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revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003 |
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Borges transverso: uma conversa com Ivan Almeida e Cristina Parodi Maria Esther Maciel
Fundado
pelos argentinos Ivan Almeida e Cristina Parodi, em 1994, o Centro Borges
é hoje um dos mais conceituados centros de estudos borgianos do mundo. Além
de comportar um acervo considerável de livros, textos, documentos
relacionados ao autor, oferece um Seminário Permanente e mantém um
excelente site na Internet
(www.hum.au.dk/romansk/borges), no qual pesquisadores, professores,
estudantes e leitores em geral podem não apenas obter informações
bibliográficas especializadas, como também consultar livros integrais
sobre Borges, on-line. Sua
revista, editada duas vezes por ano, com textos em espanhol, inglês e
francês, recebe colaborações de estudiosos de vários países, nas áreas
de literatura, filosofia, semiótica, arquitetura, matemática, física,
geografia, história, cinema, zoologia, mitologia e teologia, promovendo
uma interseção de campos do saber, inteiramente afinada com a
pluralidade dos interesses intelectuais do próprio escritor argentino. A
pergunta “por que na Dinamarca?” é inevitável, neste caso. E,
certamente, muitos esperam uma resposta que, no mínimo, tenha a ver com o
fascínio de Borges pelos países nórdicos. Sabe-se que ele estudou a língua
escandinava antiga e dedicou-se, com paixão, à leitura de autores como o
filósofo-escritor Soren Kierkegaard ou o salmógrafo H.A.Brorson.
Conta-se, inclusive, que costumava citar, de cor, em dinamarquês, o
fragmento de um cântico de Brorson que serve de inscrição na lápide de
Kierkegaard. Para não falar de Hamlet, personagem que, para Borges, se
confundia com o próprio Shakespeare, e que transformou a Dinamarca no
reino da dúvida e da incerteza. No entanto, a justificativa para a existência
de um centro dedicado a Borges em uma cidade chamada Aarhus, no norte da
Jutlândia, é outra, como nos relatam os diretores do Centro, nesta
conversa acontecida na Universidade de Aarhus, em fevereiro de 2000. Ivan
Almeida é professor de filosofia e semiótica. Cristina Parodi leciona
literatura latino-americana. Ambos dedicam-se a Borges, a partir do que
chamam de “epistemologias tranversais”. Avessos às especulações
folclorizantes sobre a vida do autor, às leituras encomiásticas que
monumentalizam a sua obra (no duplo sentido de convertê-la em
“monumento” e de enfatizar as magnificências de que é feita),
preferem a via do despojamento, da “falta de ênfase”, no trato dos
temas borgianos. E crêem que a melhor maneira de homenagear Borges é lê-lo
“ao reverso”, é fazer da leitura de seus textos não uma confirmação
ou uma reverência, mas um lapso, um desvio, uma infidelidade. Nesta
entrevista, os dois falam das atividades do Centro Borges e de sua
“extraterritorialidade”, dos intercâmbios reais e virtuais, dos
personagens vivos de Bustos Domecq, da “história como pudor”, dos
projetos de livros em baixo-relevo, dos usos e abusos editoriais que
envolvem as publicações póstumas do autor, e do que de Borges não
ficará para o milênio que começa. MEM
- Como surgiu a idéia de se criar um Centro de estudos borgianos na
Dinamarca? CP -
Creio que na sua pergunta o que menos importa é a palavra Dinamarca. A idéia
de criar o Centro Borges surgiu simplesmente do encontro de duas pessoas
com afinidades de interesse em relação a Borges. Pensamos: por que não
fazer algo com Borges? E, por acaso, estávamos na Dinamarca. IA -
Esta manhã assisti a uma bela conferência de uma pessoa que dizia que
Borges não crê nas causalidades históricas. Creio que, neste caso, é
certo. Obviamente haveria nobres razões para que, na Dinamarca, fosse
criado um Centro Borges. No entanto, o que nos motivou foi o desejo de
fazer algo que pudesse ocupar prazerosamente os dias de duas pessoas que
trabalham dentro de um departamento dedicado à língua espanhola, de
certa orientação demasiadamente pragmática. A criação do Centro nos
permitiria realizar um outro tipo trabalho. E não havia outro autor que
conjugasse tão bem e de forma tão legítima nossos desejos, senão
Borges. MEM
- É admirável como, em pouco tempo, o Centro Borges se tornou um dos
mais importantes centros de estudos borgianos do mundo, afirmando-se como
referência obrigatória para quem se interessa pelo autor. Vocês
poderiam falar um pouco sobre a história do centro? CP -
Começamos de forma muito modesta. O primeiro passo foi a criação da
revista. IA -
Sim. Havia no departamento uma revista interna, à qual tínhamos que dar
vida. E nos demos conta de que não se pode dar muita vida a uma publicação
na qual só colaborem estudantes e que circule entre as mesmas pessoas.
