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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004 |
livros da agulha
Joseph Rykwert nasceu em Varsóvia em 1926. Aos quatorze
anos de idade seguiu para a Inglaterra, aí realizando seus estudos de
arquitetura na Bartlett School e na Architectural Association School. Foi
professor do Royal College of Art de Londres, onde obteve seu título de
doutor em 1970, e das universidades de Essex e Cambridge, estabelecendo-se
nos Estados Unidos em 1988. Além de intensa participação em revistas
especializadas de arquitetura (Forum, Domus etc.), ministrou
cursos na Alemanha, Itália e França, dentre outros países. Atualmente
leciona História da Arte na Universidade da Pennsylvania (com o título
honorífico de Paul Philippe Cret Professor of Architecture), tendo sob sua
responsabilidade a coordenação do curso de pós-graduação em
arquitetura. Suas publicações, numerosas, surpreendem pela abrangência
dos temas e ousadia de investigação. A cidade na Roma Antiga, os
arquitetos do século XVIII, expoentes da arquitetura moderna, urbanismo,
arte contemporânea, muitos os assuntos a que se tem dedicado. E ainda: com
N. Leach e R. Tavernor, empreendeu uma cuidadosa tradução do tratado de
arquitetura de Leon Battista Alberti (MIT/Cambridge, 1988); com A. Engel,
foi curador do catálogo de exposição sobre o mesmo arquiteto, realizada
no Palazzo Te em Mântua (Olivetti/Electa, 1994). Membro da Société
Internationale Leon Battista Alberti, Rykwert integra o conselho editorial
da revista Albertiana, criada em 1998. Dentre seus títulos mais
recentes, além da monumental The Dancing Column (1996), sobressaem
dois lançamentos: The Palladian Ideal, em parceria com o fotógrafo
Roberto Schezen (Rizzoli, 2000), e um estudo sobre a cidade contemporânea,
intitulado Seduction of Place: The City in the Twenty-First Century and
Beyond. Esses dados são suficientes para ilustrar a fortuna – e
urgência – da presente edição, a disponibilizar em língua portuguesa
uma obra de indubitável destaque no elenco de publicações do autor.
Joseph Rykwert, é de todos sabido, está entre os maiores historiadores da
arquitetura. São peculiares as circunstâncias nas quais A Casa de
Adão no Paraíso conquista divulgação entre nós. Publicada em 1972
pelo Museum of Modern Art, de Nova York, com traduções para o espanhol, o
francês e o italiano, sua circulação junto aos meios universitários cedo
assinalou orientes novos para o ensino de história da arquitetura. Por uma
parte, ajudou a esmaecer o veio formalista ainda preponderante na
historiografia brasileira e brasilianista (recorde-se que A Arquitetura
Religiosa Barroca no Brasil, de Germain Bazin, teve sua primeira edição
em português na década de 1980); por outra, revigorou os estudos sobre a
chamada tradição clássica. O cuidado do historiador com os tratados,
escritos de arte, obras de estética, manifestos, em suma, com o universo
literário da arquitetura, avizinha-o desde logo àqueles autores
notabilizados por reunirem à seiva da vie des formes o éter da vie
des idées. Nesse diapasão, entretanto, que se tome como exemplo a obra
paradigmática de Rudolf Wittkower e logo se evidenciará a insígnia própria
que Rykwert imprime a seus estudos. A Casa de Adão no Paraíso
ganha forma num intricado contexto de significados. Para compreendê-los em
seu devir temporal o historiador recorre múltiplas vias: o Livro Santo e
outros escritos sagrados, obras de arquitetura, práticas construtivas,
ritos, procissões religiosas… e, pouco a pouco, vemo-nos absorvidos no próprio
caminho. Qual o seu sentido para aquele que o persegue? À guisa de prólogo,
reuno aqui alguns apontamentos sobre essa trajetória, a qual, creio, adita
novos encantos ao livro que o leitor tem diante os olhos. Primeiro, e em contraponto às afirmações iniciais, o
presente livro denota tal senso de atualidade, tal vitalidade, que se
distancia em muito dos estudos “estritamente historiográficos”. Em
1965, ao término de um ensaio sobre a origem da coluna coríntia no limiar
do século IV a.C. reunido em A Necessidade do Artifício (The
Necessity of Artifice, 1982), Joseph Rykwert justificava-se pelo tom
da escrita e a atitude antiacadêmica então adotada, esclarecendo:
“antiacadêmica porque – e aqui o leitor poderá sentir-se no direito de
exigir desculpas por ter sido enganado – esse é um artigo não sobre
arquitetura antiga, mas sobre arquitetura moderna”. Olhos dirigidos à
casa adâmica, o leitor advertirá a mesma atenção para com o
moderno, ou antes, o presente, a perpassar toda a sua obra. Talvez o fascínio da escrita de Rykwert resida mesmo nesse
“rito de passagem” a que convida o leitor, nesse consignado exercício
de dispor-se “no limiar”, como que reanimando o semblante de Jano.
