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revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004 |
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Relatos da origem: o pensamento de Vicente Ferreira da Silva Rodrigo Petronio
Esse preâmbulo cheio de digressões deixa de ser um mero
exercício de estilo de valor duvidoso quando se trata de abordar o
pensamento de Vicente Ferreira da Silva, filósofo que encarnou em si a
tarefa espinhosa de meditar ao longo de toda uma vida, da maneira mais
intensa e radical possível, sobre essa força que, ao projetar-se,
desenha o contorno do ser humano, e que, no entanto, está longe de
coincidir com aquela essência substancial que ao longo de tanto tempo
julgamo-nos ser em nossa humanidade: tal é a distância que vai da sombra
projetada pela luz ao sujeito pensante que se vê refletido, modelado além
de si. Meditação metafísica de conseqüências drásticas, que tem como
tema não só o oceano transcendental que condiciona o epos humano, mas também que o vive
em sua obra, conferindo-lhe os componentes necessários para que ela mesma
se abra para o maior número de interpretações possíveis, e cumpra,
assim, em si mesma, a meta de superação postulada a
priori em seus próprios princípios investigativos. Eis que estamos
no reino da obra que dialoga e incorpora a matéria sobre a qual medita, e
assim se reveste da dignidade que faculta àquilo que toca. É consenso entre especialistas dividir a obra de Vicente
Ferreira da Silva em três fases, a exemplo de como fizeram recentemente e
com excelência o português António Braz Teixiera, no prefácio de Dialética
das Consciências e Outros Ensaios, e o brasileiro Ricardo Vélez
Rodrigues, no site educativo www.ensayistas.org.
A primeira estaria ligada mais às especulações lógicas e matemáticas,
na esteira das descobertas de Frege e Carnap e das novas perspectivas que
se abriam para esse estudo nas primeiras décadas do século XX. Já a
segunda fase seria de índole existencial e metafísica, com sua reflexão
meditada sobre as obras de Nicolau Berdiaeff, Jean-Paul Sartre, Max
Scheler, Edmund Husserl, Soren Kierkegaard, Julian Marías, Friedrich
Nietzsche, Arthur Schopenhauer, Gabriel Marcel, Henri Bergson e,
sobretudo, Martim Heidegger, filósofo de sua devoção, cuja obra serviu
de trampolim para o que seria sua terceira fase, aquela relativa à
filosofia da mitologia, onde culminam todas as suas reflexões metafísicas
anteriores e se unem os campos da ontologia e da teologia renovadas, a
partir do conceito central que estará presente até os seus últimos
escritos: o Mito. Neste terceiro movimento haveria um influxo de
pensadores ligados à Filosofia da História, à História das Religiões
e aos estudos relativos à estrutura do mito e suas diversas conexões
metafísicas e antropológicas, tal como os nomes de Walter Otto, Mircea
Eliade, Enzo Pacci, Karl Kerényi, entre tantos outros. É óbvio que essa
tripartição é de cunho didático e explicativo, sendo boa apenas para
sinalizar em grandes linhas o percurso sinuoso de um pensamento. De fato,
encontramos esboçadas, desde o livro Ensaios Filosóficos (1948),
passando pelo denso Dialética das Consciências (1952) até os últimos
escritos, como os diálogos filosóficos e os textos publicados esparsa e
postumamente nas revistas Convivium, Diálogo e Cavalo
Azul, a mesma matriz reflexiva em suas várias facetas e interesses.
De modo que os estudos lógicos, se acabaram tornando-se escassos, nunca
deixaram de estar presentes de modo latente em seu espírito e em sua obra
como bases formais prefiguradas na atividade mítica, e assim também os
pontos nucleares das filosofias da existência, que, aliados a um forte
componente fenomenológico, levaram-no à sua pesquisa fina sobre a origem
da vida da consciência, nunca saíram de seu escopo de interesses, e estão
mais presentes do que nunca nas suas formulações cabais relativas à
origem aórgica e meta-histórica do universo humano. Tratando-se da unidade do pensamento de Vicente Ferreira da
Silva, creio que seja curioso já começar pensando nas ressonâncias recíprocas
que momentos diversos de seu itinerário mantêm uns com os outros, e
creio que essa possa ser uma boa porta de entrada para a sua obra.
Curiosamente, o texto de abertura dos Ensaios Filosóficos é
denominado Andróptero, e retoma
uma velha fábula, narrada por Platão para provar até que ponto o homem
é presa do mundo sensível que lhe circunda, e que ilustra até que ponto
o homem é iludido, pois, caso lhe fosse dada a capacidade de alçar vôo,
nem assim conseguiria se livrar dos obstáculos concretos, que serviriam
de orientação e entreposto à sua rota. Platão parte dessa pequena história
para galgar um modelo moral e didático bem mais abrangente, e em muitos
aspectos ela se assemelha ao famoso mito da caverna, por ele descrito.
Assim, desenvolve a reflexão segundo a qual muitas vezes a própria situação
geográfica do ser pensante pode interferir na sua compreensão do mundo,
fato que só serve para reafirmar que, somente pela devoção e pelo amor
às idéias puras, o homem pode ter algum conhecimento verdadeiro, não
maculado pela contingência de seu habitat sensível. É como se o homem,
segundo Platão, estivesse condenado a amar a opulência do ambiente em
que se encontra, por causa de um mero acidente de nascimento, e nunca vai
ter uma plena noção de quão pobre é a sua experiência se não tiver a
contrapartida ideal de um mundo fora dessa clareira existencial dentro da
qual sua vida transcorre. A explanação do filósofo paulista sobre estas
idéias platônicas, ainda que em um estilo ainda embrionário e hesitante
em relação à elegância, segurança e acuidade de seus textos de
maturidade, ganha em valor se pensarmos que já podemos encontrar aí, em
suas primeiras linhas, a metáfora geológica, a hipótese de o pensamento
humano ser condicionado pela situação geográfica do homem que reflete,
e, mais que isso, a intuição de que a própria geologia possa fornecer
subsídios às estruturas do pensamento filosófico. Pouco mais adiante,
percebemos o desconforto de Vicente diante destas prescrições platônicas,
que são questionadas com virulência, e vemos o nítido incômodo que lhe
causam as formulações eidéticas do filósofo grego, em função das
quais teríamos sacrificado o amor ao real e a pulsão vital das formas
sensíveis à genuflexão de nossa vontade a uma realidade perfeita e
hipotética. Eis que estamos frente-a-frente com duas linhas mestras de
sua filosofia. Por um lado, temos uma hipótese de índole transcendental
que subverte os termos de uma velha equação metafísica, e põe a história
humana como subsidiária, subordinada e adventícia em relação à história
do Universo, como se aquela fosse apenas um brevíssimo capítulo da história
do ser, vivida narrativamente por esta, e, portanto, sua devedora, pois
seria esta dimensão meta-humana e cósmica a instância projetiva, não só
de todas as potencialidades e desempenhos humanos, como do próprio
desenrolar da nossa história ao longo dos séculos. A história humana,
