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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004 |
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Herberto Helder: viagem e utopia Maria Estela Guedes
1.
Com destino a Singapura
«Às vezes chego a pensar que não existe nenhuma cidade
com tal nome. Contudo, isso não é, nunca foi essencial. A pureza, essa
existe, não há dúvida. E existe também uma revelação, uma conquista,
que é deslumbradora.» Em OPEV ("Os passos em volta"), o poeta figura
como personagem central explícita da maior parte das narrativas, e implícita
noutras. Em "Descobrimento», a pessoa narrada - ele - corresponde ao
desdobramento da primeira em reflexão especular. Falar de si na segunda
ou terceira pessoas, como se o sujeito não tivesse a consciência de ser
uno, é processo destinado a bloquear a emoção. Neste sentido, a
dissociação pode ter função anáIoga à da ironia. Em «Lugar lugares»,
texto quase inteiramente constituído por fragmentos de conversas sem
explicitação de emissores, encontramos de novo as vozes, reflexos da única
voz possível, instalada no centro do labirinto. «Estilo»
apresenta duas personagens em diálogo, mas uma delas está presente por
referência da voz activa, não tem presença física nem sonora : o poeta
fala com alguém invisível para o leitor, as falas de tal interlocutor
foram eliminadas do texto. Sabemos que por vezes o interlocutor interroga
o paciente (a situação evoca a consulta psicanalítica) através das
explicações dadas pelo último. Inversamente a estes modos de narrativa autobiográfica na
primeira pessoa, ou na terceira como expansão da primeira, há o texto
narrado na primeira pessoa, quando, dada a sua índole histórica, se
esperaria que fosse na terceira. Caso de «Teorema», curiosa versão do
episódio relacionado com o assassínio de Inês de Castro. A narração
vai ser feita por eu, o poeta assassino assassinado: «Nele tudo
ousa. / Vai morrer imensamente (ass)assinado». No poema de que citamos
esta frase final também aparece a narração na terceira pessoa. Trata-se
contudo de poema explicitamente autobiográfico: «Retratíssimo ou narração
de um homem depois de maio». Em qualquer das situações apontadas a pessoa que narra ou
é narrada corresponde sempre à imagem expansiva do poeta: «O minotauro
identifica-se: o poeta, escrevente. Mas está no centro do labirinto, e
aquilo que perpassa na conversação dos comentadores não cifra o modo
dele, nem o sentido», escreve-se em «Profissão: Revólver». Ora, o
comentador vem fazendo grande esforço divinatório para decifrar modos e
sentidos ao Minotauro. O sujeito, o poeta escrevente (ironia ?), constitui o
centro do seu próprio labirinto de sinais, que o devoram, que ele devora:
palavra é corpo e este corpo vive em palavra, em si ambos confusos; todas
as demais vozes são imagens do mesmo, produzidas pela mesma garganta,
apontando o abismo da carta, onde tudo se cala, onde a fal(t)a se faz silêncio.
A autodevoração através da poesia será visível em «Teorema», aliás
um pouco por toda a obra, particularmente em «Retratissimo ou narração
de um homem depois de maio». Tal facto já tem sido apontado, não será
de mais insistir, por se tratar de entendimento e vivência básicos da/na
poesia do autor. Em «Estúdio», observe-se o processo antropofágico por
parte do poema: «Deus ergeu-se do meu trabalho de poeta embriagado pelas mãos.