Limiar entre o antigo e o moderno, o passado e o futuro… entre a recordação
e a promessa, para concluir com suas palavras. Nessa divisa, A Casa de Adão
no Paraíso ocupa posto privilegiado. Patente já na abertura do
livro, o interesse pela arquitetura moderna é aí constante, e alcança
significação plena nas páginas que ultimam o estudo. Mas não cabe
antecipar uma trajetória cuja força está propriamente em ser percorrida;
compete, sim, ressaltar o lugar da presente obra no quadro de uma produção
intelectual de maior amplitude. Por certo, muitas das questões que ora se perfilam à luz
de uma aurora paradisíaca comparecem também no centro das indagações e
preocupações de Joseph Rykwert com os caminhos seguidos pela arquitetura
nos nossos tempos. Em seu livro, Os Primeiros Modernos (The First
Moderns. The Architects of the Eighteenth Century, Massachusetts, 1980), a
definição dos fundamentos absoluto e arbitrário da arquitetura –
igualmente abordados no terceiro capítulo deste livro – faz proêmio ao
sinuoso percurso que leva a Jacques-Nicolas-Louis Durand e ao seqüente
menoscabo dos valores formais em detrimento de uma concepção arquitetônica
“em termos de análise estrutural e composição geométrica”.
Recorde-se, nesse viés, A Necessidade do Artifício, conjunto de
artigos engajados na revisão do racionalismo moderno – o título, não
menos expressivo, insinua-se como jogo de palavras a nos endereçar, uma vez
mais, aos divisores entre necessidade e convenção, positivo e arbitrário,
que balizam a obra presente. Tal diligência com os problemas da forma, com “a
natureza de nossas respostas a um mundo de artefatos, o modo como grupos e
comunidades se apropriam do espaço” (Os Primeiros Modernos),
coliga-se a outro interesse, comprometido com as disputas em torno à cabana
primitiva. São uma constante na obra de Joseph Rykwert as reflexões sobre
a significância dos adornos e revestimentos, dos ornamentos da arquitetura.
No ano em que vem à luz sua Adam’s House, o historiador
organiza uma importante seleção de textos sobre Adolf Loos (Milão, 1972);
três anos depois, “Ornament is no Crime” (Ornamento não é
Delito), artigo reunido em A Necessidade do Artifício, parafraseia o
polêmico manifesto do arquiteto austríaco. Em 1974, participa do Simpósio
sobre Gottfried Semper realizado em Zurique, com um estudo sobre a contribuição
do arquiteto para a concepção de estilo. Por fim – e para maior
brevidade –, recentemente volta à cena em Ri-vestimento (co-autoria
de M. Wigley e G. Malossi, 1998). Elenco suficiente para pôr-nos em
sentinela. No campo da cabana, acendem-se calorosas querelas: Riegl, Semper,
Perrault, Blondel, Laugier, Lodoli, Piranese… Também aí, o empenho do
historiador em recompor uma trajetória coaduna-se ao de desvencilhá-la dos
juízos positivistas e psicológicos que guarnecem a arquitetura moderna. As formulações clássicas da psicanálise têm notórios
influxos sobre o estudo do ornamento. O vaticínio de Loos é exemplar:
“Toda arte é erótica. A primeira obra de arte, a primeira atividade artística
que o artista rabiscou na parede foi para se despojar de seus excessos”.
Nessa linha, a evolução cultural equivale à erradicação da ornamentação,
e “pode-se medir o grau de civilização de um país pela quantidade de
rabiscos que se encontra nas paredes de seus banheiros”. Convém deter-se
brevemente sobre o argumento. “Ornamento não é Delito” opera uma
reviravolta nas interpretações do ornato. Para Semper, o ato primordial de
adornar o corpo resultava de um “instinto” próprio ao sentido de
beleza, “requeria primeiro a participação ativa do sentimento estético”;
em Riegl, por sua vez, o foco recaía na “intenção” que motiva o
primitivo a um desenho “cuja finalidade não pode ser outra que
ornamental, puramente artística.” Loos não dá margem a dúvidas, a solução
do ornato reclama um só veredicto: trata-se de “extravasar” sentimento
(e não só o “estético”). Ora, em seu livro sobre a idéia de cidade
no Mundo Antigo, A Idéia de Cidade (The Idea of a Town, Londres,
1976), Rykwert contesta enfaticamente argumentações similares. Em 1909, em
um conjunto de conferências sobre psicanálise, Sigmund Freud propõe a
interpretação dos monumentos da cidade como “paradigma de histeria”
– grosso modo, o citadino aferra-se aos monumentos como o neurótico às
lembranças (ou o delinqüente aos rabiscos eróticos). Em mais de um lugar,