por mais rica e singular, é vista sob uma ótica contingente, porque não
é ela, mas sim as potências transcendentais fundadoras que operam e
deliberam sobre todas as criações que o homem reputa sendo fruto único
do seu esforço. É a realidade que escapa aos espectros de atuações
humanas aquela que dispensa a sua liberdade, é o que está além dos
eventos que projeta a probabilidade finita de suas ocorrências concretas,
apenas o que vai além do homem e de quanto ele criou encerra em si a potência
virtual de todo o Criável. Em outras palavras, é justamente o horizonte
transcendental que ultrapassa o homem que, ao ultrapassá-lo, arroja-o em
sua humanidade, conferindo a seu rosto os contornos que ele reputa intrínsecos
a ele mesmo. Paradoxalmente, apenas por meio de um perder-se deliberado e
ativo de si mesmo que o homem recupera a sua liberdade alienada, sem a
qual ele se resume a um ente perdido entre os entes e a uma poeira cósmica
cujo único sentido é o ser para a morte, o Sein
zum Tod de Heidegger. Por outro lado, temos em sua obra uma valorização
dos impulsos vitais da criação artística, aqueles mesmos que gerariam o
horror (ou a ironia) em Platão, porque origem de todas as cópias,
reproduções e simulacros da realidade sensível, e com ela uma crítica
do platonismo como sendo uma filosofia monista e estática, características
que Vicente vai identificar também em Parmênides de Eléia, onde o
movimento seria obliterado em proveito de uma causa formal supramundana e
cerceadora. É aqui que entra a arte, essa maneira suprema de afirmação
da vida dos instintos e de repúdio ao espírito de gravidade, como queria
Nietzsche, e todo o valor que o pensador lhe dispensará ao longo de
tantas páginas. O núcleo desta especulação que começa a unir metafísica
e temporalidade, e cujo cerne consiste numa crítica das concepções
antropocêntricas e humanistas da filosofia e da história, vai se
desenvolvendo aos poucos na obra do filósofo paulista, e encontra seu
ponto de viragem a partir das obras do começo da década de 50, se
aprofundando de maneira vertiginosa com as obras subseqüentes, como nos
ensaios dispersos sobre filosofia da mitologia, a meu ver a fase mais
brilhante e arrebatadora de sua obra. Esse percurso, visto à distância,
dentro do panorama mais amplo da filosofia moderna e contemporânea, também
é dos mais interessantes. Sabemos que boa parte do pensamento moderno, mais
especificamente a Metafísica e a Teoria do Conhecimento, tem seus
alicerces sensivelmente abalados pela crítica do juízo e da razão pura
levada a cabo por Kant. Talvez não seja exagero dizer que o conceito de
sujeito transcendental formulado pelo filósofo de Königsberg esteja na
raiz de todas as investigações filosóficas que visem dar uma explicação
satisfatória do processo noético em toda a sua complexidade, não se
restringindo a uma descrição formular e, às vezes, protocolar da
atividade de nossa consciência como uma relação simples entre a res
cogitans e a res extensa,
entre a atividade do espírito que configura o mundo material em si e esse
mesmo mundo que se oferece previsivelmente ao beneplácito do nosso
entendimento. A revolução operada por esse conceito nuclear da teoria
kantiana vai praticamente destruir a hipótese de um universo material
previamente ordenado e constituído, passível de conhecimento pela
unidade monolítica do sujeito cognoscente, e, assim, deitar por terra
toda a investigação que traga determinada em si como finalidade a posse
do nomenos, da dimensão em si do mundo tal qual ele se nos apresenta,
relegando-nos à simples possibilidade de vislumbrá-lo como um conjunto
de fenômenos sensíveis encadeados sob as regras da nossa percepção e
dispostos no horizonte apriorístico do espaço e do tempo, categoria esta
que é justamente a que instaura estes mesmos fenômenos e funda nossa
subjetividade. Ora, se com essa tese a base substancial do sujeito se
torna rarefeita e, colocadas as coisas em termos mais simples, toda a
estrutura cósmica sobre a qual repousamos só pode ser aduzida como uma
objetivação da nossa consciência em movimento, colocamo-nos diante de
uma questão bastante delicada, dado que os limites do mundo, tal e qual o
supomos, teriam que se contrair e adequar aos limites da simples razão,
essa luz opaca que nos nortearia na noite da existência fornecendo-nos
algum sentido preliminar para o conjunto de nossas experiências,
dispostas no interior de uma circunferência, e, fora da qual,só nos
restaria a conjectura e o vazio. Em outras palavras, a partir de Kant as
relações entre sujeito, conhecimento e mundo entram em crise, já que só
me é possível afirmar que conheço algo na medida em que me posiciono
como sujeito pensante no ato de conhecimento deste objeto, e, da mesma
forma, só posso afirmar que penso e existo, a partir do momento em que me
reconheço, não como ente racional, mas como apenas um dos pontos do
projeto transcendental no interior do qual me vejo lançado e como apenas
uma das instâncias do percurso noético, onde a consciência que se
objetiva e retorna a mim transfigurada em objeto para que, enfim, possa
recompor-me como sujeito. O criticismo kantiano nos vedou o conhecimento
da essência do mundo material, porque disse que essa essência repousa
sobre um ato de conhecimento, e, o mesmo tempo, fraturou a unidade hipotética
do indivíduo, disposta segundo uma mitologia espiritual, colocando-o como
coisificação artificiosa da superfluidade do pensamento e mera rito de
passagem do percurso infinito de representações do real. É certo que a aridez destas especulações sistemáticas
de Kant e de Fichte vão encontrar ressonância no espírito de Hegel,
Schelling, Novalis e dos românticos de modo geral, embora sob uma
roupagem bem menos austera. E quando Hegel define o mundo material como
uma objetivação do Espírito e a Natureza como uma contrafação finita
do infinito que rebate luz sobre ela fornecendo-lhe o seu contorno específico,
ou quando entende história humana como um processo de reencontro da
consciência consigo mesma, quando ela, despida de toda a exterioridade,
possa enfim descansar imersa na pureza de sua centralidade, e onde a
disputa dialética do para si
que incorpora o em si e o
transforma mediante a ação do trabalho finalmente cessa, transfigurada,
creio que tenha em mente justamente um projeto crítico, mas aplicado ao
plano da filosofia da história, e, por mais que em vão se queira negar,
revestido de toda a sorte de teleologias escatológicas. O fato é que será
do desdobramento dessa primeira visada transcendental do sujeito que a
filosofia entrará, ainda que por caminhos diversos e rumos inauditos, no
terreno crítico da consciência como limite ontológico da compreensão
possível do mundo. Ao longo do século XIX muitas águas vão correr
nessa perspectiva, seja no sentido de ampliar o espectro do conhecimento
na direção de uma filosofia da vida, tentado reintegrar o indivíduo às
potências fundadoras do elã vital, caminho sugerido e ação perpetrada
por Dilthey, seja circunscrevendo a possibilidade do conhecimento dentro
