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revista de cultura # 36 - fortaleza, são paulo - outubro de 2003 |
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Alguns comentários sobre O Virgem Negra - Fernando Pessoa explicado às criancinhas Naturais e Estrangeiras por M.C.V, por Mário Cesariny [1] Claudio Willer
Logo no início, os heterônimos
manos de Pessoa Masturbam homens de as-/ Pecto decente nos/ Vãos de
escadas. A passagem é repetida, como um refrão no final do mesmo
trecho, intitulado Prótese, sobre supostas relações de Pessoa (ou
melhor, de um pseudo-Pessoa, enunciador fictício de O Virgem Negra)
com a filosofia – de Platão, Descartes, Heidegger e Sartre – e a
literatura - de Shakespeare, Gil Vicente, os clássicos gregos, Homero, Eurípedes,
Sófocles, Ésquilo, e principalmente Poe -, mas sugerindo devassidão: On
ai me on por delante/ On ai me on por detraz/ La noche se puso fria? On ai
me on. Que será? À frente, principalmente na
segunda parte do livro, o leitor irá encontrar adulterações da poesia de
Pessoa, submetida ao deboche e tratamento picaresco. Um exemplo, a versão
de Ela canta, pobre ceifeira…: no lugar de A ciência/ Pesa
tanto e a vida é tão breve!/ Entrai por mim dentro! Tornai/ Minha alma a
vossa sombra leve!/ Depois, levando-me, passai!, [2]
Cesariny faz O homem pesa tanto e a matriz é tão leve!/ Entrai por mim
dentro! Tornai/ Meu ânus o vosso almocreve!/ Depois, levando-me, passai.
Há primores da enunciação direta: O Álvaro gosta muito de levar no
cu/ O Alberto nem por isso/ O Ricardo dá-lhe mais para ir/ O Fernando
emociona-se e não consegue acabar. Como se não bastasse, os heterônimos
participam de uma orgia pederástica: O Fernando o seu maior desejo desde
adulto/ (Mas já na tenra idade lhe provia)/ Era ver os hètèros (sic) a
foder uns com os outros … Algo desse feitio haver sido
aceito, ter passado em brancas nuvens, sem uma comoção mais forte, mostra
o quanto Portugal mudou de 1974 para cá. Por muito menos, obras, do próprio
Cesariny e outros surrealistas portugueses foram censuradas durante o regime
salazarista. Entre outras, de Cesariny, Louvor e simplificação de Álvaro
de Campos, de 1946, que teve sua primeira versão publicada, de 1953,
mutilada pela censura, pelas críticas diretas ao salazarismo. O
Virgem Negra é dividido em três partes. A primeira é um
pseudo-depoimento de Pessoa. Opina sobre as comemorações do centenário
pessoano em 1988 e o traslado de seus restos mortais; restos esses bem
conservados, embora enegrecidos. Daí o título, O
Virgem Negra. O tema será retomado adiante: O Virgem Negra, tal me descobriram/ Cincoenta anos depois,/ Em minha
infusão estou. Tombam, deliram/ Em vão quantos seguiram. Portanto, o
livro apresenta a elocução de um morto, um fantasma comentando as comemorações
em sua homenagem. Essa primeira parte de O
Virgem Negra é especialmente complexa. Há um jogo de dois planos,
confundindo-se um hipotexto, uma fala muito direta, crua, sem
meias-palavras, ao tratar da suposta vida sexual de Pessoa, e um hipertexto,
mais que intertexto, nas relações sugeridas com a literatura e a
filosofia. É como se Cesariny disparasse em várias direções. Cita
Pessoa: Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada…
Lembram-se? Comenta, na voz do pseudo-Pessoa, o ensaio de Mário
Sacramento em que foi denominado de anti-gênio,
endossando-o. Remete, em nota, às cantigas de escárnio, e, de modo descontínuo,
fragmentário, como se fosse uma colagem, faz observações sobre suas
fontes, sua relação com a literatura portuguesa, inglesa e francesa. Há
uma passagem mais longa, quase prosa, toda de alusões, sobre Poe e uma
observação sobre a relação com esoterismo, tema que, adiante, será
retomado: Aqui os digo e confesso,/ Aqui os confesso e nego:/ Dei muita leitura à
vista/ E muitas voltas à pista/ Mas para bom alquimista/ Nunca passei do nigrêdo. A segunda parte de O
Virgem Negra é a mais nitidamente paródica, no sentido dado ao termo
na teoria literária. Consiste em pastiches e adulterações dos poemas de
Pessoa: entre eles, alguns dos mais conhecidos. Há uma interpretação, no
sentido das dessublimação, de revelar um conteúdo sexual latente,
reproduzindo o poema na forma e ritmo, mas com substituições, como no
exemplo já citado de Ela canta, pobre
ceifeira… Ou em Contemplo o lago
mudo/ Que uma brisa estremece./ Não sei se penso em tudo/ Ou se tudo me
esquece trocado por Contemplo o
lago mudo/ Que uma brisa sacode./ Não sei se fôdo tudo/ Ou se tudo me fode.
E, em vez de Põe-me as mãos nos
ombros…/ Beija-me na fronte…/ Minha vida é escombros,/ A minha alma
insone, Cesariny escolheu Põe-me
as mãos no sexo,/ Beija-me na coxa,/ Abre-me no plexo,/ Uma ferida roxa.
Isso lembra as “correções” lautreamontianas de
trechos de Pascal, Vauvenargues, etc. Mas essas correções não são no
sentido da “esperança”, como pretendia o autor de Poesias,
[3] mas da sodomia, sexo perverso e masoquismo. Têm parentesco, por
isso, com certas brincadeiras estudantis com os textos de literatura clássica,
debochando deles, e, evidentemente, com a tradição picaresca que passa,
entre outros, por Bocage. De qualquer modo, mesmo se o quisesse, Lautréamont
não poderia, em 1869/70, utilizar, com tamanha liberalidade, tanta
linguagem chula, então reservada ao escaninho dos licenciosos e libertinos.
