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revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004 |
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Corpo desejante em tintas fugidias: percursos poéticos na pintura de Ívano Soares Mirian de Carvalho
Alvéolo ou recolhimento: o corpo Alvéolo em recolhimento: meu corpo 1 O Corpo na Estética Contemporânea
Bachelard valoriza a temática do corpo, compreendido como
lugar e força criativa das metamorfoses da matéria e da imagem poética.
Seu pensamento nos permite
desdobramentos nos campos da Estética e da Poética, e, em sentido mais
amplo, tal como Dominique Fernandez a ele se refere, por ter dado novo rumo
à filosofia: “suprimindo as
barreiras tradicionais que separam a atividade mental e a vida do corpo” (apud
Therrien,1970). Inseparável da poética, a estética bachelardiana
considera a importância do corpo também no campo da crítica literária,
cujos pressupostos podem ser estendidos à critica de arte, fundamentando-se
numa filosofia concreta: “Isto porque num certo sentido ela parte do nível
elementar da emoção e das imagens (do corpo!)”. Trata-se de uma
abordagem das expressões e ou produções artísticas, considerando
aspectos situados antes e depois da visibilidade da obra ou da apreensão do
trabalho artístico por outro meio perceptivo, imaginativo ou lingüístico,
este último diretamente afeto à Arte Conceitual. Essa estética nos fornece subsídios para a compreensão
do trabalho artístico, abrangendo aspectos objetuais e conceituais,
incluindo as instalações. Essa mesma estética também nos permite ler
instâncias da gravura, da escultura, da pintura e do desenho -
e de outras técnicas - através das qualidades
metamórficas da matéria, bem como ler nessas técnicas aspectos poéticos,
sobretudo em trabalhos nos quais o artista se utiliza de meios não-ortodoxos
para a realização de suas obras. Nesse caso se localiza a pintura de Ívano
Soares, que pode ser visitada em seus aspectos materiais e conceituais, que
complementam a instância pictórica. Nesta perspectiva, a articulação
entre poética e leitura da obra se torna instigante no campo da crítica de
arte, vindo a demandar uma revisão nos procedimentos críticos,
considerando experiências da matéria, antes e ou depois da experiência
perceptiva da obra, como mencionamos. A estética de Bachelard nos propicia essa visada crítica,
uma vez que se fundamenta nos processos da matéria em transformação,
valorizando tensões entre corpo e matéria, entre mão e matéria. Essa dinâmica
propicia sonhos primitivos e cósmicos, que relacionam o homem aos elementos
(Bachelard,1986), forças atuantes que agem impulsionando o corpo através
da imaginação. Nesses processos, a imaginação tem papel fundamental como
potência atuante, gerando o ato criativo - tópico importante na leitura
das expressões artísticas -, principalmente no Pós-Modernismo, em que o
corpo é lugar de convergências e de sentidos estético-imaginativos. 2 O Corpo e a Obra de Arte em Tempos do Pós-Modernismo
No Pós-Modernismo, o corpo não surge nem como ideal de
beleza, nem como alegoria, nem como referência hierática – aspectos
circunscritos de modo geral ao retrato, ao torso, ao dorso ou à cabeça,
como tem ocorrido nas “representações” do homem através da história.
