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revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004 |
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Poesia Completa, de Cecília Meireles: a edição do centenário Antonio Carlos Secchin
Reza a boa norma que a melhor lição textual é a da última
publicação em vida do autor; por esse critério, bastaria reimprimir a
obra de 1958, a ela acrescentando algum material inédito, postumamente
localizado. Mas já neste primeiro passo nos defrontamos com várias
dificuldades: Cecília excluiu da coletânea seus três primeiros livros
(voltaremos ao assunto mais tarde), incluiu um (Giroflê
Giroflá) escrito em prosa e, muito provavelmente, não fez a revisão
do texto, que, embora em geral correto, em alguns casos introduz erros
inexistentes nas edições princeps. Esclareço, de início, que não tive acesso a originais
manuscritos ou datiloescritos de Cecília; de acordo com depoimento de
familiares, a escritora costumava bater a maquina seus poemas e não se
preocupava em conservar o registro deles em arquivo pessoal. Assim, fui
levado a valer-me unicamente de material impresso, a saber, as edições
originais, suas reedições, e uma série de textos esparsos em periódicos.
Por outro lado, em auxílio de minha tarefa, logo percebi que,
diversamente do que ocorre com boa parte dos poetas, Cecília não
modificava seus textos: uma vez publicados, ela já os considerava em versão
definitiva. Por isso as discrepâncias textuais podem, sem grande risco,
ser atribuídas a erros de impressão, alguns evidentes, como a presença
de uma “quadra” de três versos, outros mais sutis, como a troca de um
vocábulo por um substituto que também faz sentido. Mas, uma vez que várias
alterações se deram somente nas edições post-mortem, apenas uma intervenção mediúnica poderia respaldá-las,
e preferi permanecer na esfera terrena, não obstante Cecília definir-se
como uma “pastora de nuvens”… Retornemos à edição de 1958. Era composta de 12 livros
de poesia, de Viagem (1939) ao Romance
de Santa Cecília (1957), um livro de prosa (o citado Giroflê
Giroflá) e de uns poucos inéditos, vários dos quais viriam a
integrar, pouco depois, obras avulsas lançadas ainda em vida da autora.
Abria o volume um alentado ensaio de Darcy Damasceno, que foi dos mais
devotados estudiosos da poeta. Uma sucinta fortuna crítica, além de
bibliografia ativa e passiva da autora, também integrava a edição.
Apesar da colaboração de Cecília, patente, por exemplo, no fato de lhe
haver sido atribuída a seleção de inéditos, a coletânea, como
dissemos, registrava erros, que se foram tornando mais graves e numerosos
nas edições subseqüentes, quando então, após a morte da escritora, no
melhor dos casos as novas compilações apenas repetiriam os equívocos
pregressos, e no pior, conforme acabou ocorrendo, elas aumentariam o rosário
de equívocos. Em 1967, vem a público a segunda edição da Obra
poética, em formato menor, com a eliminação do texto em prosa e o
acréscimo dos títulos que a autora publicara entre 1958 e o ano de seu
falecimento, 1964. Em meio a esses títulos foi inserido um conjunto de
dispersos e, na seção final, abrigaram-se 21 poemas inéditos. É de se
indagar por que, na organização do volume, o bloco de dispersos se
intrometeu entre as obras editadas autonomamente em livro. A terceira edição, de 1972, repete a estrutura da
anterior, suprimindo, todavia, a seção de inéditos, que fora
sensivelmente ampliada em 1967.
