revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003

Livros da Agulha

Homens e coisas estrangeiras 1899-1908, de José Veríssimo.1 Homens e coisas estrangeiras 1899-1908. José Veríssimo. Academia Brasileira de Letras/Ed. Topbooks. Rio de Janeiro. 686 pgs. 2003.

Publicados, respectivamente, em 1902, 1905 e 1910, os três volumes que compõem Homens e coisas estrangeiras, do ensaísta, historiador da literatura e acadêmico José Veríssimo, jamais alcançaram entre nós uma segunda edição, permanecendo assim no mais absoluto esquecimento por quase um século, até que o editor José Mario Pereira, da Topbooks, decidiu reparar essa indigência e, com o apoio da Academia Brasileira de Letras, repõe agora em circulação, pela primeira vez em volume único, essa notável contribuição do autor da História da literatura brasileira e dos Estudos de literatura brasileira, obras que lhe granjearam sólido e duradouro prestígio nos quadros da literatura nacional. Homens e coisas estrangeiras, entretanto, nos dá conta de um outro José Veríssimo, ou seja, de um autor que se mantinha permanentemente antenado com tudo o que, no domínio das letras e mesmo no das idéias, se produzia para além de nossas fronteiras. Leitor voracíssimo e intelectual de preocupações universais dignas de um scholar de perfil humanístico, Veríssimo analisa aqui autores e temas que decerto não pertenciam ao cardápio de leitura da maioria de seus pares naquela já distante primeira década do século XX.

Bastaria que se corresse os olhos pelo sumário da obra para  avaliar a amplitude do leitor seletivo e exigente que foi Veríssimo, a quem, em épocas posteriores, só nos ocorre comparar ao ciclópico e enciclopédico Otto Maria Carpeaux ou ao lúcido e refinado Augusto Meyer. Esse suculento sumário inclui, entre muitas outras, surpreendentes abordagens críticas à retórica de Nietzsche, à filosofia de Victor Hugo, aos pontos de tangência entre Comte e Stuart Mill, ao mundo romano e ao cristianismo, à doutrina de Tolstoi, à situação de Petrônio na literatura latina, ao declínio do paganismo, a diversos aspectos da evolução alemã, à utilidade do mal, à estética de Ruskin e ao pensamento crítico do dinamarquês Georg Brandes. Não só a escolha desses temas, mas também a maneira de tratá-los, nos descortinam novas e insólitas dimensões do universo crítico em que se movia José Veríssimo, como o atestam estas poucas linhas nas quais tenta o autor esboçar o que seria o perfil de um intelectual: “Que é, porém, um intelectual? A coisa é mais fácil, como muitíssimas outras, de compreender que de definir. Não o tentarei, pois. Mas da palavra, nas suas diversas acepções e empregos, resultaria o sentido de um sujeito que, na vida, não tivesse outras preocupações que as da inteligência, e que todas as coisas submetesse ao critério dela.”

Autor de Educação nacional (1890), dos Estudos brasileiros (1889-94), de Que é literatura? e outros escritores (1907) e das Cenas da vida amazônica (1886), além de outras obras que, como estas, hoje se encontram sob um espesso véu de silêncio, José Veríssimo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu Secretário-Geral no biênio 1911-12, bem como o criador da Revista Brasileira, que circula entre nós há mais de cem anos e em cuja redação muitas vezes se reuniam aqueles que idealizaram a maior e mais perene instituição literária do país. A presente edição de Homens e coisas estrangeiras, com opulento e astucioso prefácio de João Alexandre Barbosa, constitui um oportuno resgate do pensamento crítico de Veríssimo, que não pode continuar a ser lembrado apenas como o autor da História da literatura brasileira. O espectro de suas preocupações vai muito além, tão além que delas não se aperceberam o Modernismo de 22 e quase todas as outras escolas que a ele se seguiram e que ignoram esta verdade tão simples e transparente, ou seja, a de que nenhuma nação poderá jamais cogitar de seu futuro caso descuide de seu passado. É nessa delicada e misteriosa simbiose que consiste a única e verdadeira imortalidade. E exemplo dela é a de José Veríssimo. Nada como o tempo para restituir às coisas o lugar que de fato lhes cabe.

[Ivan Junqueira]

O canto de alvorada, de Aleilton Fonseca2 O canto de alvorada. Aleilton Fonseca. José Olympio Editora. Rio de Janeiro. 122 pgs. 2003.