Na arte hodierna, o corpo surge como gênese e atuação: linha de passagem,
paixão, conflito, ressonância e emissão de sentido, origem, arquétipo. O
corpo pode integrar-se aos procedimentos artísticos. Tem, por vezes, inserções
políticas. Pode ser objeto estético, como ocorre na Arte do Corpo (Body
Art). Dentre essas muitas possibilidades, ele pode ser expresso como
gesto, participação, conceito etc. No Pós-Modernismo, o corpo se insere,
de diversos modos, numa estética tribal, que lhe atribui sentido
participativo. Além da dimensão estética, ele se vê alçado ao poético,
ao ser valorizado dentro dos processos transformadores que permeiam o fazer
e a fruição das expressões artístico-estéticas. Com raízes em
movimentos do Modernismo, os desdobramentos expressivos do corpo ganham várias
acepções e possibilidades. Numa brevíssima recensão do trabalho de artistas do
Modernismo e do Pós-Modernismo, enumeramos, a título de exemplo, algumas
circunstâncias abrangentes dessas expressões: o corpo intuído,
na escultura, na pintura, na gravura e no desenho de Valdir Rocha; o corpo
erótico e mítico, na pintura e na gravura de João Câmara; o corpo
sacro, nas telas de Antonio Maia; o corpo coletivo, com valor de
pólis, nas várias técnicas trabalhadas por Rubens Gerchman; o corpo
implícito, como estrato cultural do homem, na pintura de César Romero;
o corpo encantatório, com diferenciações entre si, em algumas
obras de Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro e Ismael Nery; o corpo erótico,
na brasileirice das mulatas de Di Cavalcanti; o corpo tátil,
em Hélio Oiticica, incluindo o objeto-corpo dos penetráveis; o corpo
paixão, na gravura e no desenho a carvão de Adir Botelho; o corpo-obra,
de Lygia Clark; o corpo crítico,
na obra de Ana González; o corpo exuberante,
nas esculturas de Eliana Kertész; o corpo-terra,
na fotografia e na pintura de Mário Camargo; o corpo
adormecido em branco, no roteiro artístico de Marilou Winograd. E até
o corpo inexistente, no Construtivismo, que tem significados a serem
considerados.
3 Importância dos Processos da Matéria
no Pós Modernismo
A arte dos nossos dias se mostra rica em possibilidades técnico-poéticas,
primando pelo variacional. Junto às vanguardas que tendem ao objetual e ao
conceitual, encontramos no Pós-Modernismo manifestações paralelas que se
realizam através das técnicas tradicionais, como já dissemos, renovadas
por poética deflagradora de sentidos e desdobramentos estéticos. Em tempos
atuais, torna-se importante a leitura das expressões artístico-estéticas
através da poética da matéria, ou considerando-a como elemento intrínseco
aos procedimentos criativos, entrecruzando impressões sensoriais várias.
Neste período, em que tais expressões se instalam e se desinstalam dentro
e fora do prédio, indo às ruas da cidade, a matéria é fundamental à
visitação do trabalho artístico, que não se esgota na visualidade.
Assim, torna-se relevante acompanhar no processo criativo as metamorfoses da
matéria – antes e depois da presença da obra [2] – denominação
extensível ao evento, à performance ou à instalação, se for o caso –
perscrutando-lhes os efeitos e mutações, que podem ser objeto de registro
através de foto, vídeo, filme ou por outro meio. Em alguns casos, esses
registros se integram à expressão artístico-estética. [3] No
caso de Ívano, que é pintor, o procedimento criativo é singular. Usando o
guache, o artista tinge o corpo com águas cromáticas, para atuar como
matriz ao encontro do papel amassado (medindo cerca de 90 cm x 100 cm), que,
aderindo ao corpo, chega a romper-se, gerando efeitos estéticos de textura.
Nesse registro do corpo no papel, o artista faz interferências de cores e
texturas, para completar o quadro. Por fim, ao banhar-se para retirar do
corpo os restos de tinta, inicia-se o ciclo das cores mesclando-se à água,
escoando em fuga. Define-se uma etapa a ser registrada em vídeo,
completando o percurso da matéria no roteiro das águas fugidias. Na
pintura de Ívano, o corpo se insere como matriz e como imagem em vários
desdobramentos. Participa. Experimenta. Sente. Reage. Imagina. Nega-se à
dicotomia corpo / mente. Um é o outro. Ato e desejo. Imagem e matéria. Do
ponto de vista poético, devem ser considerados estratos semânticos
inscritos na matéria, envolvendo poética relevante à compreensão do
trabalho de Ívano Soares. 4 Bachelard e a Poética da Matéria
A filosofia de Bachelard nos convida à abordagem dessa
relação entre matéria e corpo. E do corpo como matéria e ato, posto que
seu pensamento amplia a compreensão dos processos estéticos, indo além da
apreensão perceptiva, indo ao campo da poética – postura a ser
considerada pelo crítico e pelo fruidor da obra. Em Bachelard, o sentido poético
é visto como arcaísmo e prospecção. Abrange os processos da imaginação
da matéria – uma imaginação ativa e realizadora –, diversa da imaginação
formal, que se lança à abstração. Bachelard estudou a imaginação,
analisando-a nas circunscrições materiais, dinâmicas e cósmicas. Através
da imaginação material, o poeta capta sentidos da matéria – sentidos não
restritos à forma. Pela imaginação dinâmica, ele atua nos movimentos da
matéria. E chegando à imaginação cósmica, ele dimensiona as coisas na
instância universal, ultrapassando impressões particulares do mundo,
fazendo-o atuar como força arquetípica. Nesse sentido, o sensível é
concebido na mitopoética das coisas animizadas, percorrendo e situando-se
em lugares de ascese e descese, próprias dos lugares cósmicos. Desse modo,
o corpo é matéria imaginada. Matéria dinâmica e cósmica, em diálogo
com as coisas imaginadas, fundando lugares poéticos.