o historiador assinala os limites dessa diagnose de “casos patológicos”. É bem verdade que o repúdio de Loos passa longe das
generalizações que, com freqüência, se lhe imputam – “nunca tenho
afirmado, como sustentam até o absurdo alguns puristas, que se deva abolir
o ornamento sistematicamente e de forma conseqüente”. Mas cabe insistir
sobre tal aspecto psicológico, pelo evidente motivo de que as considerações
de Rykwert em A Idéia de Cidade fazem eco às palavras de A Casa
de Adão no Paraíso dedicadas ao estudo dos ritos (e não só ao das
tribos seminômades da Austrália central, à pintura de corpo e à waninga
como objeto ritual). Primordial à constelação dos trattati, o
solar dos ritos deslinda profícuos horizontes para se repensar quais desígnios
a arquitetura risca, num tempo em que “temos perdido todas as singelas
certezas acerca da forma em que funciona o universo”. Em seus significados
simbólicos os ritos cingem questões de fundo da arquitetura, e de seu
sentido nos dias de hoje. Eximindo-se da reconstituição arqueológica de um
original, como o da construção em madeira para o templo dórico, este
livro mantém em mira um protótipo, cuja imagem se delineia com um gama de
significações históricas. Certo, voltando-se para a idéia, não
basta o esquadrinhamento da primeira casa com o aparato conceitual, é
salutar, lembra o historiador, abeberar-se noutra fonte, anterior, em que se
“rememorava a sua forma e natureza mediante cerimônias e ritos de povos
que, todavia, uns ainda chamam de primitivos”. A observação dos ritos é
um distintivo de nosso autor. Por seu intermédio o leitor haverá muitas
vezes de se impressionar com a ausência de um nítido divisor de águas,
entrevendo continuidades, permanências de posturas, de aspirações que
dissipam os limites estanques entre Razão e Mito. Ainda, no enredo dos
ritos e cerimônias religiosas, sequer competirá o garimpo de visões
turvas, que, presume-se, apenas em estágios evolutivos posteriores virão
conscientemente articuladas, emersas à plena luz. “A consciência de
questões bastante complexas”, escreve Rykwert, “não necessariamente
implica uma capacidade para articulá-las.” Que se recorde Aby Warburg:
“A substituição da causalidade mitológica por aquela tecnológica –
diz na conferência sobre os índios Pueblo do Novo México (1923)
– elimina o temor experimentado pelo homem primitivo. Mas não nos
sintamos muito seguros em asseverar, sem mais, que liberando o homem da visão
mitológica se possa verdadeiramente ajudá-lo a dar respostas adequadas aos
enigmas da existência. […] Tenho dúvidas de que isso faça justiça à
magnífica alma dos índios, ancorada, por assim dizer, em uma visão poético-mitológica”.
Tais palavras fiam a sorte de A Casa de Adão no Paraíso. Aquém do Éden, a “primeira casa” perfila-se na divisa
entre a idéia e o ideal. Guardadas as precauções, é sugestivo aproximar
tal prospecto àqueles concebidos sob inspiração platônica. Como um
“modelo” a iluminar atitudes, cânones artísticos, léxicos e sintaxes
formais, ele reacende antigas suspeitas: mero simulacro ou paradigma legítimo,
jogo de ilusão ou ascese, depuração fenomênica ou princípio metafísico,
imanência ou transcendência – para repor a fórmula clássica: eîdos
ou eídolon? A nós, ao fim e ao cabo, apresenta-se como subterfúgio
desnecessário, ou não? Que fique em suspenso o seu destino, insuspeito é o solo
onde principia. Desejos, temores, aspirações… aí têm vida os
“modelos”, as “idéias”, aí perfilam-se intenções e significados
superlativos na forma como os homens organizam seu espaço vital, seja uma
simples cabana ou uma grande cidade. Reiteremos: um só fio une este livro
às invectivas do historiador contra Durand ou os urbanistas que consideram
a cidade “exclusivamente pela perspectiva da economia, da higiene, dos
problemas de tráfego ou dos serviços”. Aqui como alhures os olhos dobram
sobre um presente no qual “os espaços psicológico, cultural, jurídico
ou religioso não são tratados – lê-se no exórdio da Idéia de
Cidade – como outros tantos aspectos do espaço ecológico”. Última observação, ao resguardo das objeções a uma
historiografia empenhada fundamentalmente na compreensão dos significados
ou semântica das formas. Sobre esse mundo simbólico, onde Rykwert transita
como poucos, este livro tem muito a nos dizer. [Mário H. S.
