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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004 |
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Operação cirúrgica e cirurgia plástica Rosa Alice Branco
Se o velho sonho de encontrar o elixir da eterna
juventude não pôde realizar-se, o homem criou, pelo menos, a cirurgia plástica,
para esconjurar o feio. É também chamada cirurgia estética, já que o
seu objectivo é um acréscimo de beleza e se orienta no sentido de
constituir um trabalho regenerador. Por outro lado, quando nos
referimos a uma operação cirúrgica não estamos, grosso modo, a pensar numa operação estética. O que temos em
mente é a incisão, a extirpação do mal e a cicatriz que assinalará o
local do feito - o local através do qual se processou o trabalho
regenerador no interior do corpo, e que, doravante, ficará assinalado à
superfície. Na operação cirúrgica, à incisão corresponde a destruição
da gestalt do corpo, i.e., do
corpo enquanto totalidade que é propiciada pela pele como elemento elástico
de conexão, desconectado agora pela acção do bisturi que, em 1º lugar,
corta (faz a incisão), em segundo abre, escancara, revela e, em 3º, expõe
a nossa intimidade, antes protegida pela pele. Agora, o interior é
exteriorizado, o profundo vem à superfície e a identidade do corpo vê-se
devassada pelo despudor do bisturi, vê-se perturbada no mais essencial
que é, justamente, a integridade do corpo. Embora o médico seja movido
por princípios de ordem profissional e não do foro do crime, a sua prática
deverá ser intencional e não acidental. Mas, em todos estes casos, a
integridade corporal é aniquilada em virtude de uma incisão que chega
mesmo a expor o que temos de mais escondido sob a pele: as entranhas. Esta operação pode ser uma
operação do olhar, já que também o olhar detém o poder de ferir,
atravessar, de trazer ao impudor da superfície descoberta os seus
aspectos mais íntimos. É assim a poética de Luís Miguel Nava: um olhar
anatómico, penetrante, no seu sentido de perfuração corporal. Pelo contrário, o olhar de um
poeta que tem sido considerado «o poeta do corpo» - David Mourão-Ferreira,
é um olhar que (por pudor estritamente estético-amoroso) só contempla a
superfície e vê sempre o corpo como pele, invólucro de um todo
delicado, em que os órgãos só são referidos como esculturas belíssimas
que se destacam da harmonia do todo: […] Assim, na poética de Nava, a
desfiguração do corpo é, primariamente, uma ruptura da totalidade do
corpo, pelo que a totalidade cede lugar ao fragmento. No livro O Céu sob as Entranhas, no poema «Estacas» podemos ler: Os meus ossos estão espetados no deserto, não há um só
no meu corpo que lhe escape./ Cravados todos eles na areia do deserto, uns
a seguir aos outros, alinhados /Seria absurdo falar-se de esqueleto.. Podemos, por exemplo, encontrar
este espaçamento progressivo num texto intitulado «Corpo espacejado»: As várias partes de que só por abstracção se chegava
à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras…. Mas mesmo esta abstracção
vai-se tornando cada vez mais abstracta, porque o espaçamento entre os órgãos
vai produzindo um afastamento, um hiato de tal modo que a solidariedade
dos ossos desaparece até à solidão de cada fragmento. Nava pode então
escrever em O Céu sob as Entranhas: Um osso é uma raiz no caos. Num poema de Vulcão,
já nem mesmo enquanto raiz as vísceras se constituem: As vísceras,
Se pensarmos agora o corpo
evocado pela escrita poética de David Mourão-Ferreira, à luz da noção
de totalidade, não encontramos desfiguração, mas pelo contrário,
podemos mesmo falar em transfiguração, que encontra nesta poética toda
a dimensão de trabalho redentor. O corpo purifica-se no sentido em que,
sendo forma, é sem medida, sem limite e ainda que dele nos seja dado
contemplar apenas um fragmento, este nunca é parte de um todo, porque é,
por vocação, um universo. Assim, e de acordo com o significado atribuído
a estes termos por Nietzsche, podemos pensar o corpo poético como Apolo
contemplado por Dionisos: o olhar sai de si, desmedido, para na escrita
criar a contenção perfeita Orquestra, flor e corpo: Através da transfiguração, o
corpo carnal natura-se, atingindo a plenitude da forma no pormenor do
joelho, na perna, no ombro, no poro, atingido o corpo a sua infinita
materialidade, que é também a sua infinita espiritualidade, e que o
torna infinitamente desejável. Por isso a visão do corpo poético aspira
sempre ao táctil; pertence à modalidade do contacto. Como escreve David
Mourão-Fereira: A palavra e a pele / em uníssono pedem / que lhes pegue e ainda, revelando uma dimensão
de desejo tão infinita que, mesmo o acto de tocar, se revela
insuficiente: Que dizer do pescoço, às vezes mármore, /às vezes
linho, lago, tronco de árvore, / nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco …? Esta proximidade táctil é a
todo o momento compensada por um filtro que não deixa o corpo exposto à
imperfeição da excessiva proximidade. É também, pois, a perfeição do
olhar que determina a perfeição do corpo, pelo que o olhar
transfigurador ao criar o lugar privilegiado para contemplar, cria, por
este mesmo movimento, o corpo poético. Pelo contrário, na poesia de
Luís Miguel Nava o movimento consiste, exactamente, em aproximar de tal
modo o corpo do olhar, que doravante só é possível uma visão parcelar
que reduz o todo a imagens fragmentadas. Assim tratado como objecto, o
corpo evocado pela escrita despoja-se da sua espiritualidade. O olhar é
aqui desfigurador porque irremediavelmente próximo (ou à distância, mas
como se estivesse próximo por meio de uma poderosa lente de ampliação).
