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revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004 |
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O tempo / o espaço / a arte: vicissitudes contemporâneas Leila Longo
A
modernidade, como todas as épocas progressistas,
privilegiou o futuro. Outras épocas, como a da decadência de Roma ou a da
Renascença, enfatizaram preferencialmente o presente. Michel Maffesoli I.
Nosso conhecimento inicial do tempo provinha de narrativas
orais ou escritas, como uma forma “contar” o tempo. Criado
discursivamente por força de desejo da comunidade, o passado era o
norteador das leis do presente; o futuro se deveria construir certamente a
partir dessa base. A tradição era um modo de integrar a monitoração da ação
com a organização espaço-temporal da comunidade. O tempo, uma vez articulado ao discurso ou às narrativas
em geral, apresenta dois aspectos: a “história inventada”, para consumo
e entretenimento, já que seu objeto é a imaginação e não a realidade; e
a História, tão cara aos modernos, para narrar e explicar um discurso cuja
verdade lhe é exterior. Na tradição grega, desenvolve-se uma mitologia do Tempo (Chronos)
ligado à Memória (Mnemosýne), sua irmã. A experiência humana do
tempo - força de destruição -, se ligada à memória, pode fornecer a
ilusão de permanência. O poderoso Tempo é anterior aos deuses olímpicos.
Na Teogonia, por exemplo, Hesíodo relata que a Terra (Gaia) e o Céu
(Uranos) geraram o Tempo (Chronos),
pai de Zeus, e a Memória (Mnemosýne). Ao lado da Memória está seu par antitético: o Esquecimento,
(Léthe). A Verdade (Alétheia)
é a ansiedade de um a memória obcecada pelo Esquecimento, pois Léthe
é filha da noite. Portanto, a construção do Tempo humano privilegia a Memória
como uma conquista progressiva do homem tanto de seu passado individual,
como do passado coletivo do grupo social. A
Memória não só não reconstrói o Tempo com também não o anula: sua função
é estabelecer uma ponte entre o passado e o presente. A Memória provocará
uma transmutação da experiência temporal: a rememoração do passado tem
a contrapartida de "esquecer" o presente. A rememoração põe fim
ao tempo fugaz e intangível, à sucessão infinita de ciclos. O exercício
da Memória torna-se salvação e libertação em relação ao devir e à
morte. Em compensação, o esquecimento, estreitamente ligado ao tempo
humano, é o tempo da condição mortal cujo fluxo não se detém. A unidade
e a perenidade representam uma negação radical do tempo humano, marcado
pela instabilidade, destruição, esquecimento e morte. A ação humana
implica necessariamente a aceitação do tempo: qualquer movimento se serve
do tempo e o toma como meio, pois sempre é possível se organizar no tempo
os meios de atingir os objetivos. No mundo pré-moderno, a conexão entre o tempo e o espaço
é bastante nítida. Todas as culturas de então possuíam maneiras de
calcular o tempo: o calendário, os estados agrários, as estações. O cálculo
do tempo, base da vida cotidiana, sempre vinculou tempo e lugar: o
“quando” só fazia sentido se vinculado ao “onde”. As dimensões
espaciais da vida social eram dominadas pela localização das atividades. O
advento da modernidade separa progressivamente o espaço do tempo,
fomentando relações entre ausentes da cena, localmente distantes de
qualquer interação face a face. A separação entre tempo e espaço
inicia-se mais precisamente com a invenção do relógio mecânico, por
volta do século XVIII. Neste momento, o fator tempo começa a poder ser
concebido sem o fator espaço: a jornada de trabalho, por exemplo, podia ser
mensurada uniformemente pelo relógio. Em outros termos, a mensuração do
tempo pelo relógio mecânico correspondeu à uniformidade na organização
social do tempo. Esta mudança coincide com a expansão da modernidade,
completada no século XX. Um de seus aspectos principais é a padronização
mundial dos calendários - a chegada do ano 2000 ser um evento global é
exemplar, nesse caso. Quanto ao espaço, pelo contínuo mapeamento do globo que o
estabelece como independente do tempo, a humanidade pode compreender que o
único passado unitário possível é o passado mundial. O desencaixe entre tempo e espaço entre tempo e espaço
foi crucial para o dinamismo da modernidade: dilatou as conexões entre a
atividade social em seus contextos de presença e o distanciamento no tempo,