Por muito menos que isso, Os Cantos de Maldoror deixaram de ser distribuídos. Há mais adulterações através da substituição em O
Virgem Negra. O famoso poema sobre o Oriente de Dois
excertos de odes, de Álvaro de Campos, tem a noite, de Vem,
Noite, antiqüíssima e idêntica, Noite Rainha nascida destronada,
trocada pela vulva: Vem, Vulva, antiqüíssima
e idêntica/ Vulva Rainha nascida destronada morta , além de mais
substituições conseqüentes, a exemplo de Noite/
Com as estrelas lantejoulas rápidas por Vulva/
Com teus pentelhos lantejoulas rápidas. Termina, na versão de
Cesariny, com divindades orientais, sexualizadas, Çiva-Parvati e
Ardhanarishwar, no lugar do Deus cristão e do Cristo, vivos, existentes e mandando em tudo. É curiosa a sugestão de um Pessoa com dupla identidade
sexual, pederasta e ao mesmo tempo assexuado. Assim, na versão por de Isto,
é substituído Sentir? Sinta quem lê! por Colhões
tenha quem me lê. E o poema seguinte traz uma transcrição literal de Aqui
na orla da praia, mudo e contente do mar…, mas intercalado por frases
como A Nini Bebezinho/ Do Ibi/ Dá Oféli/
Bjinho?, e um “comunicado” de Álvaro de Campos da
parte do abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa,
fechando com O teu Nininho, Bèbè Fera/ É o maior bjinho/ De noite ser, e
primavera,/ E eu estar de olhos fechados. Nessa passagem, Cesariny deixa de lado a adulteração
apenas dos poemas já publicados em Fernando
Pessoa – Obra Poética, e ataca textos vindos à luz mais
recentemente; especificamente, as cartas a sua presumível namorada Ophélia
de Castro. Dá a impressão de acompanhar, entre outros, Yvette K. Centeno,
importante estudiosa de Pessoa, em Ophélia
– bebezinho ou o horror do sexo, ensaio que compõe a coletânea Fernando Pessoa: o amor, a morte, a iniciação.
[4] Como chave dessa passagem de O
Virgem Negra, e de outras também, basta citar esse título de ensaio e
mais seu início: As cartas de amor de Fernando Pessoa, publicadas por David Mourão-Ferreira
(Lisboa, Ed. Ática, 1978), demonstram à saciedade a impossível relação
do poeta com o outro, sendo o outro mulher. Daí por diante, ainda na segunda parte de O
Virgem Negra, são deixados de lado os pastiches de poemas pessoanos, em
favor de um trecho no qual a orgia sodomita recebe a visita de Aleister
Crowley, seguindo-se a transcrição de um escabroso ritual de magia negra,
presumivelmente de autoria do fundador da Ordo Templo Orientis. Completam a segunda parte um trecho aludindo a Raul Leal, O
único verdadeiro doido do Orpheu. Esse tema, da relação de Pessoa com
integrantes “menores” de Orfeu, será retomado na terceira parte de O
Virgem Negra. Inclui uma reflexão sobre poesia e vida, ao contrastar
alguém que viveu intensamente e escreveu pouco, e a contenção pessoana no
plano pessoal, associada a sua extraordinária produtividade: Ninguém lhe invejasse aquela luxúria de fera?/ Invejava-a eu. Pois
O Raul Leal era/ O único não-heterônimo
meu, e mais, O Raul era/ Orpheu,
e, ainda, ambos somos um/ Dos extremos
do mal a continuar-se. Portanto, trata da contradição entre poesia e
vida, ao trazer à tona o mais “maldito” dos integrantes daquela geração. Há, ainda, alusões a Camões e seu português mais
castelhano (que suscitou críticas na época de publicação de Os
Lusíadas, coincidindo com a incorporação de Portugal à Espanha,
depois do desastre de Alcacer-Quibir e da vacância do trono), em confronto
com aquele de Pessoa, o galaico-português/ Que ele desfez/ E eu não. Finalmente, uma das
chaves para interpretação do livro todo, a transcrição de mais um dos
poemas iniciáticos ou esotéricos de Pessoa, Na
sombra do monte Abiegno, seguida de Três
voltas dei ao castelo/ sem achar por dond’entrar. Portanto, Pessoa
seria o adepto que não consegue penetrar na montanha simbólica, acesso ao
castelo iniciático, para alcançar o Graal. A terceira parte, aquela propriamente em prosa, recorre à
narrativa epistolar. São duas pseudo-cartas de Raul Leal, a Sá Carneiro e
a Fernando Pessoa, e outras duas, respectivamente de Pessoa e Álvaro de
Campos, a João Gaspar Simões. Na primeira da série, Raul Leal se declara endemoninhado,
atacado por espíritos inferiores, em um microcosmo da guerra de 1914-18, em
luta direta com o Kaiser, além de haver chegado ao
auge da “detrésse” material. Faminto e disentérico, sofre com a sífilis
e os tratamentos para curá-la. Por isso, delira: … não quero mais sonhar o sono da Fome, da Dissolução e intensificando
profundamente os meus devaneios efêmeros quero dar-lhes enfim a Força, a
Viabilidade de Vida! O trecho segue, em tom cada vez mais desesperado,
dando dimensão metafísica à sua situação através do uso abusivo de maiúsculas:
De abismo em abismo espiritual cada
vez mais me entranharei em Mim que Me erguendo à Pura Harmonia, à Condensação
Pura de Força, à Condensação em Si, Força em Si, todo finalmente Me
transcenderei… Sátira, portanto, aos maneirismos de vocabulário e
repertório associados ao espiritualismo e esoterismo na passagem dos séculos
XIX para XX, que tanto influenciou a geração de Orfeu.
