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revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003 |
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Manuel António Pina: ares e esgares do silêncio Floriano Martins
Dentro dessa perspectiva do poeta que se envolve consigo e
aí percebe o quanto está arraigado a seu entorno, temos em Manuel António
Pina um poeta que trafega, com notável senso de humor, por entre as vértebras
do tempo, captando as singularidades da sociedade portuguesa,
acentuando-lhe pequenos vícios, provocando prodígios existenciais e
discretos entusiasmos. Ele próprio diz que a poesia age hoje no território
de um “sem-tempo”, decerto uma maneira sua de entender o abismo em que
nos encontramos. Melhor que fale o poeta: “Independente de à poesia
pouco mais ser dado dizer do que o silêncio do mundo (silêncio que é,
na língua, abertura ao sentido e sentido aberto), ela pode constituir uma
espécie de epifania sem revelação daquilo que talvez saibamos sem
sabermos que o sabemos”. A trajetória deste notável poeta envolve algumas dezenas
de livros, tanto de poemas quanto de literatura infantil. De um lado ou
outro, os títulos são bastante sugestivos: O país das pessoas de
pernas para o ar (1973), Aquele que quer morrer (1978), O pássaro
da cabeça (1983), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), A
guerra do tabuleiro de xadrez (1985) e Cuidados intensivos
(1994), dentre outros. Em 2003, além das reedições de Os Piratas
(novela) e O Inventão (teatro) – ambos pela Editora Asa -, acaba
de sair a novela Os papéis de K., pela Assírio & Alvim, mesma
editora que publicará Os livros (poesia). No Brasil, está
prevista ainda para este mês a estréia de António Pina, com Nenhuma
palavra e nenhuma lembrança (poesia), pela Cosac & Naify. Manuel António Pina é um poeta das sutilezas, de uma
voragem existencial que segue um preceito surrealista defendido pelo
argentino Aldo Pellegrini, o de aproveitar a incidência do acaso “para
fazer surgir imagens que existiam latentes em seu próprio espírito”.
Consciente de que o homem hoje não pode invocar senão a si mesmo,
arrisca-se a toda forma de diálogo com os excessos da contemporaneidade.
Sua relação paródica com a memória deve ser entendida juntamente com
sua percepção do instante seguinte: “o poeta vê-se cegamente também
como vidente (leitor) de si mesmo, como uma sombra”.
FM – Em 1992, preparas tua primeira versão de uma poesia
reunida, sob o título: Algo parecido com isto da mesma substância.
Tem-se aí um indicativo da ironia que pontua tua poética. Em 2001, já
em uma segunda versão, suprimes o título, dando ao livro apenas o título:
Poesia reunida. Considerando o título de um livro de 1999: Nenhuma
palavra e nenhuma lembrança, percebe-se um acentuado reforço da
ironia. A qual substância te referes e de que maneira ela propicia a ti
um reencontro com a inocência original? MAP – Tenho sempre muita dificuldade em falar sobre a
minha poesia. E, por maioria de razão, em responder sobre a substância
(o que quer que isso seja) dela. Provavelmente escrevo poesia para
procurar saber disso mesmo. O título Algo parecido com isto da mesma
substância chegou-me, se me lembro bem, de Nicolau de Cusa. A minha
ideia era a de que tudo aquilo, os poemas que até então tinha escrito, e
os que continuo a escrever, eram só aproximações, tentativas de tocar
algo irremediavelmente distante, talvez de tão elementar e de tão perto,
imagens de qualquer coisa inominável tentando falar no meio de tanta memória.
Porque (escrevi-o uma vez num poema), é o infalável que fala, ou
tenta desesperadamente falar, na poesia; pelo menos na minha. A “inocência
original”, dizes tu. Sim. E o silêncio original. Porque temos (eu
tenho) a cabeça e o coração cheios de vozes. Escrevemos decerto com a
memória, mas também contra ela. Em busca de uma improvável voz inicial.