Em 1994, surge, sob responsabilidade de Walmir Ayala, a
quarta edição da Aguilar, incorporando todo o material coligido por
Damasceno. Walmir optou por uma divisão em duas partes: na primeira
ficaram os livros publicados a partir de Viagem;
na segunda entraram os textos enfeixados nos volumes finais da série de
Darcy, ou seja, os poemas avulsos, os primeiros livros e os não concluídos,
com o acréscimo de Cânticos,
que, escrito nos anos 20, só veio a lume tardiamente, em 1982. Por fim, em 1997, a Nova Fronteira lança, em 4 volumes, a Poesia
completa de Cecília Meireles, valendo-se basicamente da lição
textual de Damasceno, endossada por Ayala. Passo, agora, a expor, de modo sintético, algumas das
características da nova edição, a do centenário. O texto foi minuciosamente revisto. Detectei nas compilações
anteriores mais de 300 erros, desde os mais simples, como os ortográficos,
até os menos óbvios, como a inversão de estrofes, além de certas
“atualizações” que mascaravam a historicidade dos poemas; por
exemplo: a utilização de maiúsculas no início de verso era a prática
de Cecília nos anos 20, e não há registro dela nas reedições desses
primeiros livros. A voz límpida da poeta vez por outra era turvada pela
intervenção de revisores e tipógrafos distraídos. No que tange ao aparato crítico, a nova edição vem
enriquecida de três excelentes contribuições: o longo estudo introdutório
de Miguel Sanches Neto, o resumo biográfico a cargo de Eliane Zagury e a
seleta fortuna crítica comentada por Ana Maria Domingues de Oliveira. No
denso e inédito ensaio de abertura, “Cecília Meireles e o tempo
inteiriço”, Miguel analisa toda a produção poética da autora,
demonstrando como lhe foi possível ser moderna sem necessariamente ser
“modernista”. Eliane tece um quadro preciso e abrangente da vida de
Cecília. Ana Maria, meticulosa e competente pesquisadora da bibliografia
crítica ceciliana, fornece um precioso roteiro do que de melhor se
escreveu sobre a poeta. Resta abordar uma questão, talvez a mais polêmica: que
tratamento dispensar aos livros iniciais, excluídos por Cecília da edição
de 1958? E como lidar com as obras planejadas, mas que não chegaram à
estampa durante a vida da autora? Vimos que, até aqui, esse material era
enfeixado no segmento final dos volumes que passaram a abrigá-lo, desde
1973. Optamos por outra solução: na parte 1 da nova edição, comparecem
todas as coletâneas – publicadas ou esboçadas – na seqüência tanto
quanto possível rigorosa da cronologia de sua escrita, o que não
corresponde necessariamente à cronologia de publicação: basta que se
recorde o citado Cânticos, produzido na década de 20 e lançado mais de 50 anos
depois...Assim, o leitor poderá acompanhar, com clareza, o início e o
desdobramento do processo criador de Cecília, sem que sejam suprimidos ou
aninhados numa espécie de apêndice-limbo os primeiros passos dessa longa
caminhada através de 26 obras. Na parte 2, entrou apenas, ordenada
temporalmente, a matéria dispersa, de natureza assistemática, não
concebida pela autora como peça integrante de livro. Em suma: parte 1,
Cecília em livros (editados ou projetados); parte 2, Cecília fora de
livros; em ambos os casos, a poeta em sua historicidade de escrita.
Ainda faltava, todavia, o elo perdido, o texto primordial,
verdadeiro espectro a povoar a insônia dos bibliófilos e dos arqueólogos
literários. Finalmente, após numerosas buscas nos sebos e em bibliotecas
públicas e particulares, tanto no Brasil quanto em Portugal, consegui,
graças à generosa colaboração de um bibliófilo, localizar um exemplar
do livro, que a nova edição restituirá à memória da poesia
brasileira, décadas após seu – supostamente irreversível -
desaparecimento. Com Espectros, será revelada uma nova e insuspeitada face de Cecília,
de acentuada fatura parnasiana. A obra é formada por um conjunto de 17
sonetos rimados, em decassílabos ou alexandrinos, e que, em sua maioria,
evocam celebridades da história universal e da religião católica.
Vejam, a seguir, como a estreante Cecília elaborou sua versão da figura
mítica de Joana d’Arc: Firme na sela do ginete arfante, Sob os anéis metálicos do guante, Rica de sonhos, crença e mocidade, Sorri. Nenhum tremor a alma lhe invade!
Essas foram as linhas gerais do trabalho. Agora, é esperar
que o esforço despendido tenha sido capaz de restituir do modo menos
imperfeito possível a grandeza poética de Cecília Meireles. |
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Antonio Carlos Secchin (Brasil, 1952). Ensaísta. Autor de livros como João Cabral; a poesia do menos e Escritos sobre poesia & alguma ficção. Organizador da Poesia completa de Cecília Meireles, na edição comemorativa do centenário de nascimento da escritora. Contato: asecchin@ism.com.br. Página ilustrada com obras do artista Júlio Resende (Portugal). |