A terceira carta é uma
retificação de Álvaro de Campos ao que João Gaspar Simões escreveu
sobre esoterismo em Pessoa e sua relação com Aleister Crowley, entre
outros lugares em seu Vida e Obra de
Fernando Pessoa, História duma Geração, [6]
e nas notas da Obra Poética.
Refuta a qualificação de Crowley como “charlatão-mago inglês”: seria
em todo caso mais ponderado chamar-lhe charlatão e mago sem hífen, já que
o rosto da luz deve formá-lo a sombra e não existe água sem terra por
onde corra. Questiona ainda Casais Monteiro, que atribuiu o Hino a Pan, traduzido por Pessoa, a “um autor inexistente”.
Sugere bibliografia, que eu
visivelmente não li, diz, de Carolina Michaelis de Vasconcelos,
Teixeira Rego e Sampaio Bruno. Seguem-se doze páginas de resumo claro e
consistente da obra e trajetória de Crowley (que coincidem com os capítulos
sobre aquele mago em obras como O
Oculto de Colin Wilson, ou História
da Filosofia Oculta de Alexandrian). Portanto, prossegue o trecho sobre
Crowley da segunda parte. Explica-se: Pois
o que eu quero dizer-lhe e espero saia agora sem maiores arredores, é que o
principal e talvez único responsável do desconhecimento entre nós da vida
e obra do Aleister Crowley, sou eu, o Fernando Pessoa. E faz ensaio sobre o próprio
Pessoa, ao relacionar, nessa passagem, o poema O Último Sortilégio a Crowley, seus procedimentos e suas idéias.
Temos, portanto, inter e intratextualidade, ou, ao menos, relações
complexas, nada lineares, entre diferentes trechos de O
Virgem Negra, e destas com a obra pessoana. O Último Sortilégio,
de 1930, nas palavras de Pessoa, interpretação dramática da “magia
da transgressão” (conforme
nota em OP), pode mesmo ser uma
alusão à doutrina de Crowley. Há nele uma teologia ao contrário, já que
potências infernais podem ser sacras e deidades são ctônicas, vêm das
profundezas, com a inversão da salvação cristã. Em vez da alma salvar-se
e o corpo perder-se, Meu ser essencial se perca em si,/ Só meu corpo sem
mim fique alma e ser! (…) “Converta-me
a minha última magia/ Numa estátua de mim em corpo vivo! Morra quem sou,
mas quem me fiz e havia, Anônima presença que se beija,/ Carne do meu
abstrato amor cativo,/ Seja a morte de mim em que revivo:/ E tal qual fui, não
sendo ainda, eu seja!” Nesse poema ainda há uma evocação,
uma varinha, é traçado um círculo, mas o celebrante não é ouvido
pelas sacras potências infernais. Diante dele estão as longínquas
deidades do atro poço, que meu vendido ser consumirão. Por isso, é plausível que
O Último Sortilégio, no qual a
morte toma o lugar da ressurreição e o ser só é possível enquanto nada,
seja mesmo uma tradução do pensamento de Crowley. Cesariny sugere ainda,
na voz do pseudo-Pessoa, interpretações para a transcrição de Na sombra do monte Abiegno e, por extensão, a outros dos poemas
iniciáticos de Pessoa: Há que rever
a minha teoria da libertação da mente pela paragem do corpo e atravessar
de vez toda a zona de sombra do Monte Abiegno… Há mais comparações
entre Pessoa e Crowley. Através do seu Pessoa apócrifo, Cesariny busca
demonstrar que o poema Aqui na orla da
praia, mudo e contente do mar, de 1930, [7]
apresenta coincidências com The
Sevenfold Sacrament de Crowley: Se
eu li ou não li este texto, antes de ter escrito o meu, não sei em verdade
dizer – o que não torna menos inquietante a questão, de importância
nula se só literariamente encarada. A observar neste poema, Aqui
na orla da praia…, o neo-platonismo de versos como A
vida é como uma sombra que passa sobre um rio, ou Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu, nos quais o
mundo fenomênico é sombra, como aquela do mito da caverna. A carta que encerra O
Virgem Negra seria de Álvaro de Campos para João Gaspar Simões.
Equivale a um acerto de contas com o ensaísta e por extensão com Presença. O pseudo-Álvaro, depois de reiterar a pederastia, na
posse de todos os etc. com que vergastei e comi aquela criançada toda em
idade de ir para a marinha de guerra inglesa, conta que caiu da cadeira
durante uma conferência de Simões em 1977, apenas
e só dedicada à exaltação maluca do papel nadador-salvador que Presença
teria desempenhado no resgate de Orfeu.
O acidente ocorre no momento em que Simões revelava
à assistência que o Fernando Pessoa era da seita do Crowley, o bruxo.
