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revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003 |
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Orris Soares, um inovador Paulo Vieira
No caso do teatro - e da dramaturgia em particular - eu
tive a sorte de - durante o lançamento da coleção de textos de Tarcísio
Pereira, em seu discurso - testemunhar a longa lista de cinqüenta nomes
de dramaturgos paraibanos apontados pelo profícuo autor, lista que ainda
não está completa, e, como quase tudo no teatro paraibano, ainda
necessitando de uma análise que esgote as linhas estéticas de cada
autor, as possíveis semelhanças e as efetivas diferenças que os
caracterizam. Alguns nomes já mereceram análises. Gente como Paulo
Pontes, por exemplo, foi por mim mesmo analisado em A Arte das Coisas
Sabidas, dissertação apresentada ao Mestrado da USP em 1989 e
publicada pela Editora Universitária em 1996. Ariano Suassuna é outro
nome que prescinde de análise, uma vez que toda a sua obra já foi
submetida a criteriosos estudos, dentre elas a de Idelette Muzart Fonseca
dos Santos, com o livro Em demanda da poética popular, publicado
em 1999 pela Editora Unicamp; e de Ligia Vassallo, O Sertão Medieval, publicado
pela Francisco Alves em 1993, no qual a autora analisa as origens européias
do teatro de Ariano Suassuna. Os melhores ensaístas brasileiros, dentre
eles Sábato Magaldi e Décio de Almeida Prado, já se debruçaram sobre a
obra do autor de O Auto da Compadecida, de maneira que uma outra
abordagem somente faria algum sentido, no âmbito do meu trabalho, se algo
de novo ou de inusitado pudesse vir à luz. Entre os dramaturgos que
mereceram análises de suas obras, consta também uma dissertação de
Mestrado - por mim orientada - do professor Romualdo Rodrigues Palhano, Teatro
e Comunidade: atuação grupo Teca em Cabedelo, em 1991, no mestrado
em Serviço Social da UFPb. Altimar Pimentel, além de dramaturgo, fundou
aquele grupo de teatro na cidade portuária de Cabedelo. Como resultado de
sua atuação, dentre outras coisas importantes, consta à fundação do
primeiro teatro naquela cidade. A sua dramaturgia foi em parte analisada
por Romualdo Palhano. Há, portanto, um universo de pelo menos 47 dramaturgos e
de centenas de obras necessitando de uma análise mais detalhada. Dentre
esses dramaturgos, chama a atenção o nome de Orris Soares, autor de
apenas quatro textos: Rogério (1920); A Barreira (1917); Dentro
da Fé (1917) e A Cisma (1915). Sobre Orris Soares, Altimar Pimentel escreveu, no prefácio
à sua obra completa para teatro, apresentando o autor, pertinentes
observações sobre o dramaturgo. Eis um breve resumo do que afirma o
autor de A Construção sobre o texto A Cisma: “Filha do
naturalismo que, a partir do fim do século (XIX), tomou conta do teatro,
lembra um Ibsen e Tchecov”; sobre o texto A Barreira: “perpassa
o clima das tragédias gregas, do amor proibido. O Clima da peça é denso
e o final imprevisível. O destino, como no teatro grego, parece tecer a
teia das vidas”; sobre o texto Dentro da Fé: “A crueldade da
personagem central, do intelectual, remete-nos a um Iago, possessivo,
dominador, finalmente vitorioso. Fiel ao espírito da peça de tese, Orris
Soares expõe com vigor e violência a mesquinhez que existe muitas vezes
no grandes homens”.
