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revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004 |
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Ciência e Surrealismo Stella Guedes
Como também informo
nesse texto de apresentação, o livro sobre a salamandra ibérica,
“Carbonários: Chiogloça
lusitanica” (Edições Contraponto, Palmela, 1998), em que tive Nuno
Marques Peiriço como co-autor, foi considerado surrealista. O autor da crítica,
António Cândido Franco, não revela os motivos que o levaram a tal
classificação, mas é fácil enumerar dois ou três mais importantes: 1º - O surrealismo tem
uma vertente esotérica, manifesta na língua das aves em vários autores.
Essa língua das aves, ou discurso das gralhas, tem sido o meu objecto de
estudo desde há alguns anos, no corpus
da História Natural. Em “Carbonários” é de gralhas que
sobretudo trato, e apresento uma antologia de citações gralhadas sobre a
salamandra, coligidas em muitos naturalistas. 2º O surrealismo é um
movimento de combate, que pratica a subversão, e essa antologia gralhada,
incluída no livro sobre a salamandra, é violentamente subversiva. 3º Pelo recurso às
fontes oníricas e prática da escrita marginal às grilhetas da razão, o
texto surrealista é estranho, surpreendente, desconcertante. “Carbonários”
é um livro desconcertante, surpreendente, estranho, sobretudo por serem
os naturalistas, mais do que eu e Nuno Marques Peiriço, a escrevê-lo.
A literatura conhece
muito bem os pseudónimos. Aliás, a ciência também. No século XVIII,
por exemplo, período árcade, o das academias ou arcádias, todos os
intelectuais usavam nome literário. É o caso de Elmano Sadino, Elmiro
Tagideo, Filinto Elísio, Cenáculo ou Brotero. Estes exemplos não se
relacionam com os nomes gralhados, que são diverso dispositivo retórico,
ainda que um nome gralhado possa tornar-se a principal identificação,
como suponho que terá acontecido com o naturalista luso-brasileiro José
Bonifácio Andrada/Andrade e Silva. Eu já usei pseudónimos,
como Luna Levi, que assina o livro “SO2”, publicado na
Guimarães Editores, e hoje uso nicks, tenho emails com nomes supostos,
mas nada disto se relaciona com gralhas, no sentido em que falo de gralhas
no discurso científico. Já poderá relacionar-se com o “efeito
Pessoa” de que se ocupou Pedro de Andrade no V Colóquio Internacional
“Discursos e Práticas Alquímicas” (em linha no TriploV). Nos últimos
dias tenho-me sentido outra pessoa, nasci noutra zona do meu percurso
intelectual, ou fui iniciada, para usar a terminologia esotérica. Por
isso marquei o meu nome, e agora, sim, o antropónimo está gralhado no
sentido em que tenho vindo a falar de gralhas, códigos secretos e irrupção
do esoterismo no discurso da ciência.
O facto de o Prof.
Gallopim se ter assumido como um dos duplos que têm sido a minha
principal área de estudo nos últimos anos, e não só assumiu o duplo
antropónimo como outras gralhas menos óbvias para os não conhecedores
da matéria sobre a qual publicou os textos, significa apenas que ele sabe
que o discurso da ciência é duplo, que o duplo se exprime na língua das
gralhas, e que há segredos nos textos da ciência que só permitem a
recepção de certo tipo de informações a quem detenha a chave do código.
É isto o que eu também sei, e não chega a ser suficiente.
Não queria maçar-vos
mais, achei oportuno dar-vos esta notícia no quadro de um acontecimento
surrealista, por a ciência, como se nota, ser comunicação híbrida, por
isso irmã gémea da arte, e muito em particular do surrealismo, que aliás
não se quer arte, sim vida em liberdade. Agradeço de todo o coração ao
Prof. Gallopim de Carvalho o facto de ter assumido publicamente o que de
resto sempre foi público, por estar publicado, mas eu não conhecia, e
agradeço-lhe acima de tudo por essa luz ter sido acesa, não na Aula
Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, não no Museu Nacional de
História Natural, sim no TriploV. Obrigada pela vossa atenção,
e desejo-vos Feliz Natal. Maria Estela Guedes |
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Texto lido no lançamento
de Atalaia Intermundos # 10-11 e
12-13, revista Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade
da Universidade de Lisboa, Instituto Rocha Cabral, Lisboa, 19 de dezembro
de 2003. Maria Estela Guedes (Portugal,
1947). Escritora, autora de Herberto Helder, Poeta Obscuro, Crime
no Museu de Philosophia Natural e Eco, Pedras Rolantes.
Investigadora no referido Centro, todo o seu trabalho nesta área está em
linha em http://triplov.com. Dirige o TriploV, sendo ainda co-directora
de Atalaia Internundos. Página ilustrada com obras do artista Júlio
Resende (Portugal). |