Isso, mais de quarenta anos depois de
o meu irmão lhe ter explicado ao tim-tim não ser correligionário
de coisa nenhuma, sequer dele mesmo. A seguir, ironiza o catolicismo de
José Régio, designado, lembrando as referências a escritores nas Poesias
de Lautréamont, como um pingüim
recuperado da Antártida. Questiona haverem proclamado Pessoa o maior
poeta português vivo: são letras
muito perigosas e passíveis de muita ondulação, pois, uma vez
ultrapassado o “hoje” e enterrado o “vivo”, este fica pronto para
passar à fase de “menor poeta morto”. Alega que as dúvidas de Simões
quanto à envergadura de Pessoa como crítico se devem ao ressentimento,
pois o autor de Mensagem se havia
furtado a escrever prefácios para obras de Simões e de Casais Monteiro. Cesariny conclui com uma interpretação de Pessoa: O
meu irmão, dr. Gaspar Simões, foi sempre um aldeão. Pior que aldeão: um
saloio remediado, como algumas vezes, com muito amor, lhe chamei. Cita
passagens bucólicas da poesia pessoana. Indaga: E
que até o poema onde ele tenta fixar a lume esperto o que ele quer que
acreditemos ser “o cerne da sua filosofia” seja dirigido a uma ceifeira
que ele nunca viu antes em toda a sua vida? E fecha com sátira da sátira
e paródia da paródia: Tenho para mim
que o rocinante que assina M. C. V. e lhe chamou “aldeão do mundo a
haver”, nisso, acertou, retirado o “mundo”, e o “a haver”, que bem
se vê serem geito (sic, assim
como a pontuação) de redondilha. Mas o que é O Virgem Negra,
sob o ponto de vista dos gêneros? Como classificar essa obra? Pode ser
considerado narrativa de ficção? Afinal, dois terços dela são em
versos. Contudo, sendo uma paródia,
estamos diante de falsas questões. Conforme bem observa J. Cândido
Martins em Teoria da Paródia Surrealista,
[8] citando Linda Hutcheon com propriedade, a paródia é meta-gênero, um gênero de gêneros,
por ser uma reescrita de outra obra, reaproveitamento de um alotexto,
através de sua recontextualização: A
paródia não é um gênero, mas uma modalidade discursiva tão antiga
quanto a própria literatura. De natureza intertextual, esta forma de
discurso pressupõe sempre a relação de um texto (texto parodístico) com
outro texto (texto parodiado); mas também a relação de um texto com um gênero
ou subgênero literário. É preciso registrar esse ensaio, Teoria da Paródia
Surrealista de J. Cândido Martins. [9]
Serviu como atalho com relação a muito do que se segue. A presente análise
não acompanha as 7 páginas especificamente dedicadas por Martins a O
Virgem Negra, e não endossaria a utilização da noção de ansiedade
da influência de Harold Bloom; menos ainda, a de uma rejeição
edipiana de Pessoa por Cesariny. Mas utilizo-o bastante para chegar ao
que interessa em matéria de paródia, sátira, carnavalização, humor
negro e tópicos correlatos. O enquadramento de O
Virgem Negra em modalidades e gêneros comporta mais observações. Está
em exame uma obra surrealista, vinculada a um movimento que aboliu
fronteiras entre gêneros, bastando lembrar a sobreposição de ensaio,
relato e poesia em Nadja ou O Amor Louco de Breton. Daí Martins corretamente observar que, no
surrealismo, a narrativa é … um
modo literário que se confunde com a própria Poesia, decorrente de uma
propositada abolição de fronteiras modais ou genológicas. E há várias “histórias”, narrativas ficcionais implícitas
ou explícitas, em O Virgem Negra.
Seu protagonista (e narrador) seria Fernando Pessoa; em um dos trechos, como
Álvaro de Campos. Ao pôr em cena o heterônimo Álvaro de Campos e ao
referir-se aos demais heterônimos, Cesariny faz meta-ficção e hiper-ficção.
Afinal, heterônimos são, por sua vez, criaturas ficcionais, personagens
inventadas por Pessoa. E são, efetivamente, personagens literários, pois
receberam pseudo-biografias, conforme foi documentado, entre outros lugares,
na Nota Preliminar às Ficções do Interlúdio na edição de Obra Poética, e principalmente nas respectivas notas de Maria
Aliete Torres Galhoz a essa nota, nas quais é comentada a coterie inexistente de Pessoa. A observar que os heterônimos principais, Álvaro de
Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, são uma ficção literária e também
extra-literária, conforme se depreende da correspondência Pessoa – Sá
Carneiro (com trechos citados nessas notas de OP).
Nela estão blagues, brincadeiras,
nas quais lhes era atribuída existência real, como a da loja Caeiro
descoberta em Lisboa. Há uma relação ambígua, ambivalente, com duplo sentido,
entre Cesariny e Pessoa, em O Virgem
Negra (e outras obras do surrealista português, conforme será visto
adiante). De um lado, Pessoa é negado, especialmente nas adulterações e
“correções” de seus poemas, como as citadas, que, em uma leitura mais
direta, referencial, lhes dão um sentido contrário ao do original. De
outro, Cesariny prossegue um jogo,
um artifício literário utilizado por Pessoa, que consistiu em inventar
personagens e atribuir-lhes textos. E confunde, deliberadamente, vários níveis
da ficção e “realidade”. Por exemplo, através da ficcionalização de
um personagem já por si fictício, Álvaro de Campos, que adquire vida própria
em O Virgem Negra, e cuja fala por
sua vez ficcionaliza um personagem historicamente real, Pessoa. Desse modo,
Cesariny inverte o jogo pessoano, ao estendê-lo e prossegui-lo: além de
atribuir textos a personagens inventados, inventa textos atribuídos a
Pessoa. Criar pseudônimos não representa novidade em literatura.
