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revista de cultura # 37 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2004 |
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Surrealismo e marxismo? (Seguido de comentários sobre Surrealismo no Brasil) Claudio Willer
Pode,
contudo, por causa do subtítulo, criar uma expectativa e subseqüente
frustração, pois sugere a discussão da relação entre o corpus
do que é entendido por marxismo, ou abrangido por esse significante
(bastante coisa, é claro), e tudo aquilo designado por outro termo
saturado de sentido, surrealismo. Mas
A estrela da manhã - Surrealismo e
marxismo é, antes, uma coletânea de ensaios. Tem um fio condutor, o
exame da natureza revolucionária do surrealismo. A estrela
da manhã, do título, é sua metáfora, remetendo ao final de Arcano
17 de Breton: é a estrela especialmente luminosa emanada, segundo Éliphas
Lévi, do anjo rebelde, Lúcifer, e que representa ao mesmo tempo amor e
liberdade. O belíssimo final dessa obra complexa de Breton, Arcano 17 (editado pela Brasiliense), equivale às etapas finais de
um processo iniciático: Breton evoca o sentido da Estrela da Manhã, Vênus,
a supremacia do feminino, ao descobrir o estudo de Viatte mostrando o diálogo
entre Éliphas Lévi e Victor Hugo, e como partilharam a crença nesse
mito liberador. Um
dos ensaios de Löwy é sobre Walter Benjamin. Comentado o modo como
surrealismo impressionou o autor de O drama barroco alemão, resultando em influência e intertexto,
especialmente de O Camponês de
Paris de Aragon, evidentes em Rua
de Mão Única e outros de seus escritos. Examina sua apreciação lúcida
e pioneira do surrealismo em 1929. Benjamin partilhou com Breton e Aragon
a idéia de iluminações profanas,
a admiração pelo romantismo radicalizado de Baudelaire, Rimbaud e Lautréamont,
a percepção do maravilhoso que emerge no mundo moderno; e mais, o que Löwy
chama de marxismo gótico, a
sensibilidade para a dimensão mágica das culturas do passado. Os
conceitos weberianos de desencantamento e re-encantamento do mundo são
bem invocados, na introdução do livro e neste ensaio, a propósito da
conexão Benjamin-surrealismo. Outro
capítulo, sobre Pierre Naville, pensador político importante, um dos
editores de La Révolution Surréaliste,
é oportuno. Realmente, divergências filosóficas à parte, o tratamento
dado por Breton a Naville em 1930, difamando-o no Segundo
Manifesto do Surrealismo, não foi algo que se faça. Recuperando
Naville, revela bastidores da relação surrealismo-trotskismo nos anos
30. Ao que parece, não fossem as diferenças entre ambos, Breton e
Naville, a aproximação de Breton e Trotski poderia ter-se dado antes. Em
seguida, um texto sobre O romantismo noir de Guy Debord e situacionismo. Chega em boa hora,
por coincidir com a publicação, no Brasil, de manifestos da
Internacional Situacionista e outras obras de Debord pela Conrad Livros.
Traça um perfil de Debord, ao expor as linhas gerais de seu pensamento.
Mas, dentro dos propósitos de A
estrela da manhã, o exame das diferenças e afinidades entre
surrealismo e o autor de La Societé du spectacle não poderia ficar restrito a um breve parágrafo,
em acréscimo ao que é dito nas páginas iniciais do livro, supondo afinidades
eletivas a aproximarem a atitude surrealista e a deriva
situacionista. Finalizam
a série dois textos interligados, que poderiam compor um só artigo: um
elogio a Vincent Bounoure, e um balanço da situação de grupos e
movimentos surrealistas depois da morte, em 1966, de Breton. Vincent
Bounoure, morto em 1996, participou ativamente do surrealismo desde 1955,
publicando em periódicos como Surréalisme même e La brèche.