Talvez esta distância tão próxima seja também tão íntima que não se
pode ser observador sem se tomar simultaneamente observado. A desfiguração
atinge, assim, o sujeito poético e a ferida aberta propaga-se ao espírito,
ou talvez aconteça exactamente o contrário: é a desfiguração do espírito
que contagia o corpo e se estende à pele. Em Vulcão podemos ler: O réptil de que somos as entranhas / abertas na consciência
/ emerge-nos da terra… De facto, a desfiguração, a
fragmentação do corpo, é sobretudo no espírito que reside, como
podemos sentir pela leitura de um poema de O
Céu sob as Entranhas: A roupa dói-nos porque, embora Há no espírito uma «cegueira
dos tecidos» - eis o insustentável, eis a razão pela qual o corpo se
des(-)natura. Erwin Straus evidencia a
transformação da comunicação operada pela palpação médica, em que o
corpo-objecto é sujeito a uma exploração manual, apresentando e
abandonando ao médico o corpo nu. A natureza radical desta transformação
é, segundo o autor, posta em relevo na cirurgia em que o médico procede
à incisão dolorosa, por um motivo estritamente profissional que, em
princípio, tem como objectivo a cura do paciente. Como Erwin Straus não
deixa de notar, a modificação não afecta apenas o modo de comunicação,
mas implica sempre uma modificação nos sujeitos. [2] Assim, na poesia de Luís
Miguel Nava o corpo é o que resta de uma cirurgia que permite o acesso ao
interior, mas justamente, esta é uma operação de irradicação da
interioridade: tornar aqui visível o interior corresponde a expô-lo,
torná-lo duplamente exterior: visível e descoberto. Em O
Céu sobre as Entranhas o próprio Nava tematiza a relação entre
exterior e interior, associando a escuridão do quarto à escuridão das
entranhas: Agradou-lhe a ideia de que, através desse simples gesto,
pudesse homogeneizar o exterior e o interior e ainda:
graças à assimilação que essas mesmas trevas haviam
produzido entre o interior e exterior,.. Na poética de David Mourão-Ferreira,
a pele é um invólucro totalizante que se amplia no amor como um manto
estendido: Quem foi que à tua pele conferiu esse papel / que mais
que tua pele ser pele da minha pele
A pele foi entretanto soterrada, há quem já tenha
caminhado em cima dela. No limite, o olhar que
desfigura o corpo em objecto seria também abjecto no sentido proposto
por Julia Kristeva, do entre-deux,
do ambíguo, do misto, daquilo que «perturba uma identidade, um sistema,
uma ordem» e em que a parte esvaziada de toda a vida perde o contorno e
é arrastada para o peso do sem sentido. [3] Encontramos esta ideia de
pulverização do corpo pelo olhar em Fragmentos
de um Discurso Amoroso de Roland Barthes: as partes do corpo são
examinadas como se desmontássemos um objecto para ver como é feito por
dentro. O olhar que observa é frio, calmo, distante; é o olhar de quem
olha sem medo para um insecto. Às vezes basta um movimento no corpo do
outro e «o meu desejo deixa de ser perverso, torna-se imaginário,
regresso a uma Imagem, a um Todo: amo novamente». [4] A imagem do insecto aparece, no
mesmo contexto, na Fenomenologia da
Percepção de Merleau-Ponty, como originada por um olhar inumano. [5]
Como se, fosse a que distância fosse, a insustentável proximidade do
olhar do outro operasse uma distorção inevitável no corpo olhado,
incapacitando-o de se dar a ver como gestalt
e desvelar a diferença de cada mínimo detalhe. Vê-se pois que, por um lado, o
olhar cerrado, o olhar míope, possui uma maior apetência para tornar
abjecto o objecto olhado. Por outro, o corpo transfigurado pela escrita poética
é também um corpo ritual; escreve David: Na penumbra do teu corpo é que tudo começa… Se assim é, concomitantemente
a transfiguração do olhar deve, olhando, descobrir como se encobrisse.