pois forçou a coordenação pelo tempo e do espaço e se abre a múltiplas
possibilidades de mudança, liberando dos hábitos e práticas locais os
indivíduos ou instituições em questão. A modernidade, assentada em um sólido passado, narrado por
uma história linear, evolucionária, em forma de “enredo” dominante,
com um passado definitivo e um futuro predizível, impõe uma imagem
ordenada sobre uma mixórdia de acontecimentos humanos. A modernidade crê
nessas grandes narrativas, pois está ligada à idéia de História como uma
apropriação progressiva dos fundamentos racionais do conhecimento. Na pós-modernidade, em contrapartida, a perda da crença
no progresso é um dos fatores principais que fundamentam a dissolução das
grandes narrativas. Na pós-modernidade, [1] a trajetória do
desenvolvimento social conduz as instituições da modernidade rumo a um
novo tipo de ordem econômica e social por inúmeros fatores. Para citar
alguns, a descoberta de que não há certeza absoluta, pois os
fundamentos da epistemologia mostraram-se sem credibilidade; a História,
destituída de teleologia, faz com que nenhuma versão de progresso possa
ser levada muito a sério; o surgimento de uma nova agenda político-social
em face das crescentes preocupações ecológicas, em vez da substituição
do capitalismo pelo socialismo, como se esperaria. Como a temporalidade é
intrínseca na história dos eventos humanos, atravessando a experiência
humana em todos os níveis, a relação tempo/espaço é uma questão para o
homem desde sempre. Trataremos de discutir algumas questões. II. Às vezes são desnorteantes as mudanças de ponto de vista
em relação às noções de tempo e espaço
em grande parte dos setores da atividade humana. Por isso mesmo, as
dificuldades enfrentadas pela aceleração súbita do progresso - já
prometida na modernidade e atingida na pós-modernidade - afetam-nos, como
tropas de assalto. Entretanto, a aceleração não é necessariamente
positiva: sempre traz corrosão, pois nasce sob o signo do suicídio.
Essa experiência hoje é conhecida mediante seu
desaparecimento durante o embate com o choque do presente. A solidez e a
durabilidade do passado são substituídas pela consciência de que a vida
é frágil e errática: profissões ficam obsoletas; os direitos adquiridos
desaparecem; qualquer trabalho de construção pode se mostrar inútil; as
regras do jogo podem mudar no meio do jogo e a cada jogo; os compromissos em
longo prazo devem ser evitados; a recusa a se prender a uma vocação apenas
é sábia; a consciência da falta de controle sobre o futuro é fator de
insegurança; o passado deve ser interditado de se relacionar com o presente
- ou seja, cortar o presente em suas duas extremidades, separando o presente
da história. O tempo, deixando de ser vetor, já não mais estrutura o espaço.
O que conta agora é a habilidade de mover-se. Afinal, é impossível
manter-se a mesma configuração por muito tempo. A adequação tem procedência sobre a saúde,
termo ligado a um padrão de normalidade estável. Toda a demora de satisfação
perde seu significado, pois não há tempo para medi-la. A dificuldade não
é mais construir uma identidade, mas impedi-la de ser demasiadamente fixa.
A estratégia pós-moderna é justamente evitar que a identidade se demore:
é preciso poder mudar e não ter comprometimento com o futuro. Cada
presente que se sucede deve explicar-se por si mesmo e fornecer sua chave
para interpretação - como as obras de arte contemporâneas devem ser
vistas… Na pós-modernidade, o advento do telefone celular é um
“golpe de misericórdia” simbólico na dependência tempo/espaço: não
importa onde quem dá a ordem esteja para que ela seja cumprida, se a
diferença entre próximo ou distante, entre espaço selvagem e civilizado
está em vias de desaparecer. Ao longo do estágio sólido da modernidade, os hábitos nômades
eram mal vistos e a cidadania estava ligada ao assentamento, ao endereço
fixo e ao estado de origem, de forma a proteger os cidadãos dos excluídos
da comunidade obediente -
os nômades. Hoje, o nomadismo é uma vingança contra o espírito de
territorialidade e de assentamento. A maioria assentada é dominada pelos nômades
desterritorializados, que tanto sofreram perseguição legal e descriminação
no passado. Nas cidades, os espaços urbanos seriam os locais onde se
esperaria “modernamente” que estranhos se encontrassem e compartilhassem
o espaço social. Hoje, o espaço urbano das cidades não se mostra assim.
