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revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003 |
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Dora Ferreira da Silva: diálogos sobre poesia e filosofia, recordando Vicente Ferreira da Silva Donizete Galvão & Floriano Martins
FM -
Em que circunstâncias conheces o Vicente Ferreira da Silva e quais
identificações os levariam a compartilhar toda uma vida, não apenas no
plano amoroso mas no que diz respeito a cumplicidades éticas e estéticas? DFS
- A pergunta é de cunho bastante pessoal, mas ao mesmo tempo
significativa e importante. Você indaga a cerca das cumplicidades éticas
e estéticas entre mim e o Vicente. Conhecemo-nos muito jovens. Eu com 15
anos e ele com 18 em um baile de formatura. Eu num vestido branco longo,
usava batom pela primeira vez. Vicente, muito elegante, em seu smoking,
cabelos queimados de sol, pele dourada. Fomos apresentados por Milton
Vargas que disse: Quero apresentar um “gênio” para um outro “gênio”.
Nessa época de juventude não poderíamos ser menos do que “gênios”.
Líamos Assim
falava Zaratustra,
Dostoievski, nos identificávamos com os personagens. Principalmente eu,
que era quase uma criança e meio tola. Vicente cursava Direito e estudava
matemática com Fantappié. Tivemos um diálogo surrealista nesse primeiro
encontro. As perguntas eram respostas e as respostas eram perguntas.
Reconhecemo-nos parceiros e o amor veio ao mesmo tempo. Casamo-nos cedo.
Eu estava com 19 anos, já formada pelo Instituto de Educação, e ele com
22, Bacharel em Direito e estudante de Lógica Matemática. Ficamos
casados 23 anos. Nossa vida foi a de dois seres voltados para a cultura.
Embora já escrevesse poesia, que só publicaria bem mais tarde, estava
identificada com Vicente. Eu era sua secretária e aluna. Ouvíamos música
e ele gostava de me ouvir lendo poesia. Lemos juntos a obra de Rilke. Em
1939, Vicente fez sua primeira conferência no Brasil sobre Lógica Matemática
no Instituto de Engenharia. Em 1940, publicou seu primeiro livro Elementos
de Lógica Matemática. Willard van Orman Quine, filósofo americano,
professor de Lógica Matemática, veio para o Brasil em 1942. Convidou
Vicente para ser seu assistente no curso que ministrou na Escola de
Sociologia e Política. Pouco depois, Vicente foi nomeado assistente de Lógica
na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, na recente Universidade de
São Paulo (USP), na rua Maria Antônia. DG -
Como foi que o Vicente Ferreira da Silva partiu da Lógica Matemática
para chegar a Heidegger?
FM -
O Vicente publicou com freqüência suas reflexões na Revista
Brasileira de Filosofia e Diálogo. Qual a importância dessas
duas publicações na época? E com o que pode contar hoje no Brasil esta
área essencial do conhecimento humano? DFS
- Vicente publicou muitos de seus artigos na Revista
Brasileira de Filosofia, na qual foi co-fundador com Miguel Reale. Em
1955, fundou com Dora Ferreira da Silva e Milton Vargas a revista Diálogo,
considerada uma das mais instigantes do Brasil. Com a morte precoce de
Vicente em um acidente de carro, a revista Diálogo
publicou um último número e cessou. Dois anos depois, resolvi editar a
revista Cavalo Azul mais voltada
para a poesia e a literatura. A
revista Diálogo teve uma grande
repercussão. Hoje, não se fala mais dela. Há uma conspiração do silêncio.
Ivan Junqueira e Per Johns têm todas as revistas. Per Johns disse-me que
o encontro com a Diálogo foi muito importante para ele. Tenho
guardada toda a coleção da Diálogo,
que foi até o número 16, dedicado ao Vicente. Sem o Vicente, a Diálogo
ficou sem sua alma. Só para se ter uma idéia, a Diálogo # 7 trazia Vicente Ferreira da Silva, Milton Vargas,
Heraldo Barbuy, Mario Chamie, Ruy Apocalypse, a tradução de Quarta-feira
de cinzas de T. S. Eliot feita por mim e uma entrevista com Haroldo de
Campos. Mas
pensei que não era possível parar. Por isso, fundei a Cavalo
Azul que teve 12 edições e acabou por motivos financeiros. A Cavalo
Azul # 1 tinha colaborações de Anatol Rosenfeld, Guimarães Rosa,
Clarivaldo Prado Valladares, Vicente Ferreira da Silva ( Diálogo
do Rio, publicado postumamente), Vilém Flusser, Theon Spanudis, J. C.