dos limites instauradores da Vontade, fonte originário de todo o Universo
e até mesmo de todos os centros de representação, ou seja, os próprios
homens, como quis Schopenhauer, seja, por último, declarando
taxativamente que o sujeito não passa de uma ficção, como fez
Nietzsche, radicalizando a proposição inicial e conduzindo-a, a
marteladas, ao limite do paroxismo. E não será outra a inspiração
Edmund Husserl para, no início do século XX, retroagir aos estudos
pioneiros do psicólogo Franz Brentano, e neles colher um conceito que será
chave para a Fenomenologia, por ele criada e desenvolvida: a
intencionalidade. Será com base nesse conceito, que goza uma longa história
na filosofia sob a rubrica da intentio,
mas que havia se cristalizado em acepções biológicas e positivistas das
mais questionáveis nas mãos de Skinner e Pavlov, que Brentano reabrirá
a brecha até então vedada da consciência e de toda a atividade noética,
propondo uma revisão das categorias fundadoras dos limites do sujeito e
do conhecimento do mundo exterior nos termos de noesis
e noema, que passam a se basear
em uma entrega do pensamento ao objeto pensado e uma subseqüente oferta
do objeto em sua materialidade, ou seja, na sua dimensão hilética, como
dirão mais tarde os fenomenólogos, operação esta que fornece os
limites ontológicos concretos para a sua construção e compreensão no nível
da consciência. E será nesses termos que Husserl empreenderá sua revolução
filosófica, ao instituir o domínio puro dos fenômenos no horizonte
cognitivo e destruir toda a possibilidade de retorno de algum
cientificismo recalcado, sob a pálida crença de que o mundo material que
se descortina fora de nós é estável e passível de intervenções e
catalogações objetivas, fora de qualquer ato de entendimento e do
circuito da consciência mundana do sujeito que conhece, ou de laivos
toscos de subjetivismos de segunda ordem, que acreditassem numa
interioridade intrínseca, imanente e constante do domínio humano, sendo
assim devedores de toda a tradição inatista que colide com todo e
qualquer projeto filosófico que se paute pela conquista da liberdade. Não
foi à toa que o método de Husserl teve o alcance monumental que teve, e,
sendo pensado a partir de pressupostos lógicos, pôde exorbitar o território
da filosofia e se espraiar nos campos de praticamente todas as ciências,
já que não constituía uma teoria, no sentido aristotélico do termo,
mas uma visão de mundo, uma Weltaunschauung, um modelo de abordagem do universo sensível, uma método
de compreensão de todo o conhecível e de todo o existente, e que repousa
sobre a base metafísica de um sujeito que se vê, no ato do conhecimento,
implicado no objeto conhecido. São exatamente estas as palavras de
Heidegger em seu famoso e polêmico opúsculo, conferência proferida em
1933 quando de sua ascensão à reitoria da universidade de Freiburg, e
que leva o título sibilino de O que
é Metafísica?. De modo que, a essa altura, as portas estavam todas
abertas para o florescimento das filosofias da existência no século XX,
um dos acontecimentos mais marcantes dos últimos séculos da história do
pensamento ocidental, a partir não só das meditações teológicas de
Soren Kierkegaard, mas também por vias da Fenomenologia, que veio
fornecer o método a partir do qual os pensadores poderiam expurgar, ou,
se quiserem, se desintoxicar de vez de todo rastro pegajoso de
positivismo, de behaviorismo, de subjetivismo e de derivações menos
nobres do racionalismo cartesiano e kantiano.
Para Heidegger esse processo de esquecimento é deliberado,
e, mesmo quando não o é, está previsto pelos postulados do pensamento
humanista ao longo dos seus séculos e séculos de hegemonia no Ocidente.
Já o divisamos em Aristóteles, na disposição das suas categorias no Organom,
quando este dá preeminência e primado à substância, entre as dez
categorias que compõe a sua tábua, e assim vincula os entes e a sua razão
necessária às causas primeiras que lhes dimanaram, construindo assim um
argumento essencialista para a explicação do mundo e do homem. Em outro
ponto, nas diversas acepções de ente que lemos na Metafísica,
aborda o ente apenas como ente, e para definir a especificidade ontológica
de cada um não faz mais que remetê-lo comparativamente a outros entes,
em um círculo associativo que explica todo o mundo físico e sublunar,
mas que evita o ponto ardente deste mesmo mundo: o ser. Porque se o ente,
em sentido etimológico, vem de ens, uma declinação do verbo latino essere, que quer dizer rigorosamente ser, sendo ente, portanto, aquilo que é, é inexplicável que se
gire em círculos definindo as coisas existentes e remetendo os entes uns
aos outros para, por contraste, averiguar sua peculiaridade ôntica, sem,
contudo, atentar para aquilo que é a essência desse fundamento, ou seja,
o próprio ser. Todo o projeto filosófico de Heidegger se radica em
varrer o palácio opulento da filosofia, desempoar o rico mobiliário da
metafísica e retomar a ontologia, considerada uma geringonça velha
criada para produzir enunciados apofânticos, proposições tautológicas
que giram em torno de si mesmas, e dinamitar essa arquitetura majestosa
com tudo o que ela tem dentro. Deslocando o primado da categoria substância
para outra categoria, o tempo, e propondo que o todo conhecimento só é
possível em decorrência e na medida da Offenheit, da abertura da consciência para a Lichtung des Seins, para a iluminação do ser, Heidegger utiliza o
método fenomenológico para subverter a história da metafísica e, na
esteira de Nicolai Hartmann e de seu monumental Ontologia,
transforma a velha especulação ontológica, concernente aos fundamentos
e à estrutura do ser, no enredo de uma peça que se desenrola sobre o
palco do mundo, proposta como único domínio efetivo onde nossas
faculdades afetivas e intelectivas podem se desempenhar em toda a sua
amplitude e único acesso efetivo do homem à sua humanidade alienada. A
partir de então, poderemos afirmar, tomando-se de maneira inversa o seu
comentário a um trecho de Heráclito de Éfeso, que o homem só é homem
na medida em que é vizinho do ser, e assim pulverizar toda a concepção
cristalizada de nossa própria estrutura ontológica, abrindo-nos para o
reino do imponderável e para um escopo de possibilidades absolutamente
novas de compreensão do fenômeno humano. Boa parte dessa crítica à visão substancialista do homem
já tinha sido empreendida pelo Idealismo alemão, ao propor-nos como
seres determinados historicamente e ao esvaziar a nossa matriz eidética
colocando em seu lugar a ação (tuum):
o homem seria uma constante construção, uma constante luta rumo à
catalisação do mundo exterior pelo movimento do Espírito que regressa a
si purificado, e a única coisa que nos constituiria seria uma pura
negatividade, uma ausência sempre em vias de se completar sem nunca o
conseguir, uma Nachtung, uma nadificação, para falar com Hegel, cujo único
sentido é a superação dialética das contingências. Não exponho aqui
todos os equívocos e problemas que essa proposta filosófica traz em si.