Hoje, o espaço público privilegiado é aquele destinado a servir os
consumidores, ou melhor, o que transforma os habitantes da cidade em
consumidores. Sua mais completa tradução são os Shopping-Centers -
espaços onde a tarefa é o consumo, passatempo individual e não coletivo -
que não requerem domínio da sofisticada e difícil arte da civilidade como
a capacidade de interagir com estranhos: não se fazer íntimo ou invasivo,
mas ser acolhedor; estar apto à comunicação difícil, à negociação
enervante de interesses comuns e às concessões irritantes em nome de um
destino compartilhado. Essa é a capacidade de conviver com a diferença e
beneficiar-se dela: uma arte que requer estudo, exercício e aprendizado.
Quando não se luta contra incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres
humanos, mais se reforça a tendência à homogeneidade, à eliminação da
diferença e mais difícil, ameaçadora e geradora de ansiedade se torna a
presença de estranhos. Estes “templos de consumo” são espaços protegidos da
desordem, dos mendigos, dos desocupados, dos assaltantes, traficantes - ou
pelo menos se espera. Esses “templos” trazem a sensação de se estar na
cidade sem estar nela, tanto que funcionam eficazmente bem longe da cidade,
à parte - não faz diferença, pois não fazem parte da cidade. [2] Fixar-se excessivamente no espaço, sobrecarregando-se de
laços com compromissos vinculantes, é hoje considerado prejudicial. Se
Rockefeller construiu suas fábricas para ser dono delas por muito tempo e
para durar “para sempre”, Bill Gates cria softwares para durar um
ano: é justamente a velocidade atordoante da circulação, substituição e
reciclagem que trazem o lucro de hoje, não a durabilidade e a
confiabilidade do produto. Na modernidade, a conquista territorial era o objetivo
supremo: os impérios se espalhavam, preenchendo o globo - era do tempo
rotinizado das fábricas, que fixava o homem e o dinheiro ao território e
ao trabalho. As empresas, hoje, têm formas de organização mais adaptadas
ao fluxo num mundo “complexo e rápido”. O trabalho é
“descoporificado” e separado do capital: este viaja leve e rápido - por
isso mesmo é fonte de incerteza, fator de dominação e divisão social. O
volume e o tamanho, tão desejados pela modernidade, hoje é fator de risco.
Quanto mais o capital flutuar, mais lucrativo será. Neste sentido a pós-modernidade
é fluida. A progressiva
irrelevância do espaço e do tempo - no universo do software, distâncias
são atravessadas em quase tempo nenhum - provoca uma mudança de impacto
enorme na existência humana. Com o tempo instantâneo, nenhuma parte do
espaço é privilegiada, pois se pode visitá-la qualquer momento. No mundo
instantâneo do software, o tempo não tem conseqüências, mas
realização imediata, o que pode significar perda de interesse e tédio -
ainda que, por outro lado, seja grande a abertura de possibilidades de mudança.
Mudam as formas de convívio humano, sem mais a memória do
passado e a confiança no futuro, os pilares culturais e morais diante da
transitoriedade e mortalidade humanas entre a responsabilidade e o “viver
o momento”, pois a sensação de “fim dos tempos”, sem qualquer visão
prognóstica, é prevalente. III. O debate sobre o “fim da história” dos anos 80
obscureceu bastante o debate sobre o “fim da arte”, tão em voga nos
anos 60. A diferença é que hoje já se está consciente da estrutura de
narrativa da História e dos males da totalização e da teleologia. Quanto
à expressão “o fim da arte” não é nova: Hegel utiliza a noção na
direção do fim da própria arte, da abolição da estética por ela mesma
numa autotranscendência em outra direção, supostamente melhor do que ser
um espelho figurativo já então obscurecido. Para Hegel, a arte também tem seu “antes” e seu
“depois”: ela tem um limite em si mesma, pelo qual se transfigura em
formas mais elevadas de consciência. Esta limitação aparece no modo como
concebemos a arte na vida contemporânea. A arte não é mais hoje o modo
mais elevado por meio do qual surge uma verdade.
