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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004 |
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Antônio Callado & Bar Don Juan: entre o mito e a utopia Wilson Coêlho
“para ler tanto o mundo quanto os textos de modo suspeito, é preciso elaborar algum tipo de método obsessivo. A suspeita, em si, não é patológica: tanto o detetive quanto o cientista suspeitam em princípio que certos elementos, evidentes mas aparentemente sem importância, poder ser indícios de uma outra coisa que não é evidente – e, baseados nisso, elaboram uma nova hipótese a ser testada.” A estrutura ou espinha dorsal ou, ainda, o que muitos
chamam de pretexto é simples. Trata-se de um grupo de intelectuais de
esquerda da Zona Sul que, tendo como ponto de referência o Bar Don Juan, tentam organizar um esquema revolucionário capaz de
integrar o movimento brasileiro com os guerrilheiros bolivianos,
juntando-se às forças de Che Guevara. Tudo isso se dá simultaneamente
ou em torno de João e Laurinha, casal que foi torturado pela polícia. Ficção ou realidade? Será possível uma leitura ingênua
do Bar Don Juan, no sentido de
se fazer uma interpretação desvinculada da história? A todo momento,
entendendo a ficção como uma produção do espírito, surge uma
determinada ação, um colocar-se diante de algo que sugere como uma prova
material, como um rastro, uma pegada. Daí, uma espécie de tentação de
buscar uma trilha, um caminho ou um atalho para o ponto de chegada. Mas
muitas das vezes caímos numa armadilha e aquilo a que supomos ser ponto
de chegada é ponto de partida. É dizer que o conjunto de esforços ou
procedimentos utilizados na interpretação da obra e a obra mesma como o
tema que explora acabam numa dicotomia. De um lado, o mito paradisíaco da
sociedade sem classes e, do outro, a utopia da revolução em prol desta
sociedade do paraíso terreno. Mas convém distinguir, conforme
Herkenhoff, entre o mito e a utopia, bem como, a imaginação intencional
da fantasia “solta”. O mito é um sucedâneo da realidade, que consola o homem
daquilo que ele não tem: seu objetivo é esconder a verdade das coisas,
é alienar o homem. A utopia, pelo contrário, é a representação daquilo que
não existe ainda, mas que poderá existir se o homem lutar para a sua
concretização. O mito nasce da fantasia descomprometida, com a única
finalidade de compensar uma insatisfação vaga, inconsciente. A utopia fundamenta-se na imaginação orientada e
organizada. É a consciência antecipadora do amanhã. Neste sentido, estão aqui estabelecidos dois marcos. Num
extremo está colocado o mito e, no outro, a utopia que – apesar de ser
considerada um não-lugar – aqui se firma como uma referência. A começar pelo título do romance, Bar Don Juan, estamos diante de uma sugestiva presença que se impõe:
o mito de Don Juan. Tudo bem que o nome Don Juan não pode passar de uma mera alusão ao lendário
personagem espanhol em virtude de ser conterrâneo do velho Andrés, o
proprietário do bar. Mas a princípio esta informação torna-se
irrelevante. Existe um conceito donjuanista
que perpassa todas essas explicações, caso contrário, alheio à
esfera desse mito, o nome Don Juan a partir do romance não tem
significado algum, exceto o de ser o nome de um bar que poderia se chamar
qualquer coisa apenas como forma de dar “nome aos bois”. Afora a idéia de que o conceito do personagem Don Juan
tenha se originado de um fato real narrado pela Crônica de Sevilha, além de ter servido de inspirações para
diversos autores, tanto no teatro quanto na poesia, passando pela música
e pelo romance, sem esquecer que na filosofia tem uma posição de
destaque em Nietzsche, convém observar que: “…ele é também um ser de ruptura, que corrompe o
ciclo de troca e da circulação das mulheres (deseja-as todas) e do
dinheiro (recusa-se a pagar suas dívidas). Mito do desejo e da morte, que
se apoiaria sobre uma base arcaica trazida à luz pela psicanálise (o
deflorador sagrado, o duplo e sua culpabilidade, a relação entre Eros e
Tânatos), o mito de Don Juan traduziria a mais profunda obsessão do
homem, a de unidade e de união, ante a realidade da divisão dos sexos e
a ruptura entre o tempo vivido e a eternidade postulada.” Isto posto, independente da intenção ou não de Antônio
Callado ao intitular seu livro, alguns elementos aqui se insurgem aludidas
ao mito, considerando que a trajetória dos personagens de Bar Don Juan está repleta de tentativas de ruptura, o desejo e a
morte são presenças constantes, a vida dupla e o sentimento de culpa e,
de uma forma ou de outra, a busca da unidade. Numa outra perspectiva, o mito também se sustenta do
Comandante Che Guevara como o líder revolucionário capaz de mudar a América
Latina, dando continuidade à Revolução Cubana e varrer de vez o
continente do capitalismo através de sua teoria de “foco
insurrecional” ou “foquismo” que elegia o campo como o terreno
fundamental da luta armada. Em diversas passagens, temos Lênin, Trotsky,
Marighela, Prestes e outros personificando o mito do guerrilheiro
salvador. Esses no plano mais imediato, mas não convém esquecermos do
fato de que há uma menção a Moisés, o homem da terra prometida e,
ainda, uma outra figura mítica e quase onipresente que é São João da
Cruz.