D’Agostino]
Quem em sua juventude apaixonou-se por ideologias políticas
e sociais, acreditou na inevitabilidade da luta de classes, leu Trotsky,
Sartre, Camus, os filósofos da Escola de Frankfurt, George Woodcock, Hans
Magnus Enzensberger e o curto verão da anarquia de Buenaventura Durruti,
surpreendeu-se com o Arquipélago Gulag, de Solzhenitsyn,
desencantou-se com Fidel Castro, acompanhou a guinada do pensamento de Mario
Vargas Llosa, assinou a revista mexicana Vuelta nos anos 80 e 90,
vibrou com os textos de Gabriel Zaid e, principalmente, de Octavio Paz,
diretor da publicação, solidarizou-se com Gorbatchov e a perestroika,
e, na maturidade, aproximou-se do liberalismo moral sem compactuar com o
darwinismo social da direita norte-americana, não pode deixar de ler Travesia
liberal: del fin de la historia a la historia sin fin, de Enrique
Krauze, que saiu em Barcelona pela Tusquets Editores. Editor-responsável de Vuelta desde 1981 até o seu
desaparecimento em 1999 e hoje diretor da Letras Libres, Krauze, 55
anos, nascido na cidade do México, engenheiro industrial e doutor em História,
reuniu neste livro algumas das mais importantes entrevistas que fez para a
primeira revista, de Jorge Luís Borges, Isaiah Berlin, Lesezk Kolakowski e
Joseph Maier a Hugh Thomas, Uehuda Amihai e Bernard Lewis. Mas não só de
entrevistas compõe-se esta obra memorável: são vários os ensaios em que
Krauze, seguindo a trilha de Paz e Zaid, discute temas apaixonantes, partes
inseparáveis da História do século XX que, por sua transcendência, fazem
da tentativa de resumi-los uma missão quase impossível. Inesquecivel é a entrevista que Krauze fez com Isaiah
Berlin, publicada em Vuelta em março de 1982, em que o grande
historiador das idéias defende a importância do papel do indivíduo na
História. “Sem Churchill em 1940, possivelmente a invasão alemã da Grã
Bretanha haveria triunfado, ao menos a curto prazo. Parece-me evidente que,
se Hitler não tivesse metido na cabeça atacar a Rússia, Europa seria hoje
muito distinta. Está claro que as pessoas não podem atuar contra circunstâncias
rígidas; deve haver, por certo, condições que possibilitem certas operações
particulares; e o homem que importa é o que aproveita de alguma forma os
fatores implicados, seja de maneira instintiva, seja mediante a razão”,
dizia o filósofo de Oxford. De abril de 1985 é a entrevista com o polonês Leszek
Kolakowski, filósofo e historiador da filosofia, um dos grandes pensadores
– no sentido clássico – do Ocidente. Formado no marxismo heterodoxo,
ele decepcionou-se com o sistema comunista logo depois do célebre discurso
em que Kruschev denunciou os crimes de Stalin e da rebelião de 1956 em
Budapeste, tornando-se o inimigo público número um do governo polaco.
Exilado, levou uma vida errante entre as universidades de McGill, Yale e
Berkeley, até estabelecer-se finalmente em duas instituições: a
Universidade de Chicago e a de Oxford. Para Kolakowski, não há razões
para crer que o comunismo despótico e totalitário do tipo soviético não
era o comunismo em que pensava Marx. “Todo o projeto (de Marx) de uma sociedade perfeita
apontava para a centralização de todos os meios produtivos e distributivos
em mãos do Estado: a nacionalização universal. Nacionalizar tudo implica
em nacionalizar as pessoas. E nacionalizar as pessoas pode conduzir à
escravidão”, dizia o filósofo, lembrando que, ainda no século XIX,
Proudhon dizia que o comunismo significava, de fato, o Estado proprietário
das vidas humanas. “Foi Bakunin quem predisse que o socialismo de Marx
conduziria ao reino despótico dos falsos representantes da classe
trabalhadora, que apenas substituiriam a antiga classe dominante para impor
uma tirania nova e mais rígida”, acrescentava. Quem lê essas palavras de Kolakowski e, hoje no Brasil,
observa o comportamento de algumas figuras que cercam o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, oriundos do antigo Partido Comunista Brasileiro e agremiações
afins, constata que essa gente ainda não perdeu o vezo autoritário,
acostumada a ditar ordens e vê-las cumpridas sem questionamentos.
Infelizmente, conclui-se que, se esses homens tivessem chegado ao poder
pelas armas nos anos 60 ou 70, o Brasil não teria tido destino melhor, o
que, porém, não significa compactuar com o que fez a ditadura sanguinária
inaugurada em 1964. Outra entrevista histórica, de dezembro de 1984, é a que
Krauze fez com Joseph Maier, à época um dos últimos sobreviventes do
Instituto de Investigações Sociais, a famosa Escola de Frankfurt, cujos
representantes principais – Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Theodor
Adorno – exerceram uma profunda influência sobre a esquerda ocidental a
partir da década de 60. Judeu filho de poloneses que chegaram ao México nos anos
30, Krauze acercou-se, por intermédio de Maier, de autores que, próximos
dos pensadores da Escola de Frankfurt, pertenceram a mesma geração:
Gershom Scholem, Walter Benjamin e Hannah Arendt. “Nas investigações
históricas de Scholem sobre o misticismo judeu, nas iluminações de
Benjamin sobre arte, literatura e sociedade, nos livros de Hannah Arendt
sobre a revolução e o totalitarismo, encontrei caminhos intelectuais
infinitamente mais ricos e abertos que as fechadas utopias que intoxicaram a
minha geração”, testemunha Krauze. Um ensaio imperdível é “El otro milagro” em que
Krauze estabelece quatro paradigmas históricos para o atraso da América
Latina que, felizmente, a partir de 1989, entraram em crise: o militarismo,
o marxismo revolucionário e universitário, o caudilhismo populista e a
economia estatizada e fechada. Como se sabe, esses paradigmas não estão
mortos, apenas dormem à espera de que a sociedade civil se deixe enganar
mais uma vez, o que pode acontecer se a América Latina desencantar-se com a
sua modernização frustrada. Segundo Krauze, um onipresente fator externo incide sobre o
processo de abertura econômica na América Latina: o protecionismo dos
Estados Unidos e dos países europeus dispostos a defender “a mão invisível”
de Adam Smith portas adentro, mas ainda mais dispostos a meter a mão em
favor de agricultores ineficientes com subsídios que afetam severamente o
produtor latino-americano. Concentrados agora no Oriente Médio, os Estados
Unidos continuam descuidando dos países americanos. Ao fazê-lo, para Krauze, não apenas cometem uma injustiça,
mas um erro. A adoção da democracia liberal e do livre mercado pela América
Latina é, no fundo, apenas um ensaio, uma intenção de convergência com
os Estados Unidos que se pode reverter, em pouco tempo, com conseqüências
terríveis: rompimento da vida política institucional, retorno à violência.