Contudo, a heteronímia pessoana é típica e original. Nenhum outro autor
se desdobrou em alteregos desse modo, bem diverso de Gérard Labrunie
assinar como Gérard de Nerval, Paul Eluard chamar-se Eugène-Emile-Paul
Grindel, ou Isidore Ducasse adotar o nome de Conde de Lautréamont. Meta-ficção, colocando em cena protagonistas ou
personagens das narrativas de outro autor, também não é novidade. Foi
praticada de modo genial por Jorge Luis Borges, com seu Tadeu Isidoro Cruz
encontrando Martin Fierro, entre outros. Mais recentemente, e a propósito
de Pessoa, temos O ano da morte de
Ricardo Reis de José Saramago, no qual o protagonista, Ricardo Reis,
ficcional, fala de um personagem real, seu criador, Fernando Pessoa,
referindo-se a fatos históricos e biográficos. Mas pode-se ver esse
procedimento, em Cesariny, como manifestação da rejeição surrealista ao
realismo e naturalismo literários, vigorosamente expressa desde o primeiro Manifesto
do Surrealismo de André Breton: …a
atitude realista, inspirada no positivismo, de São Tomás a Anatole France,
parece-me hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral.
Tenho-lhe horror, por ser feita de mediocridade, ódio e insípida presunção.
Sob esse aspecto, O Virgem Negra e
O ano da morte de Ricardo Reis de
Saramago situam-se em campos opostos. Em Saramago, o Pessoa histórico é
respeitado; em Cesariny, é subvertido. Assim, através desses procedimentos - adulterações de
poemas pessoanos e depoimentos apócrifos nas vozes de Pessoa e Álvaro de
Campos -, O Virgem Negra sugere,
de modo oblíquo, divergente e transgressivo: - Uma reavaliação de integrantes “menores” de Orfeu,
como Raul Leal; - A discussão da sexualidade (ou sua sublimação, ou
supressão) em Pessoa; - Algo como uma natureza íntima de Pessoa, importante na gênese
e para a melhor compreensão de sua obra, seu caráter de “saloio”,
“aldeão”; - O exame da relação de Pessoa com esoterismo e ocultismo
em geral, e com Crowley em especial. Este tópico corresponde a duas das passagens de O
Virgem Negra, conforme já visto. Há um relato, ou sub-enredo, tratando
da relação entre Pessoa e Crowley. E, nas passagens finais, é o presumível
fantasma de Álvaro de Campos que intervém na conferência de João Gaspar
Simões para voltar a falar sobre o “Master Therion”. É como se fosse
sugerida uma variante ao que Yvette K. Centeno afirma sobre esoterismo em
Pessoa: Correndo
o risco de escandalizar, direi mesmo que mais que poeta Fernando Pessoa foi
um filósofo hermético, consciente e assumido. A prática da poesia, no seu
caso como no dos trovadores influenciados pelo maniqueísmo, foi uma prática
mística e não apenas literária, ao contrário do que se tem julgado. Só
a leitura da documentação em que ele se debruça sobre as doutrinas iniciáticas
nos permite ajuizar do peso que para ele têm. João Gaspar Simões, em sua biografia de Pessoa, já havia
examinado o esoterismo e a iniciação em Pessoa; mas, em certa medida,
reduzindo sua importância, ao tratá-los como simulação. Em toda uma
bibliografia recente, o assunto é reexaminado. Um exemplo é o trecho
citado de Yvette K. Centeno, além das contribuições de Antonio Quadros,
Dalila Pereira da Costa (a meu ver, com um viés católico), e,
principalmente, do ensaio-dossiê O Mistério da Boca-do-Inferno, de Victor Belém,
[10] que, no meu entender, esclarece de modo definitivo as dúvidas
sobre a relação Pessoa – Crowley e a simulação de suicídio deste último
(com a participação ativa de Pessoa). A informação coletada e
apresentada por Victor Belém coincide perfeitamente com o que Cesariny
subentende e sugere a respeito em O
Virgem Negra, e corrobora sua acusação dirigida a Simões e Casais
Monteiro, de distorcerem o exame dessa questão em seus estudos pessoanos. Interessa deter-se na irrupção de Crowley em O
Virgem Negra, por aquele mago haver proposto a magia
da transgressão. Cesariny
valer-se dessa expressão pode ser entendido como alusão à transgressão
no sentido que o termo adquiriu a partir de Georges Bataille, que o associou
ao compromisso que a literatura teria com o Mal, conforme é dito em A Literatura e o Mal. As expressões “transgressão” e
“transgressivo” acabaram por tornar-se chavão e moeda corrente, através
da utilização abusiva em crítica literária e na imprensa em geral. Aplicá-las
a O Virgem Negra equivale a resgatá-las
no sentido correto. Ainda mais associadas a Crowley, metáfora viva da
transgressão, no sentido dado por Bataille. Mesmo que inexista registro de Bataille haver tomado
conhecimento de Crowley, ambos têm, comprovadamente, um fundamento em
comum, o gnosticismo dissoluto. Dispenso-me de ampliar aqui o exame do
gnosticismo em Bataille, bem comentado em um ensaio recente de Eliane Robert
de Morais, [11] pois isso equivaleria a
abrir um novo campo, afastando-me do tema em exame. Mas o gnosticismo
neo-platônico é evidente em Pessoa, conforme observado aqui (a propósito
de O Último Sortilégio), e também em ensaios como o recente Pessoa
e a visão gnóstica do tempo,
de Armando Nascimento Rosa.
[12] Cabe mencioná-lo, pelo seguinte: Cesariny não apenas examina e comenta
neo-platonismo e gnosticismo em Pessoa, mas sugere vínculos com essa
aparente confluência de licenciosidade e misticismo, o gnosticismo
dissoluto. Conforme se vê, O
Virgem Negra é substancioso, pelo que sugere e subentende. No plano do
conteúdo, contém interpretações da vida e obra pessoana, e idéias sobre
a relação entre literatura e vida, a esfera simbólica e aquela do
“real”. No plano formal, suas 156 páginas ofereceriam material para
ilustrar e discutir uma série de contribuições das teorias literárias à
compreensão da sátira e paródia, e, ainda, da inter, intra e hiper
textualidade, bem como da polifonia, dialogismo e carnavalização. Insistindo no caráter híbrido de O Virgem Negra, os poemas, ou pseudo-poemas pessoanos que preenchem
quase toda a segunda parte são, obviamente, paródias, assim como sua
classificação como texto dialógico também é evidente, já que a paródia
é, no mínimo, o contraste de dois textos, portanto de duas vozes.
