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revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004 |
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artista convidado |
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Júlio Resende: histórias do sentir Rosa Alice Branco
Para
Júlio Resende a vida acontece, exactamente, onde seja ainda possível o
reencontro entre o homem e a natureza, manifestando os seus trabalhos esse
pacto espantoso entre corpo e mundo. A comunicação entre o eu e o mundo
dá-se através do corpo, que nunca é uma parte de nós ou do mundo, mas
pertence a ambos, já que se constitui enquanto charneira sensível. Não
é de admirar que encontremos essa vida nos trabalhos do pintor, já que
ele próprio declara na primeira página de O Lugar do Desenho que
desenhar é ser e estar. Mas este traço já não é visível quando se
abre a janela ou se desce à rua, já não se encontra aqui ao lado e em
toda a parte. Este pacto de harmonia entre os seres e o que os rodeia há
que ser buscado em geografias não contaminadas ou menos contaminadas, em
gentes e paisagens que, encontradas por uma particular sensibilidade,
permitam ainda visionar que a postura de um povo é feita da matéria da
terra e do ar que a respira.
Neste
sentido, os trabalhos de Júlio Resende revelam, tanto a diversidade,
quanto a unidade de vivências que, pouco a pouco, se foram desenhando no
papel ou na tela do pintor. Resende
refere o modo como o seu primeiro contacto tropical em 1971 foi fértil na
abertura pictórica a novas perspectivas. Do ritmo do Brasil, nomeadamente
o nordestino, vem a urdidura de outras composições cada vez mais oblíquas,
apagando do coração do traço as linhas ortogonais. A dinâmica das
linhas está no balouçar do coqueiro, o contraste de cor oferece-se pela
multiplicidade cromática contra a sobriedade dos tons quentes do solo.
Paleta e ritmo das linhas mudam para captar estas novas harmonias entre
seres e paisagem, para deixar fluir o traço que se perde na tela como se
votado a um inacabamento que só advém da incessante movência. O choque
da cor na plenitude dos rosa e amarelos é experimentado como um vício a
começar, um vício inquietante de cor assumida, de que tomará o gosto
pelos anos fora. Esta
receptividade a todos e cada um dos mundos pode verificar-se quando Júlio
Resende fala do vento nas areias de Cabo Verde, ou do barulho das gralhas
em Goa. Surpresos, encontramos no traço do artista esses ritmos que em
Cabo Verde se confundem com o movimento das areias. E o desenho das cores
torna-se denso, tingido da mesma força vulcânica que se desvela na
expressão dos corpos.
Mas
o que existe em comum a todos os traços e cores que encontramos nestes
trabalhos é a mesma autenticidade e ausência de convenções, aspectos
que só aparecem quando a mão inscrita no corpo se dá à experiência de
cada descoberta. É que esta autenticidade que se procura em cada gesto
está, primeiramente, no gesto de quem a procura. Júlio Resende pega no lápis
ou no pincel com os seus olhos grandes de criança. É o gesto espontâneo
que busca o primeiro traço, o ainda nunca feito ou as soluções ainda não
encontradas, as terras ainda não visitadas, as cidades ainda por nascer,
mas que tomam lentamente forma na utopia da imaginação. Este mesmo olhar
originário aparece, também, num outro mestre - Alberto Caeiro: Vale
mais a pena ver uma cousa pela primeira vez, que conhecê-la,
Neste
sentido, os trabalhos de Júlio Resende têm, necessariamente, uma vocação
cosmológica. Ao olhá-los, o nosso corpo aberto para fora, abre-se
simultaneamente para dentro, para a cadeia dos sentires, reafirmando
pactos antigos e operando passagens musicais entre cores e ritmos. Como se
esquecido de nos desenhar, um traço nos desse agora a graça de um corpo
sempre incompleto, sempre recomeçado. Perante os trabalhos de Resende
opera-se, de um certo modo, a comutatividade entre percepcionar e existir.
As linhas - tanto as que se desenrolam na tela, como as apagadas pelo
esquecimento pontual estratégico e que emergirão num outro trabalho - vão
desenhando, uma a uma, tantas, as histórias do sentir. |
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Rosa Alice Branco (Portugal, 1950). Poeta e ensaísta. Autora de livros como O que falta ao mundo para ser quadro (1993), O único traço do pincel (1997) e Horizonte colado à pele (2002). Contato: r.a.branco@mail.telepac.pt. Página ilustrada com obras do artista Júlio Resende (Portugal). |