação, uma abertura para as forças inconscientes e uma revolução
estética sem precedentes no Canadá. É significativo que Refus Global
tenha sido assinado por artistas de artes plásticas (pintores,
escultores, fotógrafos), poetas, artistas do espetáculo (principalmente
mulheres coreógrafas) e outras pessoas que se ilustrarão no campo do
design, da televisão… e da psiquiatria. Esse conjunto de forças vivas
significa a determinação de fundar, em toda sua diversidade, uma cultura
que será chamada não mais canadense francesa, mas quebequense, aberta
sobre a modernidade e sobre o mundo. Refus Global é, pois, um ato
de nascimento. Além disso, trata-se realmente
de autonomia, pois essa revolta não tem como objetivo a cega destruição,
mas uma nova construção: “ao Refus Global nós opomos uma
responsabilidade inteira”. Essa responsabilidade que Borduas reivindica
é primeiro a da lúcida assunção das principais mudanças culturais,
artísticas, ideológicas e científicas da humanidade. Numa sociedade
marcada pelo imobilismo, essa ação consiste em reencontrar o movimento,
para “libertar o presente dos limbos do passado”. Nossas paixões
forjam espontaneamente, imprevisivelmente, necessariamente o futuro. Esses
são os fundamentos sobre os quais se edificou a cultura quebequense. Nos
seus objetivos essenciais o programa de Refus Global permanece
atual. FM - Já ao final de Refus
Global podemos ler: “Le surréalisme replaça l’oeuvre d’art à
sa place dans l’activité de l’homme. Il permit de mieux connaître le mécanisme
de la création poétique. Il nous révéla la continuité des prophéties.”
Mas logo em seguida se observa a condição de imprevisibilidade e
ilegitimidade de uma suposta paternidade. Quais seriam então as conjunções
e disjunções identificadas entre Refus
Global e Surrealismo? AL - Se os artistas e os
escritores assinantes de Refus Global aceitaram e adotaram a apelação
de “automatistas”, entre outras razões, é para identificar a sua
filiação e, ao mesmo tempo, distinguir seu procedimento daquele do
surrealismo. Se o movimento francês do pós-guerra
parece bem longe da sua “idade de ouro” (depois Da mudança de rota, a
defecção e a exclusão de muitos dos adeptos da primeira hora), o grupo
de Borduas se liga novamente e com resolução às origens do surrealismo.
Refere-se particularmente aos seus escritores inspiradores (Refus
Global cita Sade e Lautréamont), tanto quanto aos seus textos
fundadores (por exemplo, os primeiros manifestos escritos por Breton). O
texto “Commentaires sur des mots courants” (anexo à publicação de
1948) ilustra muito bem o pensamento do qual Borduas conserva a
autoridade. Ele distingue e define três tipos de automatismos. Isso quer
dizer que os artistas quebequenses, nas suas reflexões, exploram e
radicalizam essa noção. De fato, podemos ter a impressão de que, para
os escritores franceses, a escrita automática foi apenas o objeto de um
“período”, baseado sobre a experimentação e a descoberta. Assim, o Refus Global e a
corrente de pensamento que o prolonga tentam, por uma parte, ligar-se a
uma concepção original do surrealismo e, por outra parte, fazê-la
progredir, isto é, levá-la até seus limites. Entre as noções
fundamentais do surrealismo, Borduas assinala “a importância moral do
ato não preconcebido”. Refus Global formula uma critica da razão
e da intenção que bloqueiam o desenvolvimento humano. Constatamos que
Borduas se situa no exterior do campo artístico sozinho e aponta para uma
posição filosófica e moral que diz respeito a todos os aspectos da vida
individual (psíquica e criadora) e social. O enunciado “nós
perseguimos com felicidade nossa selvagem necessidade de liberação”
(que fecha o manifesto) esposa os princípios do projeto surrealista na
sua pureza. Lá onde Borduas e seu grupo se
afastam decididamente do surrealismo é no que diz respeito aos meios
escolhidos para obter esse objetivo, particularmente no campo da expressão
plástica. A análise da noção de automatismo leva à promoção de uma
arte não figurativa, na poesia e nas artes plásticas. O surrealismo
europeu se situaria, assim, na categoria do “automatismo psíquico”,
primeiramente baseado sobre um conteúdo de representação. Como pintor,
Borduas não aceita se limitar à figuração onírica dos Dali e
Magritte. Ele pretende operar na matéria mesma da pintura. Não posso a não
ser retomar a análise de André G. Bourassa, especialista do automatismo:
“É significativo que a definição do automatismo quebequense se
aplique inicialmente à pintura, enquanto a definição de Breton tinha a
ver primeiro com a escrita (“Une nuit particulière”, 1980). Podemos,
pois, considerar Refus Global como um prolongamento norte-americano
do surrealismo. No entanto, o atraso desse eco além-atlântico faz com