Nessa perspectiva, a discussão nos anos 60 sobre o “fim
da arte”, só pode se referir ao fim do moderno num longo processo de
cultural de dissolução e o surgimento gradual do pós-moderno nas décadas
seguintes, marcado pelo desaparecimento dos grandes autores que assinaram o
modernismo, de 1910 a 1955, e pela emergência daqueles que adornam a idade
da teoria através do Sublime narrativo: de Lévi-Strauss a Lacan, de
Barthes a Derrida e Baudrillard. Em outros termos, a função do Sublime, no
moderno, é substituída pela teoria no pós-moderno. O sucessor do Sublime
é a Teoria. Quanto ao Belo, a outra metade da arte, tem sua sobrevivência
garantida na pós-modernidade, pois invade o domínio da cultura. Se os anos
70 foram os anos da teoria, os 80 se revelaram de auto-indulgência e de
consumo cultural extravagante. Uma outra face da pós-modernidade é o retorno do belo e
do decorativo no lugar do antigo sublime moderno. A procura moderna do
absoluto e da verdade através da arte é redefinida na arte contemporânea
pela procura do puro prazer e da gratificação, bem diferente do “gozo”
moderno. Na verdade, a arte retrocede ao antigo papel antes do domínio do
Sublime. O retorno do Belo no pós-moderno é sistêmico: a realidade é
mercantilizada em escala mundial e colonizada por formas visuais e
espaciais. Interpretar a arte contemporânea tornou-se uma questão
espinhosa, pois já não faz muito sentido falar de vanguarda - uma avant-garde
à frente de seu exército e diante do inimigo a combater, com
uma ação ofensiva concentrada e um objetivo estratégico determinado Tudo
está em movimento, em movimentos que parecem aleatórios, dispersos,
destituídos de direção delineada e cumulativa, não sendo possível
julgar sua natureza “retrógrada” ou “avançada”, “progressiva”
ou “regressiva”: as mudanças fragmentárias não indicam corrente
unificada. Serão apenas escaramuças locais destituídas de finalidade? Entretanto, quanto mais o homem - simbólico por excelência
- tenta abolir o significado, mais ele o atiça a retornar e mais faz
proliferar interpretações. A arte pós-moderna pode justamente estimular o
processo de elaboração do significado. Além disso, pode alertar para a
inerente polifonia do mundo e para a complexidade de toda a interpretação;
pode agir como um anticongelante intelectual e emocional que previna a
solidificação em direção ao caminho do cânone, que sempre detém o
fluxo de possibilidades. A arte pós-moderna traz à luz o perene
inacabamento dos significados e a inexauribilidade do reino do possível. O
significado da arte pós-moderna é a desconstrução do significado: este só
existe no processo de interpretação e da crítica - e morre com ele. Só este fato já torna a arte pós-moderna numa força
subversiva, quando recusa o compromisso com qualquer solução autorizada e
insiste em fazer do barulho um fim em si mesmo do canal de comunicação.
