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revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003 |
Livros da Agulha
Publicados, respectivamente, em 1902, 1905 e 1910, os três
volumes que compõem Homens e coisas
estrangeiras, do ensaísta,
historiador da literatura e acadêmico José Veríssimo, jamais alcançaram
entre nós uma segunda edição, permanecendo assim no mais absoluto
esquecimento por quase um século, até que o editor José Mario Pereira, da
Topbooks, decidiu reparar essa indigência e, com o apoio da Academia
Brasileira de Letras, repõe agora em circulação, pela primeira vez em
volume único, essa notável contribuição do autor da História
da literatura brasileira e dos Estudos
de literatura brasileira, obras que lhe granjearam sólido e duradouro
prestígio nos quadros da literatura nacional. Homens e coisas estrangeiras, entretanto, nos dá conta de um outro
José Veríssimo, ou seja, de um autor que se mantinha permanentemente
antenado com tudo o que, no domínio das letras e mesmo no das idéias, se
produzia para além de nossas fronteiras. Leitor voracíssimo e intelectual
de preocupações universais dignas de um scholar
de perfil humanístico, Veríssimo analisa aqui autores e temas que decerto
não pertenciam ao cardápio de leitura da maioria de seus pares naquela já
distante primeira década do século XX. Bastaria que se corresse os olhos pelo sumário da obra
para avaliar a amplitude do
leitor seletivo e exigente que foi Veríssimo, a quem, em épocas
posteriores, só nos ocorre comparar ao ciclópico e enciclopédico Otto
Maria Carpeaux ou ao lúcido e refinado Augusto Meyer. Esse suculento sumário
inclui, entre muitas outras, surpreendentes abordagens críticas à retórica
de Nietzsche, à filosofia de Victor Hugo, aos pontos de tangência entre
Comte e Stuart Mill, ao mundo romano e ao cristianismo, à doutrina de
Tolstoi, à situação de Petrônio na literatura latina, ao declínio do
paganismo, a diversos aspectos da evolução alemã, à utilidade do mal, à
estética de Ruskin e ao pensamento crítico do dinamarquês Georg Brandes.
Não só a escolha desses temas, mas também a maneira de tratá-los, nos
descortinam novas e insólitas dimensões do universo crítico em que se
movia José Veríssimo, como o atestam estas poucas linhas nas quais tenta o
autor esboçar o que seria o perfil de um intelectual: “Que é, porém, um
intelectual? A coisa é mais fácil, como muitíssimas outras, de
compreender que de definir. Não o tentarei, pois. Mas da palavra, nas suas
diversas acepções e empregos, resultaria o sentido de um sujeito que, na
vida, não tivesse outras preocupações que as da inteligência, e que
todas as coisas submetesse ao critério dela.” Autor de Educação
nacional (1890), dos Estudos
brasileiros (1889-94), de Que é
literatura? e outros escritores (1907) e das Cenas da vida amazônica (1886), além de outras obras que, como
estas, hoje se encontram sob um espesso véu de silêncio, José Veríssimo
foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu Secretário-Geral
no biênio 1911-12, bem como o criador da Revista
Brasileira, que circula entre nós há mais de cem anos e em cuja redação
muitas vezes se reuniam aqueles que idealizaram a maior e mais perene
instituição literária do país. A presente edição de Homens e coisas estrangeiras, com opulento e astucioso prefácio de
João Alexandre Barbosa, constitui um oportuno resgate do pensamento crítico
de Veríssimo, que não pode continuar a ser lembrado apenas como o autor da
História da literatura brasileira.
O espectro de suas preocupações vai muito além, tão além que delas não
se aperceberam o Modernismo de 22 e quase todas as outras escolas que a ele
se seguiram e que ignoram esta verdade tão simples e transparente, ou seja,
a de que nenhuma nação poderá jamais cogitar de seu futuro caso descuide
de seu passado. É nessa delicada e misteriosa simbiose que consiste a única
e verdadeira imortalidade. E exemplo dela é a de José Veríssimo. Nada
como o tempo para restituir às coisas o lugar que de fato lhes cabe. [Ivan Junqueira]
Poeta, cronista, contista, ensaísta e crítico, Aleilton
Fonseca nasceu em 1959, em Firmino Alves, na Bahia, e reside em Salvador.
Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), leciona Literatura
Brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Publicou
seis livros, nos gêneros poesia, conto e ensaio, entre
os quais o premiado Jaú dos Bois e outros contos (1997). Aleilton
despertou desde cedo para a Literatura, escrevendo poemas, crônicas e
contos, que publicava nos jornais. A partir das histórias contadas pela avó,
da leitura dos clássicos infanto-juvenis e das histórias de cordel,
sentiu-se motivado a escrever. Participa de algumas antologias e coletâneas
de conto e de poemas, colabora com
diversos periódicos literários
e é co-editor de Iararana – revista de arte, crítica e
literatura, editada em Salvador, desde 1998. Relaciona entre seus prosadores
preferidos: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Miguel Torga, Guimarães
Rosa, Hélio Pólvora, Antônio Torres e Herberto Sales, não
necessariamente nesta ordem. O Canto de Alvorada, terceiro livro de contos de Aleilton
Fonseca, chega às livrarias premiado. Ganhou o Prêmio Nacional Herberto
Sales, categoria Conto, em 2001, no concurso promovido pela Academia de
Letras da Bahia e Braskem. São sete histórias que reafirmam o talento do
escritor para o gênero. “Ele destaca-se na geração de contistas
baianos, como se sobressaiu em meio a quase três centenas de concorrentes
de todas as partes do país” , diz o também contista Aramis Ribeiro da
Costa, no prefácio. Os contos mostram personagens
emblemáticas vivendo experiências, descobertas e revelações dos sentidos
da vida e da morte, em situações exemplares. Aleilton Fonseca compõe um
universo de personagens simples e populares, revelando-lhes a capacidade de
pensar e sentir seu mundo, de refletir sobre sua situação e
transformar-se; despertando a consciência sobre sua própria condição. Neste livro, o autor, que antes
preferia explorar a narrativa de ambientação interiorana e rural, faz
incursões no universo urbano, sobretudo em As Marcas do Fogo, cujo
desfecho coincide com um dos momentos trágicos da cidade de Salvador: o incêndio
do Mercado Modelo, em 1984. Em Notícias de Malino, uma experiência
amorosa na Ilha de Itaparica envolve um ilhéu e uma carioca, revelando as
viravoltas do texto, da perspectiva do narrador e das personagens, num
encontro de diferentes sujeitos culturais, jogo que influencia a consciência
de cada um deles. Os Dias de Chôla apresenta a história de um menino que perde o seu
cão de estimação e, agora já adulto, rememora sua perda, descobre e
compreende a dolorosa verdade sobre a morte do animal. Já A Última
Partida e Descanse em Paz narram histórias profundamente humanas
e comoventes, sobre a amizade e o companheirismo que nascem na infância e
marcam o sujeito para toda a vida. Aleilton Fonseca não esconde suas leituras, ao contrário,
faz questão de explicitar os autores de sua formação, homenageando-os em
suas narrativas. Neste livro, A Voz de Herberto homenageia
explicitamente Herberto Sales, que se torna personagem, como autor lido e
comentado pelo narrador. Este narrador mostra como aprendeu no
“cascalho” da prosa escrita de Sales e nas vivências e relatos orais de
seu avô, a forma de garimpar as palavras e lapidar as histórias.