Mas como esquecer? E como nos calaremos? Sem que palavras? Há, dir-me-ás,
em tudo isto uma grande e melancólica ansiedade da influência. Há sim,
até onde posso sabê-lo. Daí a ironia. Mas não passamos a vida (e a
literatura) à procura do nosso rosto, ou de algo parecido com ele? No meu
próximo livro, que deverá sair em Outubro, incluí uma espécie de
“arte poética” que talvez responda melhor do que eu à tua questão:
“(Arte poética) Vai,
poema, procura / a voz literal / que desoculta fala / sob tanta
literatura. // Se a escutares, porém, tapa os ouvidos, / porque pela
primeira vez estás sozinho. / Regressa então, se puderes, pelo caminho /
das interpretações e dos sentidos. // Mas não olhes para trás, não
olhes para trás, / ou jamais te perderás; / e teu canto, insensato, será
feito / só
de melancolia e de despeito. // E de discórdia. E todavia / sob tanto
passado insepulto / o que encontraste senão tumulto, / senão de novo
ressentimento e ironia?” E ainda as duas primeiras estrofes de outro poema do mesmo
livro, intitulado “Os mortos”: “(Os mortoS) Eu sei, é
preciso esquecer, / desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
/ os nossos mortos anseiam por morrer / e só a nossa dor
pode matá-los. // Tanta memória! O frenesim / escuro das suas palavras
comendo-me a boca, / a minha voz numerosa e rouca / de todos eles
desprendendo-se de mim! / (…)” Como vês, muito do que escrevo tenta justamente responder
a coisas como as que perguntas… FM – René Daumal considerava o conhecimento como uma
experiência total do ser. De que maneira se tocam esses aparentemente
dois extremos que são a inocência e o conhecimento? O que isto teria a
ver com aquela idéia do Mauricio Blanchot que entrelaça literatura e
ilusão? MAP
– Esses extremos tocam-se, diria Heidegger, como os cumes das montanhas
distantes, isto é, digo eu, no fundo da terra e do ser. “Saber é
esquecer/ e esta é a sabedoria/ e o esquecimento”, escrevi eu uma vez.
A literatura é a ilusão de que esquecer é possível. Mas estamos
condenados à memória, não é? Porque, se calhar, é isso o que somos:
memória. FM – Mas de que maneira, em tua poesia, lidas com a ideia
de um mundo possível? MAP – Permite-me que te
responda, de novo, com um poema do meu próximo livro (as tuas perguntas
arriscam-se a esgotá-lo…): “Real, real, porque me abandonaste? / E,
no entanto, às vezes bem preciso / de entregar nas tuas mãos o meu espírito
/ e que, por um momento, baste // que seja feita a tua vontade /
para tudo de novo ter sentido, / não digo a vida, mas ao menos o vivido,
/ nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade. // Oh, juntar os pedaços
de todos os livros / e desimaginar o mundo, descriá-lo, / amarrando-me ao
mastro mais altivo / do passado. Mas onde encontrar um passado?” FM – Há uma edição de tua poesia prevista para este
ano por uma editora brasileira. Dois outros poetas portugueses estão
fazendo sua estréia no Brasil este ano: António Osório e Ana Marques
Gastão. Como a poesia brasileira é percebida em Portugal?