Apenas consigno o valor que ela desempenhou no sentido de repensar a
dimensão metafísica do indivíduo e concebê-lo como um feixe de
possibilidades adormecidas, ou, em outras palavras, pensá-lo não como
algo dado, mas sim como um ente aberto à construção de sua própria
liberdade. Nessa chave de conceitos entra Vicente, recuperando o que nela
está posposto nas filosofias existenciais do século XX, concepção que
podemos apreciar no excelente exercício de estilo que é o ensaio O Existencialismo de Sartre, de sua fase inicial, verdadeira
homenagem, quando o filósofo ainda não havia rompido e polemizado com o
autor francês por causa dos caminhos filantrópicos e algo contraditórios
que seu pensamento tomou a certa altura. E será esse ingrediente
essencial que norteará o seu trabalho de 1949, Exegese da Ação,
onde o conceito vem desenvolvido e desdobrado dialeticamente em alguns
ensaios dedicados à criação artística, cujo componente performativo é
fartamente valorizado, em detrimento do imobilismo e das fundamentações
supramundanas e ideais que, segundo o autor, engessam as possibilidades de
modelagem de mundos possíveis efetivada pelo Eros e gera, portanto, nas
palavras de Nietzsche, uma ética de negação da vida e das potências
vitais. No entanto, é preciso pormenorizar em que acepção o filósofo
toma a palavra ação, e até que ponto ela está vinculada ao caráter
formativo de Bildung, seja ele
de inspiração idealista ou materialista. E aqui nos deparamos com uma
faceta muito interessante de seu pensamento: a crítica da teleologia. Essa crítica se dá em vários momentos de sua obra, sob
prismas os mais variados, e é sem dúvida uma das pedras-de-toque de seu
itinerário intelectual. Porém, ela se manifesta com mais didatismo e
sistematicidade em dois ensaios, Utopia
e Liberdade e Para uma Moral Lúdica.
No primeiro, Vicente tenta apontar os furos e as impossibilidades do
pensamento utópico, argumentando que, na medida em que ele se baseia na
anteposição retrospectiva do que ainda não ocorreu, ou seja, toma por
factível, provável e real algo que ainda é da ordem do possível e do
hipotético, acaba afunilando o campo das experiências humanas e
restringindo a nossa zona de realidade, já que, ao contrário do que se
crê, passaríamos a agir em função de algo que, em tese, não existe, e
isso geraria em nós o mesmo constrangimento que todos os dogmas políticos
e filosóficos acarretam no presente. É como se nele houvesse uma inversão
de vetores, sendo o possível tomado como real e este, pressuposto como
consumado, o que gera uma apostasia equivocada em nosso entendimento, que
passa a observar o mundo a partir de sinais trocados, como se o que ainda
não se deu fosse uma ausência legítima e incorrigível do dado, o que
acarretaria diversas deturpações em nossos juízos do presente. Aliado a
isso, temos um outro problema no pensamento utópico, a saber: todo ele se
pauta tendo em vista a homogeneidade das ações do homem, como se estas
fossem passíveis de serem enquadradas e previstas segundo critérios
fixos, além de reduzir a pluralidade das organizações e desempenhos
humanos a um regime premeditado, crendo ingenuamente que a superação de
uma determinada insatisfação, como a supressão das necessidades
materiais, por exemplo, vai nos conduzir necessariamente a um
apaziguamento das paixões e desta, a uma estabilidade psíquica que
serviria de estofo a todo progresso espiritual da vida em sociedade.
Pensando assim, o filósofo argumenta, estamos pensando em termos causais
simples, como se a sociedade fosse um organismo que, estimulado com uma
determinada natureza de sinais, responderia previsivelmente a este estímulo
emitindo a sua ação correlata, e não levamos em conta que a ordem dos
homens é imprevisível, complexa, podendo um mesmo efeito gerar repercussões
inteiramente diversas em circunstâncias e condições diferentes. Mas, o
que podemos fazer então para educar-nos para a liberdade, de modo que,
sem a intencionalidade concebida de um mundo mais justo em sua
integridade, ainda assim norteemos nossas ações espontaneamente no coração
da ética? Podemos começar experimentando essa liberdade onde ela se dá
de maneira mais radical, intransigente, original, viva e completa: no
jogo. Retomando a tese do historiador holandês Johan Huizinga, segundo a
qual o jogo não apenas um elemento entre outros componentes das culturas,
mas sim o elemento central da
formação de qualquer cultura, já que antes de ser racional o homem é a
princípio e acima de tudo homo
ludens, Vicente propõe a esfera intransitiva do jogo como uma esfera
na qual a imaginação se potencializa a ponto de suplantar a própria
realidade, e, assim, desfaz o hiato entre o possível e o provável,
ampliando nosso horizonte de experiências e conseqüentemente
arrastando-nos em direção a uma vivência totalmente nova do nosso espaço
mundano. O jogo seria o melhor condutor de nossa vida moral, porque nele
aprenderíamos a exercitar a liberdade em seu sentido mais profundo e, a
partir de então, poderíamos apreender o valor de nossos atos e de nossas
obras sob a perspectiva enobrecida de sua própria imanência, sem violentá-los
para o cumprimento de projetos escatológicos, salvíficos ou soteriológicos.
