Editorial
Perspectiva
& realidade, onde a arte do precário?
Quando desaparecem nossos traços fisionômicos? A
quantos metros de profundidade o homem pode vir a tornar-se um fruto
do mar? Será mesmo a pressão atmosférica o grande condutor de uma
feira de avatares? Vejam só a fértil incongruência de nossa obsessão
pela classificação: dizer que Antonin Artaud aos poucos foi se
parecendo com um índio tarahumara. Sim, isto disse certa vez (1976)
Jean-Clarence Lambert. E quando são fantasmais e amorfas nossas
identificações mais perenes, com qual cara ficamos? Até que ponto a
fisionomia é nossa afirmação de ser? Quais os traços fisionômicos
de malucos tão diversos entre si como Fernando Pessoa e Frank Zappa?
Como reconhecer o rosto de uma cultura visitando o empório
de transfigurações, o grande evento de horrores patrocinado por
todos os estados e com a gentil conivência da mídia em suas instâncias
mais gelatinosas? Acaso já nos desfiguramos de todo e agora estamos a
confundir peças de quebra-cabeças distintos? Até que ponto haverá
um festim de antinomias em nossa relação com o mundo? Qual o traço
fisionômico do povo iraquiano ou do nordestino do Brasil? Haverá
acaso uma maneira mais requintada de condenar o indivíduo? Qual a
fisionomia perdida de um Mano Brown, quando diz que não importa a razão
da pena mas que todo aquele que está preso tem que se concentrar
apenas em fugir?
O conceito de liberdade confunde-se hoje com o de bazófia.
Por um golpe de ilusionismo publicitário já não sabemos se estamos
dentro ou fora. A depender do patrocinador? Que espécie de cultura
fomenta o Estado? Como lidam as leis de incentivo à cultura com a
eminente deformação dessa mesma cultura? Não nos excedemos em
perguntas? Todos sonhamos com respostas, é a casa predileta de nossos
lugares-comuns. Um desmedido de fisionomias prontas para todas as
necessidades. Um museu de tudo sem depois, lembrando o
museu de João Cabral sobretudo pelo fato de que nada ali “chega ao
vertebrado / que deve entranhar qualquer livro: / é depósito do que
aí está, / se faz sem risca ou risco”.
Já não temos do que reclamar, do desaparecimento de
nossos traços fisionômicos, da conversão a equinodermos, enterrados
na lama, mas felizes pelo fato de que boca e ânus nos são ainda
extremos. Ah o homem convertido em equinodermo é uma felicidade
extrema no empório das contradições terríveis, quando um
pepino-da-terra passa a ser um pepino-do-mar, ainda que seu habitat
seja comum de dois gêneros: a lama. As metáforas estão em festa:
quais os traços fisionômicos de alguém que não crê em si? Como
indagava Juan Sánchez Peláez, que vocábulo nos põe em contato com
o mundo? Com que terrível falsidade, em alguns momentos, nós somos tão
sinceros?
Uma cultura não se desgoverna no outro, mas sim em nós.
Em cada um de nós. Quantos ingressos nós seguimos comprando para um
mesmo circo de pulgas? Confundem-se viagem e bagagem. Há uma alfândega
existencial determinando o que devemos levar conosco, em metros de
profundidade ou em traços fisionômicos. Se não compreendermos isto,
não adianta manifestar repúdio a distintas formas de governo,
sentir-se ativo contestador de incoerências, uma figura túrgida a
adorar a si mesma. Afinal, haverá algo mais precário do que a
realidade?
Os editores |