Faz-se interessante observar a presença da montanha nesses
personagens. No caso de Che Guevara, a
Sierra Maestra e Santa Cruz de la Sierra. Moisés recebe a tábua dos dez
mandamentos no Monte Sinai e, por sua vez, São João da Cruz prega a
subida ao Monte Carmelo. Seria demasiado absurdo afirmar que os freqüentadores
do Bar Don Juan não o concebem
como uma espécie de Olimpo para elaborar seus planos quixotescos em prol
de uma guerrilha rural? “…Aquella eterna fonte
está escondida (…) El corriente que nace de
esta fuente (…) Aquí se está llamando a
las criaturas, Apesar das cartilhas marxistas terem gerado uma tremenda crítica
aos “socialistas utópicos”, por aqueles que se diziam “socialistas
científicos”, as palavras de ordem eram “revolução socialista”,
“ditadura do proletariado”, além de muitas outras para, enfim, se
chegar a uma “sociedade sem classes”, ou seja, o comunismo. Se a utopia é aceita como “a representação daquilo que
não existe ainda”, bem como aquilo que “poderá existir se o homem
lutar para a sua concretização”, aqui nesse romance ela se manifesta
– tendo em vista que o momento histórico no Brasil – a partir da história
de um grupo de intelectuais de esquerda da Zona Sul do Rio de Janeiro que
não vê outra perspectiva de derrubar a ditadura militar e chegar ao
socialismo. Mas essa possibilidade de derrubar a ditadura em direção ao
socialismo, enfraquecida sua legalidade após o AI-5 em 1969, somente é
visualizada numa luta clandestina que se fortalece na idéia da luta
armada. Equivale dizer que a utopia como um não-lugar aqui está
representada pelo vazio e esse vazio é o lugar que existe para ser
preenchido como uma forma de ação. Mas entre o mito e a utopia existe um abismo onde uma
realidade se real-iza. É dizer que muitos dos conceitos tanto se esvaem
como se formam e se reformam na medida em que os acontecimentos acontecem
como sucedâneos de ações que determinam o rumo das coisas que não estão
previstas, como uma espécie de efeitos colaterais. Podemos aqui tomar
emprestado para a figura do mito que, assim como a filosofia, carrega a idéia
de princípio e, para a figura da utopia, o conceito de finalidade, ou
seja, a condição primeira como uma pedra de fundação, o ponto de
partida e, no segundo momento, o ponto de chegada como a justificativa
redentora do vir-a-ser. O que parece notório é que aqui, no processo de real-ização
como fenômeno, acontecimento, o mais importante historicamente é o meio,
a travessia do rio e não as margens e num certo percurso já nem mesmo
interessa de onde veio ou para onde vai. Considerando o amadorismo e a
inexperiência daqueles que compõe, conforme o autor, a esquerda festiva,
tem-se aí a falta de espaço livre para o acontecimento, há quase que
uma crise entre o urbano e o rural. O acontecimento mesmo, como o ideal
revolucionário, trata-se apenas de um pretexto para os pequenos
acontecimentos de periferia. Em meio a esse elenco onde se confundem atores com
personagens, desfilam seres (ou não-seres) quase que asfixiados pela
subjetividade onde a guerrilha é camuflagem de uma guerra pessoal. Para
Mansinho, os princípios revolucionários de tomar da burguesia o que ela
expropriou da classe dominada, princípios esses que regem sua necessidade
de assaltar bancos para garantir financeiramente a luta em prol de mudar o
país, são totalmente esquecidos e já não interessa mais a finalidade
de patrocinar a revolução. Como uma espécie de coisa em si, o que
importa é o meio, é o prazer do assalto, assim como o prazer de