Em 1969, insurgiu-se contra a dissolução do surrealismo por Jean
Schuster (legatário de Breton), José Pierre e Gérard Legrand (co-autor,
com Breton, de L’Art magique),
entre outros integrantes de peso desse movimento. Mas teve apoio de outros
surrealistas de expressão, como Jean-Louis Bédouin, a excelente poeta
Joyce Mansour e Robert Lebel. Daí em diante, Bounoure editou periódicos
e a coletânea La Civilisation surréaliste. Estimulou manifestações e atividades
no mundo todo. Criticou sua apropriação acadêmica, universitária.
Segundo Löwy, …Se a aventura
surrealista ainda continua em nossos dias, e se ela prossegue no século
XXI, como esperamos, isso se deve e há de se dever, em absoluto primeiro
lugar, ao espírito de insubmissão de um homem: Vincent Bounure.
Entre outras informações sobre a movimentação surrealista pós-bretoniana,
Löwy registra sua aproximação à Quarta Internacional, trotskista, em
1976; por conseguinte, aos marxistas revolucionários. A
seguir, relata o prosseguimento dessa aventura
surrealista, a traduzir-se em publicações, manifestações e
atividades no mundo todo, freqüentemente ignoradas pela mídia e
especialistas da área universitária, levando-o a afirmar: …pior
para os críticos, especialistas e outros dignos membros perpétuos da
Academia das Inscrições e Belas-Letras. O surrealismo está alhures.
(parafraseando Breton, que por sua vez adaptou Rimbaud, no final do
primeiro Manifesto, ao dizer que
a verdadeira vida está alhures,
em outro lugar). Essas
observações têm um alvo: aqueles do grupo liderado por Breton que se
moveram na direção da Sorbonne e outras universidades, e de núcleos
acadêmcios de pesquisa, como o C. N. R. S. e o Centre de Recherches Surréalistes, dirigido por Henri Béhar, biógrafo
de Breton, autor de obras sobre surrealismo e de estudos importantes sobre
Alfred Jarry. Mas
Löwy, neste capítulo sobre O surrealismo depois de 1969, teria que mostrar melhor o que há
nesse alhures, para que os
leitores saibam o que, nele, ultrapassa o epigonal. Apenas elencar publicações,
grupos e atividades equivale a um relatório protocolar. Não adianta
dizer-se surrealista e declarar o ímpeto revolucionário, sem mostrar
algo no plano da criação, da produção intelectual. É um paradoxo:
mas, com todo o seu discurso crítico com relação a artes e literatura,
o que mantém o interesse por surrealismo é sua ligação ao melhor do
que se produziu nesses campos no século XX, incluída, frise-se, a obra
de Breton. Por isso, por ser um pensador e um escritor denso e complexo,
é estudado, inclusive na área acadêmica. Além disso, um pouco de
teoria literária nunca fez mal a ninguém. Estudos universitários sobre
surrealismo não precisam ser vistos como antagônicos com relação a seu
prosseguimento como movimento. E trabalhos como aqueles dos estudiosos
ligados a Béhar, bem como os scholars
norte-americanos por sua vez ligados a Anna Balakian, trazem contribuição
real para o conhecimento de obras surrealistas. Não há motivo para ninguém
- nem os da ala acadêmica, nem os militantes - quererem monopólio do
surrealismo, nesta altura. Conforme
observado acima, na introdução e nos capítulos iniciais de A
estrela da manhã - Surrealismo e marxismo, Löwy dava a impressão de
que a discussão da relação entre marxismo e surrealismo, da
compatibilidade entre ambos, seria enfrentada no corpo do livro. Há até
mesmo um parágrafo sobre Philosophie du surréalisme de Ferdinand Alquié (de 1955), um dos