Nesse caso, resolvemos trabalhar por algo que valesse a pena, inclusive
fora da universidade, mas não havia muitos campos nos quais se pudesse
fazer isso. Ao contrário, os estudos borgianos nos pareceram um campo
ainda virgem e começamos a entrar em contato com pessoas que conhecíamos.
Um pouco como quando Borges punha seus poemas nos casacos das pessoas nos
restaurantes, começamos a enviar a idéia à família, aos sobrinhos e a
alguns colegas conhecidos e, de repente, a coisa pegou. E isso não se
deveu a nós, mas ao fato de que o tema despertava muito interesse. CP -
De fato, a resposta foi imediata. Todas as pessoas, dentre as quais os
grandes especialistas, consideraram a idéia estupenda. IA -
E inclusive houve o caso de um que disse: vou colaborar, mas antes espero
para ver no que vai dar isso. Depois de dois ou três anos, essa pessoa
pediu para entrar na publicação de Variaciones
Borges. De modo que, se, num primeiro momento, houve um interesse
espontâneo pelo tema, no segundo creio que já se pode falar em um
pequeno mérito nosso, visto que os especialistas se deram conta de que
nossos projetos eram sérios, ou seja, não aceitamos publicar todas as
mundanidades acadêmicas que nos aparecem ou que poderiam aumentar o número
de páginas da revista. Preferimos, muitas vezes, para manter um certo nível,
sacrificar dossiês inteiros. Isso faz com que o projeto entusiasme mais
certas pessoas do que outras. E são exatamente essas pessoas que nos
interessam. MEM
- E qual seria a proposta teórica da revista? Percebe-se que não é uma
revista apenas voltada para estudos literários sobre
Borges, mas que se abre para vários outros campos disciplinares.
IA -
De qualquer maneira, optamos por adotar um estilo, que tem a ver com o que
Borges chamaria de “falta de ênfase”. É por isso que a revista
praticamente não tem ilustrações, não tem nada de luxo, buscamos polir
tudo o que possa soar a falsa polêmica e eliminar as introduções retóricas.
Simplesmente achamos que o tom tem que ser o tom confidencial de uma
pessoa que se disponha a tratar de um tema com seriedade e serenidade,
independentemente das reputações acadêmicas. Ou seja, acreditamos que a
maneira mais modesta de aportar ao mundo acadêmico em que estamos é
buscar uma certa seriedade na abordagem dos temas e um descenso do nível
de ênfase nesses estudos. MEM
- Borges não escondia o seu fascínio pelo mundo escandinavo e me
pergunto se há, por parte dos dinamarqueses, algum tipo de fascínio em
relação a Borges. Os estudantes e professores dinamarqueses se
interessam pelas atividades do Centro? IA -
Creio que a Dinamarca é um país que Borges sonhou com demasiado poder
criador... Entretanto, em seu conto “El Soborno” (“O Suborno”)
mostrou ter captado algo muito importante do funcionamento mental
escandinavo. Respondendo a sua pergunta, estamos demasiadamente perto para
ser capazes de medir o interesse dos dinamarqueses pelo Centro. Só
podemos falar do entusiasmo dos estudantes e pesquisadores que freqüentam
o Seminário. No entanto, há algo que se pode controlar, e até medir: o
tráfico de leituras do site de
Internet que o Centro Borges oferece. Segundo as estatísticas, apenas na
Faculdade de Letras de Aarhus a leitura dos textos e serviços on-line propostos pelo Centro equivale a uma hora de curso diária
para 45 estudantes... MEM
- Agora, uma outra pergunta, que tem a ver com a anterior, mas que aponta
para um outro lugar: a Argentina. Como os argentinos têm se relacionado
com o Centro Borges? Há receptividade por parte deles? CP -
Pelo que sabemos, a receptividade é grande. Segundo contam alguns
professores de universidades argentinas, os estudantes consultam muitíssimo
a revista, estão interessados em tê-la e isso tem nos motivado a enviar
a eles os exemplares pelo correio especial, a preço de custo. Parece que
a revista é bem recomendada nos cursos de literatura da Argentina. IA -
E nos Estados Unidos também. O maior número de assinaturas vem de lá.