Ridicularizando a esperança de encerrar a dissidência e de assegurar a
regra do consenso, aponta que a polifonia e a infinidade de possibilidades vão
continuar a existir. Trata-se de acentuar a liberdade de manter a imaginação
desperta, as possibilidades vivas, os princípios fluidos sem morrer nas
certezas enceguecedoras. Se ainda não há como decidir se algum dia as obras pós-modernas
terão o chamado “valor estético”, que se amplie a experimentação. Se
a tarefa se assemelha a dos modernistas, hoje ela requer mais coragem e
determinação, porque os atos de dissensão solitária devem ser
empreendidos sem a esperança de recompensa pela coletividade. O
“vanguardismo” pós-moderno desafia qualquer forma de consenso, sempre
transitório, e foi uma tarefa dos modernistas. A arte pós-moderna age mais
como força crítica e emancipadora, sem o consolo do gosto, e se embrenha
no processo de compreensão, interpretação e elaboração do significado,
sempre tão fundamental para o homem. A sensação nítida de “fim da história” e triunfo
final do mercado, expresso por um bloqueio da imaginação histórica, está
relacionada à emergência do capitalismo tardio, ao colapso dos sistemas
comunistas do Leste europeu, ao fim da antiga expansão imperialista, bem
como um desastre ecológico planetário. O mercado conquista o mundo e
penetra em zonas que ainda não eram dominadas pela mercadoria. As revoluções
da cibernética e da informática, e seu impacto sobre o mercado e sobre as
finanças fazem com que o mundo fique enclausurado, sem escapatória. IV. O tempo de carpe diem parece ser uma tendência
geral da pós-modernidade. A modernidade parece ter retirado o máximo de
seu modelo ultra-racional que cobrou dos homens: a racionalidade “sempre
de plantão”, ignorando que ela só surge quando convocada insistentemente
e, o mais das vezes, finge-se de surda. O preço da manutenção desse
modelo de civilização que nos constrange a reduzir o pathos é altíssimo:
hoje, extenuados de Razão, a prevalência do espírito dionisíaco sobre o
apolíneo não deixa dúvidas sobre esta evidência. É interessante observar que não foi sem motivo que Freud,
ao escrever Das Unbehagen in der Kultur [“O mal-estar na civilização”],
onde descreveu o sofrimento humano na civilização, hesitou entre os termos
“cultura” e “civilização” para o título em alemão. Quando de sua
tradução para o inglês, o próprio Freud sugeriu que o título na tradução
inglesa fosse Civilization and its Discontents, precisamente
(conscientemente ou não) para descrever as conseqüências da aventura
moderna que modelou o pensamento ocidental. “Cultura” (como está em
alemão e francês [Le malaise dans la culture]) ou “civilização”,
como ficou consagrado em português e inglês, na verdade, referem-se, hoje
sabemos, tão-somente à sociedade moderna. Só ela pensou em si mesma como
uma atividade da “cultura” ou da “civilização”.
Este ideário “apolíneo”, cuja expressão máxima se
encontra no protestantismo, tal como Max Weber o descreveu, encontra sua
contrapartida na chamada sociedade pós-moderna, mais associada ao espírito
dionisíaco que retorna, junto a valores arcaicos, tais como o tribalismo e
o nomadismo. Dioniso tem características que favorecem a analogia com o espírito
do tempo pós-moderno. Dioniso é descrito como um deus errante, mestiço,
desmesurado (a hýbris), com um poder selvagem (não civilizado); um
deus nômade que faz saltar e naufragar, que conhece as afinidades de ausência
e da presença. Apresenta-se sob a máscara de estrangeiro, de forasteiro e
é um deus que enlouquece quem o descobre, pois é uma forma que propõe um
enigma: uma esfinge a decifrar, um poder desconhecido a identificar. Dioniso
é diferente dos demais deuses gregos, pois há em seu rosto algo que não
se refere um mundo helênico, mas ao bárbaro de fala ininteligível. E
apesar de se exilar na barbárie, e em certos lugares ser qualificado de
deus bárbaro, é tratado como deus grego. De qualquer modo, o mistério
permanece: será sempre um estrangeiro, um rosto a ser descoberto, uma máscara
que revela tanto quanto esconde. Sempre associado ao insano, ao canto
ensurdecedor, à loucura, ao espírito inquieto, ao alienado e ao criminoso
- sempre alguém possuído da animalidade da loucura e da escandalosa
imoralidade irracional. Alem dos excessos dionisíacos, há, ainda, outra
característica associada ao pós-moderno: o retorno de formas que podem ser
associadas ao barroco. O barroco surge no século XVII, contemporâneo ao Concílio
de Trento, com a missão de converter - por isso mesmo é pujante nos países