autores que achavam que não, que essa compatibilidade não existia. Já
em 1933, Alquié havia denunciado o
vento de cretinização sistemática que sopra da URSS, em uma carta
que foi publicada em SASDLR, a revista de então dos surrealistas,
antecipando a ruptura definitiva de Breton com o estalinismo em 1935. A
tese de Alquié em Philosophie du
surréalisme, polêmica, jamais foi impugnada por Breton - tanto é
que continuou a participar das publicações surrealistas e a constar como
fonte bibliográfica. Simplificando uma argumentação técnica em uma
obra complexa, para Alquié, por trás de cada referência a Marx por
Breton, estava Hegel; e, por trás de cada referência a Hegel, estava
Kant. Na
argumentação de Löwy há um silogismo, implícito em seu modo de tratar
a questão, diz ele, sempre
apaixonante da revolução: o surrealismo é revolucionário, pois a
utopia revolucionária é a energia musical deste movimento; o
marxismo é revolucionário; portanto, são do mesmo âmbito, concordes,
afins. Pode-se chegar ao contrário, utilizando as categorias revolução
e revolta do modo como o faz Octavio Paz, em Signos em Rotação, vendo-as como antitéticas. Nesse caso,
surrealismo pertence ao âmbito da revolta; marxismo, ao da revolução. Breton,
note-se, distinguia rebelião romântica e pensamento marxista, até mesmo
ao querer transformá-los em um só, como na célebre proclamação de
1935: “Transformar o mundo”,
disse Marx; “mudar a vida”, disse Rimbaud: estas duas palavras de
ordem, para nós, são uma só. Em
especial, é discutível esta afirmação de Löwy: Como
Breton sempre afirmou, desde o Segundo Manifesto do surrealismo
até seus últimos escritos, a dialética hegeliana-marxista está no coração
da filosofia do surrealismo. Não, não foi isso o que Breton afirmou sempre. Desde o Segundo
Manifesto do surrealismo até seus
últimos escritos, o pensamento de Breton mudou, e muito. Na
disjuntiva Marx-Rimbaud, parece ter ficado com Rimbaud. Afastou-se do
marxismo. A fundamentação enfática em Marx e Engels de obras de 1930,
como o Segundo Manifesto do
Surrealismo e Les Vases
Communicants, já não está em O
Amor Louco, de 1937. E mesmo então, suas afirmações sobre Nicolas
Flamel e alquimia, no Segundo Manifesto do Surrealismo, e a defesa de unidade do sonho e
realidade, e da astrologia como ciência, em Les
Vases Communicants, provocavam arrepios nos marxistas ortodoxos.
Em
Prolegômenos a um terceiro manifesto do surrealismo ou não, …sem
dar atenção às acusações de misticismo de que não serei perdoado,
propõe-se a …convencer o homem de
que ele não é obrigatoriamente o rei da criação, como se vangloria.
Pergunta sobre a oportunidade de revelar um
novo mito, o dos Grandes
Transparentes. Observa que o
homem não é talvez o centro, o ponto de mira do Universo, e critica
o antropomorfismo, a crença de que o
mundo encontra no homem o seu
acabamento (sigo a mais recente edição brasileira dos Manifestos do
Surrealismo,
tradução de Sérgio Pachá, Ed. Nau, Rio de Janeiro, 2001).
Dando a palavra final em matéria de manifestos, Breton diz, no último
parágrafo de Do Surrealismo em suas
Obras Vivas, de 1953, que …a esse respeito, sua posição (do Surrealismo) se uniria à de Gérard de Nerval no famoso soneto Versos Dourados.
Nele, o autor de Aurélia,
expressando as idéias de Fabre d’Olivet, duvida de que sejamos o centro
do universo e os detentores exclusivos da razão: Homem!