que a diferença assuma dimensões críticas e proponha uma superação do
surrealismo francês. Seria necessário citar textualmente o final desse
texto de 1947: “Somos os filhos imprevisíveis, aliás quase
desconhecidos, do surrealismo. Filhos ilegítimos talvez, cuja filiação
se fez à distancia, não voluntariamente de nossa parte, mas pela força
das coisas”. É o tema da paternidade que opõe radicalmente os dois
movimentos. Enquanto Breton (qualificado como “papa do surrealismo”)
sempre desejou manter sua alta autoridade, Borduas abandonou
simbolicamente os seus exilando-se em Nova York, e logo em Paris. O filho
imprevisto e rebelde não se tornou um pai. FM - Qual importância teriam,
para o surgimento de Refus Global,
as agitações vanguardistas de Maurice Gagnon, já em 1944? AL - Maurice Gagnon era crítico
de arte e professor, colega de Borduas numa instituição de ensino. O seu
trabalho é o sintoma de que um terreno preparatório à explosão do Refus
Global existia no mundo do ensino, particularmente do ensino das
artes, ou dos debates torrenciais que opuseram desde o início dos anos
1940 alguns indivíduos partidários da modernidade e os conservadores do
imobilismo. As viagens de algumas pessoas esclarecidas para a
Europa e os contatos que se seguiram estiveram na origem do
desenvolvimento de um pensamento estético autônomo e cr’itico, que se
exprimiu através de publicações de artigos e de livros. Por outra
parte, durante a Segunda Guerra Mundial, a edição canadense-francesa
substituiu parcialmente a edição francesa. O desenvolvimento das “éditions
de l’Arbre” (edições da Árvore) testemunha isso, já que publicaram
uma recolha de ensaios sobre o pintor Fernand Léger (Fernand
Léger: la forme humaine dans l’espace, 1945) e a primeira série de
monografias sobre artistas contemporâneos do Quebec, sob o título de
coleção “Art vivant” (arte viva). Essa denominação indica o
programa de transformações a vir. Maurice Gagnon colaborou na realização
do primeiro título, e publicou uma monografia sobre Alfred Pellan
(1906-1988), pintor quebequense que também se inspirou no surrealismo (e
em Matisse).
FM - 1944 é o ano em que André
Breton (1896-1966), esteve no Canadá, quando então exilado em New York,
mas não encontrou-se com ninguém ligado a uma vanguarda que ainda estava
sendo gestada. Sua passagem por Gaspésie e Sainte-Agathe encontra-se
narrada em Arcane 17. A este
episódio acaso não é dada uma importância excessiva por parte de críticos
e historiadores? AL - De fato, trata-se de um
acontecimento menor da história do surrealismo e do automatismo. É a
história de um encontro perdido. Todo fechado na escrita do seu livro,
Breton guarda do Canadá o exotismo maravilhoso do Rocher furado e das ágatas
que encobrem as falhas do pico da Gaspésie. Sua visão global da
sociedade canadense francesa o leva a se limitar a uma caricatura. Não
podemos cobrar-lhe isso. Do Canadá francês viu apenas “La Grande
Noirceur” (“O grande negrume”). Para um quebequense é estranho ler
o começo do Arcane 17: “ essa região do Canadá vive, de
fato, sob um estatuto particular e apesar de tudo, um pouco à margem da
história”. Pareceria estar lendo Borduas ! É estranho reparar
como o quadro desenhado por Breton em um parágrafo anuncia algumas das críticas
da sociedade quebequense formuladas no Refus Global (poderio da
Igreja, marginalidade, falta de identidade cultural e política). Assim,
as forças subterrâneas de mudança ficaram ocultas em Breton. No
entanto, ele profetizou os efeitos de abertura para o mundo do pós-guerra:
“Talvez por dramático que
seja, o desembarcar atual de muitos canadenses franceses sobre a costa
normanda ajudará para o restabelecimento de um contato vital, ausente há
quase dois séculos”. (Breton não sabe que milhares de canadenses
franceses não retornarão vivos desse terrível episódio da Segunda
Guerra Mundial). Mais tarde, ele lamentará não
ter encontrado Borduas. No entanto, sabemos que, já nesse momento, os
futuros automatistas debatem sobre o surrealismo e que eles não teriam
acolhido Breton como salvador. De fato, o grupo declinou em 1943, um
convite para se inscrever formalmente no movimento surrealista
estabelecido em Nova York. Talvez eles tivessem um diálogo de surdos. FM - Artistas como Paul-Émile
Borduas e Jean-Paul Riopelle (1923-2001) aproximaram o surrealismo e a
arte abstrata, como também havia feito Jackson Pollock (1912-1956) nos
Estados Unidos. No Brasil essa conjunção não foi realizada. Em um
artista como Antônio Bandeira, relacionado mais com Wols (1913-1951) e
com Camille Bryen, a crítica nunca observou a evidente influência do
surrealismo. Gostaria que você fizesse algumas observações a respeito
desse encontro que Borduas chegaria a estabelecer sob a denominação de