Poeta, cronista, contista, ensaísta e crítico, Aleilton Fonseca nasceu em 1959, em Firmino Alves, na Bahia, e reside em Salvador. Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), leciona Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Publicou seis livros, nos gêneros poesia, conto e ensaio, entre os quais o premiado Jaú dos Bois e outros contos (1997). Aleilton despertou desde cedo para a Literatura, escrevendo poemas, crônicas e contos, que publicava nos jornais. A partir das histórias contadas pela avó, da leitura dos clássicos infanto-juvenis e das histórias de cordel, sentiu-se motivado a escrever. Participa de algumas antologias e coletâneas de conto e de poemas, colabora com diversos periódicos literários e é co-editor de Iararana – revista de arte, crítica e literatura, editada em Salvador, desde 1998. Relaciona entre seus prosadores preferidos: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Miguel Torga, Guimarães Rosa, Hélio Pólvora, Antônio Torres e Herberto Sales, não necessariamente nesta ordem.

O Canto de Alvorada, terceiro livro de contos de Aleilton Fonseca, chega às livrarias premiado. Ganhou o Prêmio Nacional Herberto Sales, categoria Conto, em 2001, no concurso promovido pela Academia de Letras da Bahia e Braskem. São sete histórias que reafirmam o talento do escritor para o gênero. “Ele destaca-se na geração de contistas baianos, como se sobressaiu em meio a quase três centenas de concorrentes de todas as partes do país” , diz o também contista Aramis Ribeiro da Costa, no prefácio.

Os contos mostram personagens emblemáticas vivendo experiências, descobertas e revelações dos sentidos da vida e da morte, em situações exemplares. Aleilton Fonseca compõe um universo de personagens simples e populares, revelando-lhes a capacidade de pensar e sentir seu mundo, de refletir sobre sua situação e transformar-se; despertando a consciência sobre sua própria condição.

Neste livro, o autor, que antes preferia explorar a narrativa de ambientação interiorana e rural, faz incursões no universo urbano, sobretudo em As Marcas do Fogo, cujo desfecho coincide com um dos momentos trágicos da cidade de Salvador: o incêndio do Mercado Modelo, em 1984. Em Notícias de Malino, uma experiência amorosa na Ilha de Itaparica envolve um ilhéu e uma carioca, revelando as viravoltas do texto, da perspectiva do narrador e das personagens, num encontro de diferentes sujeitos culturais, jogo que influencia a consciência de cada um deles.

Os Dias de Chôla apresenta a história de um menino que perde o seu cão de estimação e, agora já adulto, rememora sua perda, descobre e compreende a dolorosa verdade sobre a morte do animal. Já A Última Partida e Descanse em Paz narram histórias profundamente humanas e comoventes, sobre a amizade e o companheirismo que nascem na infância e marcam o sujeito para toda a vida.

Aleilton Fonseca não esconde suas leituras, ao contrário, faz questão de explicitar os autores de sua formação, homenageando-os em suas narrativas. Neste livro, A Voz de Herberto homenageia explicitamente Herberto Sales, que se torna personagem, como autor lido e comentado pelo narrador. Este narrador mostra como aprendeu no “cascalho” da prosa escrita de Sales e nas vivências e relatos orais de seu avô, a forma de garimpar as palavras e lapidar as histórias.

Relatos íntimos de José Peralta, de Gustavo Marin3 Relatos íntimos de José Peralta. Gustavo Marin. Escrituras Editora. São Paulo. 112 pgs. 2003.

A Escrituras Editora lança Relatos íntimos de José Peralta, de Gustavo Marin, com tradução de Pedro Garcia. Este livro nasceu a pedido de seus filhos e amigos para que publicasse as histórias que lhes contava. Em um clima totalmente informal, ele relata suas experiências durante o governo Allende e no período da ditadura militar de Pinochet, no Chile. Suas histórias são carregadas de um sentimento de irmandade e de humor. São relatos escritos com a simplicidade e a espontaneidade de uma conversa.

José Peralta foi o codinome usado pelo autor, na época, militante do MIR (Movimiento de la Izquierda Revolucionaria), durante o período da Unidade Popular no Chile, que culminou com o golpe militar em 11 de setembro de 1973, liderado pelo general Pinochet. Pode-se dividir o livro em três etapas: no início, no Chile; num segundo momento, o exílio na França; e o terceiro, idas e vindas da França para o Chile e suas viagens pelo mundo. Não há uma ordem cronológica, o que existe é uma seqüência de recordações que surgem aos poucos, com histórias antigas e recentes misturadas, como explica o próprio autor.

