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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004 |
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A insignificância perfeita de Leonardo Fróes Fabrício Carpinejar
Se
a poesia de Leonardo Fróes é de um montanhista, de ficcionista microscópico
das escarpas, ela pode ser dividida em diuturna, momento da própria
viagem, do aprendizado árduo das trilhas, e noturna, hora da fogueira, do
descanso e da tradição verbal. “Quatorze quadros redondos” (1998)
traz essa marca da segunda personalidade, que perdura a produção mais
recente do autor: decantando lendas e fábulas e priorizando personagens,
hipérboles e aforismos. Um exemplo de suas histórias é o velho que
decide conhecer a estrada nova por curiosidade, ao invés de andar pelo
caminho antigo e seguro, e vê o cansaço agravar a distância até que
seu cajado se torna uma enxada. A preocupação do escritor é não
aparecer, pincelar gravuras com a fidelidade de uma testemunha, movido por
uma serenidade plástica. O que prevalece é a intuição da inteligência.
Dar formação rochosa e relevo ao espírito, absorver o temperamento
calmo da montanha, que não se mostra para quem não está perdido nela.
Fróes acha a interioridade do artista do lado externo. Seus textos
articulam uma distração fixa. Opõe-se à concentração classificatória
com a devoção do devaneio. Olha para se esvaziar, não para encher os
olhos. Em
entrevista exclusiva, o poeta Leonardo Fróes, que já ganhou o Jabuti por
“Argumentos invisíveis” (1996) e traduziu Faulkner, D.H. Lawrence,
George Eliot, entre outros, antecipa questionamentos de seu novo livro,
“Contos orientais” (204 páginas), lançamento da Rocco. São quarenta
histórias recontadas do Japão, China, Coréia e Índia, desde o século
IV a.C. até o século XVIII d.C. Em mais de uma década, Fróes pesquisou
dois mil contos asiáticos, traduzidos do chinês, sânscrito, coreano e
japonês. Deixou muito das marcas autorais de suas mãos nas páginas. [FC] FC
- A paisagem montanhosa da Itália influenciou decisivamente Goethe. O sr.
não é um homem da praia carioca, porém da serra, radicado em Petrópolis.
De que modo sua poética repercute esse seu lado de montanhista e
naturalista amador?
FC
- Percebo que sua obra não é feita pela compulsão de existir, mas aos
goles e aos bocados, com lançamentos cada vez mais esparsos entre e uma e
outra produção. É consciente ou uma imposição do mercado? Acredita
que o escritor só deveria falar quando há algo de novo para acrescentar
ao seu trabalho, ao invés de ficar repetindo o que já disse em obras
anteriores? Ou essa repetição é salutar? LF
- Existir é inevitável, não demanda compulsão. Sou impulsivo, e muito,
por temperamento, mas isso já seria outra coisa, e tento me controlar em
relação ao trabalho. Publico pouco, a longos intervalos, e jogo fora sem
pena tudo que não parece essencial no momento. Preciso sofrer uma
transformação, pessoal ou estilística, para achar que é necessário
mostrar o que estou fazendo. Creio que há sempre em minha obra, de livro
a livro, uma mudança radical de voz e forma, e é com isso que eu aprendo
a meu próprio respeito. Não sugiro porém que outros façam assim. Cada
autor deve saber, porque o próprio trabalho indica, o que é que mais lhe
convém. Muitos precisam se aprofundar na mesma linha para aperfeiçoar o
que dizem. Tudo, por esse prisma, pode ser salutar. O importante é ser
autêntico. É tentar ser sincero, sem ceder a pressões externas. FC
- Sua poesia pode ser vista como inscrições rupestres? São leve,
entretanto, extremamente intensas. Parecem desconexas, mas tem a unidade
de uma ciência. LF
- Bem que eu gostaria que meus poemas fossem mesmo como inscrições
rupestres, gestuais e incisivos. Tudo que escrevi nas montanhas foi
escrito de um só jato, sem nenhuma alteração depois, nem mesmo uma vírgula
a mais ou a menos. Mas já passei longos anos sem escrever uma só linha.