livre pensador! serás o único que pensa/ Neste mundo onde a vida cintila
em cada ente? Sem
que por isso o surrealismo perdesse em combatividade, ou se afastasse da
discussão dos temas propriamente sociais e políticos, o mesmo movimento
está presente em sua poesia da década de 1940. Um de seus poemas de
maior fôlego é a Ode a Charles Fourier, sobre o precursor do
“socialismo utópico” e de uma visão da sociedade regida pelo
pensamento analógico, pelas correspondências. Em outro poema da série, Les
états géneraux, invoca Fabre d’Olivet e sua idéia de uma
linguagem universal, e Saint-Yves d’Alveydre e seus estados
gerais, reflexo mundano da ordem cósmica. Tudo
isso é observado por Löwy. São citados, em A
estrela da manhã - Surrealismo e marxismo, os momentos desse
percurso: a entrada no PCF, em 1927, a ruptura de 1935, o encontro com
Trotski e a fundação da Fiari
em 1938. Dá como etapas seguintes a redescoberta de Charles Fourier, a
proclamação de novas utopias, e a aproximação com anarquistas em
1949-1953. Mas,
cabe perguntar: é o mesmo percurso? Onde Löwy vê continuidade, não haveria, antes,
inflexão, mudança na base do ímpeto
revolucionário, no pensamento que o sustenta? Adotar Charles Fourier
equivale a adotar Marx? Ou são antitéticos? Enfim, haveria chance de
compatibilidade entre “socialismo utópico” e “socialismo científico”?
Marx achava que não. Trotski, menos ainda, a julgar pelo tratamento dado
a insurreições anarquistas quando comandava o Exército Vermelho. Cabem
mais dúvidas, à luz da releitura de Arcano
17, dos dois últimos manifestos, e de Les
états géneraux. Ver marxismo nessas obras não equivaleria a
demonstrar que o taoísmo é um marxismo, que Lao-Tsé é um precursor de
Marx, ou que, escavando através de camadas de racionalismo de Marx,
Engels, Lênin e Trotski, pode-se encontrar a imagem do mundo regida pelas
analogias e correspondências de Swedenborg, dos “iluminados” do século
XVIII e de Éliphas Lévi? Em
Prolegômenos a um terceiro
manifesto do surrealismo ou não, de 1942, além de avisar que não é
homem de sistema, Breton diz com quem se alinha, contrapondo-se ao
alinhamento dos partidos políticos: Mas,
se a minha própria linha, bastante sinuosa, admito, mas quando menos
minha, passa por Heráclito, Abelardo, Eckhardt, Retz, Rousseau, Swift,
Sade, Lewis, Arnim, Lautréamont, Engels, Jarry e alguns outros? E no
ensaio-manifesto Flagrant délit,
de 1949, identifica-se a uma tradição ao mesmo tempo poética e esotérica:
Sabe-se, com efeito, que os gnósticos estão na origem da tradição
esotérica que consta como tendo sido transmitida até nós, não sem se
reduzir e degradar parcialmente ao correr dos séculos. (…)
…todos os críticos verdadeiramente qualificados de nosso tempo foram
levados a estabelecer que os poetas cuja influência se mostra hoje a mais
vivaz, cuja ação sobre a sensibilidade moderna mais se faz sentir (Hugo,
Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé, Jarry), foram mais
ou menos marcados por essa tradição. Tudo isso impõe limites à
identificação de marxismo e surrealismo, já que Marx e Engels, de um
lado, e Sade, Mestre Eckhardt ou Jarry, de outros, certamente não são a
mesma coisa. Löwy
atenua essa clivagem: Se o marxismo foi um aspecto decisivo do itinerário político do
surrealismo - sobretudo durante os vinte primeiros anos do movimento -,
ele está longe de ser exclusivo. Desde a origem do movimento, uma
sensibilidade libertária percorreu o pensamento político dos
surrealistas. É como se adesão ao marxismo e sensibilidade
libertária não fossem uma coisa e
outra, traduzida na aproximação ao PC em 1927, e ao anarquismo, em 1949.