expressionismo abstrato ou “automatismo super-racional”. AL - De fato, podemos afirmar que
Borduas e Riopelle fizeram derivar da noção de automatismo, derivada do
surrealismo, a necessidade de uma arte não figurativa, pois “não
preconcebida”, de acordo com a expressão de Borduas. Assim, podemos
falar desde o começo de uma ruptura com a escolha arbitrária do
figurativo e da retórica onírica da pintura surrealista. Radicalizando a
noção de automatismo, Borduas e seus amigos se encontravam já em
desequilíbro com o movimento europeu. Enquanto Mondrian e Kandinsky
tinham evoluído do lado da abstração espoliando progressivamente a
figura da sua figuração, os automatistas quebequenses a recusaram desde
o início, apoiando-se nos princípios surrealistas para superá-los. Nos seus “Commentaires sur des
mots courants”, Borduas definia o “automatismo
super-racional” como uma escrita plástica não preconcebida” e
descrevia o processo: “uma forma chama outra até o sentimento de
unidade”. Constatamos que essa teoria coincide exatamente com todas as
práticas do expressionismo abstrato, chamado também de abstração lírica
ou abstração barroca, que designa essa parte da arte não figurativa na
qual a gestualidade é essencial. Nos Estados Unidos, um pintor como
Robert Motherwell (1915) reconhece em um texto de 1967 uma dívida
semelhante para com o surrealismo, mas está se referindo ao desenho automático
de André Masson (1896-1987). Podemos dizer que o surrealismo desempenhou
um papel fundamental para o nascimento do “Action Painting” e a evolução
estética da Escola de Nova York. FM - Em relação à poesia, o
livro Les sables du rêve
(1946), de Thérèse Renaud, seria apenas um marco histórico, em função
do emprego da escritura automática, ou significa uma ruptura estética
relevante? AL - A publicação de Les
sables du rêve tem, primeiro, uma importância histórica. Trata-se não
apenas do primeiro livro publicado pelo grupo automatista, mas também de
uma data na história do livro da artista. Além disso, é preciso saber
que esse livro marca a história da escrita das mulheres no Canadá. Esse livro breve e ilustrado por
desenhos automáticos de Jean-Paul Mousseau constitui o primeiro signo
concreto da ruptura estética realizada no campo da escrita pela poesia
surrealista e automatista no Canadá francês. Thérèse Renaud é a
primeira escritora automatista. O choque opera-se menos no nível formal
(parágrafos curtos, versos livres e “diálogos surrealistas”) e mais
no campo da investigação imaginária, que diz respeito às relações
simbólicas entre homens e mulheres. O caminho da poeta pode aproximar-se
daquele de Joyce Mansour, por exemplo. É preciso ressaltar o fato de que
a metáfora do título foi retirada de um verso de André Breton (“il y
aura toujours une pelle au vent dans les sables du rêve”, “Les états
généraux”, 1943) que ela deve ter lido em VVV (nº 4, New York,
1944). O livro de Renaud se destaca pela violência da expressão do
fantasma: “Je levai les couvertures et me précipitai dans le volcan des
rêves…”. Em um universo maravilhoso resultante daquele dos contos
(personagens de gigantes e de crianças, objetos animados, animais
personificados), a narradora recebe imagens poderosas, que a sacodem:
“Ah! Enfermez-moi pour avoir dérobé ce secret”. Lamentamos que essa experiência
poética não tenha tido uma continuação imediata; o exílio da autora
na França, acompanhado por um longo silêncio, freou o nascimento de uma
obra. Lembramos que o exílio e o silêncio foram o destino de muitos dos
assinantes de Refus Global e de seus companheiros, pois o
fechamento da sociedade quebequense lhes parecia intolerável. Será
preciso esperar até os anos 1950 para constatar uma verdadeira eclosão
da poesia escrita por mulheres no Quebec, em termos de qualidade e importância
(a poesia de Anne Hébert, 1916-2000, por exemplo); os anos 1970 para a
confirmação de obras poéticas “maiores” (a de Nicole Brossard,
nascida em 1943, entre outras) e os anos 1980 para uma explosão
quantitativa das publicações poéticas realizadas por mulheres. Uma das
características da cultura quebequense atual é essa parte essencial do
universo da poesia ocupado pelas mulheres. É certo que Thérèse Renaud
desempenhou um papel significativo no desenvolvimento da estética
automatista, primeiro enquanto criadora. Um dos seus poemas foi encenado
em espetáculo, acompanhado por uma coreografia de Françoise Sullivan,
outra assinante do manifesto, e por uma música de Pierre Mercure,
importante compositor de música contemporânea. Além disso, o fato de
figurar entre os nomes que apóiam o manifesto, revela sua integração no
grupo. Queremos ressaltar o fato de que sete desses quinze assinantes são
mulheres, o que torna Refus Global uma das intervenções
intelectuais mais igualitárias que existe.