No primeiro ano da revista, não tivemos resposta nenhuma dos americanos,
mas de repente isso mudou radicalmente. Temos ainda assinantes do Japão,
da China, da Austrália e de praticamente todos os países da Europa.
Quanto ao número de pessoas que aderiram ao Centro como membros, já está
chegando a mil. MEM
- E quanto à participação de brasileiros, o que vocês têm a dizer? CP -
Temos interlocução com brasileiros, sim, apesar de o número de
assinaturas da revista não ser grande no Brasil. Geralmente são
assinaturas individuais, nenhuma de universidades. Isso tem de certa forma
acontecido com alguns países latino-americanos, talvez por falta de
recursos das instituições universitárias. Temos assinantes do Peru, do
México, do Chile... Mas temos recebido algumas colaborações de
pesquisadores brasileiros para a revista. IA -
E de boa qualidade. Até agora não nos ocorreu de ter que recusar nenhum
artigo brasileiro... MEM
- O site do Centro Borges na
Internet certamente contribuiu para que a revista e as próprias
atividades do Centro ganhassem maior repercussão internacional, inclusive
fora dos meios acadêmicos, não? IA -
Sim, é curioso. Uma estatística recentemente publicada na universidade
mostrou que é o mais consultado dentre todos os sites
da Universidade de Aarhus. Além disso, é o mais antigo e o maior. De
modo que, em certa medida, é interessante que um site
que não contenha uma só palavra em dinamarquês seja o que mais se lê
de uma universidade dinamarquesa, no mundo. Sem dúvida, a Internet nos
tem facilitado muito os intercâmbios, mas, por outro lado, é também a
parte que, no momento, mais nos pesa. Temos que responder a centenas de
mensagens do mundo inteiro, dentre elas, por exemplo, as que pedem informação
sobre um falso poema de Borges ou aquelas inúmeras mensagens de alunos de
literatura que, na época dos exames, nos solicitam ajuda na elaboração
de seus trabalhos. Por essa mesma razão temos rechaçado a idéia de
criar salas de chats ou mailing
lists. Preferimos abrir o Centro para pesquisadores que necessitem de
uma certa informação. MEM
- Vocês relatariam alguma experiência, digamos, “borgiana”, nesse
tempo de funcionamento do Centro? IA -
Bem, uma experiência “borgiana” um tanto estrambótica seria o caso
do tal poema falso de Borges. Às vezes fui insultado por ter que dizer
que não era de Borges e, tampouco, da pessoa que María Kodama anuncia
como autora, que seria Nadine Stair, uma poeta norte-americana. O texto,
inteiramente prosaico, é de um caricaturista americano que se chama Don
Herold, que publicou isso na revista Seleções
do Reader’s Digest, em outubro de 1953, embora eu não esteja
seguramente convencido de que esse seja de fato o criador. Com esse texto,
atribuiu-se a um autor ininteligível para as massas a espiritualidade
barata, tipo Paulo Coelho. Essa confusão permitiu que muita gente
pensasse: agora que Borges escreveu algo que me toca, agora que posso ler
este poema de Borges, sou um leitor borgiano. No momento está surgindo um
outro falso poema: Borges continua escrevendo... As
coisas que vão acontecendo através dos intercâmbios pela Internet
sempre vão muito além de um simples intercâmbio. Parece-me que, se
temos que buscar uma experiência borgiana no que estamos fazendo aqui, é
a possível antologia da correspondência pretensiosa que temos recebido
de pessoas que superam de longe os personagens de Bustos Domecq. São
pessoas que se auto-apresentam como poeta, escritor e professor e que se
oferecem espontaneamente para fazer uma conferência. Isso realmente
mereceria uma antologia, que talvez mostrasse a pouca originalidade de