Deste modo, o trabalho poético de transfiguração procede a um jogo
entre o perto e o longe (dimensão espacial e temporal do corpo), e é
mercê deste jogo que nunca chega a deflagrar a impureza microscópica,
pois em nenhum momento se perde a imagem, o que significa que nunca a
figurabilidade do pormenor anula a figurabilidade do todo: Como os teus ombros ontem estavam longe, Então, não são tanto os
movimentos do olhar que são determinados pela relação entre o próximo
e o distante, mas a própria relação entre proximidade e distanciação
é que é determinada pelo sentimento que desencadeia o olhar, pelo desejo
e pela ternura, pela indiferença, ou pelo sofrimento. Por exemplo, o
desejo determina uma orientação para a proximidade que, em David Mourão-Ferreira
aparece como equilibrado pelo movimento de velação. A figura da lente,
cuja função é de acercar aparece pois em David contrabalançada pela
figura do filtro da ternura, pelo que o olhar deve revelar como se
escondesse. Em Luís Miguel Nava não existe véu ou filtro, mas apenas
uma obsessiva lente de aumento, de aproximação progressiva, pelo que as
«paisagens» do corpo se desintegram no próprio acto de olhar: …Paisagens / às quais a nossa pele serve de lente / estão
feitas com ele, que as desintegra. Assim, se o corpo em Nava é
sempre menos do que corpo, na poética de David o corpo é sempre mais do
que corpo: …Nem todo o corpo é carne: / é também água, terra,
vento, fogo /…/ pois no teu corpo existe o mundo todo! O processo de desfiguração do
corpo na poética de Luís Miguel Nava é-nos revelado pelo poeta ao
escrever: A nossa anatomia é uma terra enigmática e longínqua sob
cujo mapa jamais pensámos debruçar-nos.
Mas onde pode agora residir o
eu, se o corpo e o espírito são apenas fragmentos pulverizados? A
resposta de Nava é que não existe tal lugar. No poema «O último reduto»
podemos ler Naquilo a que chamamos eu há sempre um espaço
inocupado,.. É que dentro de nós existe um
mecanismo cuja função é repelir-nos, escorraçar-nos e frequentemente
«ocupa toda a nossa identidade». Então, esta abolição do eu que é
escorraçado para fora de si próprio provoca uma idêntica abolição da
identidade do corpo e como a identidade essencial do corpo reside na sua
organicidade desfazem-se as envolvências e os órgãos dispersam-se como
se fossem elementos inorgânicos. Podemos agora saber porque é
que Luís Miguel Nava se debruçou sob o mapa anatómico: é que não
bastava despir-se, desnudar-se, porque a pele não deixa que fiquemos
verdadeiramente a nu. Como escreve em Rebentação: Desnudarmo-nos é pouco, há que mostrar as vísceras,… Lembremo-nos de que,
sistematicamente, ao longo da sua obra incompleta, encontramos afundados e
mesmo perfeitamente soterrados, tanto a pele - o elemento do nosso corpo
que serve de charneira entre o interior e o exterior, mas que significa a
nossa exterioridade - como os elementos mais marcantes de uma cosmologia:
o céu, o sol, o mar. Assim, as próprias vísceras são iluminadas, na
condição de serem expostas: …expor todas as vísceras, os orgãos sobre os quais a
luz do coração incide, Escondido, afundado no interior
do corpo, há um outro mundo análogo ao que é objecto do nosso olhar; em
«Neste mundo», o próprio olhar é subterrâneo: O sol subterrâneo, aquele a que eu / me quero hoje
estender / é o do meu espírito, é preciso / cavar bem fundo até o
fazer surgir. E acerca do céu escreve Luís
Miguel Nava: O céu, agrada-me pensar que é a memória de dois ou três
amigos, Porém, é no poema «Retrato», em O
Céu sob as Entranhas que ficamos a saber o papel essencial que cabe
à pequena e solitária pele, uma pele tímida e metida consigo mesma, lá
no fundo de si; o seu papel é: ir imitando o céu assim como podia. No próprio seio das trevas,
das entranhas, há pois um céu. Para ter acesso a essa luz é necessário
proceder à incisão mais dolorosa, abrir a ferida. Poderá, assim, a pele
ir imitando o céu na medida da sua humana (im)perfeição. Todo o percurso que até aqui
tinha sido pensado como trabalho desfigurador aparece a esta luz como um
trabalho redentor em que assistimos à mais espantosa, e também a mais
profunda, transfiguração: escavar uma luz no abismo das trevas. Podemos agora dizer que na poética
de Nava o corpo é, sobretudo, muito mais do que corpo: é um mundo todo.
E então, como David Mourão-Fereira, diremos a Luís Miguel Nava: pois no teu corpo existe o mundo todo. NOTAS
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Rosa Alice Branco (Portugal, 1950). Poeta e ensaísta. Autora de livros como O que falta ao mundo para ser quadro (1993), O único traço do pincel (1997) e Horizonte colado à pele (2002). Dirige a Logovemos. Contato: r.a.branco@mail.telepac.pt. Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina). |