AL - O retorno de Roland Giguère
da França é o retorno de um indivíduo. Não representa nenhum
movimento. Como os automatistas, bebeu nas fontes do surrealismo. Tendo
vivido alguns anos em Paris, ao longo dos anos 1950, encontrou Breton,
freqüentou os surrealistas, conheceu os integrantes do grupo Cobra, logo
participou das atividades do grupo Phases e publicou na revista que tem o
mesmo nome. Esses encontros o levaram a publicar e a expor em vários países.
Os movimentos marginais e dissidentes do surrealismo francês não criaram
raízes desse lado do Atlântico. Aquilo que Giguère trouxe foi um
núcleo puro do surrealismo. É talvez o único poeta quebequense cujo
conjunto de obras pode ser qualificado de surrealista. Trata-se de uma
poesia marcada pela leitura do primeiro Éluard e que se aparenta com a do
Henri Michaux. A poesia de Giguère realiza a exploração de um imaginário
individual e coletivo. Na época da “Grande Noirceur”, “éramos um
pouco como toupeiras cavando um túnel em direção à luz”, dirá em
1968. É preciso observar que, como Michaux, Giguère é um artista
visual: pintor, desenhista e xilogravador de uma só vez. Ele mesmo
associa, unifica, os dois caminhos: “O pintor, como o poeta, faz hoje um
trabalho de escafandrista. Desce. Desce no leito do seu próprio rio e
procura no barco que lá está afogado, entre duas águas, os tesouros que
sabe estão lá guardados” (1951). De fato, é uma filiação e uma dívida
que ele reconhece: “ Uma boa parte da nossa atual poesia é fruto direto
do surrealismo. Aliás, poderíamos dizer o mesmo de quase toda a poesia
contemporânea, esse fenômeno não tem nada de particular no Quebec…”
declara em 1968. É estranho, mas se há um grupo
quebequense ao qual Giguère foi associado é aquele dos poetas das edições
do Hexagone, cujas estéticas eram variadas e divergentes, mas que tinham
em comum o trabalho de fundação da poesia quebequense moderna, menos
concentrada ao redor de uma escrita e mais ao redor de uma temática,
aquela do país, da identidade, relacionada com um certo humanismo
universal. Gráfico e tipógrafo, Giguère realizou muitas concepções
gráficas para as edições do Hexagone. Sendo ele mesmo editor de poesia
e de livros de arte, isso faz dele um animador importante do ambiente
cultural quebequense. FM - A exemplo do que já
conversamos aqui sobre abstracionismo, há uma compreensão bastante vaga
das relações do Surrealismo com a música, em parte um assunto velado em
função da surdez de Breton -
era patente seu preconceito no tocante à música. A aproximação que o
Grupo Surrealista de Chicago estabelece com o blues, por exemplo, me
recorda um vínculo da poética de Paul-Marie Lapointe (1927) com o jazz.