Borges e a grande autoridade, ao mesmo tempo, de suas paródias. Creio
que, com o correio de leitores das revistas em que trabalhava, ele tinha
material suficiente para que pudesse criar suas personagens ridículas. Outro
fenômeno também muito interessante decorrente de contatos pela Internet
são as centenas de pedidos de confirmação de um texto de Baudrillard
sobre os cartógrafos de um reino que criaram um mapa que era igual ao
reino... Não sei se Baudrillard realmente leu o texto de Borges ou se o
leu em outro lugar, visto que a citação não é muito exata, mas o fato
é que há um público americano que ficou maravilhado ao saber de um
autor que se chama Borges e que escreveu isso que Baudrillard cita de
forma mais ou menos aproximativa. Eu geralmente respondo dizendo que
espero que Borges seja lido não apenas por ter sido uma fonte de
Baudrillard. Mas é certo que esse site
da Internet serve também para nos mostrar as modas do pensamento e devo
dizer que elas não são muito atrativas no presente momento, sobretudo as
que vêm dos Estados Unidos e da América Central. MEM
- Cioran, em uma famosa carta dirigida a Borges, diz que o grande desastre
que pode acontecer a um autor é ele ser reconhecido. E lamenta que
Borges, “o último dos delicados”, tenha tido essa sorte (ou azar). De
fato, vários são os paradoxos da fama, sobretudo quando se referem a um
escritor como Borges, que se expôs muito publicamente, ainda que muitas
vezes confundindo pistas e ficcionalizando sua própria imagem. Dentro
disso, como vocês avaliam as inúmeras comemorações realizadas em 1999
no mundo inteiro, a propósito de seu centenário? Em que medida essas
comemorações se configuraram realmente como homenagens ou foram exercícios
de vaidade e oportunismo?
IA -
Sim, nós nos deixamos guiar, em primeiro lugar, pelo horror que Borges
tinha pela ênfase, que é contagioso. Além disso, compartilhamos com ele
certos princípios, como por exemplo, quando ele diz, em algum lugar, que
somos vítimas do sistema decimal. Cem
anos pertencem ao sistema decimal e certa vez Borges disse: estou
disposto a celebrar Gôngora a cada duzentos anos. O terceiro motivo, que
está exposto no prólogo de um dos números especiais da revista no ano
do centenário, tem a ver com uma estória que se conta em Mantua, na Itália:
num dado momento, estavam alguns meninos brincando em um colégio, e alguém
lhes perguntou o que fariam se soubessem que teriam que morrer naquele
mesmo dia. Entre esses meninos estava Luis de Gonzaga, que respondeu:
“seguiria brincando”. Esta foi um pouco a nossa divisa. Como estamos
todos os dias trabalhando sobre Borges, preferimos, no ano de seu centenário,
simplesmente continuar trabalhando. De modo que só agora, pela primeira
vez, depois de ter acabado o ano das comemorações, nos permitimos
mostrar aos nossos estudantes um filme sobre Borges, porque já passou o
ano da quarentena, no qual seria melhor ler Borges e celebrá-lo dessa
forma. MEM
- Em uma das páginas introdutórias da revista Variaciones
Borges, vocês mencionam que um dos objetivos da publicação é
privilegiar uma área especial da pesquisa acadêmica onde “a filosofia
aparece como perplexidade, o pensamento como conjectura, e a poesia como
uma profunda forma de racionalidade”. E nomeiam, mais adiante, esses
deslocamentos criativos de “epistemologias transversais”. Eu lhes
pediria que falassem um pouco mais sobre esse conceito de “epistemologia
tranversal”, que me parece muito interessante. IA -
De fato o que menos nos interessa é a pessoa
de Borges, ainda que se trate, como todos sabem, de uma pessoa fascinante.