FM – Dentro dessa perspectiva
há ainda as dificuldades internas, em cada país, de fazer circular a
produção mais expressiva de sua poesia. Aqui conseguimos identificar os
nossos dilemas, percebendo o quanto há de equívoco em alguma poesia
brasileira que se difunde em Portugal. Decerto o mesmo se passa com os
portugueses. Mas o que me dirias tu desses dilemas editoriais em teu país? MAP – Com a edição de
poesia em Portugal passa-se o que, em geral, se passa na Europa ocidental:
as maiores editoras e distribuidoras fogem-lhe como o diabo da cruz. A não
ser que a editora seja suficientemente grande para poder dar-se ao luxo da
poesia, como a Gallimard em França. Ou, em Portugal, e à nossa medida,
como a Asa, a Caminho ou a Campo das Letras. Editar poesia entra então
nos custos da política de imagem, porque, mesmo quando não dá danos
emergentes, sempre implica os lucros cessantes da ficção. Porque a
poesia parece ter algum incompreensível prestígio, que leva não só
muita gente a escrever poesia como muita mais a ser incapaz de confessar
como a poesia a aborrece. Os políticos usam-na na lapela e nos discursos
e a citação de um verso dá sempre uma espécie de nobreza “exquise”
e a imagem de pertença a um aristocrático grupo de eleitos. O grosso da
edição de poesia, a dos poetas mais novos e a dos que não estão no
panteão, fica, pois, ao cuidado de pequenas editoras. No meio surgem
algumas raras editoras de média dimensão “especializadas”, digamos
assim, em poesia. Em Portugal, o “caso” é, sem dúvida, a Assírio
& Alvim (ao lado, talvez, da Relógio d’Água): um catálogo de
grande qualidade, onde avultam nomes como os de Pessoa, Herberto Hélder,
Mário Cesariny, Alexandre O’Neil, Ruy Belo, Teixeira de Pascoaes e
outros, servido por uma identidade gráfica igualmente notável, fazem da
Assírio & Alvim o rosto da edição de poesia em Portugal. De
qualquer modo, as tiragens continuam a ser pequenas, salvas algumas poucas
excepções, como Pessoa, Herberto ou Eugénio de Andrade. Os meus livros,
por exemplo (e vendem relativamente bem), andam entre os 1000 e os 2000
exemplares. Por outro lado, a edição de poesia portuguesa no estrangeiro
vive de apoios específicos do IPLB, que subsidia a tradução (assim
aconteceu com as minhas traduções francesas e búlgaras) ou de
iniciativas individuais, como a edição da minha poesia no Brasil, que
devo à generosidade e à diligência de um poeta brasileiro que um dia se
interessou por ela, Carlito Azevedo. FM – Tua geração vem logo a
seguir aos turbulentos anos do Surrealismo. Havia acaso um sentido de
responsabilidade em ir além do que haviam proposto poetas como Cesariny
de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Herberto Helder e Cruzeiro Seixas,
por exemplo? E como convives com teus pares geracionais? MAP – Como disse antes,
escreve-se sempre com e contra o passado, principalmente contra o passado
recente. Julgo, no entanto, que a minha poesia sempre conviveu mais
saudavelmente com o passado recente surrealista (e com o modernista) do
que a da generalidade dos poetas da minha geração. A minha poesia nunca
teve vocação geracional; pelo contrário, procurou mais a companhia dos
mais velhos do que a dos poetas da minha idade. Não me parece, por
exemplo, que ela tenha alguma coisa que ver com a de Joaquim Manuel Magalhães
(cujo proselitismo, aliás, me incomoda), a de João Miguel Fernandes
Jorge ou a de António Franco Alexandre, que têm também pouco que ver
uns com os outros. Ou com a dos poetas de 60, responsáveis imediatos da
ruptura com o surrealismo e o neo-realismo.
MAP – Uma coisa e outra, a
poesia e a literatura por assim dizer infantil, são, acho eu, nomes da
mesma escrita, ou antes, da mesma relação com a escrita. Muitas vezes
principio um poema sem me aperceber de que ele quer
ser um poema “para” crianças. Por isso meto entre aspas esse
“para”. Porque não escrevo “para”, escrevo apenas. Há decerto um
leitor no horizonte de toda a escrita, quanto mais não seja pelo simples
facto da língua. A língua, diz Barthes, é a familiaridade social do
poeta. Mas é um leitor sem rosto. Do meu ponto de vista de escritor, a
literatura “para” crianças completa (ou tenta completar) a outra. Não
sou uno (e quem é?) e a minha escrita também não (tenho escrito
igualmente teatro e crónica, até crónica desportiva, e publicado um ou
outro ensaio). |
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Floriano Martins (Brasil, 1957) é um dos editores da Agulha. Entrevista originalmente publicada no Rascunho # 40 (agosto de 2003). Página ilustrada com obras do artista Fernando Casás (Galiza). |