E já então era Deus a minha própria morte. Porque o poema devora a mão
que o escreve, com monstruoso amor. Que o vento me arraste sobre as
constelações azuis, as mais jovens estrelas - a mim, rosa de mim mesmo
cravada nos altos labirintos e nos enigmas mortais.» A poesia institui-se espaço de indagação, labirinto de
enigmas. Ao tocar os lugares de revelação, o poeta despedaça-se nos próprios
enigmas - mortais - da palavra. O que se exprime, e com veemência, será
a destruição do poeta pela comunhão íntima estabelecida com a poesia. Os sinais narrados em OPEV correspondem a aspectos vários
de um percurso cujo ponto de partida é a demanda do «Estilo» (1º
texto) , e cujo ponto de chegada - a «Trezentos e Sessenta Graus» (23º
texto, portanto último) de distância do lugar da partida - com «Estilo»
coincide. O título «Os Passos em volta» exprime precisamente este
circuito. Alguns sentidos do itinerário cíclico em universo curvo
(retome-se a Ouroboros) serão o objecto deste capítulo. A demanda do estilo é o ponto de partida e o ponto de
retorno para a viagem de empreendida pelo poeta. Estilo remete
evidentemente para questões de escrita. Contudo, no livro, o estilo será
essencialmente o modo inquiridor de estar no mundo, possibilitado pela
deambulação em lugares desconhecidos. A movimentação representa das
linhas de significação mais importantes na obra herbertiana,
constituindo um tema central, e de acordo com o estilo dinâmico analisado
no capítulo anterior. O estilo só se prende à escrita na medida em que
a escrita exprime o ritmo interior vital do poeta. Para viver é necessário
ter um estilo, a visão coesa e orgânica do mundo, e a capacidade de
remeter indivíduo e acidentes individuais para o núcleo de significação
que os determina e coordena. Ter um estilo significa ser capaz de
equacionar a própria vida nos seus múltiplos aspectos : relacionar-se
consigo e com o mundo: «a nossa vida apresenta-se então ali como algo… como um
acontecimento excessivo… Tem de se arrumar tudo muito depressa. Há,
felizmente, o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos : o estilo é
aquela maneira subtil de transferir a confusão e violência da vida para
o plano mental de uma unidade de significação.» («Estilo»). O poeta percorre as múltiplas cartas na situação de
estrangeiro, em busca da casa que será a sua. Encontra-a no termo da
viagem: «Trezentos e sessenta graus» relata o regresso a casa do filho
pródigo. O ponto a onde se chega é sempre o lugar de onde se partiu,
partidas e regressos interminavelmente repetidos ao longo da vida e dos
poemas. O nomadismo constitui o primeiro estilo de vida para o
sujeito que, não sendo um herói, vai contudo avançando por etapas ao
longo do destino que em parte ele próprio traça para si, e
progressivamente vai superando os obstáculos representados por/em cada
narração, até cumprir por inteiro a tarefa que lhe cabe. Cada texto funciona como degrau, sinal no percurso. Degrau
será não somente a estadia solitária numa «Holanda» que ignora o
fogo, mas também um incidente relacionado com o poder (a prepotência) do
sistema social, em «O grito» (este texto tem curiosa montagem, por
funcionar em dois planos, com duas narrativas justapostas, correlacionadas
pela presença da mesma personagem narrada: uma espécie de sobreimpressão
de imagens) , ou o mudo e solitário encontro com segunda pessoa «Duas
pessoas»), ou ainda o relato dos últimos instantes de vida da Velha
Avó jovem, em «Equação». Degrau, o novo texto que se escreve, a
criatura viva capaz de se erguer do lugar do dejecto, do que é abjecto -
as retretes de Paris. Também aqui a criação poética, no lugar que a
sociedade reserva a quem escreve - contra isso, contra a abjecção: «
Vida e obra de um poeta». Não espanta, por consequência, a afirmação:
a poesia é feita contra todos. De facto, a poesia é assunto de
carácter estritamente pessoal e intransmissíveI. Do confronto entre
poeta e poesia só o poema se transmite, e este pode acabar por ser apenas
o resíduo de operação oculta. Em suma, os obstáculos da viagem fragmentária são os inúmeros
curto-circuitos mais ou menos explosivos, mais do que menos, na vida e
obra deste poeta. Tudo quanto se escreve vai instaurar a topografia do próprio
corpo, aquele mapa arroteado por um
vergão de ouro. A descarga eléctrica vinda do confronto com os
outros e com a poesia é proporcional ao quantitativo, da voltagem
interior, neste caso, maior . Assinale-se, entretanto, ser a solidão o maior obstáculo
no caminho do poeta. Ainda aquela a que o pavor obriga, ou essa em
especial. Fora da comunidade dos poetas e dos loucos, o poeta está sempre
só, porque se move em sistema de vida diverso do social. Por esse motivo
o interlocutor de «Estilo» está ausente, nada entendendo da loucura poética. A solidão, relativamente aos indivíduos integrados no
corpo social, sem raízes noutro corpo que não seja esse, será o pano de