O que menos se sabe neste Centro é sobre os detalhes da vida de Borges.
Esta só nos interessa à medida que possa contribuir para a história de
sua literatura. O fato é que com Borges ou contra Borges, existe um ato
de leitura do mundo e do texto, que está assinado por ele. E é isso que
nos apaixona. Não é Borges como pessoa, ou sequer Borges como autor, que
nos importa (daí não nos darmos o exercício das homenagens ao autor),
mas o seu ato de leitura, que nos ensina enormemente. A
escritura de Borges é uma leitura do mundo e é essa leitura que queremos
estudar, para ver o que há dentro dessa perspectiva. Não pretendemos
fazer “borgianismo”. Este é um Centro com funções epistemológicas,
que busca, através de meios muito mais conceituais e mais pobres que os
de Borges, investigar o que há nessa atitude, nessa leitura transversal
que Borges faz do mundo. A escritura de Borges, como escritura, é riquíssima
em evocação e penso que seria trágico se se escrevesse assim em
linguagem acadêmica. De modo que, como somos acadêmicos, estamos
interessados não em imitar Borges, mas fazer estudos literários, filosóficos
e semióticos de suas leituras. MEM
- Além da revista, o Centro tem alguma outra atividade editorial? CP -
O que temos é uma página na Internet, chamada Borges
Studies on line, onde publicamos livros integrais e artigos enviados
pelos próprios autores. Já estão disponíveis para consulta livros e
textos de Beatriz Sarlo e Daniel Balderston, por exemplo. Assim, os
pesquisadores podem tem acesso fácil a livros muitas vezes difíceis de
se conseguir ou que já estejam esgotados. IA -
Temos também dois projetos laterais com respeito à revista. Um, é de
publicar livros monográficos, e neste momento temos dois em perspectiva:
um, que já está praticamente acabado, que é um volume sobre Bustos
Domecq como autor. Ou seja, não necessariamente sobre Borges em colaboração,
mas sobre um autor fictício que se chama Bustos Domecq. Temos reunido uma
quantidade impressionante de artigos que nos parecem muito bons e pensamos
em cuidar, muito em breve, da edição desse livro, que poderia ser
seguido de outros volumes sobre o mesmo tema e que viriam a constituir uma
espécie de Enciclopédia de Bustos Domecq. Consideramos este um projeto
urgente, pois a obra de Bustos Domecq é essencial dentro da literatura
latino-americana . O Borges de “Borges y yo” eclipsou, durante certo
tempo, esse personagem-autor que, entretanto, está chamado a crescer. E a
razão principal para criarmos uma enciclopédia é que as pessoas de
nossa idade fazemos parte da última geração de argentinos que é capaz
de dar conta da maioria dos temas, termos, alusões, chistes, tratados
nesses textos, visto que correspondem a uma década em que vivemos na
Argentina. De modo que, quando nossa geração morrer, se esse trabalho não
tiver sido feito nem deixado, as obras de Bustos Domecq certamente não
serão mais entendidas pelas próximas gerações. CP -
Penso, inclusive, que já são obras que necessitam de tradução, pois já
não se entende a que fazem referência. E nossa geração participou do
contexto a que se referem. IA -
Bem, este é o primeiro projeto. O segundo é algo bastante cômico, mas
que tem recebido uma acolhida estrondosa. Há pouco tempo, quando nos foi
pedido escrever um artigo sobre “Editar a Borges”, para a revista Punto
de Vista, nos demos conta do desastre que estão fazendo com as edições
de Borges, não só em castelhano, mas igualmente em português. Só que,
no Brasil, a culpa não é do editor, mas das obrigações que lhe são
impostas pela proprietária dos direitos autorais e que o obrigam a
reproduzir exatamente o que faz a editora Emecé. Estão cometendo
desatinos grandíssimos, como por exemplo, um livro que Borges acaba de
publicar, que se chama Cartas de
Fervor. Estão fazendo com que se criem novos livros com autoria de
