revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004






 

Ciência e Surrealismo

Stella Guedes

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Maria Estela GuedesOs textos sobre o surrealismo publicados no número 12-13 da revista Atalaia-Intermundos (CICTSUL), resultam de um frutuoso protocolo de cooperação entre a revista Agulha (www.revista.agulha.nom.br), dirigida por Floriano Martins e Claudio Willer, e o TriploV (em http://triplov.com). O TriploV é um site multidisciplinar, onde é perfeitamente legítima a presença de surrealistas, aliás eu mesma, como digo no texto de apresentação, não rejeito ligações estéticas com o movimento. Porém a relação tem-se estreitado muito mais, não no âmbito da literatura, sim no da ciência.

Como também informo nesse texto de apresentação, o livro sobre a salamandra ibérica, “Carbonários: Chiogloça lusitanica” (Edições Contraponto, Palmela, 1998), em que tive Nuno Marques Peiriço como co-autor, foi considerado surrealista. O autor da crítica, António Cândido Franco, não revela os motivos que o levaram a tal classificação, mas é fácil enumerar dois ou três mais importantes:

1º - O surrealismo tem uma vertente esotérica, manifesta na língua das aves em vários autores. Essa língua das aves, ou discurso das gralhas, tem sido o meu objecto de estudo desde há alguns anos, no corpus da História Natural. Em “Carbonários” é de gralhas que sobretudo trato, e apresento uma antologia de citações gralhadas sobre a salamandra, coligidas em muitos naturalistas.

2º O surrealismo é um movimento de combate, que pratica a subversão, e essa antologia gralhada, incluída no livro sobre a salamandra, é violentamente subversiva.

3º Pelo recurso às fontes oníricas e prática da escrita marginal às grilhetas da razão, o texto surrealista é estranho, surpreendente, desconcertante. “Carbonários” é um livro desconcertante, surpreendente, estranho, sobretudo por serem os naturalistas, mais do que eu e Nuno Marques Peiriço, a escrevê-lo.

Júlio Resende (Portugal)Aquilo a que chamo língua das gralhas é um discurso em que há erros voluntários, que configuram um padrão. Isto é, os erros não são caóticos, embora bastantes sejam apocalípticos (iluminantes e iluminados). Não ocorrem ao acaso, obedecem a regras. Dessas regras já falei muito, quer no ensaio “O gaio método”, escrito também com Nuno Marques Peiriço, quer na série de textos em linha no TriploV com título geral “Ciência e subversão”. De resto, todos os textos de que falo, muitos publicados já em papel, como o que conta a história de Chioglossa lusitânica, estão em linha no TriploV e noutros sites, onde podem ser facilmente consultados. Agora queria apenas falar das gralhas nos antropónimos.

A literatura conhece muito bem os pseudónimos. Aliás, a ciência também. No século XVIII, por exemplo, período árcade, o das academias ou arcádias, todos os intelectuais usavam nome literário. É o caso de Elmano Sadino, Elmiro Tagideo, Filinto Elísio, Cenáculo ou Brotero.

Estes exemplos não se relacionam com os nomes gralhados, que são diverso dispositivo retórico, ainda que um nome gralhado possa tornar-se a principal identificação, como suponho que terá acontecido com o naturalista luso-brasileiro José Bonifácio Andrada/Andrade e Silva.

Eu já usei pseudónimos, como Luna Levi, que assina o livro “SO2”, publicado na Guimarães Editores, e hoje uso nicks, tenho emails com nomes supostos, mas nada disto se relaciona com gralhas, no sentido em que falo de gralhas no discurso científico. Já poderá relacionar-se com o “efeito Pessoa” de que se ocupou Pedro de Andrade no V Colóquio Internacional “Discursos e Práticas Alquímicas” (em linha no TriploV). Nos últimos dias tenho-me sentido outra pessoa, nasci noutra zona do meu percurso intelectual, ou fui iniciada, para usar a terminologia esotérica. Por isso marquei o meu nome, e agora, sim, o antropónimo está gralhado no sentido em que tenho vindo a falar de gralhas, códigos secretos e irrupção do esoterismo no discurso da ciência.

Júlio Resende (Portugal)A questão dos nomes gralhados pode ter explicações várias, consoante os indivíduos, basta pensar nos judeus, que foram obrigados a mudar de identidade, e por isso deviam odiar o novo nome e ainda mais quem a tal os forçara. Acredito que não é pelo facto de o Prof. A.M. Galopim de Carvalho, actual director do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, ser conhecido quer como Galopim, com “l” simples, quer como Gallopim, com duplo “ll”, nas publicações científicas, que terei de o considerar um Barbosa du Bocage com “s”, como alguns escreveram, sabendo que o naturalista fundador do Museu Bocage (secção zoológica do Museu Nacional de História Natural de Lisboa) sempre assinara “Barboza” com “z”. As marcas, ou gralhas nos nomes próprios, transmitem no caso a informação “Eu sei”.

O facto de o Prof. Gallopim se ter assumido como um dos duplos que têm sido a minha principal área de estudo nos últimos anos, e não só assumiu o duplo antropónimo como outras gralhas menos óbvias para os não conhecedores da matéria sobre a qual publicou os textos, significa apenas que ele sabe que o discurso da ciência é duplo, que o duplo se exprime na língua das gralhas, e que há segredos nos textos da ciência que só permitem a recepção de certo tipo de informações a quem detenha a chave do código. É isto o que eu também sei, e não chega a ser suficiente.

Júlio Resende (Portugal)

Não queria maçar-vos mais, achei oportuno dar-vos esta notícia no quadro de um acontecimento surrealista, por a ciência, como se nota, ser comunicação híbrida, por isso irmã gémea da arte, e muito em particular do surrealismo, que aliás não se quer arte, sim vida em liberdade. Agradeço de todo o coração ao Prof. Gallopim de Carvalho o facto de ter assumido publicamente o que de resto sempre foi público, por estar publicado, mas eu não conhecia, e agradeço-lhe acima de tudo por essa luz ter sido acesa, não na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, não no Museu Nacional de História Natural, sim no TriploV.

Obrigada pela vossa atenção, e desejo-vos Feliz Natal.

Maria Estela Guedes

Texto lido no lançamento de Atalaia Intermundos # 10-11 e 12-13, revista Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa, Instituto Rocha Cabral, Lisboa, 19 de dezembro de 2003. Maria Estela Guedes (Portugal, 1947). Escritora, autora de Herberto Helder, Poeta Obscuro, Crime no Museu de Philosophia Natural e Eco, Pedras Rolantes. Investigadora no referido Centro, todo o seu trabalho nesta área está em linha em http://triplov.com. Dirige o TriploV, sendo ainda co-directora de Atalaia Internundos. Página ilustrada com obras do artista Júlio Resende (Portugal).

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