“E os norte-americanos olhariam de novo a região com a irresponsável
candidez e desprezo que os caracterizam, perguntando: o que aconteceu?” Em “Ilusões pacifistas”, porém, Krauze não condena o
ataque norte-americano ao Iraque na seqüência dos fatos deflagrados com o
11 de Setembro de 2001, lembrando que se a Grã Bretanha tivesse enfrentado
Hitler preventivamente em 1938, a Segunda Guerra Mundial teria sido evitada.
Saddam Hussein não é Hitler nem Stalin, observa, mas o “pacifismo
puro” – como o chamava George Orwell – em torno da guerra do Iraque
esconde, como em 1991, perguntas incômodas. Em 1991, se Bush pai não tivesse agido, Hussein passaria a
controlar 9% do petróleo mundial e estenderia seu domínio sobre os demais
países da área com um novo califado petroleiro em Bagdá. Em 2003, Bush
filho dispôs-se a completar o serviço. Em troca, houve a matança de 11 de
Março em Madri e, hoje, a Europa vive dias de apreensão diante da
possibilidade de novos atentados. Teme-se, agora, que os Estados Unidos pretendam ir à forra
outra vez, mesmo correndo o risco de arrasar os regimes moderados do Paquistão,
Arábia Saudita, Emirados Árabes e Egito. Para Krauze, um novo ataque pode
tornar realidade a profecia de Samuel Huntington sobre o choque de civilizações
com que Bin Laden tanto sonha. O mundo parece hoje num beco sem saída. [Adelto Gonçalves]
Em uma hipotética história dos visionários, de Homero a
Dante, Cervantes, Blake e Borges, poderíamos detectar o “encanto pelos
mundos impossíveis” como uma constante na literatura. No universo dos
ensaios aqui reunidos este encanto exerce toda sua mágica. Maria Esther Maciel já é conhecida por muitos de nós
como autora de belos e importantes ensaios sobre Borges, Octavio Paz e sobre
poesia contemporânea. Para quem conhece sua produção poética, que pode
ser lida em Dos haveres do corpo (1984) e em Triz (1998), não
pode deixar de impressionar seu talento múltiplo, enquanto poeta e ensaísta.
Será mera coincidência o fato de ela ter entre os “objetos”
privilegiados de seus trabalhos justamente Paz e Borges? Maria Esther persegue os “mundos impossíveis” destes e
outros poetas com iguais doses de determinação, rigor e delicadeza. No
presente volume a imagem do “museu de tudo” é apresentada nas poéticas
tanto de Borges – com seu insuperável “Funes, el memorioso” – como
também de Georges Perec (autor tanto de A vida – modo de usar,
como de Un Cabinet d’amateur),
do nosso artista Bispo do Rosário e na do cineasta e artista plástico
britânico Peter Greenaway. Estes dois últimos tem suas obras exploradas em sua
verdadeira “pulsão” colecionadora. Se Walter Benjamin – o grande teórico-poeta
do “colecionismo” – via em sua própria obra uma espécie de
“arca” que deveria salvar os escombros de uma cultura que se afogava sob
o dilúvio fascista, Bispo (com o rigor do seu delírio) e Greenaway (com
suas enumerações e classificações paradoxalmente anti-taxonômicas), após
o dilúvio, vão colecionar o que sobrou. Desta poética de catador de
restos (o chiffonier, caro a Baudelaire e Benjamin) eles constroem
mundos próprios e com seus encantos particulares. Bispo tendo em vista uma outra salvação, total, apocatastasis,
no termo de Origines: salvação integral do mundo, de todas as coisas,
pessoas, pensamentos e sonhos. Greenaway, desconstruindo a lógica da
enciclopédia iluminista (que hierarquiza os saberes e acredita que existe
“O saber”) através de uma disseminação de enumerações e da construção
de “documentários” e mapas imaginários (memória de desejos e sonhos,
como na arquitetura visionária de Piranesi, autor da série de
“Carceri” imaginários no século XVIII, verdadeiros protofenômenos de
nossa arquitetura fantástica virtual). Maria Esther apresenta ainda o universo dos bestiários
latino-americanos como parte de um inventário do (des)mundo, diferenciando
as obras dos viajantes – calcadas numa animalização da diferença –
dos novos bestiários onde a ocidentalidade nega-se ironicamente. Costurando entre as letras, as artes plásticas e o cinema,
a autora apresenta com enorme propriedade o trabalho da escritura,
urdindo este vai-e-vem. A lógica taxonômica é assim abalada também no
seu compromisso com a linearidade da escritura ocidental que se nega
enquanto imagem. Com razão O livro de cabeceira, o clássico da
literatura japonesa do século X, de Sei Shonagon – transformado em filme
por Greenaway – pontua o livro com a sua condensação de corpo, livro,
pele, papel e caligrafia. A questão da tradução não poderia estar ausente deste
livro. A autora a pensa a partir de figuras nobres: S. Jerônimo, Larbaud,
Haroldo de Campos e Julio Bressane (cujo prodigioso filme sobre aquele
santo, autor da Vulgata, realizado em 1999, é aqui analisado). O filme de
Helvécio Ratton, Amor & Cia. – uma adaptação de um obscuro e
intrigante romance de Eça de Queirós –, também é lido na sua saudável
desrazão tradutória. Da experiência da poesia, Maria Esther salva a poética
das coisas de Drummond (autor que é revelado como outro adepto de catálogos
insólitos) e a poesia da “perplexidade” do mineiro Altino Caixeta de
Castro. Uma reflexão sobre a poesia que tende para a prosa detectada na
recente produção brasileira não deixa de aprofundar o trabalho de