Há algum tempo atrás, um dramaturgo e diretor de Campina
Grande, participando de um festival numa cidade de São Paulo, ouviu, da
parte de uma senhora convidada a fazer a avaliação dos espetáculos, a
afirmação de que ele - Álvaro Fernandes, o que fizera não parecia
teatro nordestino. Parecia, então o quê? Álvaro Fernandes é um representante da nova geração de
autores e diretores de quem eu tive a oportunidade de dirigir um texto que
muito prazer nos proporcionou, Última Estação. Os seus temas são
profundamente beckettianos, mesmo que as suas personagens, por vezes, façam
parte de um universo rural. O autor campinense parece estar sempre a
afirmar que a angústia humana é a mesma, em não importa qual seja o
ambiente, realizando o cruzamento entre temas universais e consciência
regional. Esquecemos, freqüentemente, de ensinamentos simples e
valiosos, entre os quais lembro um do Paulo Pontes, em entrevista a Márcia
Guimarães, no jornal Última Hora: “É preciso aprender a perceber a
cada instante da história aquilo que ela tem de permanente. Aprender a
ver o passado de uma forma histórica. Aprender a tirar do passado aquilo
que ele pode dar. A história não é um constante nascer do nada”. Não há como discordar do Paulo Pontes. A história não
é um constante nascer do nada, salvo para a cultura brasileira,
justamente pelo motivo de nós não nos vermos em nossas diferenças e
semelhanças. Graças a isso, e até enquanto vontade por um país
marginal de anunciar ao mundo que, sim, pertencemos também a uma cultura
ocidental, é que nos deslumbramos com as revelações que parecem antes
de qualquer coisa afirmar ao mundo que, sim, nós estamos antenados com o
que há de moderno na cultura da Europa. A prova disso? Bem, cem anos
antes deles inventarem o teatro do absurdo, nós já tínhamos cá um
inovador de primeiríssima hora, Qorpo Santo, era como se autodenominava
esse senhor nascido José Joaquim de Campos Leão, na vila do Triunfo, Rio
Grande do Sul. A descoberta tardia de uma dramaturgia que em nada deve ao
insólito que caracteriza o Teatro do Absurdo, fez com que a crítica
brasileira se derramasse maravilhada em exegeses acadêmicas, como, por
exemplo, a de Eudinyr Fraga, de 1980, cujo título conduz para uma
indefinição estilística: Qorpo Santo: Surrealismo ou Absurdo? Surrealistas somos nós, brasileiros, eu digo, que a
exemplo do movimento animado por Breton, mal nos preocupamos com uma razão,
salvo quando está amparada por similar européia. Graças a isso foi que
pudemos brandir os textos de Qorpo Santo (até então apenas um louco de
hospício) com orgulho semelhante ao que a crítica de Sábato Magaldi fez
ressaltar quando revelou em seu livro, Panorama do Teatro Brasileiro,
que o Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues (carioca de origem
pernambucana), aproximava-se da técnica do teatro expressionista, “na
qual os diálogos são sincopados, telegráficos, situando os sentimentos
e as emoções já no limite da maior tensão”. Ao fim e ao fundo, o que se busca é um elo entre a cultura
brasileira e a cultura européia. Ao fim e ao fundo, o que se almeja é um
estatuto civilizatório para um país que é melhor entendido por seus
poetas do que pelos seus sociólogos. O que se deseja com essas aproximações
estilísticas é estabelecer o princípio de uma modernidade que teima em
ser esquiva. Neste sentido, Plínio Marcos, falando sobre Nelson
Rodrigues, fez questão de frisar que fora este, sim, quem criara o
moderno teatro brasileiro, mesmo considerando que antes de Nelson
Rodrigues, Oswald de Andrade já escrevera os seus textos, mas que somente
vieram a ser montados a partir dos anos sessenta. Eu gostaria de sugerir um outro nome à parca lista de
dramaturgos fundantes de nossa modernidade: o paraibano Orris Soares, cujo
texto principal, Rogério, somente veio a ser montado em 1993 por
Fernando Teixeira, setenta e três anos após haver sido escrito. Rogério é um texto em que o autor rompeu com a temática
comum ao teatro de sua época, como fez questão de lembrar o Altimar
Pimentel no prefácio à edição da obra, “para mostrar uma peça
vigorosa, inovadora e rica de possibilidades cênicas”. Tem razão o
prefaciador, ele mesmo dramaturgo dos mais destacados no cenário
nordestino.
