revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004

artista convidado






 

Júlio Resende: histórias do sentir

Rosa Alice Branco

.

Júlio Resende (Portugal)Júlio Resende considera que o desenho é um modo directo de captação estética da realidade. E diz isto num momento em que as teorias perceptivas sobre a possibilidade de uma captação directa através da visão (como por exemplo, a Óptica Ecológica de James Gibson), estavam muito pouco divulgadas e, menos ainda, aceites. É um facto que se trata, ainda hoje, de uma questão polémica, mas sabe-se que, pelo menos em registos não muito sofisticados, existe uma captação directa da realidade. Esta asserção de Júlio Resende é, assim, de uma surpreendente frescura, tanto mais que «desenho» possui aqui uma dimensão muito ampla que pode abarcar um gesto, um ritmo, abranger as linhas que se traçam no espaço, ou mesmo em devaneio onírico. E este último desenho aéreo e inefável parece só necessitar de tocar no ponto certo para que, como diria Kandinsky, a alma do artista vibre e responda como se fosse uma corda sensível. Desta forma, o próprio olhar estético não se dá como corte na cadeia do sentir, mas é um olhar que sente esteticamente e por isso transporta em si um suplemento de vida.

Para Júlio Resende a vida acontece, exactamente, onde seja ainda possível o reencontro entre o homem e a natureza, manifestando os seus trabalhos esse pacto espantoso entre corpo e mundo. A comunicação entre o eu e o mundo dá-se através do corpo, que nunca é uma parte de nós ou do mundo, mas pertence a ambos, já que se constitui enquanto charneira sensível.

Não é de admirar que encontremos essa vida nos trabalhos do pintor, já que ele próprio declara na primeira página de O Lugar do Desenho que desenhar é ser e estar. Mas este traço já não é visível quando se abre a janela ou se desce à rua, já não se encontra aqui ao lado e em toda a parte. Este pacto de harmonia entre os seres e o que os rodeia há que ser buscado em geografias não contaminadas ou menos contaminadas, em gentes e paisagens que, encontradas por uma particular sensibilidade, permitam ainda visionar que a postura de um povo é feita da matéria da terra e do ar que a respira.

Júlio Resende (Portugal)O artista procura os rostos e os lugares que deixem transparecer a certeza e a eficácia do sentir. É que sentir nunca significa apenas sentir-se a si próprio, mas é, concomitantemente, uma extrema abertura ao que nos rodeia, a vivência da experiência radical de nos sentirmos do mundo e com o mundo. Sentir é um fenómeno de comunicação total, tão total que cada um dos nossos sentidos se abre também aos outros sentidos, existindo assim em nós uma comunidade de sentires. Deste modo, ao abrirmo-nos ao mundo com todos os sentidos, o mundo abre-se para nós e tudo o que era mudo se torna musical, colorido, aromático, vivo e cheio de sentido. No livro Um Olhar sobre Cabo Verde Júlio Resende fala da harmonia entre os homens e a paisagem, em que a dignidade de um povo, que se revela musicalmente na “morna” ou na alegria contida da “coladera”, são dados para um acontecimento plástico, o que é o mesmo que dizer que o olhar do pintor transforma em traço cada poro de som, de aroma, de cor, de movimento, cada estado de espírito, seja dos entes ou da paisagem.

Neste sentido, os trabalhos de Júlio Resende revelam, tanto a diversidade, quanto a unidade de vivências que, pouco a pouco, se foram desenhando no papel ou na tela do pintor.

Resende refere o modo como o seu primeiro contacto tropical em 1971 foi fértil na abertura pictórica a novas perspectivas. Do ritmo do Brasil, nomeadamente o nordestino, vem a urdidura de outras composições cada vez mais oblíquas, apagando do coração do traço as linhas ortogonais. A dinâmica das linhas está no balouçar do coqueiro, o contraste de cor oferece-se pela multiplicidade cromática contra a sobriedade dos tons quentes do solo. Paleta e ritmo das linhas mudam para captar estas novas harmonias entre seres e paisagem, para deixar fluir o traço que se perde na tela como se votado a um inacabamento que só advém da incessante movência. O choque da cor na plenitude dos rosa e amarelos é experimentado como um vício a começar, um vício inquietante de cor assumida, de que tomará o gosto pelos anos fora.

