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revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004 |
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Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual Alberto Beutenmüller
Octavio Paz, no prólogo de Marcel Duchamp o el Castillo
de la Pureza, no Brasil editado sob título Marcel Duchamp
ou o Castelo da Pureza, editora
Perspectiva, coleção Elos, em tradução de Sebastião Uchoa Leite, diz
haver encarnações e profecias em Picasso, quando o compara
com as necessidades urgentes do século 20. E Paz conclui sobre Picasso:
“Encarnações: em suas telas e em seus objetos o espírito moderno se
torna visível e palpável; profecias: em suas mudanças nosso tempo só
se afirma para negar-se e só se nega para inventar-se e ir mais além de
si. Não um precipitado de tempo puro, não as cristalizações de Klee,
Kandinsky e Braque, mas o próprio tempo, sua urgência brutal, a iminência
imediata do agora”.
Por que a escolha desses dois artistas neste ensaio? Porque
são parâmetros, pólos opostos e limites de todos artistas do século
20, além de precursores da criação artística do século 21 e a crise
que recém se instalou nas artes visuais de linguagem contemporânea.
Voltemos aos dois gênios. Picasso é o artista do devir e o que está passando, a um
só tempo, do hoje e o arcaico, o artista que mudou tudo para que tudo
restasse no mesmo lugar. O artista veloz que se permite ser do século 20
e de todos os séculos, sem deixar de ser do agora. Picasso foi um
movimento que se fez pintura, mais que todas as escolas do século 20; foi
e é o pintor-tempo. A pintura de Duchamp, ou sua retarde, é de análise, de
decomposição, o reverso do artista veloz. Se as figurações de Picasso
saltam veloz do espaço imóvel da tela; nas obras de Duchamp o espaço
caminha e se incorpora, e finda como máquina filosófica e hilária, e
com ironia refuta todo e qualquer movimento com o retardamento. Como
conclui Paz, a metalinguagem de Duchamp baseia-se na metaironia.
Picasso foi artista de fecundidade rara e inesgotável,
enquanto as raras telas de Duchamp não passam de meia centena, criadas em
menos de dez anos, depois disso foi jogar xadrez e tornou-se mestre, um
fato raro para quem começou a jogar tardiamente, como foi o seu caso. O que Duchamp produziu, depois de 1913, ao deixar a
pintura-pintura pela pintura-idéia, foi o início de um conceito novo de
arte – a antiarte. A partir daí, Duchamp criou uma obra sem obras. Não
há mais telas, mas objetos, como o Grande Vidro ou La Mariée
mise a nu par ses celibateires, même
– que é instalação, a primeira que se tem notícia, abandonada em
1923, sem terminar. Antes disso, Duchamp criou os ready-mades, objetos
industriais dos quais se apossou e os indicou como obras de arte. Havia os
ready-mades assistidos, nos quais interferia, como a roda de bicicleta, na
qual pôs um banco como suporte; e havia ready-mades plenos, aqueles que
sua mão sequer tocou. Depois disso, alguns gestos esporádicos e um
profundo silêncio.
Se Picasso usou da paranóia para destruir a forma, Duchamp
destruiu a definição de arte de maneira esquizofrênica, sem deixar
margem a qualquer tipo de reconstrução. Nestes dois criadores do século
20 está o cerne da crise por que passa a arte hoje, seja a pintura, seja
a instalação, sejam os novos meios de produzir arte. Duas definições de arte foram destruídas; a de Hegel: arte é a manifestação do espírito que o próprio espírito vem a superar; e a de Heidegger: arte é a projeção da verdade do ser, como obra. Em nenhuma dessas duas definições cabe a arte dita contemporânea. |
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Alberto Frederico Beuttenmüller (Brasil, 1935). Crítico
de arte, escritor e jornalista. Membro da Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA). Autor de Críticos x Artistas (1983), Três
Coloristas - Volpi, Ianelli e Aldir (1986) e Viagem pela Arte
Brasileira (2003). Contato: fredmuller@uol.com.br.
Página ilustrada com obras do artista Júlio Resende (Portugal). |