Gostaria de saber tua opinião a respeito. AL - Paul-Marie Lapointe escreveu
um dos grandes livros do surrealismo internacional, La Vierge incendiée,
editado em 1948 pelos seus novos amigos automatistas. Ora, esse livro
estabelece poucas ligações com a música. Podemos perceber no livro a
explosão de uma revolta rimbaudiana que se exprime através de uma abundância
de imagens violentas e inventivas. No entanto, a apresentação formal
da maioria dos textos anuncia as pesquisas que seguirão. A forma de base
é o “parágrafo retângulo”, formando um bloco compacto, onde a
pontuação é feita muitas vezes com espaços brancos de diferentes
comprimentos. A poesia de Lapointe passou por
diferentes fases. Podemos afirmar que seus poemas publicados a partir de
1960 abrem um período em que se aparentam com a linguagem do jazz. Nesse
caso, ele não está sozinho: vários poetas que publicam na editora do
Hexagone, em Montreal, interessaram-se pelo jazz, por exemplo, Fernand
Quellette (nascido em 1930, que aliás escreveu uma biografia do
compositor de música contemporânea Edgar Varèse). Nas suas “notes
pour une poétique contemporaine” (1962), Lapointe escreve: “A forma
de improvisação específica do jazz - ad libitum sobre uma estrutura
dada, linear e vertical - me parece que deve exprimir de maneira mais
concreta a forma da nova poesia”. Ele mesmo qualifica essa escrita,
que praticará, de “nova forma de lirismo”. Isso quer dizer que passou
do automatismo à improvisação, mas também de uma linguagem não
preconcebida a novas estruturas rítmicas e temáticas. Não existe relação
entre surrealismo e jazz. O poema “Blues” (1965) é uma longa composição
em versos livres, alternando células ou grupos de versos como frases
musicais, constituindo variações sobre temas. Em seguida, Lapointe se
dedicou a diferentes formas de escrita experimental: jogos formais e gráficos,
poesia concreta, escrita aleatória, que culminaram na publicação de um
livro enigmático e monumental, em dois tomos: Ecritures (1980,
mais de novecentas páginas…). Da mesma forma como o americano
Philip Lamantia (1927), depois de ter sido batizado por Breton como “o
único poeta surrealista americano”, afirma haver rompido com o
surrealismo desde 1946, podemos dizer que a obra de Paul-Marie Lapointe
pertence ao surrealismo apenas entre os anos 1947 e 1948. Trata-se, no
entanto, do começo determinante e do início fulgurante de uma grande
obra da poesia internacional. FM -Tens duas teses acadêmicas,
sobre Alberto Giacometti (1901-1966) e Jean-Paul Sartre. Como concilias as
relações entre Surrealismo e Existencialismo? AL - Entre o surrealismo e o
existencialismo podemos constatar apenas um fosso insuperável. Sartre é
de alguma maneira um escritor que combate a si mesmo, daí o caráter
estressado da sua escrita na autobiografia Les mots. No seu Baudelaire
(1947) e em Qu’est-ce que la
littérature? (1948), ele faz uma crítica severa da poesia como
recusa da linguagem, recusa da comunicação: “o poeta está fora da
linguagem, vê as palavras pelo avesso”. De fato, Michel Leiris,
ex-surrealista, mas ainda poeta, lhe cobra, no seu prefácio sobre o
ensaio de Baudelaire, sua “execução sumária do surrealismo”. Cada
obra de Sartre pode ser interpretada como uma vasta empresa de
questionamento do imaginário. Por outra parte, é claro que o
existencialismo é uma filosofia que não pode não invalidar os
fundamentos teóricos do surrealismo concebido como uma forma de
idealismo, de essencialismo, a saber, um platonismo beirando o misticismo.
A força de Breton não reside de forma nenhuma na manipulação do
discurso filosófico, nem da linguagem política da época. Inversamente, Breton, grande
libertador do imaginário, não pode senão recuar frente ao
existencialismo, filosofia colada à realidade, uma realidade cuja definição
e cujos limites são questionados pelo surrealismo. É interessante
observar que o pensamento político de Breton, após a derrota da aproximação
com o Partido comunista francês, não caiu na ingenuidade mostrada por
Sartre, passando da posição de “aliado objetivo” dos stalinistas àquela
de defensor dos maoístas. Permanecendo libertador, Breton se aproximou de
Trotsky e de uma posição política aberta à liberdade de criação.