Em todos os seus relatos, o autor mostra a paixão com que exerce as ações políticas, combina o objetivo ao subjetivo, explicitando suas crenças, dúvidas, tristezas e alegrias. Quando fala da tortura durante o tempo em que ficou preso, essa forma de se expressar fica mais intensa e comovente. Anos mais tarde, ao ser perguntado como conseguiu suportar a tortura, Gustavo Marin respondeu: …é que eu estava disposto a morrer, e concluiu: Esta disposição nos ensina a amar, a amar a nossa própria vida e a dos outros, a Terra e o Universo. Porque sabendo morrer uma paz profunda se fará carne e nós apreciaremos a vida. José Peralta mostra que na prisão aprendeu muitas coisas que sempre levará consigo.

Ao falar de seu exílio na França, reconhece como é reconstruir a vida em outro lugar, longe de sua terra, o difícil aprendizado que se inicia pelo idioma e passa por todas as relações sociais. Circulando pelo mundo, aprende do mais exótico ao mais dramático momento. Em suas viagens, ganha grande experiência e consegue obter o aprendizado do significado mágico da vida, o que possibilita reinventar novos sentidos para a existência e para a humanidade. Com suas histórias, leva-nos a um mundo duro, real, mas também poético e pleno de encantamentos.

Gustavo Marin é chileno naturalizado francês. Estabeleceu-se na França após sobreviver à perseguição, prisão, tortura e exílio devido à resistência à ditadura de Pinochet. Atualmente reside em Coubron, pequena cidade próxima a Paris. Desde 1992 trabalha na Fondation Charles Léopold Mayer, em Paris, como coordenador do Programa Futuro do Planeta, e anima a Aliança por um Mundo Responsável, Plural e Solidário, dinâmica social que se propõe a construir um mundo de paz e solidariedade por meio do fortalecimento de experiências inovadoras de mudança social, política e cultural.

Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, de Fernando Pessoa4 Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal. Fernando Pessoa. Assírio & Alvim. Lisboa. 544. pgs. 2003.

«Sem pretender ser exaustivo, este livro procura coligir textos em que Pessoa fala directamente de si próprio ou revela, indirectamente, alguns aspectos mais ou menos íntimos da sua personalidade. Deseja ser, simultaneamente, um instrumento útil aos estudiosos e uma obra susceptível de ser apreciada por qualquer leitor interessado.

[…] Trata-se de uma antologia de textos desconexos sobre um tema, Fernando Pessoa, vasto mas difícil de definir. E não é, aliás, nosso intuito defini-lo, no sentido limitativo do termo. Queremos, sem detrimento do seu ser multiplicado em existências literárias, revelar mais uma faceta: a do homem que realmente respirava, sentia, ansiava, sofria.»

Poemas, de Gellu Naum5 Poemas. Gellu Naum. Espiral Maior. Galiza. 88 pgs. 2003.

Gellu Naum (Bucarest, 1915-2001). Poeta, narrador, ensaísta e dramaturgo, é uma das figuras centrais da literatura romena contemporânea e um dos máximos representantes do surrealismo internacional. Estudante de letras e filosofia primeiro em Bucareste e depois em Paris, relacionou-se pessoalmente com André Breton e formou parte do conselho de redação da revista Minotaure. Fundador do Grupo Surrealista de Bucareste (1944), no ano de 1982 publica uma de suas obras poéticas capitais, Zenobia, que logo seria convertido em um clássico da poesia romena e uma referência irrecusável no panorama da poesia européia.

Esta é a primeira vez que se publica Gellu Naum na Espanha, o que amplia a importância desta valiosa iniciativa da editora Espiral Maior, que tem à frente o poeta e dramaturgo Miguel Anxo Fernán-Vello. Trata-se de edição bilíngüe e que traz a tradução para o espanhol assinada por Victor Ivanovici.

Aqui dentro de mim, de Rosalia Milsztajn6 Aqui dentro de mim. Rosalia Milsztajn. Aeroplano Editora. Rio de Janeiro. 120 pgs. 2003.