No processo criativo de Ívano, o corpo se faz matéria
viva. Primeiramente nos animais escorchados, na pintura realizada em telas
grandes, na década de 90. Nesses animais, cabe a personificação: a carne
viva pressentiu o corpo humano – momento atual da pintura de Ívano. Sua
pintura recente não se esgota na conclusão do quadro, levando-nos à poética
do corpo: “É na carne, nos órgãos, que nascem as imagens materiais
primordiais”. Movimento intrínseco ao trabalho de Ívano, seguindo os
percursos da matéria. 5 Metamorfoses da Matéria na Pintura de
Ívano Soares
Comecemos pela pergunta: O que é a matéria na obra de Ívano
Soares? E corpo desejante em tintas fugidias? Recorrendo aos procedimentos criativos no trabalho de Ívano,
a matéria se localiza como origem do trabalho artístico. Papel. Tinta. Corpo.
Cor. São eles substâncias que se complementam nos vários momentos da
obra. Da concepção arquetípica no encontro da tinta com o corpo. Do corpo
ao quadro. E, por fim, no percurso das águas à hora do banho. Nas tintas
fugidias deixando o corpo. Nesse percurso da matéria, a poética se inicia
nas forças tensionais, atuando entre corpo, papel e águas cromáticas. Iniciando seu trabalho no ato de pintar o corpo, há uma
tensão primordial que une corpo e cor. Corpo e tinta. Tinta, cor e papel ao
encontro do corpo. Trabalhando matérias em metamorfose, a imaginação já
se inicia dinâmica, nos ciclos do trabalho de Ívano. Na primeira etapa da
pintura, realiza-se o encontro das cores e do corpo, incitando metamorfoses
na pele e no papel. Nesse momento, tudo é tátil. Cobrindo a pele, as forças
da água se concentram nas tintas que aderem ao corpo: “existe, sob as
imagens superficiais da água, uma série de imagens cada vez mais
profundas, cada vez mais tenazes”. Revela-se nas águas cromáticas uma
profundidade da matéria líquida, algo que se aprofunda na cumplicidade da
união do papel e da pele. Cumplicidade do corpo assumindo-se desnudo.
Matriz erotizada, tudo se inicia no corpo desejante. Mas o que deseja o
corpo? O corpo se expressa desejante da imagem. Desejante do
encontro. Por isso, corpo e papel sofrem na pele impactos do encontro.
Momento de erotismo. Um é o outro. Aqui, tudo é tátil. O corpo na pele do
papel se demarca vivo – em carne viva – para receber outras cores e
texturas, que o preparam para as tintas fugidias. Revendo o percurso da matéria,
vemos que, aderindo ao “suporte”, corpo e cores nos desvelam forças
atuantes. Ao findar o ciclo da pintura corporal, fixado no papel o corpo
entintado, novo ciclo se inicia.
Mas, realizada a obra pictórica, estará ela pronta aos
olhos do visitante? Sim. E não. A poética da matéria continua seus ofícios.