fundo na viagem através da Europa. Mesmo nas narrativas em que aparecem
personagens em diálogo com ele, o viajante está só, pensando talvez em
Singapura, lugar possível de Utopia. Apenas em «Polícia» a solidão se
dilui um tanto na solidariedade com Annemarie, dadas as circunstâncias de
serem dois contra todos. É a solidão que o leva ao desespero e
desesperança, à exasperação mais radical. Facto desencadeador da negação
de metafísicas, que move à reificação do transcendente num comboio ou
num lugar, como sucede em «Escadas e metafísica», «Os comboios que vão
para Antuérpia» e «Como se vai para Singapura». Toda a transcendência
e sobrenatural se tornarão concretos, incarnados por objectos simples,
reais, quotidianos, objectos instauradores do espaço sagrado - o espaço
do imaginário instalado no corpo. Em Herberto Helder não há universos mitológicos, nem
religiosos no sentido habitual; o que existe, e em profundidade, é um
universo mágico, sacral. O sagrado, tal como a poesia, será de novo a
cosmovisão e cosmovivência estritamente pessoais, subjectivas; poeta e
criança erguem tal universo contra tudo e contra todos. A deambulação representa o estilo de conhecer, e
quaisquer "Lugar lugares" (neste conto, lugares-comuns e sua cínica
subversão; com efeito, as revoluções colectivas são baratas e
saldam-se a preço de fim de estação), para lá de eventualmente poderem
assumir categoria geográfica concreta (embora no livro se afirme a
inexistência da geografia, por serem do rosto as topografias), exprimem
sobretudo o instante de clarividência, tendo por isso valor atópico: na
Utopia, a remota raiz da redenção - talvez um dia de Primavera. Conhecer equivale a viajar, mas viajar (no sentido mais
raso do termo) pode não trazer qualquer acréscimo de saber. Não será
por o poeta viajar através dos mapas políticos europeus que daí lhe virá
o saber mais do que já sabia. Pode até acontecer que a viagem o situe
dentro dos limites da realidade pensada, e por isso reconhecível, como se
lê parabolicamente em «Descobrimento». Esta narrativa é quase central,
quer por razões topográficas (em 23 textos é o 11º), quer por encerrar
uma das chaves do enigma. «Descobrimento» é um título que evoca o tema da viagem
e sentidos afluentes. Também o poeta, à semelhança de outros viajantes,
inicia a aventura do descobrimento de novos mundos, de pontos de referência
na estrada que conduz ao reino de Utopia: de Singapura. Por consequência,
Utopia será o destino, mas não europeu ou asiático; o mundo que o poeta
descobre - Antuérpia - é um velho mundo (como a Velha Avó), fechado
sobre si mesmo, onde se fala estrangeiro. A realidade oferecida aos olhos,
sendo novidade (como a Avó jovem), nem é nova nem outra. O grau de
desconhecido apresentado pela cidade não basta para que ela possa ser
encarada como lugar do radicalmente diferente. Ou então, o real detido
pela cidade não se manifesta ao viajante como o instante de ruptura - o
encontro com a verdade absoluta. Antuérpia não é Singapura, nem dela
partem navios com destino a Singapura; mas Singapura será o comboio onde
o poeta viaja.
O conhecimento é negativo, segundo a ordem literal das
coisas. Porque, se todos os lugares se equivalem topograficamente, sendo
quase nula a viagem histórica no espaço da realidade social, há sempre,
no plano mental, um descobrimento: o da nulidade de quanto se apresenta
como aparência das coisas. 2.
O poema «Cobra»: Do centro ao círculo "Cobra" não começa ali, onde a escrita
principia; não começa nem acaba, compreende enquanto circula : «Um
dia a Primavera era cruel
A finalidade do poema será atingir o centro, dado que no núcleo
se instala a força cósmica, o maior poder atómico da atracção dos
corpos. Tal percurso implica o eterno movimento de corrupção-regeneração-corrupção,
correspondendo ao processo iniciático de que o sofrimento é parte intrínseca
- provação e marca -, ou à impossibilidade material irredutível da
regeneração, facto ainda mais cruel. A crueldade inerente aos ritos iniciáticos vai ser sofrida
no silêncio e no segredo. Diferentemente de muitos rituais públicos,
aqui tudo se passa fora do grupo social, na clausura dos alvéolos, das câmaras,
dos quartos, e dos apartamentos agachados. Mais uma vez o jogo
remete para a solidão. Na arquitectura da primeira estrofe a circum-ambulação
aparece da maneira mais clara: as estações sucedem-se sem interrupção
e, descoberto o jogo, o leitor tem o desejo de a reler interminavelmente,
como se tivesse poder hipnótico. Tal arquitectura relaciona-se com um dos
temas do poema: através da memória o poeta vai recuando no tempo até
atingir a infância, infância muito mais antiga do que a sua, visto
tratar-se da infância mítica e mágica. A criança presente em «Cobra»
na qualidade de pessoa narrativa central não corresponde apenas (se de
algum modo se pode estabelecer tal correspondência) à fase passada da
vida do poeta, mas sobretudo a um arquétipo, e ao modo presente de ser.