Em As Massas e o Homem, Toller alterna dois planos
ou dois movimentos sucessivos: um movimento subjetivo (os sonhos da heroína
Sonja Irene L. quando então ela apreende a dimensão da realidade) e um
movimento objetivo, a própria realidade. De qualquer maneira, o que
importa é que o sonho é usado enquanto recurso narrativo com
significativo valor. O tema desta peça é uma greve, ou uma revolução
que findará com a morte da heroína, presa e condenada pela burguesia
contra a qual lutara. A quase inexistente tensão dramática rompe com
princípios aristotélicos contra os quais a dramaturgia se debatia ainda
sem muito sucesso. Não vale a pena alongar-me nesta exposição. Apenas
direi que, em Orris Soares, a narrativa é feita por saltos na ação, que
igualmente quebram o rigor da lógica tradicional, de uma peça bem feita,
segundo cânone naturalista, sendo este, portanto, um primeiro indicador
de sua modernidade. Os sonhos, ou a vida subjetiva, tão cara ao teatro
expressionista, surge igualmente em diversas cenas de Rogério, acentuando
a qualidade da ação ou da sutil impressão que uma personagem tem de
outra. O tema de Rogério é a revolução. Outro indicador
de sua modernidade, pois aparenta tomar como referência à revolução
soviética de outubro de 1917. Por este ponto de vista, torna-se ainda
mais espantosa a contemporaneidade da obra, pois líder de uma revolução
popular, Rogério, após a vitória, torna-se um cruel e desumano ditador,
assassino e temível déspota. Em 1920, quando Orris Soares escreveu o seu
texto, Stalin ainda não havia assumido o comando da U. R. S. S. e, muito
menos, dado início aos expurgos que eliminaram líderes influentes e
revolucionários de primeira hora. Assim como Ernst Toller em suas peças,
a burguesia e, por conseqüência, o governo, ou o poder em todas as suas
instâncias, são uma e semelhante coisa. Em Orris Soares também, como se
pode constatar através da fala de um dos revolucionários, Tânio, logo
no início da peça: “Governo e burguesia são uma só entidade, respondendo
pelo nome de patrão”. Rogério, por sua vez, lança sentenças impressionantes
para um país como o nosso, em que a mulher sequer tinha o direito ao
voto: “O sexo não é condição de superioridade nem de
inferioridade: é condição de harmonia. As mulheres serão julgadas como
homens e bater-se-ão como homens”. Assim como em toller, as personagens de Orris Soares são
movidas pelo mesmo desejo em redimir a humanidade dos seus erros capitais.
Somente assim, Débora, uma entre os líderes, pode dizer a Rogério: “Com que agonia de alma espero o instante da redenção
humana”. Ou mesmo Rogério, incentivando aos seus comandados: “Somos uma alma coletiva, uma só e enorme alma, com as
mesmas qualidades, aspirações e disposições”. Para marcar a diferença entre a obra de Ernst Toller e a
de Orris Soares, direi que, ao contrário do autor alemão (movido por uma
inabalável fé na razão humana e na superação de toda a opressão),
Orris Soares é o seu justo contrário: pessimista, de um pessimismo
absolutamente realista: Rogério enlouquece ao fim da peça, põe em sua
cabeça uma coroa de papelão e, sem nenhuma razão aparente (mas
perfeitamente condizente com a linguagem do expressionismo), morre. De uma
certa forma, hoje, depois da queda do muro de Berlim, pode-se dizer que o
trono em que sentou Stalin era de terror e a coroa em sua cabeça era,
igualmente, de papelão. Um império que morreu sem nenhuma razão
aparente.
“Ouçamos primeiro a música, para depois dançar”, aconselhando prudência à temeridade dos revolucionários;
ou, quando os revolucionários partem para o confronto com a burguesia: “Atenção no caminho, ele guia o homem. Em mim o medo da
morte promove a delícia da vida”. Orris Soares foi um homem sintonizado com o seu tempo. O
seu Rogério é um drama em tudo singular para a época em que foi
escrito; um texto que, durante a nossa última ditadura, foi bastante
comentado, mas não montado, pois parecia falar contundentemente de nossa
própria situação política, nós que nunca tivemos uma revolução
vitoriosa (portanto, mal poderíamos servir de exemplo). O fato é que,
dificilmente, este texto passaria pelo crivo da censura que nos
atormentou. Quando subiu ao palco, há cerca de sete anos atrás, estávamos
todos esgotados com a política para aceitarmos o que de instigante e
revelador o texto contém. De maneira que mal nos demos conta de que se
tratava de um texto da mais absoluta vanguarda, avant la lettre,
refletindo, de uma certa forma, uma determinada corrente de pessimismo
como o século vinte, que fez produzir obras as mais significativas em
campos diversos, como é o caso do livro de Aldous Huxley, Admirável
Mundo Novo; ou de Thomas Mann, com A Montanha Mágica; ou o Metrópoles,
de Fritz Lang; ou mesmo o divertido, mas não menos pessimista Tempos
Modernos, de Charles Chaplin. No campo da dramaturgia, passado o furor
inicial das vanguardas, esse desalento como o século que fez abalar o
mundo, somente se fez presente como o existencialismo de Jean Paul Sartre,
em seguida com Beckett e o seu Esperando Godot. De uma certa
maneira, Orris Soares mantinha uma característica do teatro nordestino da
qual não se pode esquecer: a nossa dramaturgia tende a dialogar com as
manifestações estéticas que lhes são contemporâneas, desde o
romantismo do maranhense Gonçalves Dias. |
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Paulo Vieira (Brasil). Dramaturgo, diretor de teatro e romancista. Autor de livros como Plínio Marcos: a flor e o mal (1994), A arte das coisas sabidas (1998), e O ronco da abelha (2001). Contato: paulovieiramelo@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Fernando Casás (Galiza). |