Lavando-se para remover do corpo os restos de tinta, o percurso dessa matéria
se lança em caminho e rastro a serem captados em vídeo, conforme
relatamos. Nesse último momento da matéria líquida, rarefeita, tátil e
esquiva, a obra se torna processo, memória e transitividade sensorial –
da matéria ao corpo. E do corpo à matéria. Da carne ao corpo desejante,
os percursos da matéria cabem na dimensão da poesia e do verso: “No
banho um pouco de nós se vai.” [4] No trabalho de Ívano Soares,
surpreendemos cores e tintas, transitando entre instantes do corpo e da
pintura. Instantes da matéria que se vai. E do corpo, que reinicia novo
roteiro sensível e sensual. Nesse momento, cabe ao leitor do objeto estético
– visitante ou teórico da arte – percorrer e aderir às transformações
da matéria ao encontro da matéria, em ressonâncias metamórficas. Em
metamorfoses da imaginação do corpo desejante. Matéria primeira da obra.
Matéria onírica à procura do que se perdeu nas cores fugidias. Memória.
Encontro do que ficou. Encontro de forças em animus, aqui percebemos que
imaginar e atuar são uma e a mesma coisa. Imaginar é atuar. Atuar sobre a
matéria. Resistir. Ceder. Permutar. Tangenciar a imagística do que a nós
se mostra em carne viva, em busca de suas forças moventes. Algo além do
visível: “tentar encontrar, por trás das imagens que se mostram, as
imagens que se ocultam, ir à própria raiz da força imaginante”
(Bachelard). Ir ao encontro das forças produtoras dos desejos do corpo
desejante. Ir ao encontro do que pulsa, valorizando na obra “as condições
práticas de possibilidade, não somente formais, mas também sensíveis, e
mesmo sensuais da criação” (Therrien). Do corpo às cores. Do corpo ao
papel, chegamos a estratos conceituais intrínsecos ao trabalho artístico.
Percursos da carne ao devir. Errância da pele, tentando esgotar, apreender
e registrar os últimos sentidos e expressões sensoriais do corpo,
assumindo as lacunas das tintas fugidias. Lacunas do ser-corpo-desejante das
coisas que se perdem. E se criam -
entre a vida e a arte. No ciclo da matéria evadida, o trabalho de Ívano ganha
cunho conceitual, ao ser registrada em vídeo a fuga das cores, quando o
corpo de tintas se dissolve. Momento da matéria líquida descendo à terra.
Rumo ao desconhecido. Mar. Caverna. Sumidouro. Quando as tintas fugidias
deixam o corpo, seguindo encantatório cortejo das águas. Tintas evadidas.
Imagens transitórias. Imagens instantâneas. Jamais se repetirão. As águas
cumpriram seu destino de queda e esquiva, assim como o rio de Heráclito,
intuído em movimento e continuidade. Mas nesse rio se banhou também
Goethe. E o poeta percebeu que, na mudança, algo é constante: “Agradece
a dádiva das Musas / que nunca deixarão perecer / o mérito em teu peito /
e a forma em teu espírito” (apud Leeuw, 1971). Mas a esses versos
nos é dado acrescentar: Agradece a dádiva de Eros / que em teu corpo
jamais deixará / esmorecer na pele o desejo. Se nas águas há
“um destino essencial que metamorfoseia incessantemente a substância do
ser” (Bachelard), algo permanece no furtivo instante de ser-corpo. Matéria
desejante. Leito a pulsar no rio de Heráclito e Goethe. Nas tintas fugidias de Ívano Soares, algo permanece. Da
imaginação da matéria à imagem. Da imagem ao que se foi, o corpo – matéria
viva –, lançando-se à dimensão poética, torna-se cósmico e telúrico.
Teluricamente cósmico. As águas se foram. Resta o desejo. NOTAS
1 Do poema “Corpo”,
da Autora deste trabalho. In Cantos Revisitados (obra inédita). |
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Mirian de Carvalho. Doutora em Filosofia, Professora
de Estética da UFRJ, Membro da Associação Brasileira de Críticos de
Arte, Membro da Associação Internacional de Críticos de Arte. Contato: mir3@terra.com.br. Página ilustrada com
obras do artista Ívano Soares (Brasil). |