FM - A existência de uma forte
definição editorial no Canadá no sentido de preservar e pôr em discussão
a sua história é algo que chama a atenção, em particular, se comparada
à maneira dispersa como o mercado editorial no Brasil reage em relação
ao tema. Uma pergunta final que te faria diz respeito às ações atuais
do Surrealismo, a maneira como ainda se percebe sua presença na cultura
canadense. AL - O estatuto minoritário dos
francófonos da América explica essa longa empresa intelectual. Os
fundamentos da cultura quebequense atual foram postos ao longo dos anos
1960, quando, por exemplo, surgiram as primeiras histórias e análises da
literatura e da arte no Quebec. Trata-se de uma sociedade cuja frágil
identidade precisa ser apoiada, redefinida e reinventada constantemente. O
que faz de nós campeões da recuperação histórica: enquanto em 1948,
Borduas foi demitido do seu posto de professor por causa da publicação
de Refus Global, quatorze anos depois, apenas dois anos depois da
morte do artista é o governo do Quebec que organiza uma importante
retrospectiva no Museu de Belas Artes de Montreal. Além disso, o catálogo
da exposição consagrada aos automatistas em 1971 contém uma reprodução
integral dos textos do manifesto! Apesar disso, o surrealismo no
Canadá aparece datado. O período automatista vai de 1944 a 1959. Em
artes plásticas, os artistas descendentes do automatismo foram todos
assimilados pelo grande movimento da arte não figurativa.
Individualmente, muitos permaneceram fiéis aos enunciados de Refus
Global, mas não se definem nem como automatistas, nem como
surrealistas. A arte no Quebec seguiu todas as reviravoltas da arte
contemporânea, do pop art à arte conceitual, da arte pobre
à integração das tecnologias de todo tipo, do “retorno” da figuração
ao “retorno” da não-figuração. Nesse contexto, o surrealismo
pertence à história da arte do século XX e constitui uma referência
e uma reserva de formas que, em um contexto pós-moderno, podemos citar,
comentar e transformar. O que alguns chamam de a “retórica
surrealista” pôde achar de novo um enriquecimento de vida em arte,
pois, de alguma forma, o surrealismo é uma arte conceitual na medida e
que nega a materialidade do médium (pintura ou escultura). A crítica
automatista sempre reclamou a superação dessa limitação. A arte dita
“pós-moderna” faz assim um novo uso da colagem, da citação, da
“imagem”, mesmo preservando o imaginário à distância. Na poesia acontece a mesma coisa.
Apenas a obra de Roland Giguère continua fiel a ela mesma sem que o poeta
escolha uma filiação estética. É significativo que os poetas da geração
seguinte, cuja escrita se assemelha a um certo surrealismo, tenham se
juntado, entre outros, à corrente da “conta-cultura”. Denis Vanier
(1949-1998), por exemplo, é um digno herdeiro da revolta automatista, mas
também da Beat Generation e da poesia rock. Não se ligou especificamente
ao surrealismo. Da mesma forma, a escrita formalista de um Roger Des
Roches (1950) engloba a problemática e os processos surrealistas
em um trabalho que toca todos os aspectos da obra: disposição, ritmo,
simbólica, tonalidades. Assim, desde o nosso ponto de
vista, a revolução surrealista teve lugar. Aquilo que me fascina no seu
roteiro de antologiador é que você propõe uma releitura da história do
surrealismo modificando o ponto de vista. Se deixarmos de considerar
Octavio Paz, Aimé Césaire e Malcolm de Chazal como satélites afastados
da central parisiense do surrealismo, essa mudança de perspectiva
tem conseqüências importantes. A sua atividade de desocultação de um
surrealismo pan-americano põe em evidência relações Norte-Sul e
centros de difusão ignorados até hoje, que se ignoram uns aos outros.
Imagino que um dos efeitos consiste também em recolocar o pai Breton no
seu devido lugar e impedir que sua memória confisque a inteireza do
surrealismo. Dessa maneira se instala uma rede periférica que se tornou
autônoma. Esse movimento me parece mais forte e vivo na América Latina.
Poder-se-ia falar de um novo surrealismo, de novos surrealismos? Quais
seriam os textos fundadores? Seja como for, assistimos a uma vasta
descolonização da herança européia, que os surrealistas da primeira
hora, fortemente anticolonialistas, não poderão deixar de reconhecer. |
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André Lamarre (Montreal, 1950). Tendo formação em estudos literários e em história da arte, escreve sobre arte há quinze anos. Interessa-se particularmente pela arte atual, pelas relações entre arte e literatura, assim como pela poética da escrita da arte. É professor de literatura. Contato: warren-lamarre@sympatico.ca. Entrevista realizada em abril de 2003. Traduzida para o português por Prisca Agustoni. Página ilustrada com obras do artista Fernando Casás (Galiza). |