A Escrituras Editora lança Relatos íntimos de José
Peralta, de Gustavo Marin, com tradução de Pedro Garcia. Este livro
nasceu a pedido de seus filhos e amigos para que publicasse as histórias
que lhes contava. Em um clima totalmente informal, ele relata suas experiências
durante o governo Allende e no período da ditadura militar de Pinochet, no
Chile. Suas histórias são carregadas de um sentimento de irmandade e de
humor. São relatos escritos com a simplicidade e a espontaneidade de uma
conversa. José Peralta foi o codinome usado pelo autor, na época,
militante do MIR (Movimiento de la Izquierda Revolucionaria), durante o período
da Unidade Popular no Chile, que culminou com o golpe militar em 11 de
setembro de 1973, liderado pelo general Pinochet. Pode-se dividir o livro em
três etapas: no início, no Chile; num segundo momento, o exílio na França;
e o terceiro, idas e vindas da França para o Chile e suas viagens pelo
mundo. Não há uma ordem cronológica, o que existe é uma seqüência de
recordações que surgem aos poucos, com histórias antigas e recentes
misturadas, como explica o próprio autor. Em todos os seus relatos, o autor mostra a paixão com que
exerce as ações políticas, combina o objetivo ao subjetivo, explicitando
suas crenças, dúvidas, tristezas e alegrias. Quando fala da tortura
durante o tempo em que ficou preso, essa forma de se expressar fica mais
intensa e comovente. Anos mais tarde, ao ser perguntado como conseguiu
suportar a tortura, Gustavo Marin respondeu: …é que eu estava disposto a
morrer, e concluiu: Esta disposição nos ensina a amar, a amar a nossa
própria vida e a dos outros, a Terra e o Universo. Porque sabendo morrer
uma paz profunda se fará carne e nós apreciaremos a vida. José
Peralta mostra que na prisão aprendeu muitas coisas que sempre levará
consigo. Ao falar de seu exílio na França, reconhece como é
reconstruir a vida em outro lugar, longe de sua terra, o difícil
aprendizado que se inicia pelo idioma e passa por todas as relações
sociais. Circulando pelo mundo, aprende do mais exótico ao mais dramático
momento. Em suas viagens, ganha grande experiência e consegue obter o
aprendizado do significado mágico da vida, o que possibilita reinventar
novos sentidos para a existência e para a humanidade. Com suas histórias,
leva-nos a um mundo duro, real, mas também poético e pleno de
encantamentos. Gustavo Marin é chileno naturalizado francês.
Estabeleceu-se na França após sobreviver à perseguição, prisão,
tortura e exílio devido à resistência à ditadura de Pinochet. Atualmente
reside em Coubron, pequena cidade próxima a Paris. Desde 1992 trabalha na
Fondation Charles Léopold Mayer, em Paris, como coordenador do Programa
Futuro do Planeta, e anima a Aliança por um Mundo Responsável, Plural e
Solidário, dinâmica social que se propõe a construir um mundo de paz e
solidariedade por meio do fortalecimento de experiências inovadoras de
mudança social, política e cultural.
«Sem pretender ser exaustivo, este livro procura coligir
textos em que Pessoa fala directamente de si próprio ou revela,
indirectamente, alguns aspectos mais ou menos íntimos da sua personalidade.
Deseja ser, simultaneamente, um instrumento útil aos estudiosos e uma obra
susceptível de ser apreciada por qualquer leitor interessado. […] Trata-se de uma antologia de textos desconexos sobre
um tema, Fernando Pessoa, vasto mas difícil de definir. E não é, aliás,
nosso intuito defini-lo, no sentido limitativo do termo. Queremos, sem
detrimento do seu ser multiplicado em existências literárias, revelar mais
uma faceta: a do homem que realmente respirava, sentia, ansiava, sofria.»
Gellu Naum (Bucarest, 1915-2001). Poeta, narrador, ensaísta
e dramaturgo, é uma das figuras centrais da literatura romena contemporânea
e um dos máximos representantes do surrealismo internacional. Estudante de
letras e filosofia primeiro em Bucareste e depois em Paris, relacionou-se
pessoalmente com André Breton e formou parte do conselho de redação da
revista Minotaure. Fundador do Grupo Surrealista de Bucareste (1944),
no ano de 1982 publica uma de suas obras poéticas capitais, Zenobia, que
logo seria convertido em um clássico da poesia romena e uma referência
irrecusável no panorama da poesia européia. Esta é a primeira vez que se publica Gellu Naum na
Espanha, o que amplia a importância desta valiosa iniciativa da editora
Espiral Maior, que tem à frente o poeta e dramaturgo Miguel Anxo Fernán-Vello.
Trata-se de edição bilíngüe e que traz a tradução para o espanhol
assinada por Victor Ivanovici.
Rosália Milsztajn é psicanalista e poeta. Este é o
quarto livro da autora. Publicou, em 1991, No
azul (Imago), em 1997, Itgadal,
memória dos ausentes (Diadorim), e, em 1999, Luminosidades
(Sette Letras). Agora, em 2003, reaparece com Aqui dentro de mim, Editora Aeroplano, 120 páginas e design de
Adriana Moreno. Aqui dentro de mim
é um livro no qual a autora mostra a vitalidade do cruzamento de sua competência
psicanalista, mergulhando fundo nos sentimentos e sintomas de uma mulher de
sua época, e o trabalho cuidadoso e ousado, sem falsos pudores, com o
horizonte de uma linguagem
visceral em busca da expressão mais profunda da alma feminina e de sua
experiência histórico-social.
Quais
são as relações entre pintura e literatura? Como se faz a leitura das
artes plásticas? Neste livro o problema é abordado de dois modos.
Primeiro, considerando-se algumas das principais noções que ocorrem na
caracterização da criação artística, desde a conceptualização à
imaginação. E algumas dessas noções são extensivas ao domínio da
expressão literária... Depois - e esta é a segunda parte do livro -, o
modo como em Portugal a relação entre literatura e pintura foi analisada
pelos escritores, desde o Romantismo ao Surrealismo. A seguir um trecho da
introdução de Artes plásticas e literatura. Do
romantismo ao surrealismo, de Fernando Guimarães: “Como é que se pode ler o que se vê ou quais são as
palavras do olhar? Uma pergunta como esta abre caminho para uma reflexão
sobre o problema do sentido tal como ele se manifesta, por exemplo, no acto
de se ver uma pintura. O olhar tem as suas palavras e há, sem dúvida,
nestas um sentido. Eis a questão que irá merecer a nossa atenção ao
longo das páginas deste livro… A sua primeira parte é uma reflexão sobre um conjunto de
problemas relacionados com a Estética. Tentou-se perspectivar as grandes
linhas através das quais as artes plásticas podem ser entendidas
considerando certas noções que ocorrem para a sua caracterização e que,
um pouco metaforicamente como veremos, serão aqui designadas por narrativas. Um termo como narrativa
parece deslocar-nos para um outro domínio que corresponderia ao da escrita
ou ao da palavra. Esse é o objectivo que se tem em vista, sobretudo na
segunda parte. Procurar-se-á estabelecer algumas das pontes que
efectivamente existem entre a literatura e as artes plásticas, desde a geração
romântica ao Surrealismo. Esta abordagem implica algumas precisões. Em
primeiro lugar, procurou-se apenas referenciar aqui os pontos de vista de vários
escritores quanto à interpretação, valorização ou leitura
das artes plásticas do seu tempo. Os escritores, nesse domínio, também
podem ser críticos e, melhor ou pior, foram-no alguns na falta daqueles que
como tal hoje são considerados. Nos finais do século XIX houve quem, como
é o caso de Ramalho Ortigão ou Fialho de Almeida, se empenhasse em
delinear ou escrever os seus salons,
talvez pensando em Baudelaire. É o que, respectivamente, acontece em muitas
páginas de As Farpas e de Os Gatos. Em segundo lugar, a relação entre literatura e pintura
poderia levar-nos a considerar o processo descritivo ou ekphrasis que, sobretudo usado na expressão poética, procura
transferir para a escrita as imagens que têm os objectos artísticos por
referência. Em vários autores, nomeadamente Jorge de Sena no seu livro Metamorfoses
publicado em 1963, encontraríamos bons exemplos para ilustrar um aspecto
importante da criação poética. Este aspecto, todavia, não há-de merecer
particular destaque nestas páginas, dado que se situa no âmbito da expressão
pictórica e dos juízos críticos que lhe digam respeito aquilo que irá
concitar a nossa particular atenção. Em terceiro lugar, foi intencionalmente que se escolheu como termo ad quem o Surrealismo, isto é, o final da época de 40 e os primeiros anos da de 50. Em 1946 e 1947 realizam-se as Exposições Gerais de Artes Plásticas na S. N. E. A., que reúnem os artistas neo-realistas, em 1949 e 1952 as exposições organizadas pelos surrealistas. Entretanto, começa a desenhar-se um tempo de mudança no domínio da pintura, muito marcada por um mais actualizado e directo contacto com as realizações artísticas que ocorrem no estrangeiro, ao mesmo tempo que a abordagem das criações plásticas - se omitirmos uma ocasional colaboração de escritores em textos que acompanham os catálogos - começou a estar mais ligada aos críticos de arte. É um novo caminho que se abre…” |
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