Esta receptividade a todos e cada um dos mundos pode verificar-se quando Júlio Resende fala do vento nas areias de Cabo Verde, ou do barulho das gralhas em Goa. Surpresos, encontramos no traço do artista esses ritmos que em Cabo Verde se confundem com o movimento das areias. E o desenho das cores torna-se denso, tingido da mesma força vulcânica que se desvela na expressão dos corpos.

Júlio Resende (Portugal)A vivência de Moçambique já se traduziu em alguns trabalhos, mas Júlio Resende sente que o mistério dessas paragens está longe de ser decifrado pela mão. É que, para quem confessa permanecer ainda em Goa, ter ainda o corpo atravessado pelas imagens afectivas das gentes nessa paisagem perpassada pelo barulho das gralhas, a passagem moçambicana é demasiado abrupta: são as rectas a contaminar as curvas de Goa, são as arestas a insinuarem-se na doçura do traço, é a dureza do contraste total, ainda reforçado pelas cores polares do preto e branco.

Mas o que existe em comum a todos os traços e cores que encontramos nestes trabalhos é a mesma autenticidade e ausência de convenções, aspectos que só aparecem quando a mão inscrita no corpo se dá à experiência de cada descoberta. É que esta autenticidade que se procura em cada gesto está, primeiramente, no gesto de quem a procura. Júlio Resende pega no lápis ou no pincel com os seus olhos grandes de criança. É o gesto espontâneo que busca o primeiro traço, o ainda nunca feito ou as soluções ainda não encontradas, as terras ainda não visitadas, as cidades ainda por nascer, mas que tomam lentamente forma na utopia da imaginação. Este mesmo olhar originário aparece, também, num outro mestre - Alberto Caeiro:

Vale mais a pena ver uma cousa pela primeira vez, que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.

Júlio Resende (Portugal)O que podemos, então, ver nestes trabalhos é, acima de tudo, a respiração, a vida, a obra do pintor, reflectidos em cada traço. Se o desenho é, para Júlio Resende, o modo mais simples, directo e intuitivo, com que o corpo do artista dá corpo às coisas, o processo é recíproco, já que são também os desenhos, as pinturas, os painéis e, até mesmo, os esboços mais primários que, por sua vez, vão desenhando o corpo do artista. Nós olhamos estes desenhos e estes olham-nos, falam connosco, contam-nos histórias do sentir, do modo como as linhas da mão passam a ser as linhas do papel, de como a cintilação do agora vem pousar no papel. Tal como numa gravura de Escher, o mundo entra para o papel e ao entrar para o papel desenha o pintor que, por sua vez, está a desenhar o mundo a entrar para o papel.

Neste sentido, os trabalhos de Júlio Resende têm, necessariamente, uma vocação cosmológica. Ao olhá-los, o nosso corpo aberto para fora, abre-se simultaneamente para dentro, para a cadeia dos sentires, reafirmando pactos antigos e operando passagens musicais entre cores e ritmos. Como se esquecido de nos desenhar, um traço nos desse agora a graça de um corpo sempre incompleto, sempre recomeçado. Perante os trabalhos de Resende opera-se, de um certo modo, a comutatividade entre percepcionar e existir. As linhas - tanto as que se desenrolam na tela, como as apagadas pelo esquecimento pontual estratégico e que emergirão num outro trabalho - vão desenhando, uma a uma, tantas, as histórias do sentir. 

Rosa Alice Branco (Portugal, 1950). Poeta e ensaísta. Autora de livros como O que falta ao mundo para ser quadro (1993), O único traço do pincel (1997) e Horizonte colado à pele (2002). Contato: r.a.branco@mail.telepac.pt. Página ilustrada com obras do artista Júlio Resende (Portugal).

retorno à capa desta edição

índice geral

triplov.agulha

triplov.com.agulha.editores

jornal de poesia

Banda Hispânica (Jornal de Poesia)