Lembrando as definições propostas por Linda Hutcheon,
[13] o prefixo para
significa contra-canto, e tem dois sentidos: de oposição
entre dois textos, onde um ridiculariza o outro, e ao longo de, assim sugerindo
acordo ou intimidade, em vez de contraste. Portanto, são paródicas as
auto-referências, os comentários e intervenções metalinguísticas, assim
como as utilizações de textos alheios, recontextualizando-os. Daí vem uma
característica especialmente interessante da paródia, sua ambigüidade ou
ambivalência; isso, lembrando também o modo como Kristeva utiliza a noção
de ambivalência em seu conhecido
estudo sobre polifonia e intertextualidade, Por
uma semanálise.
O
Virgem Negra apresenta essa duplicidade ou ambigüidade. Não lança
nenhuma dúvida quanto a Pessoa ser autor referencial. Mesmo assim, é paródia
revolucionária, iconoclasta, ao atacar, não só Pessoa, mas os epígonos e
diluidores pessoanos. Faz parte de um acerto de contas de Cesariny, iniciado
com Louvor e simplificação de Álvaro
de Campos, e que ainda seria crescido, em Nobilíssima
Visão de 1991, com um poema intitulado Pastelaria,
debochando de Tabacaria. No entanto, semelhante exame, à luz dessas contribuições
da teoria literária, pode fazer com que se perca de vista o que O
Virgem Negra tem de específico e original. Uma linha de análise como
aquela empreendida em Uma Teoria da Paródia de Hutcheon, ao comparar obras e autores
distintos, também os equipara. Mesmo respeitando a intenção das obras, em sua visão pragmática (nisso diferindo dos
formalistas), pode ocultar diferenças, em lugar de destacá-las; ainda mais
ao abrigá-las sob o rótulo de pós-modernidade. O mesmo vale para a
mobilização dos conceitos bakhtinianos de polifonia e dialogismo.
Demonstrar que O Virgem Negra é obra polifônica e dialógica, depois do que já
foi observado, seria chover copiosamente no molhado. Pode ser mais produtivo examinar O Virgem Negra como sátira. Sendo intertextual, a paródia também
tem uma dimensão extra-textual, na medida de sua intencionalidade. Portanto, confunde-se com a sátira. E o flagrante
achincalhe, seja pelas referências à vida sexual de Pessoa, seja pelo modo
como são adulterados alguns de seus poemas, situa-os em uma região de
encontro de sátira e paródia. Talvez em um limite da paródia, ou além
desse limite. Cabe, também, sua denominação como carnavalização
pornográfica do texto pessoano (Martins, op. cit), por ser próximo de
um discurso do baixo corporal
bakhtiniano, em antinômicas auto-relações sexuais (idem). Temos então, pensando O
Virgem Negra como sátira, uma leitura menos formalista, mais coerente
com a intenção do próprio Cesariny. É preciso lembrar a combatividade do
surrealismo, que sempre se apresentou como movimento contra
algo: a ordem estabelecida, no plano mais geral, a narrativa realista, no
plano literário. E, de modo mais específico ainda, os ataques diretos do
surrealismo contra celebridades literárias, a exemplo do manifesto Un cadavre, contra Anatole France, que provocou escândalo nos anos
20, bem como o tratamento dado a Paul Claudel, a intervenção na homenagem
a Saint-Pol-Roux de 1925, entre outras. Martins também acrescenta algo
ao associar paródia a humor negro, apresentado como contribuição
especificamente surrealista: Para além da centralidade da técnica
surrealista do humor negro, a importância da escrita paródica, ao nível
da doutrinação e da prática poética dos surrealistas, é explicitamente
referida por vários críticos. De fato, O Virgem Negra ilustra o
humor negro, tal como examinado na Anthologie de l’humour noir de
Breton [14] e por ele definido como revolta
superior do espírito. A transcrição de Crowley em
O Virgem Negra representa um
perfeito encontro de paródia e humor negro, pelo selvagem ritual de magia
negra nelas descrito. Mas com uma
ressalva (com relação aos comentários de Martins): o humor negro não só
engloba sátira e paródia, mas extrapola, vai além da paródia,
contrastando com sua função construtiva. As duas modalidades
diferem no que o humor negro tem de intrinsecamente perverso e destrutivo.