Ismael, um artigo de J O Meira Penna chamado Donjuanismo
e existencialismo, a tradução de Os
Discípulos de Saïs de Novalis, feita por mim, traduções de
Shakespeare por Péricles Eugênio da Silva Ramos. DG -
Como eram os diálogos entre Vicente Ferreira da Silva e Agostinho da
Silva? No que concordavam e em que discordavam? DFS
- Vicente Ferreira da Silva e Agostinho da Silva foram grandes amigos, mas
no tocante ao pensamento mais discordavam do que concordavam. No plano do
pensamento o Agostinho, para citar um exemplo, gostava de Espinosa.
Vicente, não. Vicente voltou-se mais para o pensamento alemão, para os
românticos alemães. Tinha interesse por Novalis. Naquela época, em São
Paulo, as livrarias eram paupérrimas. Eu ia à Biblioteca Municipal
copiar dados sobre Novalis ou trechos de Novalis. Eu tinha um caderno
preto com pensamentos de Novalis. Isso
para ajudar o trabalho de Vicente. Em São Paulo, não havia livros de
Novalis. As editoras não se arriscavam. Quem iria ler Novalis? Retornando
ao Agostinho, seus diálogos com Vicente ia de manhã até a noite. Surgiu
o assim chamado Alcorão. Nome
escolhido por Agostinho para o cerne dessas conversas por ele redigidas.
No entanto, o Alcorão é muito
mais Agostinho do que Vicente Ferreira da Silva.
Vicente
lecionou a vinda inteira sem ganhar nada. Aliás, quando houve a recusa do
nome dele para a USP, Cruz Costa não teve culpa nenhuma. Recusaram ao
mesmo tempo Vicente, Oswald de Andrade e Renato Czerna que, mais tarde,
foi ser catedrático na Universidade de Roma. Foi a única vez que vi o
Vicente abalado. Ele tinha uma vocação socrática, adorava ensinar.
Continuou a fazer isso. A nossa casa foi um centro de cultura. Todos os
professores que vinham da Europa para dar aulas na Universidade passavam
por nossa casa. A conversa de Vicente era brilhante como aquilo que ele
escreve. FM -
O Eudoro de Sousa (1911-1987) tinha observações valiosas sobre as relações
entre mito e poesia, e costumava dizer que “O primeiro poeta foi o
primeiro mitólogo; isto é, o primeiro que disse, ou cantou, certa
realidade outrora consentida e convivida por todos os
participantes num drama ritual.” Por sua vez, Vicente Ferreira da Silva,
ao refletir sobre o aórgico (“o não posto pelo homem, […] o
que não se apresenta como um resultado da produtividade artístico-criadora
do sujeito”), dizia que “o homem é um ser abandonado ao seu próprio
modo de ser, fascinado em si mesmo, sempre aquém do princípio limitante
da matriz”, e que “o mito nos instaura fora de nós mesmos, é um
ser-fora-de-si que, entretanto, nos elucida acerca de nossa própria
proveniência”. Pode-se entender como confluentes as idéias de ambos? DFS
- O problema é bastante complexo. Vicente e Eudoro de Sousa não se
influenciaram reciprocamente. Trilharam caminhos paralelos e coincidentes,
mas não totalmente iguais. Eudoro de Sousa logo partiu para Brasília,
onde foi professor universitário. Quando vinha a São Paulo, passava o
dia conversando com Vicente. Eudoro não escrevia cartas. Era bastante tímido.