Supondo a compatibilidade, nem Robert Desnos precisava ter-se desligado em
1927, por preferir o anarquismo ao marxismo, nem Antonin Artaud, por
entender que a rebelião romântica, individual, era um caminho para a
transformação do mundo. Tratando
de Benjamin Péret, o mais militante dos grandes nomes do surrealismo, Löwy
observa, corretamente, que sua obra esboça uma antropologia
da liberdade. Mas não menciona que, em 1946, Péret se desligou
da Quarta Internacional. Essa data - associada também ao período de
publicação dos poemas “utópicos” de Breton, Ode
à Charles Fourier e Les États
Géneraux, - é, portanto, aquela da desvinculação de surrealismo e
marxismo, em qualquer uma de suas formas, modalidades e tendências. Mas,
cabe perguntar, por que o afastamento das organizações de orientação
marxista isso não foi proclamado com a mesma ênfase dada à aproximação
de 1927? A resposta me parece evidente: jamais Breton e seus companheiros
iriam fornecer água para o moinho da reação, dando argumentos, às
custas do surrealismo, que fortalecessem o outro lado no mundo da Guerra
Fria, cindido entre macarthismo e estalinismo. Em Entrétiens,
seus depoimentos auto-biográficos, a melhor fonte sobre o pensamento
bretoniano, ele é apenas reticente, e se omite. Mas também não há nada
que se assemelhe às declarações, verdadeiras profissões de fé em
favor do marxismo, de vinte anos antes. Críticos
já apontaram inconsistências no pensamento de Breton. Mas o que é
invocado por alguns como argumento contrário ao surrealismo em geral, e a
Breton, em particular, na verdade é qualidade, argumento a seu favor,
pelo que estimula e sugere, e pelas armadilhas e obstáculos à decodificação
fácil, à transformação em doutrina. Enfim,
no terceiro capítulo de A estrela da manhã, sobre marxismo
libertário de Breton, Löwy atenua o que nele há de contraditório e
assistemático, a despeito da advertência bretoniana, em Prolegômenos… de que não era homem de sistema. Atenuadas ou
omitidas as diferenças e mais, as incompatibilidades entre marxismo e
surrealismo, deixa de ser estranho que o surrealismo, na versão pós-bretoniana
liderada por Vincent Bounure, se ligasse à Quarta Internacional, ao que
sobrou de troskismo, do qual se havia afastado em 1946. O resultado são
documentos como um recente manifesto surrealista, veiculado pela Internet,
sustentando o apoio à Quarta Internacional, a ruptura com o FMI e o fim
do bloqueio econômico a Cuba. São boas causas. Mas, de surrealismo,
mesmo, não há mais nada nesses documentos. Acabam servindo como
argumento para salvar ou justificar marxismo e trotskismo, em uma inversão
do que ocorria nos anos de 1930 e 40, quando a crítica de fundamentação
marxista, especialmente lucacsiana, o impugnava pelo “irracionalismo”.
Antes, o surrealismo tinha que justificar-se perante o marxismo. Agora,
organizações de esquerda justificam-se como surrealistas. Cabe
invocar uma categoria utilizada por Löwy, o pessimismo
revolucionário, crítica ao triunfalismo, mas revertendo-a. Tem que
haver uma recíproca, a dúvida quanto à possibilidade da projeção do
paradigma marxista, em qualquer uma de suas modalidades, resultar em outra
coisa além da reedição dos autoritarismos da esfera do socialismo real.
Mais ainda, quando o trotskismo continua a ser apresentado como retomada
do verdadeiro leninismo, contraposta ao desvio estalinista, ignorando que
a centralização na URSS, atrelando os soviets
ao partido, foi obra de Lênin, com a participação ativa de Trotski. Enfim,
a discussão de marxismo e surrealismo também deveria levar em conta os
argumentos sustentando a incompatibilidade de rebelião romântica e
revolução marxista. Incluem aqueles de Octavio Paz, ao falar, em Conjunções
e Disjunções, em tirania do
futuro, em detrimento do presente, no pensamento marxista. Mas, já em
1927, Artaud defendia a autonomia da rebelião individual, romântica.
Para ele, marxismo seria mais um produto da civilização ocidental, a ser
combatida. Os fatos, até hoje, lhe deram razão. E, a partir de 1936,
Breton e Artaud se reaproximaram. *
* * Complementa
A estrela da manhã - Surrealismo e
marxismo o texto de Sergio Lima, Notas
acerca do movimento surrealista no Brasil (da década de 1920 até aos
dias de hoje), também disponível na Internet no portal Triplo
V, em www.triplov.com/surreal/sergio_lima.html. Sergio
Lima é qualificado para falar sobre surrealismo em geral, e no Brasil em
especial. Pode confundir sua biografia e currículo com o tema, como o faz
neste depoimento, pela participação em atividades surrealistas e por um
extenso conhecimento do assunto. É, no mínimo, uma referência bibliográfica
importante, em acréscimo ao que criou em poesia e artes visuais.
Na
primeira fase, até por volta de 1960, a abordagem é inclusiva, ao tratar
do que chama de surrealismo difuso.
Comete exageros. Juntar,
como faz, na mesma frase e na mesma seqüência Elsie Houston-Péret e
Pagu, e Fernando Mendes de Almeida, A. J. Ferreira Prestes, Ascânio
Lopes, Rosário Fusco, Livio Xavier, Osório César, Jamil Almansur Haddad
e Raguna Cabral, não passa de enumeração caótica. É reescrever história
de modo assemelhado ao “método confuso” criado por Mendes Fradique.
Espera-se que as relações dessas e outras personalidades também
elencadas (Wagner Castro, Eros Volusia, Albino Braz, Febrônio Índio do
Brasil, Raul Bopp, Tarsila do Amaral) sejam especificadas nos anunciados
volumes seguintes de seu A Aventura
Surrealista, ou na publicação de sua tese de doutoramento (aliás,
que estranho - por que cargas d’água não consta, no relato autobiográfico
de Sergio, tão detalhado, a tese que defendeu na USP em 1998, Surrealismo:
polêmica de sua recepção no Brasil modernista,
orientada por Valentim Facioli, por sua vez autor de obra sobre a conexão
Breton-Troski, e que foi aprovada com louvor? - não consta, também, sua
participação nas duas substanciosas coletâneas organizadas por Robert
Ponge, professor na UFRGS, Organon
22,
de 1994, dedicada a Aspectos do
surrealismo, e Surrealismo e
novo mundo, de 2001, publicadas
pela Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Já
no exame da segunda fase, Sergio é excludente. Mostra epicentrismo. Só
recebe ingresso para o mundo surreal quem participou de atividades com
ele. Evidentemente, todos têm o direito de valorizar seu trabalho, dar
destaque a sua atuação. Ninguém negaria sua condição de porta-voz e
avatar surrealista; e, menos ainda, deixaria de reconhecer tudo o que
ocorreu por sua iniciativa. Contudo, não havia necessidade de alterar
datas e falsear outras informações. Daqui
para a frente, tratarei o assunto de modo detalhado, diante do risco de
alguém acreditar em tudo o que Sergio afirma, e uma versão como essa
acabar indo parar em algum manual de história da literatura, ou de
movimentos culturais do século XX no Brasil, disseminando informação
falsa. Vamos ao que ele relata (uso a facilidade de copiar a versão on
line): Voltando
de Paris para São Paulo em 1962, passei a me reunir com os poetas ditos
“novíssimos” (estreantes que eram editados na série “novíssimos”,
por Massao Ohno). Logo organizamos, Roberto Piva, Claudio Willer e eu, uma
central ou núcleo de debates sobre o Surrealismo.
(…) Logo temos os três primeiros
livros publicados por nossa turma, os quais passam a ser centro das
discussões (e disputas) principais entre nós: Paranóia
(lançado no final de ’62), do R. Piva; Amore, de S. Lima (editado em ’63, com textos de ’59 e ‘60); e, pouco
depois, no começo de ’64, Anotações
para um Apocalipse, de C.
Willer (onde se encontram as primeiras reflexões de Willer em relação
à beat generation e suas
implicações literárias). Anotações
é lançado juntamente com um segundo livro de Piva, o Piazzas
(1964), o qual, escrito
em ’63 portanto, já sinalizava, por assim dizer, um diapasão distinto
de seu primeiro livro de poemas, o
Paranóia. Cumpre salientar que começavam, então, a se formar
certas distâncias entre a perspectiva surrealista, de uma atuação específica,
e aquela mais descompromissada, pretendida pelos demais nomes da turma.
(…) Embora não tenha prosseguido
enquanto grupo, essa turma era, digamos assim, o gérmen do primeiro grupo
surrealista que iria se formar logo depois, fins de ’64, com novas
participações e amigos do Rio de Janeiro. E
chega ao seguinte: Sucedendo a este
núcleo inicial, e em função de divergências que passam a ter um certo
vulto (sobretudo por parte de Piva e Willer, mais preocupados com a beat
generation e o pop art), assumo de vez a liderança e, com as novas aderências
de Fiker e Leila Ferraz, mais Zuca Saldanha e Paulo Antônio Paranaguá,
vindos do Rio de Janeiro, organizo o primeiro grupo surrealista
S.Paulo/Rio, cuja vida breve - 1965 a 1969 - não deixou de ser pródiga
de realizações. Acontece
que essa datas estão erradas. Paranóia
foi lançado em abril ou maio de 1963, e não em 62. Sergio nos foi
apresentado por Roberto Piva depois
disso, não me lembro se em maio ou junho de 1963 - fazia frio e garoava
naquela noite que se estendeu pela madrugada afora, em que pela primeira
vez nos reunimos. Enfim, Paranóia
de Roberto Piva não tem qualquer relação com atividades surrealistas
por iniciativa de Sergio Lima. Tudo o que há de surrealismo na poesia de
Piva (bastante) é por conta dele mesmo, sem dever nada a Sergio ou a quem
for, exceto à sua condição de leitor voraz e a sua inquietação e
talento. E
a publicação de Piazzas de
Piva e do meu Anotações para um
Apocalipse foi em outubro de 64. A versão de que nós dois, Piva e
eu, nos afastamos de surrealismo porque passamos a nos interessar por beat,
é ficção pura. Tanto
comprávamos La Brèche na Livraria Francesa (entre muitas outras coisas) quanto
recebíamos as edições beat da
City Lights, vindas de San Francisco; e isso bem antes de Sergio Lima
entrar em cena. Quando nos procurou, sabia disso. A
descoberta epifânica de Allen Ginsberg é evidente já na Ode
a Fernando Pessoa de Piva, do final de 1961 ou começo de 1962. Há
intertexto de Ginsberg em Piva em Paranóia,
obra especialmente importante, que aos poucos vai sendo reconhecida como
marco de renovação da poesia brasileira. Piazzas,
justamente, poderia ser tido como obra mais "surrealista" de
Piva, se interessasse catalogar desse jeito. Enfim, quanto
a Roberto Piva e a mim, vínculos com surrealismo são aqueles apontados
na bibliografia crítica e principalmente no que temos a dizer e já
dissemos a respeito. Há
mais para corrigir na cronologia de Sergio. O grupo, com reuniões
regulares em um bar, durou alguns meses. Logo depois do necrológio
distribuído na abertura da Bienal de São Paulo, em 1963, dispersou-se.
Mas continuamos a nos encontrar, inclusive para falar de surrealismo. E,
em 1965, houve reuniões regulares no ateliê de Wesley Duke Lee. A
propósito, ser
detido pela polícia e ir
parar em delegacia, isso não seria atividade surrealista? Em
1965, viajamos - Piva, Sergio, Argos Machado e eu - até Nova Friburgo, no
estado do Rio de Janeiro, a convite de um grupo de Cataguazes de tendência
anarquista, encabeçado por Paulo Bastos Martins, que nos foi apresentado
por Sergio, para participar de manifestações, que incluíam projeções
de L’Age d’Or, encenações
de Ionesco, desconstruindo-o, exposição de quadros, venda de livros.
Houve emissões radiofônicas que alarmaram a cidade, fazendo que a
programação desaguasse na delegacia local. Durante algumas horas,
permanecemos diante de um delegado perplexo, tentando resolver o que
fazer com a trupe. Felizmente, nos liberou. É daqueles episódios que me
fazem rir sozinho quando me lembro. Que pena não haver vídeo. Que erro,
não levar sempre a máquina fotográfica.