Tanto é, que na antologia de Breton figura com destaque o Marquês de Sade,
cuja obra tem pouco a ver com paródia, bastante com sátira, mas a
ultrapassa. Postular a crueldade como fundamento da ordem natural das coisas
é sátira a Rousseau, ao Iluminismo, ao cristianismo, etc; mas,
principalmente, é um pensamento filosófico e político autônomo, do qual
operações textuais e a mobilização de recursos literários são uma
conseqüência. Cesariny não escreveu O
Virgem Negra com o propósito de fazer exercícios textuais, algum modo
de “experimentação”, mas com alvos definidos. Estes, conforme já
observado, são a oficialização de Pessoa e sua conseqüente normalização,
empreendida, no entender dos surrealistas portugueses, pelos integrantes da
geração Presença. Portanto, João
Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro seriam, mantido o paralelo com o
surrealismo francês, os Anatole France e Paul Claudel de Cesariny. Isso,
desde 1946, época da formação do primeiro grupo surrealista português e,
coincidentemente, de seus primeiros panfletos contra Simões. O projeto de reexame de Pessoa é evidente em Cesariny,
desde Louvor e Simplificação de Álvaro
de Campos, escrito em 1946 e
publicado em 1953, que visava aos
…festejos com uma bela ligação de girândolas, das quais virão a sair
grandes fichas obnóxias com o seguintes dizeres: Poetas Pataratas: Fernando
Pessoa, Rainer Maria Rilke, etc., etc., e etc. – Poetas Muito Bons e de
Muito Juizinho: este, aquele, aqueloutro. É como se avisasse que ainda
faria algo com a virulência de O
Virgem Negra, ao se dispor a “Simplificar”
Fernando Pessoa tomando de empréstimo algo de sua linguagem, e reduzi-lo ao
voto de um barco para o Barreiro. Adotando o tom das odes de Álvaro de Campos, Cesariny
contrapõe Sá-Carneiro a Pessoa em Louvor
e Simplificação… Apresenta-o como personagem mais autêntico, pela
marginalidade e suicídio: Com certa
espécie de solidariedade/ lembro-me de ti, Mário de Sá-Carneiro,/ (…)
Fizeste bem, viva Mário!, antes a
morte que isto,/ viva Mário a laçar um golpe de asa e a estatelar-se todo
cá em baixo … Não há porque discordar de Martins, quanto à …assinalável
diferença com que estes dois poetas de Orpheu são re-avaliados ao nível
do intertexto paródico surrealista. Se Pessoa é o poeta que,
intencionalmente, os surrealistas desconstroem, como que para exorcizar o
fantasma de sua sombra ou onipresença paterna e tutelar, Sá Carneiro, não
deixando de ser objeto de várias transformações hipertextuais, é motivo
de in-confessada admiração. A observar em Cesariny, em acréscimo, a
existência de pares simétricos de poetas. Há um par Pessoa – Sá
Carneiro em Louvor e Simplificação…,
apenas sugerido em O Virgem Negra
através de referências a Sá-Carneiro em sua primeira parte; no entanto,
aparece, como se fosse sua versão grotesca, o par Pessoa – Raul Leal. E,
no plano histórico, o par Cesariny – António Maria Lisboa, este também
poeta de enorme talento, morto muito jovem. Sempre, portanto, um poeta
marginal, “maldito”, e outro que, em vida ou através da obra,
transcendeu essa condição. É como se ocorressem repetições, em
diferentes versões, de uma relação como a de André Breton e Jacques Vaché. Poderia O Virgem
Negra decepcionar ou surpreender a quem procura um “estilo”
surrealista? Quando se fala em poesia surrealista, vêm à lembrança, em
primeiro lugar, exemplares de uma lírica como a de Union
Libre de Breton, que termina assim: …Minha
mulher com sexo de alga e de bonbons antigos/ Minha mulher com sexo de
espelhos/ Minha mulher com olhos cheios de lágrimas/ Com olhos de panóplia
violeta e de agulha imantada/ Minha mulher com olhos de savana/ Minha mulher
com olhos de água para beber na prisão/ Minha mulher com olhos de lenha
sempre sob o machado/ Com olhos de nível de água de nível de ar de terra
e de fogo. É certo que sátira, paródia e jogos intertextuais, além
daqueles com homofonias ou aliterações, também fizeram parte da produção
surrealista, principalmente nos anos 20, com Robert Desnos e Benjamin Péret.
E as pilhagens, adulterações e reescrituras de outros textos têm sua notória
raiz nas Poesias de Lautréamont.
Em Cesariny, podem ser entendidas, ainda, como exacerbação de um diálogo
com outros autores, patente em sua contribuição como tradutor de Rimbaud
(com a invenção do esdrúxulo título Uma
cerveja no inferno) e Artaud, entre outros. Mas o surrealismo português, em sua especificidade e
excentricidade, acabou por tomar rumos próprios no plano da criação literária.
Isso é bem assinalado por Martins, assim como por Perfecto E. Cuadrado no
prefácio de sua antologia do surrealismo português A única real tradição viva, [15]ao
falar dos seus procedimentos. Em suas palavras, ao
Surrealismo português se deve um trabalho de recuperação de formas e
sentidos - perdidos ou marginalizados - típicos da poesia popular e de
algumas correntes específicas da poesia culta tradicional. Por isso, a
subversão desde o texto acabaria, assim, numa subversão do próprio texto,
incluindo não só a escrita automática, jogos como o cadáver delicado
(ou, como preferiram os portugueses, cadáver exquisito),
as perguntas e respostas (sem que um soubesse o que o outro perguntava), o um
no outro, porém, indo além, as adulterações e apropriações de
textos alheios, remontando-os, descontextualizando-os e fundindo-os. Em Cesariny, O’Neill, e demais autores associados ao
surrealismo português, observa-se esse trânsito, da escrita poética de
imagens e associações livres, passando pela sátira e pela paródia, até
a pilhagem de outros autores. Foram exímios demolidores do chavão, da
frase feita, da idéia recebida, de um estilo que viam como tipicamente
português, associando-o ao conformismo e arcaísmo lusitanos. Utilizando os termos propostos por Octavio Paz, em Os
Filhos do Barro, [16] para caracterizar
Romantismo e rebelião romântica, a saber, analogia e ironia, pode-se
afirmar que, enquanto o surrealismo francês, matricial, pendeu mais para o
pólo da analogia, o surrealismo português, mesmo apresentando também uma
lírica notável, evidenciou mais o pólo da ironia. Mas com o que rompe O
Virgem Negra, e a que dá ele continuidade? Em primeira instância, é
obra de ruptura com a transformação de Pessoa em cânone, sua oficialização,
justificando epígonos e imitadores. Mas continua a tradição picaresca,
remontando, inclusive, a uma modalidade que prosperou em Portugal, a cantiga
de escárnio e maldizer. No entanto, Octavio Paz possibilita uma resposta melhor à
pergunta sobre ruptura e continuidade, ao falar, em Os Filhos do Barro, em tradição
da ruptura, superando a dualidade dos temos tradição e ruptura ao deixar de tomá-los como par de opostos: … Ao dizer que a
modernidade é uma tradição, cometo uma ligeira inexatidão: deveria ter
dito outra tradição. A modernidade é uma tradição polêmica e que
desaloja a tradição imperante, qualquer que esta seja; porém desaloja-a
para, um instante após, ceder lugar a outra tradição que, por sua vez, é
outra manifestação momentânea da atualidade. A modernidade nunca é ela
mesma: é sempre outra. (…)
Tradição do moderno: heterogeneidade, pluralidade de passados, estranheza
radical.