católicos. Os protestantes, ciosos do ideal de limpeza e ordem, não o
podem acolher. Os excessos de curvas, de claro/escuro, de ornamento, de
dilemas entre o sagrado e o profano, entre o místico e o sensual, de
imperfeições, não combinam com a assepsia protestante, cuja expressão máxima
se encontra na arte neoclássica do século XVIII, que busca a limpeza, a
ordem, o equilíbrio. A irracionalidade e o descontrole de Dioniso
representam tudo o que a civilização moderna, a partir das Luzes, veio
para “limpar” e “organizar”. O século XVIII traz o Iluminismo, a civilização moderna
segundo a qual só o Ocidente desenvolveu a ciência, ápice do modelo
racional, num estágio reconhecido como válido. Os conhecimentos empíricos,
as reflexões sobre os problemas do mundo e da vida, a sabedoria filosófica
e a teológica do tipo mais profundo, o pleno desenvolvimento de uma
teologia sistemática devem ser atribuídos ao cristianismo, sob a influência
do helenismo. Conhecimento e observação de grande acuidade, fundamentação
matemática, foram primeiramente dados pelos gregos; o método experimental
é essencialmente um produto do Renascimento. Ao Direito racional, faltava o
que é essencial a uma jurisprudência racional: o rígido esquema jurídico
de pensamento dos romanos e do Direito ocidental por ele influenciado. Uma
estrutura do cânone jurídico só é conhecida no Ocidente. Só no Ocidente a cultura recebe um tratamento racional,
sistemático e especializado da ciência por especialistas treinados em
Universidades e Academias. O funcionário especializado, base do Estado
Moderno e da economia ocidental, depende da existência de uma organização
de funcionários especialmente treinados. O próprio Estado, no sentido
ocidental, só foi conhecido pelo Ocidente. Parlamentos de “representantes
do povo” eleitos periodicamente, chefes partidários constituídos em
“ministros” responsáveis perante o Parlamento, são estabelecidos pelo
Ocidente. O Estado como entidade política, com uma constituição
racionalmente redigida, uma administração orientada por regras racionais,
as leis, são criações do Ocidente. O mesmo ocorre com a força mais
significativa da vida moderna: o capitalismo. Para Weber, o capitalismo, na
organização capitalista, equivale à procura do lucro, de um lucro sempre
renovado, da rentabilidade. No Ocidente, a organização capitalista
racional está assentada no trabalho livre que depende não só da técnica
e do direito racional, mas também da disposição dos homens em adotar
certos tipos de conduta racional: forças mágicas e religiosas e os ideais
éticos de dever deles decorrentes são elementos cruciais na formação da
conduta. Hoje, temos uma civilização de tolerância pluralística
e opções em abundância. As polaridades como “esquerda/direita” ou
“capitalismo/classe operária” soam agora ultrapassadas e conservadoras.
Com a falência das grandes narrativas, não há “um inimigo a
derrotar”; antes, o que importa é o mercado do capitalismo tardio, que
triunfou sobre todas as narrativas, até mesmo sobre a ciência, guardiã da
verdade denotativa dos tempos modernos. E, nesses tempos de neutralidade moral, é importante
sublinhar que há outras maneiras de estar no mundo que, certamente, se
traduzem em bem-estar. À parte da modernidade dos socialismos e
positivismos - derivações, legitimações e racionalizações que
funcionam em termos de um tempo linear - há os resíduos populares do
erotismo e do corpo amoroso. NOTAS
1
O termo “pós-modernismo” refere-se a estilos
ou movimentos no interior da literatura, das artes plásticas e na
arquitetura; refere-se mais propriamente a uma reflexão estética sobre a
natureza da modernidade. 2
No Rio de Janeiro, há um exemplo interessante de
“lugar à parte”, um bairro que se pauta urbanisticamente por este
modelo, a Barra da Tijuca. As pessoas protegem-se da violência urbana quer
confinadas em seus condomínios luxuosos, “ilhas de tranqüilidade”,
quer protegidos nos Shopping-Centers. O bairro criou uma geração de
indivíduos desassociadas do resto da cidade e do país, em que pese sua
arquitetura cover que imita Miami, Flórida, o “ideal” de
civilização. |
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Leila Longo (Brasil, 1951). Professora de Estética da Comunicação e Sociologia da Arte. Tem trabalhos publicados no Brasil e na França sobre teoria da cultura e questões relativas à contemporaneidade. Contato: llongo@academia.org.br. Página ilustrada com obras do artista Júlio Resende (Portugal). |