entrecruzamento de fronteiras que marca todo o livro: evidenciando, neste
ponto, as passagens e confluências entre o privado e o público, o erótico
e o político. A leitura do livro Onde vais, drama-poesia?, de Maria
Gabriela Llansol (com sua atenção para “o que passa veloz”, que é ar
e corpo e tende para o e-vento) desdobra esta teoria da prosa-poesia. A entrevista com a autora, que fecha o volume,
presenteia-nos com sua arguta inteligência, erudição e profunda
sensibilidade poética. Ela traça aí um mapa – greenawayniano e não, ao
mesmo tempo – de sua poética e reflete nela (em um espelho de múltiplas
faces) a produção mais recente de autores brasileiros e latino-americanos. [Márcio
Seligmann-Silva] Este livro reúne ensaios escritos entre 1999 e 2003,
publicados esparsamente em revistas e jornais do Brasil e do exterior. O tema
predominante é o uso criativo dos sistemas de classificação do mundo por
parte de escritores, cineastas e artistas contemporâneos. Jorge Luis Borges,
Peter Greenaway, Arthur Bispo do Rosário, Georges Perec e Carlos Drummond de
Andrade são alguns dos autores de referência. Questões voltadas para a
interseção entre literatura e cinema, tradução criativa, mesclagem de gêneros
literários e escrita poética também são abordadas em alguns dos textos,
sempre a partir de um enfoque comparativo e transdisciplinar.
A editora Letras Contemporâneas, dando continuidade à
coleção "Poesia Traduzida", lança no mês de dezembro a edição
bilíngüe de Poeta em Nova Iorque, livro mais importante do espanhol
Federico Garcia Lorca. A coleção, que conta com três títulos, publicará
pela primeira vez no Brasil, sepadaradamente, o livro de Lorca. A única
tradução até agora está em suas Obras Completas, publicada pela
Universidade de Brasília.
[Ana
Miranda]
Enfocando temas bíblicos e míticos, a obra é composta
por dez núcleos temáticos ou livros – trabalhos que, separadamente,
foram objeto de apreciação de diferentes autores/leitores, que escreveram
os posfácios referentes ao texto lido. São eles: Márcia Denser, Renata
Pallottini, Carlos Felipe Moisés, Glauco Mattoso, Jorge Anthonio e Silva,
Fabrício Carpinejar, Claudio Willer, Péricles Prade, Álvaro Alves de
Faria, e Mirian de Carvalho, que enfocou o livro Salomé, no texto Salomé
e a Dança dos Oito Véus. Ao fecho de antiga filmagem hollywoodiana, Salomé encena
diante de Herodes a Dança dos Sete Véus. À retirada do sétimo
dos véus, soldados trazem numa bandeja a cabeça de João Batista. O
Evangelho alude à dança de Salomé, mas não há referência ao gênero de
dança. Não se menciona a nudez. E a dança ocorre antes da decapitação
do profeta. Em versos, através de trama próxima à de São Mateus (14,
1-12) e à de São Marcos (6, 14-29), Celso de Alencar recria - sob forma de auto -
a passagem bíblica da morte de João Batista, inscrevendo no episódio uma
coreografia, que (por caber a metáfora) denominamos Dança dos Oito Véus. Aconselhando Salomé a voltar à terra natal, a mãe lhe
desvela solo paradisíaco. Nesse diálogo inicial, Celso de Alencar enlaça
a urdidura do oitavo véu de Salomé, quando pressentimos tons de solilóquio
nas palavras da princesa: "Eu tenho um inferno que me
alimenta / e uma candura repleta de solidão. […] "Há uma
tristeza em mim que se alimenta / de tudo que é indecifrável. Há
um dedo violento no meu coração." Cultivando turbulência íntima,
Salomé se nutre do inferno. Na mesma fala, seu coração se
"alegra" ao ouvir -
dentro de si - a própria voz. Mas essa voz
ressoa tristeza, ódio, violência, morte. Solitude. Salomé permanece no
reino de Herodes. E a malha deste imaginário tecido cor-da-pele nos permite
engendrar nossa metáfora. Tangenciado a bainha do último véu, Celso se põe a retirá-lo,
gradativamente. O tecido, em transparência, tenta seduzir o olhar de João
Batista, traduzindo-se em imagens de potencial monólogo: "Com a força
da palavra lúbrica / a mulher seduz o homem e o arrasta / com a
ondulação de seus lábios. Ele a segue como um boi / que é levado
ao matadouro […]". Antevendo a morte, os olhos do profeta
se antecipam à dança. Ao enveredar por tonalidades de monólogo e solilóquio,
Celso de Alencar desdobra diálogos, enquanto intuímos dizeres e
personagens, em ato e ou paixão, vivendo os Sete Pecados Capitais, a
entrelaçar rua e palácio nesse drama poético. Na imagética dos que vivem
fora da corte, ganham corpo os pobres-diabos mencionados por João Batista:
"E os que não têm alimento quando / o sol se põe sobre
suas cabeças?" À festa da corte em comemoração às bodas do
trono de Herodes, entre a vaidade e a inveja das mulheres, o ofício dos
homens: "Tratavam de negócios; / compra e venda de escravos
e pedras preciosas". Então, nos diz o poeta: "Havia um
misto de alegria e / uma veemente loucura." Prosseguindo na retirada do último véu de Salomé, Celso
"veste" a princesa adornando-a de jóias -
para seduzir Herodes. Culminando em fecho alegórico, nas imagens de Celso a
dança tem início na sedução da indumentária, e nos adornos da barganha:
"É a cabeça de João Batista que me deves. […] e tu verás o meu
corpo / diante dos teus caprichos." O vestir-se para a festa
se faz imagem de duplo sentido, despindo a princesa de seu vestido
ornamentado de ouro. A princesa turvara a mente do rei. De olhos
fechados, ele podia "ver o corpo jovem de Salomé."