Como para tudo na vida, acho que é bom esperar o momento certo. Se eu
tiver conseguido, com minhas limitações, chegar de fato a uma ciência -
uma ciência de ser - a poesia estará justificada? FC
- Em “Contos orientais”, mergulha na tradição de texto antigos para
acentuar o caráter fabular de sua poesia. Ao invés de reproduzir clássicos
chineses, japoneses e indianos, reconfigura as histórias ao seu timbre. A
coletânea é um trabalho eminentemente autoral? Como aconteceu a somatização
dos contos? LF
- Sou desde jovem um velho leitor de antiguidades, e há várias décadas
convivo com textos orientais traduzidos em línguas ocidentais. Procuro no
Oriente o que mais me falta, a infinita paciência que é a mais chinesa
das virtudes. O livro que estou lançando agora pode ser inserido, de
certa forma, na tradição dos contos orientais escritos por europeus na
própria Europa, lá pelo final do século XVIII, na esteira do enorme
sucesso das "Mil e uma noites". O Oriente, para os autores aos
quais eu me refiro, era então apenas o Oriente Médio, mas na Inglaterra,
por exemplo, constituiu-se nessa época um subgênero de contos à moda árabe
por autores ingleses, muitos dos quais eram mulheres, como Clara Reeves e
Maria Edgeworth. Não posso me vangloriar de autoria, no trabalho que fiz,
pois nada ali foi inventado por mim, a não ser os títulos que dei aos
contos. Somatizei-os com a passagem dos anos, aprendendo muito com eles, e
quis repassar a outros os ensinamentos dos quais me apropriei. FC
- Entre centenas de documentos, as discrepâncias são enormes, já que os
relatos atravessaram milhares de anos pela tradição oral, tornando-se
obras de autoria coletiva. Quais as mudanças que mais chamaram atenção
de uma versão a outra? E quais as transformações mais significativas em
suas adaptações?
FC
- Como a tradição oriental é totalmente diferente, percebe-se uma
religiosa busca sexual, com uma autonomia muito diferente da repressão
ocidental. No engraçado e alegórico “Como fazer amor com um nabo”,
uma virgem engravida após comer um nabo embebido no sêmen. Há também
situações de homossexualismo, vida nos bordéis e infidelidades. A
sexualidade é mesmo menos estigmatizada, mais vista como
autoconhecimento? LF
- Há uma idéia muito enquistada entre a gente, a de que os orientais,
por serem tão espiritualizados, estejam acima das circunstâncias do
sexo. Não é isso porém o que se vê nesses contos, que eram narrados em
público nos bairros de diversão existentes nas sucessivas capitais que
tiveram, por exemplo, o Japão e a China. Aí, em tais bairros, a
literatura licenciosa ia de par com a prostituição e os jogos, a bebida
e os folguedos, a mais ampla liberdade de ação. Julgando sempre pelos
contos, que são indicadores valiosos, percebemos que o sexo era visto
como uma coisa natural que acontece e que tem de ser resolvida, sendo uma
via de conhecimento, sim, como outra qualquer. A hipocrisia e os tabus são
denunciados, e tudo é visto sem espanto. Se considerarmos a tradição
iconográfica, a arte erótica hindu, chinesa ou japonesa, veremos de modo
ainda mais claro a confirmação desse ponto. Quanto ao homossexualismo,
encontrei-o principalmente em Ihara Saikaku, autor japonês do século
XVII que se especializou em escrever sobre prostitutas e gays. Um de seus
livros, "O grande espelho do amor entre homens", é todo
constituído, como já diz o título, por histórias de relacionamentos
estáveis e profundos entre samurais e garotos. Por outro lado, fontes
ocidentais a que também tive acesso, como as “Lettres édifiantes et
curieuses” dos jesuítas franceses que estiveram como missionários na
China, entre 1702 e 1776, ou a “História de Japam”, do frei português
Luís Frois, que participou da malograda tentativa de cristianização do
país, mencionam casos de prática homossexual entre os bonzos,
reprovando-os, é claro, com seu rigorismo católico. FC
- De que modo essas fábulas alimentaram La Fontaine e Thomas Mann? LF
- O conto que em minha coletânea se chama "A menina que era um
rato" foi posto em versos por La Fontaine, em suas Fábulas, com o título
"La souris metamorphosée en fille". O original pertence ao
Pancatantra, o grande livro hindu de fábulas, que também forneceu matérias,
como muitos especialistas já mostraram, aos fabliaux medievais europeus,
aos contos dos irmãos Grimm e talvez até a Esopo. Já o conto "Cabeças
trocadas", que resumi em pouco mais de duas páginas, foi
transformado por Thomas Mann, com seu talento de romancista, na novela Die
Vertauschten Köpfe - eine indische Legende, a qual se estende por 95 páginas
na edição de Estocolmo de sua obra completa. O original pertence ao
Vetalapancavimsatika, "Os vinte e cinco contos do vampiro", que
também provém da Índia e data, na primeira versão escrita, do século
XI. FC
- Um equivalente ao seu projeto são as “Fábulas italianas”, de Italo
Calvino? LF
- Nunca li este livro, mas a referência me deixou curioso e vou ler assim
que puder. Meu projeto porém tem muitos equivalentes na tradição européia.