Borges, em vez de colocar, como se faz com todos os autores, “Cartas de
Borges as seu amigo Sureda. Inventam que Borges continua escrevendo
livros. Assim, falam que Borges escreveu Textos
Cautivos, escreveu Textos
Recobrados, etc. Ademais, essas antologias são geralmente cortadas,
mal feitas, terrivelmente cheias de erros. E contra isso não se pode
fazer nada, pelo menos ainda por vários decênios. Portanto, a idéia que
temos é a de fazer uma edição crítica das obras completas de Borges,
sem o texto de Borges. Como não temos a autorização para publicar o
texto, vamos publicar as notas, as variantes, as fontes, remetendo-as ao
corpo de um texto que não podemos publicar e que se encontra na edição
oficial, canônica. Esperamos, assim, que passados os cem anos de sua
morte, outros leitores possam ler Borges como nós hoje não podemos ler. CP -
É um projeto cômico, que tem algo de Bustos Domecq. E tem despertado
muitíssimo entusiasmo: muitas pessoas nos escrevem dizendo que acham a
proposta estupenda e que podemos contar com elas. E é esta realmente a idéia:
publicar as obras de Borges, em baixo relevo. O que publicamos é isso e o
outro Borges já está aí. Simplesmente oferecemos as correções, as
notas, adicionamos o que foi cortado, as variantes, de um texto que não
pode ser tocado. MEM
- É um projeto que Borges com certeza apreciaria... IA -
Essa idéia nos veio também por associação totalmente livre da lembrança
de um fato ocorrido no Brasil há bastante tempo, felizmente, mas não
tanto para que não o tenhamos vivido. Em um certo momento, começaram a
aparecer misteriosamente, em alguns jornais brasileiros, extratos de Os
Lusíadas. Às vezes um pequeno, às vezes um grande, às vezes um
ocupava uma página inteira, e somente vários anos depois é que se soube
que isso cobria, a cada dia, o que a censura militar tirava do jornal. Ou
seja, os editores colocavam o poema no lugar do texto censurado e
enviavam, assim, uma mensagem, digamos, irônica (aos que pudessem entendê-la),
sobre o que estava se passando. Em nosso caso vai ser um pouco assim, mas
só que de outra forma. Com os meios de que dispomos, ajudar a fazer uma
edição crítica de uma obra sobre a qual não temos direito. Por
exemplo, o volume britânico de ensaios das obras completas, que se chama Total
Library, e que acaba de sair, traz um índice analítico muito útil,
que a Emecé não traz e que tampouco a edição brasileira traz.
IA -
Há um caso típico, que eu poderia citar como exemplo. Borges sempre teve
várias versões de textos parecidos e tem dois textos quase gêmeos sobre
Chersterton e o conto policial. Borges descreve, nos dois, as leis, que
segundo ele, são necessárias para se construir um bom conto policial. Em
um dos artigos, uma das leis é “o pudor da morte”, pois algo que o
impressiona nos contos de Poe e de outros autores que ama, é o fato de não
haver sangue: a morte tem o seu pudor. Já na outra versão, por um erro
de tipografia, aparece “o pudor da morta”, que lido assim fica
certamente ridículo. Variaciones
Borges acaba de receber de um professor dos Estados Unidos um artigo
no qual trata do conto policial e cita essas leis, dentre elas, “o pudor
da morta”, sem qualquer ironia. Isso mostra até que ponto chega essa
sacralização dos erros feita, lamentavelmente, pela Editora Emecé. É
uma lástima, porque dizíamos que nosso Centro, pela sua
extraterritorialidade, não entrava nas batalhas locais que se travam em
Buenos Aires, mas é certo que mais cedo ou mais tarde acabará se sujando
no barro que sai dessa cavalaria pesada. Um
outro caso é a edição brasileira. A Editora Globo lançou em fascículos
os livros de Borges, prefaciados, na maioria dos casos, por grandes
especialistas, mas quando publicou a edição das obras completas, foi
proibida de colocar esses prefácios. MEM
- Essa imposição de exigências deve explicar o fato de a capa da edição