Ela situa-se fora do tempo enquanto projecção psíquica e mágica, e
pertence à actualidade da enunciação por ser esta criança. A permanência da infância à maneira de componente psíquica,
representando a inocência (inocência entendida como situação
permanente de graça) e a máxima disponibilidade para aprender - esta
criança indica o aprendiz - está expressa no poema com a conjunção
de sujeito de enunciado e de enunciação na pessoa lírica da criança: «Eu trouxe serpentes de onde a luz mais ferve, A criança possuiu três qualidades importantes,
relacionadas todas com a boca, o órgão do alimento e do canto: truculência,
grau elevado de consciência - alumiada - e, sobretudo, ela é bi,
neste caso bivalve. Naturalmente, os lábios formam algo semelhante a uma
concha bivalve, mas podemos ir mais além do retrato. Importa que a criança
tem na sua constituição um par de elementos contrários, significando
isso que também ela opera a coincidentia oppositorum - o canto da
unidade. E esta criança, iluminada e iluminante, vai terminar o
poema sem que o discurso termine: depois da última linha ela inverte o
sentido da marcha feita pelo sujeito: da noite ao dia, do nascimento à
morte. Também o leitor pode dar a volta à noite, ou seja,
inverter o sentido da marcha do tempo, que de passado passa a tempo a vir,
o devir das estações da primeira estrofe, com seu eterno retorno. Os
tempos extremos coincidem, o futuro será sempre anterior. «Cobra» gira semanticamente em torno de três eixos
representados por três figuras simbólicas de valor semelhante: o centro,
o círculo e a esfera. Do ponto de vista qualitativo assemelham-se, do
ponto de vista quantitativo acrescem-se, visto o centro em expansão gerar
o círculo, e o movimento deste gerar a esfera. Quer dizer que a esfera,
por os compreender, significa a unidade da totalidade. Quer a cobra, quer a criança, quer a cabeça ou outros
motivos vão participar, deste modo, da simbologia da roda ou da rosa: a
unidade, a perfeição, o absoluto real, o conhecimento total que será a
finalidade a atingir no poema através de dois processos representados por
duas isotopias paralelas, mas mutuamente substituíveis: a transmutação
pela doença e a transmutação alquímica. Ambos os processos se
confundem nos resultados finais - a morte, etapa imediatamente anterior à
entrada na vida, o sucesso da obra empreendida: «Vou morrer. / O ouro está
perto.» A transmutação far-se-á lenta e progressivamente: do braço
de ouro sobre a cama até às crianças auríferas há muitas etapas a
percorrer e operações a efectuar. Note-se, contudo, que a operação
alquímica se desloca do presente para um futuro que toca a infância: a
obra do poeta não significa o aprendizado da criança a desaguar em
adulto, mostra o adulto aprendendo a ser criança. Daí também o ser ela
simultaneamente mestre e aprendiz, ou seja, iluminada e iluminante. O
poeta será criança quando o poema (não) terminar, embora a sua obra não
termine com «Cobra»: ele dará infinitas voltas à noite numa poesia
que, como se verá, se mostra técnica, temática, e obsessivamente cíclica: «É em nós que se encurva o nervo do arco
A unidade do círculo representando a conjunção perfeita
da dualidade - o arco e a flecha da estrofe citada, se quisermos - tem no
poema várias imagens (a mais importante das quais será naturalmente a
cobra Ouroboros, assim tendo sido também entendida pelo autor da capa do
livro) e entre elas a do andrógino, ou da coisa bivalve: «E nas cavernas de coral vivente, pulsam
A dada altura, reflectindo sobre os objectos que mais o
fascinam, o poeta revela parte das suas obsessões temáticas, das suas musas
cegas: «E
estas eram as visões, os meus símbolos perigosos: a demência, a nudez,
o dom,
A rede espessa de sentidos criada pela simbologia de círculo
ou esfera vai possibilitar diversas perspectivas de abordagem do texto, a
erótica incluída: «Os sexos fechados pelas bocas claras» represen- tam
tradicionalm'ente a serpente que morde a própria cauda. «Cobra» é um poema circular (espiralado) porque nele não
existem princípio nem fim irredutíveis. Também «Os Brancos Arquipélagos»,
por ausência de pontos e de maiúsculas, pode ser considerado poema sem
princípio nem fim. Em «Os mortos perigosos, fim.» há princípio
gramatical do poema, mas não existe qualquer fim, embora o título pareça
pretendê-Io; não há fim quando se termina o poema por uma oração
incompleta apenas constituída pelo elemento de subordinação «Quando».