A moral lúdica nos educaria para o mundo dos valores e não para o valor
instrumental do mundo. Este, só a partir de então pode deixar de ser
visto como um conjunto desconexo de objetos, obras, idéias, pessoas,
instituições e utensílios, e passar ao patamar complexo de cosmos, onde
todas essas suas instâncias possam ser reabsorvidas em uma unidade
transcendente sem perder as suas dignidades específicas. Assim, a partir
desse ato reflexivo primeiro e radical, estaríamos ingressando em uma
nova modalidade de contrato e de engajamento com o universo circundante,
onde a ação nasceria mais do desdobramento de um enlace amoroso com as
coisas do que de uma necessidade de transformação da matéria, subjugada
em função de uma finalidade qualquer. É evidente que neste ponto Vicente Ferreira da Silva está
em franca discordância com Hegel, na medida em que está problematizando
a supremacia que este filósofo atribui ao trabalho e à luta no que
concerne às estruturas ontológicas e históricas do homem, bem como há
aqui implícita uma crítica à estratificação da manifestação do Espírito
em dois tipos de consciência, uma servil e outra senhoril, polaridade
cuja relação conflituosa, segundo Hegel, conduziria à recíproca e
infalível absorção de uma pela outra, e, desta, a uma superação dialética
deste desequilíbrio original com o advento da idade da razão absoluta. O
filósofo paulista tece essas críticas, e, em outra oportunidade, também
aponta como problemático o fato da concepção de história do filósofo
alemão ser desenraizada, se manifestando ora ou outra em determinados períodos
humanos e em determinados povos, que servem de palco a esse conflito titânico
de forças, mas, no interior do qual, perdem-se por completo as dimensões
concreta, empírica, específica e pontual do movimento de cada consciência,
bem como cada agregado de consciências particularizado, o que nos levaria
a erros sérios de avaliação, posto que perderíamos as singularidades
que se desprendem dos confrontos entre os homens e a suprimiríamos em
troca de grandes blocos de eventos auto-evidentes pelo concurso da Idéia
que os plasma. Esse tipo de postura crítica em relação a Hegel e ao
materialismo dialético em suas estruturas de base forneceu motivo a todos
os mata-mosquitos culturais e a toda uma fauna de borra-papéis que se
julgam filósofos, o que mais há no Brasil, para promoverem um paulatino
apagamento de seu nome da história recente da inteligência brasileira. O
que esse tipo de ignorância coletiva não nota, fato que acarreta os
danos notórios e nefastos que toda a ignorância traz consigo, é como o
autor, a despeito destas críticas e sem demover o pé delas, naquela que
talvez seja a sua obra mais sistemática e una do ponto de vista filosófico,
a Dialética das Consciências, de 1950, retoma os conceitos do em si e do para si de
Hegel, abrindo um diálogo profundo não só com sua filosofia, mas com
todas as filosofias existenciais do século XX, como a de Sartre,
Heidegger e Jaspers, e leva adiante seu projeto, fornecendo uma visão
original e substanciosa da matéria em questão. Tendo em vista o
desenvolvimento do tema a partir de uma abordagem fenomenológica, mas sem
perder de vista o componente existencial que está pressuposto nela, o filósofo
pinta um amplo mosaico, tanto da estrutura de nossa consciência em seu nível
ôntico, tocante à relação dos homens com os objetos circundantes,
quanto no que diz respeito ao seu nível pático, bem mais delicado, que
é aquele onde se confrontam duas consciências em um dado contexto
existencial, oposição da qual se desprende toda uma cadeia de efeitos em
cascata, e a qual não podemos reduzir a uma disputa seca de poder, pois,
caso fosse assim, não haveria o percurso afetivo indispensável para o
estabelecimento de uma relação legítima, o que invalidaria a dialética
existencial da relação, reduzindo-a à sua pura exterioridade e,
portanto, tornando-a não passível de ser pensada dentro do domínio da
eclosão do ser, da éclarte nas
palavras de Sartre, que caracteriza toda verdadeira alteridade. Entretanto, devemos cavar muito mais fundo para entender o
seu pensamento; da mesma maneira que somos impelidos a vasculhar em
camadas mais espessas e subterrâneas a origem de sua indisposição para
com a teleologia e a idéia de progresso indefinido que ela desencadeou no
mundo. Essa crítica que o filósofo paulista faz a Hegel, crítica que,
por má-fé ou limitação intelectual mesmo, os seus detratores
compreenderam como exclusiva a ele e a ele endereçada de maneira tópica,
não diz respeito apenas à fenomenologia do Espírito do filósofo alemão,
mas sim a um conceito bem mais delicado e complexo: o humanismo. De tal
modo a questão do humanismo, entendido filosoficamente, é marcante em
seu itinerário intelectual, que podemos identificar uma mudança de
percurso em suas indagações a partir de duas obras onde ela é mais
premente: Idéias para um Novo Conceito de Homem e Teologia e
Anti-Humanismo, datadas de 1951 e 1953, respectivamente. Nesta última,
Vicente se propõe analisar as concepções de homem que nos legaram
diversos autores de proa, como Jacob Böheme, Höderlin, Novalis,
Nietzsche, Hegel, Schelling e, por fim, Heidegger. Já no princípio nos
deparamos com a curiosa concepção de Böheme acerca da multiplicidade
das línguas, das crenças e dos povos. Segundo o místico, não foi o
monoteísmo que se seguiu ao politeísmo, mas sim, e em chave de leitura mítica,
exatamente o contrário, já que no princípio dos tempos Deus era uno e
unificava tudo em si. Foi só com a derrocada dos homens e dos valores que
esse Deus se multiplicou indefinidamente e, junto com ele, o conjunto de
crenças e de estruturas lingüísticas, ramificando-se em linhas de
valores semânticos uniformes e circunscritos às suas respectivas
civilizações e contextos. É claro que o místico está glosando à sua
maneira a passagem bíblica da construção da torre de Babel, bem como as
implicações éticas neles envolvidos. O curioso é que o filósofo
paulista vai tirar daí uma conclusão interessante, e que servirá de
eixo a boa parte de sua reflexão ulterior. Se a unicidade do mito é
entendida como instância projetiva do fenômeno humano, não são os
homens que produzem o mito, mas eles são sim produzidos por ele. Apenas
depois de arrojados na história propriamente humana, ou seja, quando
perdidos na multiplicidade de suas línguas e crenças desconexas, veremos
a criação desses simulacros e reminiscências míticas cujo teor filogenético
estava já anunciado em termos prototípicos em Deus. Mas esse desapego
intencional de Deus para com os homens também é providencial: é ele
que, segundo Böheme, vai testar o valor dos atos humanos, na medida em
que estes tentem regressar à sua potência originária e às forças que
emanam as possibilidades mesmas de seu percurso histórico. Na feição
humana, essa acentuação de traços que o definem como um ente atirado,
jogado no mundo em virtude de um imperativo transcendental aparecerá também
nas reflexões sobre Schelling, sobretudo extraídas de seus estudos sobre
a filosofia da mitologia, e desaguará na concepção de Heidegger, que
enceta uma abordagem antropológica e filosófica que propõe o homem como
ente capaz de desvelar o ser, e por isso introduzido no projeto do Dasein,
do ser-aí capaz de eclosão, como ente capaz de identificação do ser
que subjaze e projeta seu foco de luz sobre todos os entes, mas também
como ente atirado no ser, caído na dimensão meta-histórica,
transcendental e meta-humana da história do ser, anterior e alheia ao
devir restrito do domínio humano e a todas as características que lhe
facultam uma zona de atuação própria. Dentro destes pressupostos, não há humanidade fora da
esfera mítica, já que, ao contrário do que crê um dos grandes
pioneiros dos estudos sobre a racionalidade mito-poética, Giambattista
Vico, filósofo napolitano cujas teses também são retificadas pelo
pensador paulista, não é possível haver uma era de gigantes, de bestiones,
cuja atuação cultural e a modelagem dos sentidos culminasse
dialeticamente na criação dos mitos dos quais nós somos hoje depositários.
Crer nisso é crer que seja possível definir a humanidade do homem em
termos biológicos e dizer que eles já
eram homens, ainda que não tivessem a linguagem articulada e a
capacidade de discernimento necessária para produzir o sentido mítico,
posteriormente encenado nas pequenas fábulas, as favolettas,
e registrado na produção mito-poética e nos seus padrões de
racionalidade imane. Vicente vai operar em direção oposta sua argumentação:
o mito funda o humano e nada há de humano no homem fora dele. Como instância
projetiva e absoluta, ele é que arroja o homem na sua especificidade histórica.