Falando para si, Herodes a nomeara em nudez e véus: "A loucura que
se estremece / no interior da loucura." Ao longo do poema, a loucura é figurada em imagens
recorrentes, culminando com a dança de Salomé: na bandeja de prata, em
volta da cabeça do mártir, "cinqüenta pétalas de rosas brancas".
. . E a loucura desdobrando-se corpo a dentro, quando o poeta lhe retira,
inteiro, o último véu: "Salomé se arrastava sobre penas de
gansos / e repetia para si mesma o seu próprio nome. / Dançava como as
tábuas / secundárias das cocheiras / e investia sua língua de sangue /
contra os espelhos primários." A cabeça do profeta continuava
viva. Seu olhar viu de perto a nudez e a loucura de Salomé. Viu a morte
lambendo nossos rostos dentro dos espelhos. E, refletindo setenta pecados
capitais, nossa imagem a meditar: Bem-aventurada seja a voz do poeta, a reinventar história
e lendas da estirpe. [Mirian de Carvalho]
A
grande arte é sempre uma luta renhida contra a hipocrisia. É a intransigência
com a mesmice. É a demolição de valores carcomidos pela paciência adulatória
das igrejinhas. É a lucidez perene do encanto que faz ressurgir novas vivências
a partir de uma nova linguagem, uma linguagem que sabiamente embala os
sonhos e afasta, para bem longe, a incúria e a incompetência dos limitados
e limitantes holofotes da mera fama. A grande arte mostra, concretamente, o
embate entre o homem e o seu conhecimento. Dessa contenda, revestida de fé
e transcendência, nasce o rio da escritura onde o viajante busca
reencontrar as suas reminiscências mais poéticas e necessárias. A arte é
grande sempre que faz da vida uma poética do imaginário. Em torno do
conhecimento faz brotar os escritos da metáfora recuperando para a vida o
prestígio da linguagem. Disposto
a sublimar a angústia que acena para o acúmulo da raiva e da impaciência,
o viajante exercita a sua querência vencendo o descalabro da usura e, com
isso, atinge as artérias da beleza que, da casca da calmaria, entremostra a
cauda do paraíso. O lacre rompido pelo viajante é tal qual uma estrada
vicinal, aberta em sua gigantesca pequenez para um mundo diferente.
Desembestado em sua impassível caminhada, o viajante marcha naturalmente ao
encontro da arte, grande metamorfose para se atingir o conhecimento. Intranqüilo
e indelicado, o viajante traça a viagem com o compasso da arte. As rédeas
do destino pertencem ao artista que aduba o imaginário com brandura e
crueldade e alinha o mistério do ser em cada traço de sua longa trajetória.
O artista, viajante que é, só pode almejar uma arte grande, aquela que na
zona da utopia preenche com sua incisiva passagem os espaços carnudos de um
paraíso por vir. Toda
produção literária de R. Roldan-Roldan insere-se na grande arte do
viajante. A literatura de R. Roldan-Roldan é um ser grávido de liberdade.
Toda a sua profícua escritura assinala com mestria uma visão criadora de
mundo. Visão calcada na somatória de forças que reúne em torno de si. O
autor jamais se deixa prender a modelos, não exclui, acrescenta. Com sua
temática inaugural vê-se, a um só tempo a rispidez e a ternura, o
hedonismo e a responsabilidade, a aventura e o bom senso. Uma literatura sob
a chancela da vertigem e do real, do insólito e do plausível, da esperança
e do niilismo. Enfim, uma literatura aberta, em toda a sua dramaticidade, à
recomposição lírica do imaginário. Captar a sugestão onírica das andanças,
esta a árdua e sublime tarefa do escritor que, na expressão contraditória
da existência, ergue, epicamente, os textos definitivos para uma arte
grande. Para R. Roldan-Roldan interessa, única e exclusivamente, a viagem
que transporta o indivíduo à arte que longe da redoma mecânica dos
discursos ocos, gera a vida e que por ela se deixa gerar. R.