Será possível entender, neste caso, que a vida se subordina ao
elemento-chave quando, ou seja, ao tempo. Em «Cobra», de novo a
construção verbal tende a exprimir a coexistência dos dois momentos
polares. O princípio pode coincidir com o fim e vice-versa, quando
convergem as pulsões (Eros e Thanatos) na unidade fundadora da noção de
tempo. Ora, o tempo exprime-se pelo movimento circular, facto que
determina um tema muito importante no livro, expresso em «Memória,
Montagem» : «Qualquer poema é um filme, e o único elemento que importa
é o tempo, e o espaço é a metáfora do tempo, e o que se narra é a
ressurreição do instante exactamente anterior à morte». Ou seja:
importa sobretudo aceder à instantaneidade dos dois momentos polares,
porque ela exprime o tempo real, o tempo forte. Tal tempo que, homologando
morte e vida, simultaneamente as anula, terá de se considerar ucrónico.
Por isso o tempo vem a ser representado por matéria simbólica, algo
situado para lá do tempo e do espaço: a infinita regeneração da
Ouroboros. A escolha da palavra «Cobra» para título e não serpente
ou dragão, por exemplo, merece comentário. A serpente adquiriu valor
exclusivamente negativo na mitologia judaico-cristã, e mesmo na linguagem
metafórica corrente. No poema tem o primitivo valor positivo (tal não
significando que não tivesse também valor negativo: muitos símbolos são
ambivalentes, além de serem infinitamente mais numerosos do que as matérias
simbolizadas) conservado pelos gnósticos, e a simbologia compartilhada
com o dragão e outros, atribuída pelos alquimistas. Por outro lado,
cobra tem ouro e obra dentro: obra literária, opus magna.
Ouroboros, círculo com centro, o símbolo alquímico do ouro. Para não
dizer que a palavra cobra tem cinco letras, número já várias vezes
sublinhado, para significar que o próprio número de letras só por si
aponta valor simbólico. Tudo - ou quase - quanto a palavra cobra evoca tirou
a sua origem dos centros africanos de força mágica. O termo remete para
a fascinação da paisagem africana, com as grandes florestas e poderosos
animais selvagens. África aparece logo de início no poema, como lugar de
proveniência do 'narrador' : «Estive agora em África com seus fulcros de oxigénio, A floresta está metonimicamente presente pelos efeitos:
produção de oxigénio; e pela parte: as flores. O hipnotismo exercido
pela natureza patenteia-se na imobilidade aparente das flores, pois estão
paradas mas irradiando energia. A energia fascinadora vem ainda dos
animais, cujos movimentos serão também metonimicamente expressos através
das patas. A poderosa força vital da paisagem africana vai transitar para
o poema, quando o poeta refere que as linhas e os versos estão à sombra,
do mesmo modo que estão à sombra das copas as redes de seiva alimentar
das árvores. O poema funciona como crivo da realidade, dela captando o
que tem de mais activo. No círculo descrito pela «Cobra» inscrevem-se dois
grandes espaços de significação, cuja oposição o poema resolve por mútua
contaminação: África, vasto campo aberto, com a srelva e seus animais
fabulosos - a sua «zoologia fabulosa» -, e todo o imaginário que
desenvolvem («Fala-se de um tigre, talvez, um tigre profundo, / sem
sonhos / movendo-se nos aros do seu próprio corpo com um feixe / de
chamas de cada lado»); diferente do campo aberto africano, aparece o
lugar fechado, constituído por quartos amontoados onde - quem
sabe? - tão fabuloso como o ígneo tigre anelado, mora um bicho em lágrimas.