Em
um 6 ou 8 de fevereiro de 1966, Sergio Lima me convidou para almoçar - em
companhia de Leila Ferraz e Paulo Paranaguá - em um restaurante chinês
no bairro da Liberdade, para expor como seria a Mostra Surrealista
Internacional que acabou tendo lugar em 1967. Eu não quis participar, por
achar que Sergio centralizava demais. Já estava tudo resolvido, pronto na
cabeça dele, sem admitir qualquer discussão ou sugestão. Pelo mesmo
motivo, outros convidados não se interessaram. O grupo então formado -
Sergio, Leila, Fiker e Paranaguá - logo se dissolveu. Existiu em função
do colossal esforço de preparação daquela mostra e da edição de A
Phala. Encerrada a mostra, cada um foi para seu lado. Importa
questionar, no modo Sergio Lima de escrever história, como ele passa ao
largo de tantas obras e autores recentes, das últimas décadas, que
dialogam com surrealismo. De 1980 para cá, houve crescimento gradativo da
circulação, recepção e relação com surrealismo no Brasil. Mas
Sergio, confinado ao paroquialismo, pouco tem a ver com isso. Em nome de
uma ortodoxia, acaba por fazer o mesmo que critica na recepção
brasileira ao surrealismo, ignorando manifestações. Na
obra de Breton, é freqüente o uso da expressão diálogo.
Seus elogios a contemporâneos e autores mais novos - por exemplo, a
Malcolm de Chazal, Aimé Césaire ou Frida Kahlo -, foram pela qualidade
do que faziam, e não pela disposição de participarem de atividades,
grupos ou movimentos surrealistas. Seu foco se dirigia, de modo muito
honesto, em primeira instância para o valor.
Frida Kahlo não queria saber de surrealismo, e o que interessou a Breton
foi ela ser uma grande artista. Essa dimensão do valor desaparece nos
elencos de surrealistas preparados por Sergio. Interessa-lhe apenas, em
uma versão particular da política literária, se concordaram em compor
grupos com ele. O que há nas obras nunca é analisado ou discutido. A
meu ver, Juan Sanz Hernandes merece qualificação como surreal, não por
ter freqüentado reuniões no ateliê de Lia Paes de Barros por volta de
1990, mas pela imagética torrencial em Biografia
a Três e Horas Queridas. Raul Fiker tem que figurar em catalogações do que
houve desde 1960, pela densidade de O
Equivocrata, obra que ainda não teve a leitura que mereceria, e não
por ter colaborado na montagem da mostra de 1967. E, se alguém quiser
saber sobre relação com surrealismo, na versão militante ou não, que
pergunte a eles. Quanto
a mim, e à minha relação com grupos e movimentos surrealistas, no começo
de 1968, convidado por Paulo Paranaguá, fui a uma das reuniões na
Promenade de Vênus, em Les Halles. Em seguida, fomos ao apartamento de
Vincent Bounoure. Divergências sobre geração beat,
que ele não admitia de modo algum, resultaram em uma discussão exaltada,
de algumas horas. Grupo surrealista francês fez bem em encerrar-se.
Mostrava-se paroquial e epigonal. Se fosse para tomar posição nas
ramificações e versões do surrealismo, teria sido mais próxima àquela
de Alain Jouffroy e Jean-Jacques Lebel, que nunca viram surrealismo e beat
como excludentes. Como tradutor de Allen Ginsberg, de Lautréamont, de
Artaud, autor de um sem-número de textos sobre Breton e surrealismo, e de
poemas, inclusive em escrita automática não concebo antagonismo entre
esses campos, respeitadas, é claro, suas diferenças, a integridade e
especificidade de cada um. O antagonismo é com relação à ordem
estabelecida, ao mundo em que vivemos. Isso, na perspectiva do
prosseguimento da rebelião romântica, e da manutenção de seu ímpeto
revolucionário. |
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Claudio Willer (Brasil, 1940). É um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Júlio Resende (Portugal). |