Dentre os que conheço, posso mencionar como exemplos as Mythologies de
Yeats, onde o poeta deu forma escrita a contos coligidos por ele na tradição
oral irlandesa, ou as Moralités légendaires de Jules Laforgue, poeta que
recontou a seu modo e em prosa várias histórias preexistentes e já
muito comuns na Europa, como a de Hamlet, a de Lohengrin e a de Salomé. FC
- Os contos sempre deixam uma impressão interrogativa, não uma
gargalhada, um leve estremecer dos lábios, um contentamento reflexivo.
Uma das virtudes é a autocrítica das histórias, às vezes ironizando o
próprio budismo, outras denunciando o autoritarismo. Não há maior
sabedoria do que rir por dentro (e não para fora)?
FC
- Qual o provérbio dos contos populares que escolheria como epígrafe de
sua literatura? LF
- "O caminho se faz quando se anda por ele e as coisas são feitas
pelos nomes que cada um lhes vai dando". Está no texto intitulado
"As palavras", que se baseia em Chuang-tzu e encerra minha coletânea. FC
- Identifico em sua poesia uma inclinação minimalista, cada vez mais
rarefeita, de absorver detalhes em detrimento do conjunto, própria da
tradição do Oriente. Essa influência é decisiva? Estará presente em
seu próximo livro? LF
- Eu não sou nada oriental, não tenho sabedoria nenhuma, tenho raros
momentos de serenidade, e é por isso que continuo perguntando e
escrevendo. Ainda assim, é verdade, cada vez me torno mais detalhista,
como se o mundo pudesse mesmo estar num grão de areia, desde que o
olhemos com suficiente atenção. Um braço de mulher entrevisto numa
poltrona de ônibus, só o braço, pois do resto eu não via mais nada,
serviu de tema a um poema que recentemente escrevi. Não sei se isso, essa
atração pelas pequenas coisas, é influência do Oriente ou do campo,
porque quando estou plantando, quando troco os meus livros pela enxada,
tenho de espiar toda hora para ver se há brotos novos nas plantas, se
elas precisam de alguma ajuda minha ou se há insetos querendo devorá-las.
De onde vem isso, se do Oriente, do campo, da própria idade, realmente não
sei. Mas sei que faz um bem danado e restaura. FC
- Sua poesia está entrando no terreno da prosa. Coloca em prática a
definição de “música residual instintiva”? LF - Nunca entendi muito bem a distinção que se faz entre poesia e prosa. Para mim tudo é texto, são palavras da alma. Por muitos anos, meus versos se alongaram até encher toda a página, mas agora estão voltando a encolher, como se eu mesmo fosse diminuir de tamanho com a passagem do tempo. Sim, acho que é isso, procuro a "música residual instintiva", aquela que ficou no coração e não consegue se sublimar em silêncio. |
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Fabrício Carpinejar (Brasil, 1972). Jornalista e poeta. Autor de Um Terno de Pássaros ao Sul (2000), Biografia de uma árvore (2002) e Cinco Marias (2004). Contato: carpinejar@terra.com.br. Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina). |