Tudo o que não é do domínio humano e que lhe é alheio, ao transcendê-lo,
paradoxalmente confere a ele a sua própria humanidade. Da mesma forma,
tudo o que escapa à história restrita e antropocêntrica do homem sobre
a Terra é justamente o elemento que determina, dimana, movimenta, urde e
anima esta mesma história. Assim, é muito interessante ver como o filósofo
parte dessas reflexões da estrutura mítica e as projeta em uma chave de
leitura radical, transformando o devir mundano do homem e a história
humana, concebida à custa de tintas antropocêntricas, em um breve capítulo
da história do ser, do fluxo das potestades e dos influxos numinosos que
lhe moldam os limites e conferem razão a seus atos e significado a seus
atores. Nesse sentido entra sua polarização com o humanismo, entendido
filosoficamente como a tradição do pensamento que focaliza no homem o
elemento centralizador e catalisador da existência, e a ele confere o
cetro da razão e da transformação do mundo, fazendo dele o motor, a
finalidade, o objeto e o sujeito onipresente da história e a causalidade
última de suas transformações.
Há aqui um problema terminológico, que seria necessário
desenvolver melhor, e que diz respeito a uma questão central: não seria
esse processo de esvaziamento do sagrado algo próprio a todas as religiões
monoteístas e não algo exclusivo do ideário cristão? É uma pergunta
que fica candente, e que por enquanto só vou assinalar, não desenvolver,
por conta de outros assuntos tangenciais que creio serem mais importantes.
Por outro lado, por mais que possamos encontrar alguns abusos de
generalidades no pensamento de Vicente Ferreira da Silva sobre o
cristianismo, assim como encontramo-las também em Nietzsche, se não
atentamos para os matizes e as filigranas de suas obras, é inegável que
a hipótese é bastante plausível, e é difícil crer que todos os
maiores impérios, as maiores guerras, as maiores expansões do
conhecimento e dos territórios, as maiores atrocidades e as maiores
modificações da noosfera humana tenham sido perpetradas nos últimos
dois milênios por povos cristãos por conta de um frágil acaso ou por
pura coincidência. Há sim aqui um componente mítico prefigurado nas
experiências mundanas, que as envolve e ao mesmo tempo as orienta,
fazendo com que certos agregados humanos, movidos pelas camadas mais
profundas do seu inconsciente coletivo, ajam de determinada maneira e se
pautem por determinados valores, que muitas vezes exorbitam as suas
peculiaridades geográficas, étnicas e culturais, indo desaguar em uma
predisposição mítica primigênia, ancestral e originária. E essa é
uma questão que já vem ocupando as especulações de jovens gerações
de filósofos de procedência vária, como o já citado Nancy, na França,
e Umberto Galimberti, na Itália, entre outros, nas quais encontramos
ressonâncias de idéias que vinham sendo debatidas pelo filósofo já em
meados dos anos 50 no Brasil. Porém, a questão do humanismo no pensamento vicentino não
se esgota aí. A parte mais problemática e polêmica, talvez aquela que
tenha lhe rendido o maior número de desafetos e gerado, pelo concurso da
ignorância coletiva que impera no Brasil, o silêncio absurdo que envolve
seus escritos, seja a vinculação que ele faz, ainda que de maneira muito
incipiente e lateral, do marxismo ao humanismo. A relação é clara e
bastante freqüente, não traria assombro em nenhum país civilizado.
Martim Heidegger, na Carta Sobre o Humanismo, já havia esboçado uma aproximação da
doutrina cristã e da clássica definição do pensamento humanista. Por
seu turno, Mircea Eliade foi um dos primeiros intelectuais a apontar para
os substratos messiânicos cristãos subjacentes ao discurso e às práticas
socialistas, fato que lhe rendeu retaliações ideológicas de diversos
setores da esquerda. Tendo em vista as matrizes imaginárias mobilizadas
pelo materialismo dialético tal como ele foi prescrito por Marx, a partir
de Hegel e do epicurismo, a ressonância, no projeto filosófico e político
marxista, de um campo de conceitos humanista e, mais especialmente, cristão,
torna-se quase evidente, e, no limite, incontestável. Se os termos da
equação salvífica não são os mesmos, e se no lugar da teleologia da
consumação humana no puro espírito reconhecemos agora um vago
correspondente seu na dimensão utópica de uma sociedade ideal, figurada
prospectivamente em termos prototípicos na infalibilidade de um futuro já
enunciado, o continuum desse processo se mostra mais claro quanto mais
perto nos aproximamos dele. Pois também não será por mero acaso que
Hegel fixará o cristianismo como a religião das religiões, no final de
sua Fenomenologia do Espírito. O trabalho do negativo, orientando
o curso da história numa contínua disputa entre a consciência servil e
a dominadora, engolfadas na luta e no empenho de superação dialética da
dualidade fenomênica rumo à unidade monista do Espírito, enfim liberto
quando a consciência pura se vê imersa e espelhada no Absoluto, é
apenas um esboço de algo que se cumprirá em termos bem mais palpáveis e
bem menos ideais e idealizados no materialismo dialético, que vai cortar
o pendor transcendental destas propostas e refugá-las na pura imanência
das relações de troca, de mais-valia, de alienação e de exploração,
cuja finalidade suprema será a construção de uma futura Utopia ou de
uma possível Cidade do Sol, se não talhadas mais nos modelos
(humanistas) da Renascença, elaboradas sim sob os ardis ideológicos e
demagógicos da revolução proletária e da consciência de classe, que
sobrepujam heroicamente os seus inimigos e vilões, tal como a matéria
cede à ação do espírito que a manipula e nele busca a forma, como diz
o belo poema, de inspiração platônica e cristã, do humanista Camões. Nestes termos, há uma continuidade bastante visível entre
a visada metafísica cristã, o projeto humanista, de aquilatar ao homem a
posição de centro formal de todo o universo e fim afunilado e último do
rio da história, e o materialismo dialético, seja do ponto de vista das
práticas ou das teorias. Ora, o problema é que a tradição
materialista, ao literalmente expulsar o conteúdo metafísico das
finalidades sociais e históricas e ao abolir qualquer laivo de cunho
transcendental de seus postulados de base, está operando o que,
contemporaneamente, ficará famoso por meio das linhas decisivas de Freud,
e que pode ser definido como recalque. Porque quando a relação inextricável
existente entre o processo histórico e a consecução de um itinerário
sacramental é desfeita em um de seus termos, embora preservada em sua
integridade no outro, temos um fenômeno clássico de desequilíbrio
conceitual e operatório. Em outras palavras, ao clivar o cristianismo
retendo dele apenas suas linhas de força e expurgando o componente metafísico
que lhe é essencial, sob a famosa (e sonífera) assertiva de que a religião
é o ópio do povo, entre outras, o materialismo resvala em um dos erros
mais perigosos que se pode incorrer quando se lida com a estrutura ideológica
configuradora das organizações sociais e do pensamento. Temos aqui a
apostasia de uma translação de valores de um domínio a outro do espírito,
e de uma região a outra das manifestações do espírito, com a conseqüente
abolição de suas fronteiras e especificidades. Essa translação pode se
dar de duas maneiras distintas. Em primeiro lugar, pode consistir em uma
ocultação do componente sagrado da crença anterior, subsumido em um
conjunto de novas crenças que se pretendem válidas positivamente do
ponto de vista científico, e que por isso rechaçam as superstições da
sua matriz de origem, com o fito de legitimar suas premissas do ponto de
vista do sucesso puramente técnico, político e ideológico de sua aplicação.