Ao tigre, ao leão e à pantera vai juntar-se o vitelo brando. A
contaminação do vitelo pelo tigre faz-se através dos elementos mínimos
de significação comuns a ambos, neste caso, fogo e espaço intermédio:
tigre entre chamas/pénis (do vitelo) entre centelhas. Há elementos que de um lugar se deslocam para outro,
indiferenciando-se e indiferenciando-os. A indiferenciação corresponde
à homologação, forma de resolver a dualidade na unidade. África é
trazida no corpo para outro lugar, como marca e cicatriz: «Deus caça-me com uma lança O exemplo anterior remete para o curioso tema a que já
tenho feito referência, e sistematicamente aparece na obra segundo
diversas variantes: o caçador caçado, o perseguidor perseguido, o amador
amado, o olhador olhado, o escritor escrito, o leitor lido, etc.. Tal arquétipo
situacional tem o emblema mais fundo no título «Os Passos em Volta».Também
em «Apresentação do rosto» aparecia a narrativa do perseguidor
perseguido; o poeta segue alguém mas, por o percurso se verificar em
torno de um fontanário, acaba por ser ele o perseguido, quando aumenta a
velocidade da marcha do fugitivo relativamente à sua. Em Herberto Helder
nada acontece por puro acaso ; deste modo, o que o perseguidor quer
pretextar, para entrar em diálogo com quem persegue, será pedir lume
para acender o cigarro. Quero fazer notar que o fogo deve ser considerado
paradoxalmente o real objecto da perseguição; por isso, neste caso, o
poeta se torna perseguido, visto ser ele quem detém a posse de tal
objecto mágico. A propósito de «A voz sobre o espelho», referi situações
de natureza especular relacionadas com o assunto. Na versão herbertiana
do soneto de Camões «Transforma-se o amador na coisa amada»,
encontramos de novo a mesma situação, embora neste caso a dimensão
espacial que serve de fundo à inversão de papéis - a dimensão erótica
da escrita poética - seja de natureza diversa da que encontramos no episódio
do fontanário. Não esquecendo a afirmação feita em «Memória,
montagem» : o lugar é a metáfora de tempo. Já foi observado como o
lugar se mostra, de facto, a metáfora do instante de apreensão de
verdades poéticas. Em «Cobra», a situação arquetípica do amador amado será
retomada em termos de caça ao «Leão vermelho» (e aqui o autor saltou
do código poético para o código específico da «Arte de Música», o
que no fundo talvez seja apenas o maior afundamento da metáfora no abismo
do espelho: o código alquímico funciona, na obra do autor, como metáfora
com maior grau de profundidade, porque parte da metáfora: «tudo é metáfora
de metáfora», diz-se em «Cólofon») e mais tarde, em «Cólofon», no
delírio exacto do duplo travesti: «cumpre também falar do desafio do espectáculo - o
teatro «O mesmo se dá com Rosalína e Febeia em Como for do
vosso agrado. Assim vemos em cena relações entre um rapaz que faz de
rapariga-que-faz-de-rapaz e um rapaz que faz de rapariga: de um lado
Ganimedes-Rosalinda (e Cesário-Viola) do outro Febeia (e Olívia). Olívia
apaixona-se por Cesário; Febeia apaixona-se por Ganimedes. No segundo plano, isto é, no primeiro nível do «travesti»,
há relações entre raparigas, visto que Ganimedes é Rosalinda; e, ao nível
de base, há comediantes-rapazes. Assim temos três relações possíveis num único diálogo:
a relação normal, Ganimedes e Febeia; a relação lésbica, Rosalinda e
Febeia, e a relação homossexual entre os dois actores rapazes.» Tudo isto é perverso, dada a complexificação das situações:
há um casamento, primeiro, das roupas femininas com as masculinas ;
posteriormente, do corpo masculino com o feminino. Tal não interessa para
o caso herbertiano, tirando que o autor se lhe refere. Importa, e muito, a
circunstância de um só travesti já amplamente exprimir a conjunção, o
casamento, porque a máscara vai simbolicamente funcionar como o duplo,
fundindo-se ao corpo que completa: o activo une-se ao passivo num só ser,
o ser andrógino, perfeito. Como anteriormente referi, a relação
amador-amada só fica completa, não com dois elementos contrários, mas
com dois pares de elementos contrários: em Herberto Helder não existe o
rapaz e a rapariga; quando o amador passa a amado, e a amada a amador,
temos dois andróginos, ou seja, quatro elementos: dois passivos e dois
activos. E todas as duplas do tipo amador amado, assassino assassinado,