Quando vinha em nossa casa, vinha sozinho. O romantismo alemão exerceu
muita influência sobre Vicente. A palavra “aórgico” é tirada de Hölderlin
e significa o “não feito pelo homem”, o “orginário”. DG -
Você disse que Vilém Flusser mudou depois de conhecer Vicente. No que
foi que Vicente influenciou o pensamento de Flusser? DFS
- Vicente e Flusser foram assíduos interlocutores. Era nítida a influência
do pensamento de Vicente em Flusser, quer concordasse ou discordasse. Em
primeiro lugar, Flusser abandonou os negócios que herdara do pai para se
dedicar aos estudos filosóficos. Dizia ele que os negócios o ameaçavam
de esquizofrenia porque só se sentia bem entre os livros. Creio que a
presença instigante de Vicente, que também fizera a opção pela
filosofia, deve tê-lo estimulado em sua escolha. FM -
Certa vez o Antonio Braz Teixeira afirmou que Vicente Ferreira da Silva
seria “o mais brasileiro dos filósofos brasileiros, pela divinização
da natureza e pelo politeísmo/paganismo do seu pensamento, pelo
verdadeiro sentido cósmico que revela”, vendo nele, ao lado de João
Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e Glauber Rocha, as expressões culturais
mais autênticas “do Brasil profundo e das virtualidades e
especificidades da cultura brasileira”. Acaso estarias de acordo? E que
paralelos seria possível traçar entre esses quatro nomes referidos?
“Recebi sua carta. Li-a
com vivo interesse e ajudou-me a pensar muita coisa. Temos de conversar
horas vastas, mas só quando eu for aí ou você vier ao Rio. Em carta a
gente se desentende. Nisto, como em tudo mais, o que vale são os detalhes
e o calor da vida. Conversaremos, reconversaremos. Antes, porém, você
tem de ler o Corpo de baile inteiro.
Está seguindo um exemplar para você e Dora. Valeria a pena, quem sabe,
reler também Grande Sertão:
Veredas que, por bizarra que você ache a afirmação, é menos
literatura pura do que um sumário de idéias e crenças do autor com
buritis e capim devidamente semicamuflados. Depois,
preciso de terminar todo o Berdiaeff em quem estou me encontrando
maravilhadamente quase que ponto por ponto. Formidável! Até aqui estou
em que subscreveria os 90% dele. Muitas coisas que eu sofrera tempo e ânsias
para descobrir sozinho por mim, agora estou as achando nele. No duro do
russo! Com Jaspers, também freqüentemente concordo e mesmo com
Kierkegaard. Com Heidegger, não. Sinto sempre que ele, tal como Nietzche,
ouviu o galo cantar só pela metade. No entanto, o sein
zum Tod, o Homem é para a Morte, eu aceito sinceramente.
Principalmente, porém, estou nesta cintilante linha: Platão, Bergson,
Berdiaeff, Cristo. Estou
falando muito de mim, mas é por causa do seu cordial interesse e para vocês
me conhecerem melhor previamente. Desconfio de que sou um individualista
feroz, mas disciplinadíssimo. Com aversão ao histórico, ao político,
ao sociológico. Acho que a vida neste planeta é caos, queda, desordem
essencial, irremediável aqui. Tudo fora de foco. Sou só religião,
mas impossível de qualquer associação ou organização religiosa. Tudo
é o quente diálogo, tentativas de com o infinito. O mais, você deduz. O
intelectual repugna-me. Zurück ( para trás) nunca. Para coisa nenhuma. Só hinauf
( para cima). A busca da plenitude: um fato. Mas
com a prévia abolição total do sofrimento. Muito de Lawrence, eu aceito
mas ele, acho, não completou a curva, a trajetória ( morreu
muito jovem, aos 46 anos, observa Dora). Tudo o que é discórdia,
agressividade, destrutividade tem de se transformar, desaparecer antes.
Cristo, o Cristo verdadeiro, cabe. Tem seu ensino indispensável: “os
mansos herdarão a Terra”. Você conhece os livros de Dunne, o inglês
serialista? O ensino central de Cristo, o do reino dos céus dentro de nós,
é: 1º O domínio da Natureza. A começar, pela natureza humana de cada
um, mediante a Fé que é a forma mais alta e sutil da energia a qual o
mundo é plástico. 2º O Amor. Possibilidade de coexistência sem o mínimo
sinal de atrito, conflito, desarmonia, destruição ou desperdício. Sobre
esta plataforma, o Céu. As possibilidades infinitas de um sempre evoluir
em plenitude, prazer, alegria ininterrupta, cada um invulnerável. Como
numa peça de teatro, o Grande Sertão diz mais de uma vez: será que me
falta grandeza? Bem, por hoje tagarelei demais. Forte abraço amigo.