Isso se dá exatamente na demonstração ad
nauseam do caráter sucessivo e perfeito do desenvolvimento econômico,
concebido sob uma disposição em etapas que prevê (e prova) que a
supressão das necessidades básicas da infroestrutura gerará
necessariamente uma modificação dialética superestrutural. Essa operação
geraria uma auctoritas, uma
autoridade, se formos usar um termo da retórica, que anularia as possíveis
críticas aos conceitos expostos, sob a pressão de sua natureza incontestável
no plano empírico, o que não deixa de ser uma estratégica autoritária,
porque oculta elementos de sua engrenagem interna para demonstrar a perfeição
maquiada de sua funcionalidade aparente, alijando desse processo todo o
tom dialogal e dialógico que subjaze a todo o princípio de entendimento
recíproco e democrático. Em resumo, a conseqüência primeira que esse
desequilíbrio sistêmico produz é o hipnotismo, porque visa reduzir o
interlocutor e o crítico à condição prévia de optar entre dois
caminhos: aceitar os enunciados tais como foram formulados sob o peso das
“provas” ou renegar as “evidências” e, conseqüentemente,
mergulhar no obscurantismo. Em segundo lugar, além de criar esse clima
falso e estratégico de imunidade e de neutralidade, e ao promover essa
translação dos domínios do espírito e o apagamento do horizonte metafísico
sobre o qual repousa todo o ideário de extração humanista e cristã no
qual ele se alimenta, o materialismo produz aquilo que a meu ver é o seu
sintoma mais problemático: a possibilidade e o ambiente propício para a
criação de uma religião civil. E o que seria isso? Escoimando o domínio
espacial restrito e específico do rito, onde o mito é atualizado como
uma virtualidade infinita da qual dimanam as forças espirituais por ele
mobilizadas, e produzindo uma castração do espaço sagrado como instância
contraproducente dentro dos ideais de uma sociedade regida pela imanência
e preeminência do trabalho e da produção coletivizada, será esse mesmo
mito e esse mesmo sagrado que se infiltrará nas práticas civis,
embaciando a sua dimensão laica e produzindo uma atitude esquizofrênica
diante da realidade imediata, vista ora sob o signo da transitividade
instrumental dos objetos produzidos, ora como o sinal divino que remete
estes mesmos objetos e práticas ocasionais à ordem superior de manifestações
imponderáveis. Porque se o espaço sagrado é delimitado pela comunidade
de acordo com um imperativo coletivo e por decorrência da tradição, é
ele também que preserva e potencializa essa faculdade humana em sua
integridade, e impede que ela extravase suas fronteiras prévias. Com a
sua castração e o recalque da produtividade sagrada, apaga-se a
fronteira que separa as práticas civis, reguladas pelo consenso racional
e coletivo dos homens, e a investidura ritual, dada como presença
transcendental avassaladora e, por isso, imperativa. Nesse sentido, a
religião civil fundamentar-se-ia em uma projeção, tanto por parte dos
cidadãos quanto por parte dos administradores, de vivências numinosas na
estrutura organizacional da coletividade, e uma imisção da sacralidade
difusa e recalcada no domínio do que há de puramente arbitrário e,
portanto, acidental, no aparato burocrático, o que conferiria uma
legitimação transcendental e metafísica às instituições moldadas tão-somente
pelo concurso do senso-comum e da vontade da maioria. Para sintetizar, a
religião civil consistiria numa burocratização de Deus, obnubilado por
um húmus ideológico que lhe ocultasse a presença e a vitalidade, mas
que invocasse a sua sombra quando quisesse reivindicar para si a sua
autoridade para paradoxalmente convalidar o mesmo regime que o oculta e,
assim, manter hegemônica uma determinada estrutura de poder.
E aqui, em diálogo ruidoso com essa tradição, entra o
pensamento de Vicente Ferreira da Silva. Porque se a princípio esse ideário
humanista, seja de ordem materialista ou sacro, pode ser visto como o
responsável por boa parte do progresso técnico e científico da
humanidade, ele é o mesmo que provocou o exílio das potestades numinosas
e do reino das hierofanias no qual vivíamos mergulhados, e afastou-nos
daquilo que fundamenta a nossa própria estrutura ontológica, permitindo
um paulatino esquecimento do ser, que estaria na raiz de toda nossa miséria
existencial. Nessa chave, o filósofo propõe, em O
Ponto de Vista Hegeliano, uma curiosa inversão dos vetores históricos
o filósofo alemão: onde este vê uma clarificação do Espírito e um
sinal de mais, uma superação dialética da consciência, mergulhada
enfim na pureza do Intrínseco absoluto onde ela se espelha a si mesma,
cumprindo o seu itinerário fenomenológico, podemos de maneira legítima
propor um sinal de menos, porque a clarificação do Espírito estaria em
razão proporcional à ocultação do ser. Obliterando nossa condição de
ente abandonado na milenar e cosmológica história do ser, que nos
transcende e arrebata, o humanismo teria criado uma caricatura humanitária
que, por meio de projetos escatológicos, sejam eles de inspiração
espiritual ou material, camuflou a finitude humana sob a falsa roupagem de
uma potência auto-suficiente e detentora, se não das bases materiais que
mantêm a sua própria existência, pelo menos de um arcabouço de crenças
capaz de projetá-la sã e salva na eternidade de além-túmulo. Em
refluxo a essa perspectiva antropocêntrica, e em sintonia com uma concepção
do homem como vizinho do Deus, para falar com Heráclito, como morador do
mistério, como criatura atirada na história transcendental do ser, como
uma criatura por princípio e definição ontologicamente fraturada, cuja
essência é a carência e a finitude, entra a Teologia, não em um
sentido teologal ou simplesmente reformado, mas sim em diálogo profundo
com as filosofias existenciais e em relação conflitiva com toda a tradição
essencialista de base tomista que ainda hoje predomina no discurso acerca
de Deus, da divindade e da dimensão sagrada da experiência humana. Esse
horizonte metafísico no qual o filósofo vai navegar de velas soltas é
da ordem do aórgico. Literalmente, este é um termo emprestado a Höderlin, e
significa: aquilo que não é feito pelo homem. Em termos filosóficos, o
aórgico seria aquela instância que projeta o homem na história e aquela
Origem eternamente presente na modelagem secular de todas nossas ações,
porque procedente de uma instauração transcendental, renovada
constantemente pelo agenciamento mítico que prefigura nossas experiências
e nossa liberdade dentro dos limites de nossas escolhas possíveis. É