perseguidor perseguido e outros podem ser encaradas do ponto de vista da
representação do travesti, ou do andrógino. Ainda citando Yan Kott: «O andrógino, (…) a meio caminho entre a especulação
e a alquimia, simboliza a totalidade dos possíveis, a coincidência das
oposições (coincidentia oppositorum); é o ideal de beleza, o
sonho e a obsessão do paraíso perdido, da harmonia perdida e que é
preciso reencontrar.» Em termos gramaticais, esta situação evoca a da voz
activa e passiva. Porém, não se trata da mesma coisa, porque no poema o
sujeito da activa - o amador - continua a ser sujeito da passiva - a coisa
amada. Trata-se, sim, da identificação do sujeito com o objecto de
desejo, de fusão dos elementos passivos e activos. Em qualquer das
variantes - e o caso do travesti torna-se o mais flagrante de todos -
conjugam-se o feminino e o masculino ou, se quisermos, conjugam-se o animus
e a anima, caso da situação mítica de Eros e Psique, de
Narciso e sua anima reflectida nas águas. Daí ter referido a
dupla Narciso/Psique, insistindo na importância de a relação especular
ter sempre base erótica. Abrindo um parêntesis, será curioso notar como muitos
homens (não as mulheres, porque essas desde princípios do século
assumiram quotidianamente a androginia, como maneira inconsciente de
reivindicarem a igualdade de direitos), normalmente muito ciosos da sua
radical e exclusiva masculinidade, aproveitam o Carnaval para exprimirem
indirectamente a sua anima, e provavelmente impulsos de ordem
homossexual, no travesti. Certamente ficariam muito ofendidos se alguém
se referisse ao significado exacto desse delírio que é o vestuário da
feminilidade. Em «Cólofon» o autor está justamente a evidenciar o
sentido mais fundo da máscara, interpretando-a como a nostalgia da
unidade primordial do andrógino, e o desejo de a recuperar. A paixão do
autor vai no sentido de recuperar essa unidade no casamento antropofágico
efectuado com a página que escreve, a mater incestuosa. A conjunção é
o fundamento da androginia, aliás também da relação sexual (mesmo a
homossexual) e, sobretudo, da matéria-prima. Para sair de «Cobra» e recuar a textos anteriores, na «Poesia
Toda» encontramos a mater-ia no seu grau mais explícito, com
directa referência aos dois metais da obra alquímica, o mercúrio e o
enxofre: «Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Neste poema nem o sal foi esquecido, expresso pela natureza
maritima da mãe - o atum negro. Aliás, de modo geral, é sempre
salgada a água que aparece nos poemas, água activa, ou água ardente ;
quer dizer, a água homologa-se ao fogo e ao álcool. Além do enxofre e
do mercúrio, outros tennos em dupla representam os elementos contrários,
entre eles, por serem mais importantes, o branco (da neve) e o negro. Em
«Cobra» a conjunção será representada de várias maneiras - «Um pé
resplandece sepultado num sapato» -, mas particularmente pela articulação
feita entre Sol e Lua, sendo que a Lua pode também representar o metal
explicitamente ausente da obra literária, mas necessariamente presente na
obra alquímica, emparelhando com o ouro - a prata. Vejamos a conjunção
dos dois astros na casa corporal que é também o corpo poético: «A casa
cheia tremia vergada pela / lua frontal e veemente e o sol astrológico.» No momento da conjunção dos elementos passivos e activos o círculo avoluma-se dando lugar à esfera, modo de em geral a tradição representar o andrógino - a rebis, coisa dupla, soma de enxofre, mercúrio, e algo que os liga e conserva: o sal. E, por em «Cobra» Deus ser o sujeito e objecto da caça, recordo a definição atribuída a Hermes Trismegisto, condensando de forma admirável os sentidos destas representações simbólicas com assento na geometria de que tenho vindo a falar, e estabelecendo de maneira clara a androginia divina: «Deus é uma esfera cujo centro está em toda a parte e a circunferência em parte alguma». |
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Maria Estela Guedes (Portugal, 1947). Escritora, autora de Crime no Museu de Philosophia Natural e Eco, Pedras Rolantes. Dirige o TriploV [http://triplov.com], sendo ainda co-directora da revista Atalaia Internundos. Os textos aqui reunidos constituem dois capítulos do livro Herberto Helder, Poeta Obscuro (Moraes Editores, Lisboa, 1979). Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina). |