Roldan-Roldan poeta, autor de O Exílio do Silêncio; Os Úberes
do Infinito; A Dor da Identidade - Khayyam, Tânger; Inidentidade
e Caminho, Insólito Caminho rastreia o amor e reconhece, na
incompletude do ser, a travessia para o entendimento da paixão. Um poeta
talhado no exílio da língua e da linguagem, que erotiza a sua escritura
para apontar o trajeto da surpresa e olhar o outro com esmerada
sensibilidade. O poeta é, pois, fruto do prazer que exercita o corpo por
meio da temporalidade metafórica - esta eterna descontinuidade dos
limites. O poeta R. Roldan-Roldan conjuga o verbo ser, sendo inteiro em seu
desejo imperativo de revelar a Palavra-Coisa a partir da recepção amorosa
do gozo, sempre insólito quando afetado pelo real. O
narrador-contista roldaniano presente em Carta de uma Mulher Separada;
Kabul, antes, depois e Ao Sul do Desejo, Contos Eróticos,
prima pela especularidade reflexiva das narrativas, todas elas codificadas
pelo estranhamento. Uma das muitas verdades humanas, baseia-se no espanto
diante da vida. Cada breve narrativa roldaniana insere espaço, tempo e
personagens, em primeira ou terceira voz, modulando o ficcional e o não-ficcional
e adicionando o curioso olhar que espia a montagem escritural das prováveis
histórias de cada ser fisgado pelo desenrendo da solidão. Por isso, o
narrador conta e contando se acha e se achando sai da errância anônima e
celebra o desejo pleno que é narrar. Como
romancista R. Roldan-Roldan tem em sua bagagem a importante tetralogia Uma
Caligrafia do Êxtase, composta pelos seguintes livros: Azeviche ou
Nossa Senhora do Sagrado Sexo; O Bárbaro Liberto; Boa Viagem,
Sheherazade ou A Balada dos Malditos e Litterata ou O Doce Sorriso do
Macho Satisfeito. Aqui, salta aos olhos o ofício absoluto do escritor,
que com o timbre plural de sua escritura, eleva a densidade física de sua
arte, adicionando ao horizonte do provável, a alucinação e a fantasia
presentes na realidade cotidiana. Uma realidade cercada pelo caos dos dias e
banhada pelos códigos febris da sobrevivência. Diante desse real, resta ao
romancista vencer o labirinto do tédio e equacionar as obliqüidades, as
contradições e as incompletudes que se deixam desfiar na espessura surreal
do texto. O
romancista R. Roldan-Roldan, autor da peculiaríssima tetralogia Uma
Caligrafia do Êxtase, é um gerador de desassossegos, um escritor
constelar que sedimenta na memória, as alegorias, os símbolos, as metáforas
e as alusões de um tempo onde cada situação a ser enfrentada é ditada
pela impossibilidade. Vencer o limite do impossível, eis o dramático ofício
de traduzir para o outro, aquilo que só a inteireza do silêncio é capaz
de determinar. A encantação visceral da linguagem roldaniana,
exuberantemente aprofundada em seus romances, culmina com uma autêntica
manifestação da força-linguagem, responsável pela onipresença
perturbadora e provocante da condição humana. Um romancista de vastas e
plenas qualidades, que maneja, como poucos, a imagética do sublime, que
conduz com esmero o fluxo de consciência e descreve as cenas minimalistas
com segurança e originalidade. Tensionando
cada vez mais o fio significante de sua trajetória artística, R.
Roldan-Roldan apresenta a sua 13ª obra, intitulada As Loucas Gaivotas
Morrem na Fronteira ou O Trem do Delírio. Dessa feita, o poeta, o
contista e o romancista vestem a pele do dramaturgo. A obra ousa inaugurar,
a princípio, um novo gênero, uma peça de estrada em dois atos.
Registre-se, de imediato, a rica galeria de personagens composta, em sua
esmagadora maioria pelos seres fisgados das outras andanças roldanianas.
Destaque especial para a velha exilada russa Anastacia Lazarovna, uma figura
marcante da literatura brasileira, que já está por merecer um olhar mais
atento e cuidadoso por parte da crítica nacional. Quem sabe, o tempo não
será um forte aliado de Anastacia Lazarovna, que a deixará na companhia
feminina das machadianas Virgília, Capitu e Sofia; de Madalena, Sinhá Vitória
e Luísa, sublimes criações de Graciliano Ramos; das amadas Dona Flor,
Gabriela e Teresa Batista; das meninas Lorena, Lião e Ana Clara, as
protagonistas-narradoras de Lygia Fagundes Telles; das geniais rosianas
Maria Quinéia, Diadorim e Lalinha, tantas estórias nas noites do vasto
sertão; das enigmáticas Joana, Loreley/Lóri e Macabea, nascidas da
primorosa pena da ucraniana-brasileira Clarice Lispector; de uma certa Ana,
arcaica tentação de uma insólita lavoura. Tantas mulheres percorrem os
mesmos e diferentes trens da existência. O tempo é sempre a melhor
descoberta do mundo. As
Loucas Gaivotas Morrem na Fronteira ou O Trem do Delírio
aciona, em dois atos, os relógios insones do tempo. