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revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004 |
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Nicolau Saião: intervalos entre palavras Floriano Martins
FM - Eu gostaria de saber por
onde começas a criar, se pela expressão lírica ou pela plástica.
Conversemos sobre os primórdios da criação em NS e a partir daí vamos
construindo o universo de nossa entrevista. NS - Tanto quanto me lembro
sempre tive ritmos, que mais tarde aprendi que se chamavam versos, na
minha cabeça. As pessoas mais chegadas e os meus amigos em geral sempre
notaram - com alguma inquietação, até, o que me diverte - que disponho
duma memória que me atreverei a classificar de muito
boa. Por isso recordo perfeitamente que, bem pequeno, já respondia
aos acontecimentos do quotidiano da maneira específica que depois se foi
configurar em poesia escrita. Creio que a denominada “poesia
da infância” vive em todos e perdura - é o elo que mais tarde
permite que haja leitores a buscar-nos e a entender-nos - e, nalguns,
encarna mais tarde numa escrita deliberadamente construída e desconstruída.
Comecei
a ler aos cinco anos, porque o meu pai era professor pelo “método de João
de Deus”, a célebre “Cartilha Maternal” incrementada durante a
Primeira República. Eu ouvia-o ler o jornal e todo eu me danava por não
poder fazer o mesmo. Às vezes simulava que o lia… Tanto o atenazei que
ele, com a bondade e a paciência que o caracterizavam, me ensinou. E
nunca mais parou o meu contacto com as letras e os livros, esses castelos
enfeitiçados! Publiquei o meu primeiro poema no canónico Juvenil, do
Diário de Lisboa, andava pelos
16/17 anos. Importa dizer que uns dois ou três anos antes, na sala de
espera dum médico, eu contactara com o surrealismo ao folhear uma revista
brasileira, O Cruzeiro, que dava
a lume nesse número um artigo sobre diversos autores. Fiquei encantado,
porque vi que as coisas que se agitavam dentro do meu entendimento afinal
tinham nome! No que respeita à pintura, começou assim: havia e ainda há
perto da casa que habito em Portalegre uma espécie de moradia apalaçada
que tinha na frontaria uns painéis de azulejos com flores e motivos
vegetais em diversos tons de
cor. Aquilo fascinava-me e sempre que ia para a “mestra” virava-me
repetidas vezes a contemplá-los. Nas minhas horas desenhava, mas sem
muito empenho. Aos dezoito anos, tendo já mais mundo, entrei uma vez numa
galeria de pintura e, agradando-me uma obra, perguntei quanto custava. A
quantia que me indicaram derrotou-me de imediato. Mas eu desejava ver-me
rodeado de beleza e então pensei com os meus botões:
“E se eu tentasse fazer
quadros?”. Andavam-me frequentemente na cabeça, de mistura com
os versos, traços, cores, formas… Comprei uma caixa com canetas de
feltro - e meti mãos à obra. Há
dias em que é alucinante: uma palavra, uma música, o simples olhar duma
coisa fazem-me agarrar no papel ou nos cartões e nos materiais de pintura
e gastar todo o santo dia naquela construção/desconstrução. Outras
vezes passo semanas sem tocar em nada. A escrita pode aparecer a seguir ou
antes, dum texto se passa para um quadro e daí para dias sem pintar e
escrever, inventando, arrolando, transfigurando coisas na cabeça e se
calhar no corpo todo: fico sendo um magneto, um motor alquímico, uma
panela onde se cozinham os quadros e os versos. FM - Em teu Os Olhares
Perdidos (2001), logo no prefácio João Rui de Souza refere-se a «uma
palavra devastada e devastadora na procura contraditória do seu espasmo e
da sua luz», como sendo uma das características essenciais de tua poética.
O que buscas através da poesia? NS - Peguemos no título que
referes. Porquê este título? Simplesmente por isto: quando um editor me
convidou a publicar o anterior livro, Flauta de Pan, disse-me mais
ou menos assim: “Veja se não sai um volume muito grande… Arranje aí
coisa para cento e tal páginas…”. Os editores, ao que me dizem e eu
acredito, têm de ter cuidado com certos aspectos não propriamente poéticos.
Então, bom aluno, arranjei cento e quarenta paginas de flauta… Verifiquei de imediato que me
havia ficado, do acervo que tinha, uma boa quantidade de poemas. Olhares
perdidos… Olhares que não pudera dar à luz das montras (diz um
confrade que muito estimo, José do Carmo Francisco, que “os
poemas devem ser para a luz das montras e não para o escuro das gavetas”). Depois, com a natural evolução
dos dias, o Ruy Ventura alertou-me: “Amigo,
creio que tem aí material que dá outro livro!” Tinha quase, de
facto. Acrescentados de mais poemas que entretanto fui fazendo, os ditos olhares antes postos em sossego
sairam noutra editora com o título que lhes acertava em cheio. Portanto, creio poder inferir-se
que, à partida, através da poesia busco olhar as coisas duma maneira
reconvertida, transfigurada. Na poesia há, implícito, um jogo intenso que ao poeta permite renovar-se, dar mais vida a si
mesmo ou conservar, intacta, a que tem - antes de tudo o resto. Faço
poesia para não morrer. Ou seja, para dar vazão ao núcleo duro de vida
plena que em mim sinto e que a sociedade, frequentemente, busca extinguir
em nós ou se vai corroendo por acção dessa mesma sociedade informe ou
deformada. Também é uma incursão no mistério, nesta coisa estranha que
é haver existência e palavras e maneiras de as fazer bailar desta ou
daquela maneira e darem com maior ou menor perfeição o cheiro dum
momento passado, a cor dum pensamento, o rebrilhar duma emoção antiga,
dum temor, duma alegria. Repara que aponto, sem soberba,
antes com serenidade feliz, para a sabedoria
e não para o conhecimento.
Digamos que a poesia é o pedacinho de sabedoria que pudémos granjear ou
a que temos direito. Se nisso fazemos concorrência aos deuses, pior para
eles. Não têm de que se queixar, é o resíduo divino que em nós mora e
que epigrafamos sem maldade… FM - Mas o que exatamente
procuram ser teus escritos?
Por outro lado, já do outro
lado do espelho - os poemas feitos, já em estado de papel: que sejam uma
proposta de interrogação para aqueles que os lerem e mesmo de confrontação com os mistérios da existência. Sim,
amigo, estás a perceber-me bem: a matéria poética como matéria philosófica. Seria preciso acrescentar mais? Talvez isto:
que os poetas honrados (e não tenho de honra uma noção burguesa
ou cínica) entre si se congreguem para que os que desejam impedir que
eles publiquem não levem a sua àvante. FM - Já participaste de inúmeras
exposições de mail art. No Brasil a mail art acabou
limitando-se a um ludismo da forma sem maiores consequências estéticas.
É muito raro encontrarmos entre nós um artista como o Hélio Rola, cuja
interferência a partir da mail art sempre se deu de uma maneira crítica
e não de mero seguimento de modismos. Meteram-se com a mail art
mais os poetas afeitos a um construtivismo inócuo do que propriamente os
artistas plásticos que eventualmente poderiam ver ali uma possibilidade
de fusão de duas linguagens, a plástica e a poética. Como se deu tua
aventura em tal território e até que ponto se pode vislumbrar algum
contributo estético a ser destacado em Portugal em tal área? NS - A mail art é, por
definição à letra, a arte que se pode enviar pelo correio. Mas se
encararmos o seu espírito chegaremos a definições e conceitos mais
apropriados: arte que modestamente aproveita as virtualidades de se poder
enviar algo de específicamente artístico ou poéticamente plástico num
simples envelope, numa pequena encomenda. À partida, as encomendas dos
que são civilmente despossuídos ou não muito abonados, que não dispõem
de galerias para as suas trocas artísticas, para as suas mundividências
de alma de seres do lado dos que
sofrem a História e não dos que a fazem. Em suma: dos que procuram
utilizar os meios que os outros, mais fornecidos de dinheiro ou poder,
desprezam ou não aproveitam. O envio interior, a troca,
processa-se em geral a partir de materiais pobres, usando de maneira muito
própria as possibilidades postas à disposição do artista e a partir daí
é a imaginação que comanda o jogo: utilização de cartões habilmente
modificados, fotografias rasgadas e recompostas com outra estrutura, invólucros
poeticamente deturpados e transfigurados, bocados de revistas e jornais
forçados doravante a proporcionar outro “espectáculo”, desenhos,
guaches ou aguarelas dissimulando-se nos intervalos da vida plástico-quotidiana,
etc. Nos últimos tempos assiste-se
no entanto a umas burlazitas: o que alguns enviam são pequenos quadros
sem especificidade. Chega-se mesmo a isto: certas escolas dão aos alunos
possibilidade de enviarem para exposições produções suas, à guisa de
trabalho curricular - com horripilantes resultados, adulterando a verdade,
a realidade e a liberdade da mail art. No meu caso, comecei por enviar
coisas a amigos, sem mesmo pensar que era uma actividade que podia
desaguar em exposições. Depois, com o Almeida e Sousa, o Carlos Martins
e o João Garção, entrei no chamado circuito.
Procurámos sempre ser autênticos na nossa participação, o que pode
comprovar-se vendo os catálogos que transportam as coisas remetidas por nós. Devo salientar que muitos
organizadores ao levarem a efeito mostras de mail art visam sim alambazar-se
com pequenos museus mais que serem um motivo para as trocas, sempre
excitantes e por vezes surpreendentes, da arte postal. FM - Fala-me agora da tua
aproximação de Mário Cesariny e Carlos Martins, da maneira como acabou
resultando na organização da exposição “O Fantástico e o
Maravilhoso”. Claro que ambos conceitos estavam ligados e numa percepção
dentro da ótica surrealista. Mas o que a eles acrescentavam então poetas
e artistas portugueses? NS
- A exposição surgiu da maneira mais expontânea e informal que possa
pensar-se. Mas já lá vamos… Conheci o Carlos na chamada vida
militar, em Leiria - numa noite com certas peripécias surreais. Ficámos
amigos quase de imediato e verificámos que navegávamos na escuna
surrealista e libertária. Estivémos depois em comissão de serviço
“por imposição”, como oficialmente dizia na guia-de-marcha, na Guiné.
Escrevíamos, principalmente e, quando podíamos, pintávamos - eu
pratiquei mesmo cerâmica e tentei aprender, em boas condições, tapeçaria
com os nativos. Quando viémos para casa,
contactámos com os membros do “Grupo do Grifo”, da revista do mesmo
nome que saíra por essa altura e a PIDE logo apreendera: Virgílio
Martinho, Ernesto Sampaio, António José Forte, Pedro Oom, António B. da
Fonseca, Ricarte-Dácio. Também apareciam no Café Monte Carlo, local da
tertúlia, o Herberto Helder, o Luís Pacheco, o Miguel Erlich, a Luiza
Neto Jorge, a actriz Eunice Muñoz, o declamador Mário Viegas… Só em 76 conheci o Cesariny: eu
estava ao pé da Estação do Rossio quando ouvi ao lado uma voz a pedir
à ardina um jornal que tivesse notícias boas… Era o Mário. Dirigi-me
a ele, apresentei-me: ficámos até às quatro da manhã a conversar no
seu atelier . E passámos a
contactar regularmente e a levar a efeito actividades em conjunto. A exposição surgiu por acaso:
tanto o Mário com o Carlos partilhavam comigo o deslumbramento pelas
coisas do Lovecraft, do Georges du Maurier, do “Monk Lewis”, do
Bulgakov, dos antigos e modernos cultores do humor negro, do maravilhoso e
do fantástico e falávamos muito a seu propósito. Como nessa altura o
Carlos e a Ana estavam no Teatro de Xabregas, ela como actriz e ele como
encarregado do sector cultural, pensámos em artilhar a mostra. Eu
conhecia o Miranda Calha, que era secretário de Estado do Desporto e ele
falou com o Coimbra Martins, ministro da Cultura de então. Ultrapassadas
algumas dificuldades que nessa época ocorriam - o Cesariny por seu turno
falara com a secretária do Mário Soares - articulou-se a exposição com
o apoio do movimento “Phases” e de autores ingleses, brasileiros,
belgas, angolanos, moçambicanos, holandeses, etc. Conseguimos também, por
intervenção do Soares junto de certas embaixadas, a participação de
alguns autores do leste… Os portugueses (Mário Botas,
Paula Rego, Eurico, Armanda Andrade, António Quadros, Relógio, Garizo do
Carmo, Areal, Júlio Reis Pereira, Escada, Isabel Meyrelles entre muitos
mais) quando vivos eram contactados por conhecimento próprio de uns e de
outros ou disponibilizavam-se ao saber da coisa.
Se falecidos, falava-se com os herdeiros. A minha contribuição de maior
vulto - além de traduzir textos e publicar poemas no catálogo-livro e
expor dois quadros - foi descobrir um surrealista ínsito, meu companheiro
de adolescência: de sua profissão carpinteiro, meio-surdo e com
dificuldades na fala mas muito atento e inteligente, o Manuel Mourato nos
dias em que tivera de ficar em repouso por haver partido uma perna pintara
um enorme quadro com as tintas da profissão: O
bosque encantado, título de minha lavra e que foi uma das revelações
da Mostra.
FM - De que maneira te sentes
integrado ao surrealismo em Portugal? Explica-me tua participação
efectiva no movimento e as afinidades electivas. NS - Começarei por dizer que
“surrealismo em Portugal” é uma espécie de ave
rara que diversos caçadores tentam abater, uns por umas razões e
outros por outras. Se ser surrealista é sentir o primado da imaginação
e da transfiguração que a liberdade livre proporciona, do sentido que o
humor negro, o amor e a lealdade aos poderes do espírito nos concede, sou
surrealista e tenho como meu albergue a terra inteira. Ser surrealista em
Portugal é entretanto um negócio
arriscado, no mínimo, constantemente sujeito a deturpações, difamações,
fingimentos e desprezos subreptícios. Nesta nação nunca houve uma
verdadeira democracia - o que há agora é uma partidocracia num país belíssimo,
paisagem que o povo vai ornamentando (e com frequência o melhor
surrealismo sai do povo espontaneamente, feito com arte ingénua e
perfurante inocência), mas dominado por gente que se apoia nos meios de
comunicação, no caciquismo e nos maus hábitos seculares. Nestas
circunstâncias, o espaço de manobra do surrealismo é pequeno.. É impensável,
por exemplo, que a entrevista que V. me estão a fazer me fôsse feita por
qualquer órgão de referência nacional. A imprensa portuguesa vive
dominada por uma espécie de paranóia guerreira que existe entre os
diversos quadrantes políticos, sendo porta-voz das trocas e baldrocas em que estes vivem mergulhados. Também se
alimenta intensamente da saga futebolística e dos talk-shows televisivos,
criando um espaço letal para a poesia e de entre ela para a poética
surrealista. Quando necessidades de maquilhagem cultural a isso aconselham
recordam-se de novo, pela milésima vez, os tempos já idos dos
surrealistas Cesariny, Seixas e um ou outro mais (António Maria Lisboa e
o também já falecido Mário Henrique Leiria, quando muito) faz-se uma
excursão por esses anos (cerca de 50 atrás…) e aproveita-se para dar a
entender que, afinal, o surrealismo que foi giro nessa época está
extinto, kaputt, passemos agora a coisas sérias e importantes - as
literatices que rendem. Por isso o que há, falando em
grupos, é grupos de um - como o
Cesariny me dizia há anos com ironia - ou de dois ou três no máximo,
reunidos quase por acaso, ajudados por companheiros
de jornada. De vez em quando tem-se a possibilidade de fazer uma
exposição, publicar um livro… A minha participação no…
movimento (?) caracterizou-se por um lado pela feitura de poemas e pela
efectivação de mostras, os primeiros publicados em jornais e revistas
que respeitavam a sua qualidade sem repararem muito na sua condição
surreal e as segundas levadas a cabo pelas entidades que, sendo um pouco
de letras grossas, não viam bem a epidemia
que lhes levávamos… Quanto aos meus livros foram
dados a lume com dificuldade. E saíram porque subsidiados pela autarquia
da minha cidade - onde gozo de respeito pela minha condição de democrata
que ajudou a fazer o “25 de Abril”. Por outro lado, nos tempos mais
chegados com o Ruy Ventura e o João Garção, tenho levado a efeito
palestras e conferências aproveitando
as abertas que se podem e sempre escorado no prestígio pessoal
enquanto poeta e militante democrata. Escrevendo nos jornais que me dão
eventual guarida, indo à rádio de tempos a tempos, metendo aqui e ali a
palpitação surrealista… Nunca tive, todavia, qualquer
dificuldade em mostrar-me em Espanha e em colaborar com entidades
culturais espanholas, devido à maior abertura que existe do outro lado da
fronteira. FM - No que diz respeito ao “temperamento” da imprensa em Portugal, isto tem sido a tónica dos organismos de comunicação em todo o mundo, não constituindo uma particularidade portuguesa. O que intriga é a maneira como esta forma violenta tornou-se natural com a conivencia da própria casta intelectual que a deveria combater. Meter-se com a mídia hoje é coisa para excluídos que ainda sonham em ser incluídos. Já não se questiona a deformação moral do que seja. Não se trata de ideologia ou estética e sim de um naufrágio existencial. NS - Gostaria de contar uma
pequena estória que eu apelidaria, com humor negro, de “proveito e exemplo” como se diz por cá: no filme do Oliver Stone
sobre o assassinato do Kennedy o procurador que está a investigar a
conspiração, ao encontrar-se com o operacional reformado que pertencera
aos mais altos círculos da “secreta” e lhe dá informações, começa
a falar-lhe na filosofia do mal
dos previsíveis assassinos e em outras coisas transcendentes que tais.
Ele, com um sorriso, diz-lhe então:” Deixe-se de filosofias e de
“poesia” e siga a pista da massinha…”. A minha posição perante o
que deixas transparecer na tua pergunta é exactamente a mesma. A meu ver
não se trata de um naufrágio existencial e sim de algo que tem a ver com
a charra e crassa falta de ética e do desejo de estar à manjedoira do
poder. Há uma parte da intelectualidade que questiona a deformação
moral que muito bem referes. Mas são defenestrados, marginalizados e
mesmo perseguidos quando é necessário. Creio que os movimentos sociais
de ponta - nos quais os surrealistas a mais de um título militam - devem
forçá-los a definir-se - e não se julgue que é um esforço ingénuo ou
desinteressante, este. Pela minha parte não estou nada intrigado com os
fastos que os lacaios de sempre se auto-ofertam: os oportunistas sempre
jogaram pelo seguro e têm artes de estar sempre do lado onde há sol… Creio que a pouco e pouco a
figura está a reconfigurar-se: também os de Leste se pensavam eternos e
veja-se a implosão que os deitou todos abaixo. Nisto, sou optimista. Também
os que pensam que a bambochata sequente durará encontrarão o seu
Waterloo mais depressa do que julgam. Hoje já nem os próprios gurus da
economia de mercado se atrevem a arvorar um sorriso sobranceiro, eles
sabem bem quanto as suas aparelhagens aparentemente de precisão são falíveis.
As próprias religiões reveladas, que são outra das partes (baixas) da
questão, sentem um frio mortal à sua volta. Mesmo os chefes do Islão,
de acordo com dados a que se tem acesso, no fundo estão muito pouco
tranquilos - e por isso tentam uma fuga para a frente mediante o
fundamentalismo mais agreste e o terrorismo como razão intrínseca duma
linha que já se perdeu na História e está prestes a perder a própria
História. Aos surrealistas caberá então uma tarefa definitiva: colocar
sempre e cada vez mais em evidência as margens do amor sublime, da transfiguração imaginativa para além do
simplesmente literário ou societário. Como diziam e viviam os mestres
alquimistas, a questão que se põe é mais artística (ou seja, de
paixão e de um realismo que
sabe espiritualizar a matéria e materializar o espírito) que técnica ou
filosófica (no sentido estrito). O próprio exagero das forças
dominantes - entre as quais os médias
se contam - em rebaixar a ética, nos diz que eles percebem que existe
um certo estrebuchar imparável. Não tenho da vida um sentido
catastrofista e, por isso, sinto uma certa calma que me permite viver sem
a angústia que é natural muitos terem colada aos ossos e à alma.
NS - Confesso, sem nenhuma malícia,
que não conheço muito o trabalho a que te referes. E isso será já
significativo em si. Num país normal eu não poderia deixar de ter bom
conhecimento disso. Mas se calhar sou como o personagem do livro do
Richard Wright sobre o racismo, um homem
invisível. E como eu há mais… É claro que isto sucede porque,
precisamente, o Perfecto Quadrado está dando ao surrealismo isso que
referes. Ou então foi alguém que, interessado, inteligente, agilmente
manobrador, lhe deu a volta como a
uma luva velha, como se diz que o Napoleão fez a um encarniçado
opositor. Mas isto são conjecturas. Não conheço esse estudioso, não
sei se é uma alma cândida ou uma pessoa que, interessada e ardente, tem
no entanto do surrealismo português a visão que o imperador Guilherme
tinha da Alemanha: uma dama pronta para todas as aventuras…
Sério calculo eu que deva ser. Seja como fôr, o historicismo
interessa a muita gente - desde logo os pequenos aristocratas da fantasia
aplicada que são óptimos para lançar uma cortina de nevoeiro sobre os
tempos e os modos. Só posso, a este propósito e de boa catadura, dizer
que houve uma ensaísta que em tempos escreveu um tomo sobre o surrealismo
que, lido por mim e pelo Carlos Martins - que aliás lhe escreveu uma
carta, eu dispensei-me de tal maçada - nos fez rir primeiro a bandeiras
despregadas. Aquilo que lá dizia que nós tínhamos feito era uma
traquinice pegada, não fôra nada daquilo. Depois, pelo menos eu - que
tenho um temperamento dramático, quase trágico - gelou-se-me o riso nos
lábios. Era, com todo o respeito, uma quase pequena impostura. Que nos dá
tristeza, a nós que estamos de boa-fé. FM
- És o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, em Portalegre.
De que maneira isto permite alguma aproximação entre literatura em
Portugal e demais países de língua portuguesa? O que se conhece da
poesia brasileira em Portugal? NS
- Régio era um poeta que, apesar do que certos sectores ainda pretendem,
prezava os encontros além de ser dotado de um espírito curioso e
interessado. Tinha muito razoáveis contactos no Brasil. A talhe de foice:
Ribeiro Couto (que ele recebeu em Portalegre numa noite memorável de que
há registos), Cecília Meireles, Dante Milano, Manuel Bandeira, Herberto
Sales, José Paulo Moreira da Fonseca, Mauro Mota, Domingos Carvalho da
Silva… Trocavam
os livros, exprimiam-se mutuamente apreço e admiração - e como se diz
passavam palavra, procediam a cooptações. Logo
que cheguei ao Centro - e já lá vão 13 anos - comecei imediatamente a
ler tudo o que ele tinha em acervo, não só por brio profissional e
necessidade decorrente da minha função mas por gosto e vontade. Aliás,
há lá livros que se calhar já só se encontram nas bibliotecas
nacionais… Em
certos casos foi um deslumbramento. Autores de que só tinha ouvido falar,
nalguns casos e, noutros, lera de raspão na, à altura, mal fornecida
Biblioteca da cidade, estavam à minha disposição! É claro que depois
passei as minhas leituras, entre outros elementos que lhes fornecia, aos
visitantes. Não é para me gabar, mas muitas pessoas em Portugal passaram
a ler autores brasileiros com renovado interesse depois da minha
“evangelização”… E não só visitantes, mas confrades e amigos. E,
muitas vezes, quando ia ou vou à Rádio, frequentemente leio poemas dos
teus compatriotas. Porque tenho prazer nisso, porque eles merecem - mas
também porque acredito que é importante difundir a literatura
brasileira. E tenho sido “recompensado”: tempos atrás, por exemplo,
foi-me solicitado por uma senhora de Almada que lhe enviasse fotocópias
de poemas de Moreira da Fonseca e de uma escola do Baixo Alentejo fui
solicitado a proferir uma palestra sobre Régio e os escritores
brasileiros, o que fiz, tendo depois escrito um pequenino ensaio. Não
me parece que se conheça muito da vossa poesia cá no país. Em geral
fala-se em Bandeira, Murilo Mendes, Jorge Amado, Ledo Ivo, outros como
Rubem Fonseca - mas é nas correntes intelectuais que o conhecimento pode
ser mais fundo. Estou a lembrar-me que um poeta de categoria, C. Ronald,
eu mesmo só relativamente há pouco tempo o li. E deve haver dezenas de
autores de mérito que desconheço, o que diz de imediato que se num
leitor tenaz e intemerato como eu isso é assim… como não será noutros
um pouco mais distantes da leitura! FM - O que consideras esteja a
faltar para que haja uma presença significativa de escritores brasileiros
em Portugal? Penso, por exemplo, que vocês podem contar com o apoio
financeiro do IPLB, enquanto que no Brasil nada temos neste sentido. NS - Em primeiro lugar, e com amiga ironia to digo, a expressão vocês
podem contar com faz-me ficar com um riso amarelo… Podem - alguns; os que o tal
IPLB distingue. E confesso-te que me dás uma novidade: se a sigla a que aludes é o Instituto Português do Livro
e das Bibliotecas (o meu relativo desconhecimento já é, acho eu,
significativo) nunca recebi e nunca receberei, de certeza, qualquer apoio
para divulgação no Brasil. Bem como outros que não usam (galhardamente
falando) gravata nem fato de três peças… Faço-me entender? Fui até há
bem pouco tempo co-coordenador de um suplemento literário, editado
durante três anos ininterruptamente. E publicámos, como sabes, um número
considerável de textos e poemas de autores brasileiros. Quando, a dada
altura, pusémos a hipótese de solicitar algum apoio a essa sigla, olhámos
uns para os outros e concluímos de pronto: sabendo o actual hábito
lusitano, nem vale a pena tentar… Teremos sido injustos? Se acaso o fômos,
foi de alma branca. Com sinceridade. De boa-fé. Mas adiante… Creio que se deve começar, ou
continuar, pelas cooptações. Entre escritores. Entre jornais e revistas
do sector. Entre editores. E depois, de facto, ter a esperança ou a exigência
de que os dois Estados cobrem coragem
para não se ficarem só pelo parlapié
(conversa fiada). Gasta-se tanto dinheiro mal gasto! E tanta coisa que se
podia fazer - palestras, colóquios, edições conjuntas... (Mas se calhar
estou a sonhar alto). Finalmente, confesso que fico espantado por não terem vocês nenhum organismo que apoie essas actividades essenciais num país a sério. Mas talvez - espero bem - a coisa possa agora mudar. Afinal têm como ministro da cultura um artista e como presidente um homem de bem (a meu ver, apesar de conhecer mal a política brasileira). Faço sinceros votos para que o panorama mude depressa - dos dois lados do Atlântico! |
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Floriano Martins (Brasil, 1957) é um dos editores da Agulha. Entrevista realizada em Portugal, novembro de 2003. Contato: florianomartins@rapix.com.br. Página ilustrada com obras do artista Júlio Resende (Portugal). |