Recorrendo de novo a Octavio Paz, é possível acrescentar
mais uma interpretação de O Virgem
Negra, como metáfora da própria criação poética, da leitura, e da
relação entre ambas, neste período final, mais dinâmico, da modernidade.
Em outras palavras: o que Cesariny faz com relação a Pessoa seria uma
representação do modo como a criação poética ocorre, como leitura,
reaproveitamento, transformação, interpretação e até vocalização de
outro autor: A obra não é um fim em si nem tem uma existência própria: a obra é
uma ponte, uma mediação. A crítica do sujeito tampouco é equivalente à
destruição do poeta e do artista, mas à noção burguesa do autor. Para
os românticos, a voz do poeta é a voz de todos; para nós é rigorosamente
a voz de ninguém. O poeta não é um “pequeno deus”, como queria
Huidobro. O poeta desaparece atrás de sua voz, uma voz que é sua porque é
a voz da linguagem, a voz de ninguém e de todos. Qualquer que seja o nome
que demos a essa voz – inspiração, inconsciente, acaso, acidente, revelação
– é sempre a voz da outridade. (Paz, op.
cit.) Ao emprestar sua voz àquela do fantasma de Pessoa, de ninguém
e do outro, é como se Cesariny
pretendesse realizar essas idéias. Concluindo, O Virgem Negra
traz à tona a conexão entre arte e vida, habitualmente descartada pelo
academicismo formalista. Falar de obras, sem referir-se também a autores e
suas intervenções e conflitos, é trair um pressuposto do surrealismo, que
jamais admitiu a dissociação entre o escrito e o vivido, a criação e o
sujeito criador, ética e estética. A unidade surrealista de poesia e vida, seu propósito de
superar a contradição entre o real e o simbólico, entre ação e sonho (Breton), foi tema de comentários meus, entre
outras ocasiões em artigo sobre a antologia de Perfecto Cuadrado.
[17] Em seu prefácio, é citado um depoimento de Cesariny, lembrando
as atividades fortes e jovens no Café
Herminius: ações e situações, dizia eu, que podiam muito bem, se
inventadas em vez de acontecidas, figurar em algum texto de escrita automática,
dentre tantos que os participantes daquelas reuniões produziram. Também já havia invocado O Virgem Negra, e proposto uma interpretação nesta chave da relação
entre poesia e vida, em outra ocasião, em artigo na revista Cult,
[18] questionando a crítica de orientação formalista e a exclusão
do biográfico em estudos literários. Observava como a defesa do biográfico,
a personalização de questões literárias, havia sido feita de modo paroxístico
por Waly Salomão, em debate transcrito na revista literária Babel.
[19] Por exemplo, nesta provocação: Kavafis nunca recebeu um Prêmio
Nobel! Toda a vida dele ele escreveu foi poemas de pegação, de pegação
de rapazes que ele encontrava nas ruas, em bares horrendos! Os poemas de
Kavafis são pequenos lances de pegação, pegação em quartos escuros de
hotéis onde se entra para trepar – TREPAR! E por aí afora, em
passagens que parecem ecoar as referências ao sublimado ou reprimido em
Pessoa por Cesariny. Tais afirmações, ao pé da letra, seriam redutoras,
além de depreciarem Kavafis. Mas o propósito do poeta tropicalista não
foi desqualificar o poeta grego, porém questionar, valendo-se do exagero, a
dissociação acadêmica entre poesia e vida, o desconhecimento do biográfico
a pretexto de examinar a literatura em sua autonomia. Algo semelhante,
observava nesse artigo, ao que Cesariny fez em O
Virgem Negra, aparentemente tripudiando
sobre a memória de Pessoa, para mostrar que poesia é feita por gente de
carne e osso, e não uma escritura em abstrato, um fenômeno exclusivamente
textual. A crítica de Waly a um tipo de poeta que é
totalmente biônico, fabricado nos departamentos de letras das
universidades, absolutamente despido de qualquer experiência e se
vangloriando disso. Meras estações repetidoras de esquemas, de
professores, de departamentos de Letras é correlata (prosseguindo minha argumentação no artigo da Cult)
ao que outro poeta contemporâneo, Roberto Piva, disse neste poema: Dante/
conhecia a gíria/ da Malavita/ senão/ como poderia escrever/ sobre Vanni
Fucci?/ Quando nossos/ poetas/ vão cair na vida?/ Deixar de ser broxas/
para serem bruxos? [20]
É esta - a Malavita – a tônica dominante em O Virgem Negra,
em seu ímpeto dessacralizador, iconoclasta, fiel ao espírito do
surrealismo. NOTAS 1. Segunda edição, revista e aumentada, Assírio &
Alvim, Lisboa, 1996. |
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Claudio Willer (Brasil, 1940) é um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Fernando Casás (Galiza). |