Júlio Resende (Portugal) Agulha - Revista de Cultura Júlio Resende (Portugal)

 

revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004

Júlio Resende (Portugal)

Editorial
Perspectiva & realidade, onde a arte do precário?

Quando desaparecem nossos traços fisionômicos? A quantos metros de profundidade o homem pode vir a tornar-se um fruto do mar? Será mesmo a pressão atmosférica o grande condutor de uma feira de avatares? Vejam só a fértil incongruência de nossa obsessão pela classificação: dizer que Antonin Artaud aos poucos foi se parecendo com um índio tarahumara. Sim, isto disse certa vez (1976) Jean-Clarence Lambert. E quando são fantasmais e amorfas nossas identificações mais perenes, com qual cara ficamos? Até que ponto a fisionomia é nossa afirmação de ser? Quais os traços fisionômicos de malucos tão diversos entre si como Fernando Pessoa e Frank Zappa?

Como reconhecer o rosto de uma cultura visitando o empório de transfigurações, o grande evento de horrores patrocinado por todos os estados e com a gentil conivência da mídia em suas instâncias mais gelatinosas? Acaso já nos desfiguramos de todo e agora estamos a confundir peças de quebra-cabeças distintos? Até que ponto haverá um festim de antinomias em nossa relação com o mundo? Qual o traço fisionômico do povo iraquiano ou do nordestino do Brasil? Haverá acaso uma maneira mais requintada de condenar o indivíduo? Qual a fisionomia perdida de um Mano Brown, quando diz que não importa a razão da pena mas que todo aquele que está preso tem que se concentrar apenas em fugir?

O conceito de liberdade confunde-se hoje com o de bazófia. Por um golpe de ilusionismo publicitário já não sabemos se estamos dentro ou fora. A depender do patrocinador? Que espécie de cultura fomenta o Estado? Como lidam as leis de incentivo à cultura com a eminente deformação dessa mesma cultura? Não nos excedemos em perguntas? Todos sonhamos com respostas, é a casa predileta de nossos lugares-comuns. Um desmedido de fisionomias prontas para todas as necessidades. Um museu de tudo sem depois, lembrando o museu de João Cabral sobretudo pelo fato de que nada ali “chega ao vertebrado / que deve entranhar qualquer livro: / é depósito do que aí está, / se faz sem risca ou risco”.

Já não temos do que reclamar, do desaparecimento de nossos traços fisionômicos, da conversão a equinodermos, enterrados na lama, mas felizes pelo fato de que boca e ânus nos são ainda extremos. Ah o homem convertido em equinodermo é uma felicidade extrema no empório das contradições terríveis, quando um pepino-da-terra passa a ser um pepino-do-mar, ainda que seu habitat seja comum de dois gêneros: a lama. As metáforas estão em festa: quais os traços fisionômicos de alguém que não crê em si? Como indagava Juan Sánchez Peláez, que vocábulo nos põe em contato com o mundo? Com que terrível falsidade, em alguns momentos, nós somos tão sinceros?

Uma cultura não se desgoverna no outro, mas sim em nós. Em cada um de nós. Quantos ingressos nós seguimos comprando para um mesmo circo de pulgas? Confundem-se viagem e bagagem. Há uma alfândega existencial determinando o que devemos levar conosco, em metros de profundidade ou em traços fisionômicos. Se não compreendermos isto, não adianta manifestar repúdio a distintas formas de governo, sentir-se ativo contestador de incoerências, uma figura túrgida a adorar a si mesma. Afinal, haverá algo mais precário do que a realidade?

Os editores

Júlio Resende (Portugal)

Sumário

1 ciência e surrealismo. stella guedes
2 conversación con mario maffioli y fábio herrera: dos exponentes de la pintura contemporánea. alfonso peña
3
corpo desejante em tintas fugidias: percursos poéticos na pintura de ívano soares. mirian de carvalho
4 heidegger e artaud: o percurso da angústia. wilson coêlho
5 juan calzadilla: un artista integral. franklin fernández
6 la ciudad para lorca y rimbaud: visiones de un poeta. federico rivero scarani
7 mimmo rotella: estampas de quietud y silencio. miguel ángel muñoz
8 nicolau saião: intervalos entre palavras (entrevista). floriano martins
9 o tempo / o espaço / a arte: vicissitudes contemporâneas. leila longo
10
picasso versus duchamp e a crise da arte atual. alberto beutenmüller
11 poesia completa, de cecília meireles: a edição do centenário. antonio carlos secchin
12 relatos da origem: o pensamento de vicente ferreira da silva. rodrigo petronio
13 roberto matta: al año de su muerte, 23 de noviembre del 2002. jorge leal labrín
14 saramago e drummond: o verdadeiro senhor dos arquivos. maurício matos
15 surrealismo e marxismo? (seguido de comentários sobre surrealismo no brasil). claudio willer

artista convidado júlio resende (pintura) texto de rosa alice branco
livros da agulha contador borges, carlos barbarito (por guillermo fernández), josé castello (por leyla perrone-moisés), manuel bandeira (por adelto gonçalves), adriano espínola (por ricardo vieira lima), alfredo fressia, henrique komatsu, miguel ángel muñoz (por josé hierro) & celso de alencar
galeria de revistas (artigos & entrevistas)

Júlio Resende (Portugal)

Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (pintura)
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