conquistar sexualmente as mulheres e já não importa se é Dorinha,
Mariana, Karin ou qualquer outra. No caso de Geraldino, estamos diante do protótipo do
ex-padre, aquele que se supõe rompendo com os dogmas da cristandade,
embora não faça outra coisa senão inventar um Cristo mutante com macacão
de operário sujo de graxa, a tentativa de conseguir um substituto ideológico
para sua fé partida ao meio e, numa possibilidade historicizada, pode-se
fazer uma analogia a atitude muito comum entre os partidários e
coadjuvantes da teologia da libertação muito em voga na época. Se levarmos em conta a afirmação de Marx de que num
sistema capitalista não existe a possibilidade da arte a não ser como
uma forma de investimento ou como instrumento embelezador do regime, Murta
não passa de um cineasta medíocre, artista sem obra, a divagar e
propagar o sonho apocalíptico do que poderia ser se tivesse sido e vira
protagonista de um drama onde ele interpreta mocinho e bandido ao mesmo
tempo.
Aniceto é o símbolo da coragem bruta, o selvagem místico,
no sentido mais estreito da compreensão, ou seja, selvagem por perceber o
mundo sem a mediação da razão e místico por acreditar que forças mágicas
são capazes de explicar e definir o mundo, bem como, de protegê-lo. Joelmir, o ex-sargento, agora o camponês contemplativo, no
meio do mato, às margens do Miranda, alimentando a idéia de um amor
universal, ao lado de Valdelize. Há muito não tem contato com os
“revolucionários”, não recebe sequer uma notícia, mas guarda o terrível
segredo diante do mundo: tem as armas para a revolução. Como diz o
autor, “só nessa altura da vida Joelmir descobria de que eram feitas as
pessoas por dentro: de perguntas”. Enfim, tirando uma passagem rápida de Paulino, o incômodo
e neófito marxista que, depois de citações de Bakunin, Bernini e outras
coisas sobre couraçado Potemkin, mais-valia
e revolução, é levado pelos policiais por uma banal e estúpida confusão
de bêbados no bar, resta-nos uma atenção ao casal Laurinha e João que
– conforme observado anteriormente – prestam-se ao desempenho do
papel-referência do romance. Se, num primeiro momento, para Laurinha era
muito interessante e havia o desejo de também ser presa e se submeter aos
interrogatórios, ou seja, realizar as suas “bodas com a revolução”
em que os chamados “subversivos” enganavam e ridicularizavam a
estupidez dos inquisidores. Agora, tudo mudou de figura quando ela é
estuprada pelo policial torturador que, por ironia do destino, tem o nome
de Salvador, um fantasma que se instala entre o casal. Mas a única coisa
que lhe interessa é João que, por sua vez, cria num determinado momento
uma quase obsessão em relação ao homem que torturou e estuprou sua
mulher. Ao reconhecer a insignificância de seu problema particular em
relação à grande causa coletiva, concentra-se em outras atividades, uma
espécie de rei Arthur em Excalibur
que, diante da relação entre sua mulher Guenevière e o cavaleiro
Lancelot, recorre a uma justiça aristocrática onde o monarca não pode
se comportar como o marido traído. Mas existe uma aproximação muito
maior entre esse João e San Juan de la Cruz, seu homônimo e inspirador.
Conforme o próprio Antônio Callado – pela boca do velho Andrés –
Don Juan se torna a afirmação de Deus contra o ateísmo, mas ele se
insurge justamente para dizer que Deus existe, caso contrário, não
haveria tamanha desgraça na Espanha onde o generalíssimo Franco
demonstra o seu poder: “San Juan de la Cruz plantou Deus no chão. Deus é o
cedro que ele plantou e que ainda vive no jardim do convento de Granada.