dessa instância projetiva transcendental que provêm e é ela quem provê
a liberdade humana, porque o homem pertence à liberdade e não a
liberdade, em sua nascente e em sua razão essencial, ao homem. Da mesma
maneira, o homem executa um percurso existencial, mas não consegue reter
a fonte promotora da existência, porque é ela que, ao alijá-lo dele
mesmo, paradoxalmente lhe faculta a especificidade humana, e não o homem
que determina e delibera sobre essa mesma especificidade. Entramos, pois,
em um território dominado pela potência que instaura todas as
possibilidades, possibilidades estas que, por sua vez, vão se cumprir
conforme a sua performance pontual, dentro das vivências históricas
concretas. É no ato de se acercar amorosamente dessas potestades que se
configura a humanidade do homem, é na vizinhança do ser que este mesmo
emite seu feixe de luz sobre a cadeia dos entes e fornece a cada um a sua
própria inteligibilidade. Essa potência instauradora meta-humana e
meta-histórica é o Fascinator. Espécie de causa forma de todo o mundo
fenomênico, instância modeladora de todas as possibilidades e origem do
movimento que movimenta o curso dos rios e da história, que anima com seu
sopro o palco onde o homem é arremessado, que agencia todos os projetos
possíveis e fornece o próprio horizonte de possibilidades no qual se
movem todos os entes, é esse regime de fascinação que regula a matéria
mesma de nossos afetos, experiências e pensamentos, numa nítida preeminência
do Eros, como elemento gerador, criador e vivificante, em oposição ao
Logos, concebido como parâmetro categorial que separa, classifica,
ordena, concatena racionalmente as partes elementares do mundo. Aqui entra
o elemento artístico, criador, demiúrgico e assertivo da filosofia
vicentina, que tem uma importância para a sua tábua de valores
semelhante à que tem para a de Nietzsche, e cuja ressonância moral é a
de uma afirmação do poder gerador em detrimento de uma sintomatologia de
base racional empobrecida ou de uma visão classificatória de inspiração
positiva. É nesse projeto transcendental ousado que o pensamento de
Vicente radica a origem e o termo de sua concepção antropológica, na
medida em que, ao refutar os equívocos do antropocentrismo e do
humanismo, devolve o homem às manifestações proto-históricas que lhe dão
fundamento, recompondo o elo perdido entre o ente e o Ser que o funda e
dissolvendo os laços que tolhem e restringem o ente à Essência que por
tanto tempo o formatou e aprisionou. Essas reflexões vão se fortalecer na etapa final de sua
obra, e vão encontrar sua formalização mais bela e mais bem acabada nos
ensaios sobre a filosofia da mitologia e naqueles relativos às questões
candentes do ser e do mistério. Dentre eles, O
Homem e sua Proveniência, junto com Origem
Religiosa da Cultura, nos põem muito próximos de um crítico
refinado do positivismo e de toda forma abordagem biológica redutora do
universo humano, possibilitando uma abertura saudável para um pensamento
que, como o seu, pretenda superar os impasses e equívocos do
antropocentrismo. Porém, seria necessária uma longa abordagem para dar
conta de todos os atalhos, sinais, caminhos, sendas e portas que suas
linhas nos indicam. Quer lançando-nos, por meio de suas páginas, no
devir proto-histórico por ele anunciado e na história natural dos entes
coligida na narratividade do ser, quer apontando para a investidura mítica
que invalida toda e qualquer definição frágil que tente se escorar em
pressupostos étnicos, raciais, sociais ou históricos para tentar
explicar o fenômeno complexo das culturas, essa fase do pensamento de
Vicente age sempre no limiar de uma fronteira enigmática e nos limites do
imponderável, tentando extrair de sua lição de trevas alguns aspectos,
ou não de todo pensados, ou plenos de aspectos que pareceriam a olhos
menos sagazes praticamente resolvidas. E mais uma vez nos vemos às voltas
com o aórgico, em belos ensaios como Hermenêutica
da Época Humana e História e
Meta-História. Mas aqui não se trata mais de explorar o horizonte
transcendental que dá forma a nosso breve percurso sobre a Terra, esse
percurso que, visto em termos naturais, não dura mais que um sopro ou uma
pulsação, e ao qual chamamos vida. Não se trata de vindicar a prevalência
dessa força cósmica animando cada pequeno movimento de folhas e pétalas
ao vento, da mesma forma que anima nossa entelékhia, como diria Aristóteles, e todos os nossos afetos. Não
se trata de pensar a árvore Ydraggazil, ícone sagrado nos quais um povo
vê o universo, atestando uma curiosa preeminência do elemento vegetal
sobre todos os outros elementos, ou de tecer comentários e reflexões
sobre o conceito de divindade entre os povos aurorais. Não se trata também
de investigar a essência do simbolismo e do pensamento simbólico por
meio dos possíveis significados da Flor Azul dos românticos, ou de
navegar pelas acepções possíveis da palavra imortalidade, pendente de
seu valor religioso. Não se trata mais de propor uma concepção teológica
e literalmente varrer o homem do grande palco do mundo, pondo no seu lugar
o holofote do ser, que possibilita a existência da própria cena. Nem de
criticar a prevalência da tradição humanista na tradição intelectual
ou investigar a fonte metafísica de onde dimana o próprio pensamento.
Estamos a cada passo no reino do aórgico e no seu mistério ardente, do não
feito pelo homem, daquela zona de sombra onde toda a maquinação
intelectiva e ideológica se reduz a cinzas. Então eis que se revela a
substância de que são feitos todos os pensamentos, quando a sua feição,
de tanto se abstrair de si mesma em fuga e de tanto buscar além de si
mesma um espelho que lhe reflita fidedigno, abolimos os elos que nos ligam
a todos os fenômenos e nos desatamos rumo à região do puro espírito. E
então, cruzando a fronteira de todos os entes, penetramos a clareira
iluminada pelo ser, e as páginas escritas abordando todos esses assuntos
nos acompanham, para dentro do castelo natural de um tempo fluido e
rarefeito, onde a própria reflexão se esgarça, se dissipa e se
desmancha, para compor um mundo colhido em plena florescência em seu
leito e talhado à maneira mesma do sonho. |
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Rodrigo Petronio. Poeta e ensaísta. Autor de Transversal do Tempo (ensaios) e História Natural (poesia), entre outros. Prepara novo livro de poemas que será publicado em breve pela editora A Girafa. Contato: pseudopetronio@directnet.com.br. Página ilustrada com obras do artista Júlio Resende (Portugal). |