Rosália Milsztajn é psicanalista e poeta. Este é o quarto livro da autora. Publicou, em 1991, No azul (Imago), em 1997, Itgadal, memória dos ausentes (Diadorim), e, em 1999, Luminosidades (Sette Letras). Agora, em 2003, reaparece com Aqui dentro de mim, Editora Aeroplano, 120 páginas e design de Adriana Moreno. Aqui dentro de mim é um livro no qual a autora mostra a vitalidade do cruzamento de sua competência psicanalista, mergulhando fundo nos sentimentos e sintomas de uma mulher de sua época, e o trabalho cuidadoso e ousado, sem falsos pudores, com o horizonte de uma  linguagem visceral em busca da expressão mais profunda da alma feminina e de sua experiência histórico-social.

Artes plásticas e literatura. Do romantismo ao surrealismo, de Fernando Guimarães7 Artes plásticas e literatura. Do romantismo ao surrealismo. Fernando Guimarães. Ed. Campo das Letras. Porto, Portugal. 104. 2003.

Quais são as relações entre pintura e literatura? Como se faz a leitura das artes plásticas? Neste livro o problema é abordado de dois modos. Primeiro, considerando-se algumas das principais noções que ocorrem na caracterização da criação artística, desde a conceptualização à imaginação. E algumas dessas noções são extensivas ao domínio da expressão literária... Depois - e esta é a segunda parte do livro -, o modo como em Portugal a relação entre literatura e pintura foi analisada pelos escritores, desde o Romantismo ao Surrealismo. A seguir um trecho da introdução de Artes plásticas e literatura. Do romantismo ao surrealismo, de Fernando Guimarães:

“Como é que se pode ler o que se vê ou quais são as palavras do olhar? Uma pergunta como esta abre caminho para uma reflexão sobre o problema do sentido tal como ele se manifesta, por exemplo, no acto de se ver uma pintura. O olhar tem as suas palavras e há, sem dúvida, nestas um sentido. Eis a questão que irá merecer a nossa atenção ao longo das páginas deste livro…

A sua primeira parte é uma reflexão sobre um conjunto de problemas relacionados com a Estética. Tentou-se perspectivar as grandes linhas através das quais as artes plásticas podem ser entendidas considerando certas noções que ocorrem para a sua caracterização e que, um pouco metaforicamente como veremos, serão aqui designadas por narrativas.

Um termo como narrativa parece deslocar-nos para um outro domínio que corresponderia ao da escrita ou ao da palavra. Esse é o objectivo que se tem em vista, sobretudo na segunda parte. Procurar-se-á estabelecer algumas das pontes que efectivamente existem entre a literatura e as artes plásticas, desde a geração romântica ao Surrealismo. Esta abordagem implica algumas precisões. Em primeiro lugar, procurou-se apenas referenciar aqui os pontos de vista de vários escritores quanto à interpretação, valorização ou leitura das artes plásticas do seu tempo. Os escritores, nesse domínio, também podem ser críticos e, melhor ou pior, foram-no alguns na falta daqueles que como tal hoje são considerados. Nos finais do século XIX houve quem, como é o caso de Ramalho Ortigão ou Fialho de Almeida, se empenhasse em delinear ou escrever os seus salons, talvez pensando em Baudelaire. É o que, respectivamente, acontece em muitas páginas de As Farpas e de Os Gatos.

Em segundo lugar, a relação entre literatura e pintura poderia levar-nos a considerar o processo descritivo ou ekphrasis que, sobretudo usado na expressão poética, procura transferir para a escrita as imagens que têm os objectos artísticos por referência. Em vários autores, nomeadamente Jorge de Sena no seu livro Metamorfoses publicado em 1963, encontraríamos bons exemplos para ilustrar um aspecto importante da criação poética. Este aspecto, todavia, não há-de merecer particular destaque nestas páginas, dado que se situa no âmbito da expressão pictórica e dos juízos críticos que lhe digam respeito aquilo que irá concitar a nossa particular atenção.

Em terceiro lugar, foi intencionalmente que se escolheu como termo ad quem o Surrealismo, isto é, o final da época de 40 e os primeiros anos da de 50. Em 1946 e 1947 realizam-se as Exposições Gerais de Artes Plásticas na S. N. E. A., que reúnem os artistas neo-realistas, em 1949 e 1952 as exposições organizadas pelos surrealistas. Entretanto, começa a desenhar-se um tempo de mudança no domínio da pintura, muito marcada por um mais actualizado e directo contacto com as realizações artísticas que ocorrem no estrangeiro, ao mesmo tempo que a abordagem das criações plásticas - se omitirmos uma ocasional colaboração de escritores em textos que acompanham os catálogos - começou a estar mais ligada aos críticos de arte. É um novo caminho que se abre…”

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