Tantas lembranças à Dora. Lembranças à Diva e ao Milton Vargas, Outro
abraço do seu, Guimarães Rosa.” DG -
O Vicente tinha uma visão politeísta e você em certos poemas une um
certo neopaganismo com o cristianismo. Seu pensamento foi por caminhos
diversos do pensamento de Vicente?
FM -
Ao final de 2002 se publica em Portugal Dialética das consciências e
outros ensaios, que é o que existe de mais abrangente em termos de
reunião do pensamento humanístico de Vicente Ferreira da Silva. Este
volume inclui também textos dispersos e inéditos. Indagar o motivo da
publicação portuguesa equivale a indagar sobre os impedimentos de uma
edição brasileira. De que maneira e por quais motivos o Brasil não
percebe a existência de um filósofo cuja essencialidade especulativa,
ainda que inconclusa, permanece atual e repleta de sutilezas
surpreendentes? DFS
- Esta pergunta só pode ser potenciada. Porque a mesma pergunta eu me faço.
Mistério! Aqui eu estou falando menos como esposa do que como a parceira
intelectual de Vicente, o que é bastante constrangedor. Bati à maquina
praticamente sua obra inteira. Não estudei na USP, mas tive o melhor
professor de filosofia. Concluo dizendo que as novas gerações poderão
ler Vicente sem precisar ir ao sebo. Vi um livro anotado por muitos na mão
de um jovem que me procurou há tempos perguntando como e onde poderia
encontrar o livro. Fica assinalado aqui o meu reconhecimento a Portugal e
ao professor António Braz Teixeira que nos dão de presente o pensamento
brasileiro que estava fadado a permanecer em gabinetes fechados, ou em
teses universitárias e de valor, de difícil acesso. Há pelo menos 9
delas, uma defendida na Itália na Universidade de Roma. A Livraria Camões,
no Rio de Janeiro, foi encarregada de distribuir o livro no Brasil. Ele já
pode ser encontrado em várias livrarias de São Paulo. DG -
No pensamento de Vicente, a poesia ocupa um ponto central. O que você tem
a dizer sobre o Diálogo da Montanha (Diálogo # 16) onde George, Mário
e Diana conversam e George interroga sobre qual a contribuição da erudição,
da metafísica e do tropismo pela poesia para a civilização? DFS
- Creio que só a morte detém o nosso percurso não só o exterior como o
interior. Acredito que Vicente é importante para as novas gerações que
se defrontam com um mundo dessacralizado e carente de alimento anímico.
Vicente é um pensador religioso, não no sentido de uma determinada
confissão, mas em um sentido mais amplo do sentimento do sagrado.
Partilhamos filosofia e poesia. Sendo que ele era professor na primeira e
discípulo na segunda. Se
exagero, me perdoem. Tudo isso é uma tentativa de dizer o que foi vivido.
Particularmente, o Diálogo do Mar
e o Diálogo da Montanha foram inspirados mais de perto na vida vivida. O Diálogo da Montanha se passa na Serra da Mantiqueira. Mário, que
corresponde a Vicente, e Diana, que corresponde à Dora, são irmãos
espiritualmente falando. George é Agostinho da Silva. É ele que deflagra
o diálogo. Evidentemente, estes são sinais aproximativos de uma
realidade muito mais rica. Talvez se possa dizer que todos os personagens
são heterônimos do próprio Mário (Vicente) e de sua Sóror Mística
(Dora). Creio que esse diálogo deve ser lido e meditado. Também acho que
é complexo demais para ser reduzido a uma súmula ou simplificação. Sua
qualidade literária e filosófica está aí para ser meditada e admirada.
Enfim, com a reedição da obra de Vicente, é com a maior alegria que
entrego às novas gerações o Tesouro Oculto - a obra inconclusa de
Vicente Ferreira da Silva. |
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Donizete Galvão (1955). Poeta. Autor de livros como Do silêncio da pedra (1996), A carne e o tempo (1998) e Ruminações (1999). Contato: dgalvao@abril.com.br. Floriano Martins (1957) é um dos editores da Agulha. Entrevista realizada em setembro de 2003. Página ilustrada com obras do artista Fernando Casás (Galiza). |