brasileira das obras completas ser uma reprodução exata da que aparece
nos volumes da edição da Emecé... IA -
É provável. Jorge Schwartz, que está encarregado das edições de
Borges no Brasil, e que é uma pessoa inteiramente respeitável e de
seriedade indiscutível, tem sido vítima dessa situação, pois não pode
ir além do que lhe permite a editora. Por outro lado, é mil vezes preferível
que saia uma edição incompleta organizada por Schwartz do que uma edição
caótica preparada por qualquer sonhador. MEM
- Vocês consideram que o século XX tenha sido o século de Borges? IA -
Do ponto de vista matemático, sim. (risos). Eu diria: sim e não. Foi,
sem dúvida, o século de Borges, mas foi também o século das maiores
catástrofes da humanidade. Seria belo refugiar-se na literatura para se
esquecer do que se passou. Talvez dentro de um século se diga que o século
XX foi o século de algo que por enquanto não vemos. Em todo caso, o
sobrenome Borges continuará aparecendo nos catálogos telefônicos do
Brasil. (risos).Tudo depende do que se queira fazer com essa história
que, como Borges dizia, funciona com pudor. Para os que vivemos elegendo
isso, esse foi o século de Borges, de Wittgenstein, de Ravel, de Schönberg,
ou de duas pessoas quaisquer que um dia conversaram serenamente e sem
testemunhas, de coisas que não mudaram aparentemente nada no mundo. MEM
- E o que de Borges ficará para este milênio que começa? IA -
Parece-me que esta é uma pergunta muito ampla. Na situação particular
de um homem escondido em um canto escondido de um país escondido, que do
milênio que chega vai viver apenas os primeiros resplendores, não tenho
a mínima idéia. Dificilmente as coisas podem ser ditas de antemão. Os
movimentos que nascem auto-nomeados como, por exemplo, “pós-modernismo”,
são os que menos vivem. Os que mais duraram foram aqueles que foram
nomeados a posteriori. Penso que
o que deveria ficar de Borges para os anos vindouros é um pequeno texto
chamado “Del pudor de la historia”, no qual mostra que acontecimentos
totalmente secretos, que não tiveram qualquer influência nos livros de
história, foram aqueles que realmente determinaram a história. Apesar de
que ninguém tenha por que se proclamar borgiano, seria anti-borgiano
pensar que algo estrondoso do que se passa com Borges tenha uma influência
real nas letras deste novo século. Talvez uma página, um verso de Borges
mal lido e entendido ao contrário, possa ocasionar alguma coisa. Há um
belo livro sobre Borges, que se chama Jugar
en serio, de Ezequiel de Olaso, que no final fala justamente que o que
Borges criou e que vai desaparecer dentro de pouco tempo, por culpa nossa,
é uma espécie de seita de iniciados, os leitores implícitos dos textos
de Borges, peritos na arte de decifrar as alusões e citações ocultas
sem a ajuda de nenhum indício. Agora que Borges é estudado nas
universidades, que fazem enciclopédias e dicionários de Borges, as
pessoas já sabem o que aparece nos seus textos, antes mesmo de lê-los
(se é que chegam a lê-los), sabem desentranhar todas as alusões de um
texto de Borges, sem que precisem ir a esse mesmo texto. De modo que
talvez seja necessário que se volte a ignorar Borges, para que se possa
redescobri-lo. É preciso que Borges seja mal lido. Ele mesmo ficaria
muito feliz de saber que está sendo lido ao reverso do que pensava. MEM
- Uma última pergunta: o mundo já é “Tlön”? CP -
Ainda não, mas nunca deixou de sê-lo. (risos) |
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Maria Esther Maciel (1963). Poeta, ensaísta e tradutora. Publicou livros como As vertigens da lucidez: poesia e crítica em Octavio Paz (1995), Triz (1998) e Vôo transverso: ensaios sobre poesia, modernidade e fim do século XX (1999). Contato: esthermc@letras.ufmg.br. Página ilustrada com obras do artistas Fernando Casás (Galiza). |