(…) Quer dizer que, transformando poesias populares de amor em poesias
de amor a Deus, San Juan foi um místico marxista, que pôs a religião
com os pés na terra, o amor começando entre o homem e a mulher para
depois virar amor de Deus.” De um lado, João faz o percurso da subida ao Monte Carmelo
e, ao mesmo tempo, uma releitura do poema Noche
escura, em que San Juan de la Cruz inicia a busca da perfeição, mas
essa é uma busca onde o mérito é passar pelo caminho da negação
espiritual como a possibilidade da união com Deus. E João é mais ou
menos isso. Apesar de ser o personagem mais sincero naquilo que acredita
como a revolução, num certo sentido, o mais organizado, o mais
politizado, também carrega consigo esse amor que tem os pés na terra. É
como se para ele a revolução não pudesse existir sem esse amor, da
mesma forma que parece ser impossível dizer que ama se não luta pela
revolução, pois ela se realiza nele. A procura é mero pretexto para
estar fazendo, sentir-se incluído. Não é por acaso a fala de Gil quando
afirma ser “menos hermético do que o símbolo de João”, ao acreditar
que “a revolução brasileira existe mas ainda lhe falta o inimigo”. A essa altura, já podemos dizer que o mito e a utopia se
confundem, ou seja, há a necessidade de uma coexistência para que ambos
se afirmem. Se de imediato alguns apregoam que o romance de Antônio
Callado se propõe a desmitificação da luta armada, é mister que – pelo menos, num primeiro momento – esta já seja
admitida como mito. Numa proposta de mediação dialética para a
tentativa mais politizada de compreensão, a utopia pode ser considerado
como a antítese ou a contradição do mito. Daí, surge um novo problema
ou uma nova forma de enfoque:
Mas Antônio Callado, do ponto de vista político, por
muitas das vezes, parece também se colocar no livro como personagem,
confundindo entre os personagens e os sujeitos “reais” ou real-izados,
tomando emprestado a voz da descrença, num existencialismo niilista onde
nada é conseqüente. Não significa que eu me atenha ao sentido vulgar do
niilismo e sequer do existencialismo, mas me parece que a postura
niilista-existencial no autor não se trata da negação de um apriorismo,
muito pelo contrário, seu niilismo existencial tem o cheiro de alguém de
desconfia de algo apenas por ter deificado uma idéia matricial desse
algo, ou seja, essa revolução é uma farsa porque para se fazer a revolução
é necessário… Daí, despeja uma série de alegorias como, por exemplo,
no momento em que Joelmir fala da diferença entre carnaúba e carandá se
justificando a João o seu “esfriamento revolucionário”. Ele afirma
que, como aprendeu no norte, a carnaúba: “…dá cera para guardar na árvore a água, que é
pouca. Aqui no Pantanal água sobra. Por isso é que a carandá não dá
cera, não é mesmo? (…) Assim são as coisas. A gente dá á carnaúba
ela não faz mais força, vira carandá, largada aí pelos campos.
Revolucionário sem ocupação não dá mais cera não, João. Os
guerrilheiros da gente aqui virou tudo carandá.” Num certo sentido, parece interessante estabelecer uma dialética
que possa colocar em contradição o mito e o homem, o homem e o
revolucionário. Che Guevara é revolucionário porque é o Che Guevara ou
é Che Guevara porque é revolucionário? Mas aquela máxima de Che de que
hay que endurecerse pero sin perder
la ternura, fica resumida agora no fato de estar puxando o
guerrilheiro El Moro, ferido em combate na Bolívia, no lombo de um burro,
quando esse diz: “Comandante, me deixe por favor. Me largue aqui. Não é
possível atrasar a marcha com um burro inútil montado num mulo. Não é
próprio de um capitão de guerrilhas pôr em risco a vida de todos por
causa de um aleijado. E o Comandante, afagando o pescoço do mulo, não se
sabendo bem a respondia ao Moro ou se falava ao mulo: A gente precisa endurecer, mas sem perder a ternura.” Não há aqui a pretensão de uma palavra final, considerando que o tema suscita inúmeros questionamentos, principalmente, levando em conta as possibilidades diversas de se ler o Bar Don Juan. Capciosas ou não, podemos até encerrar com algumas perguntas: onde estão os limites entre a realidade e a ficção? O romance de Antônio Callado lido por um brasileiro que conhece minimamente a história é o mesmo livro lido por alguém que sequer conhece o Brasil? |
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Wilson Coêlho (Brasil, 1959). Poeta, dramaturgo e diretor de teatro. 18 peças teatrais suas foram montadas pelo Grupo Tarahumaras. Contato: wilsoncoelho@hotmail.com. Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina). |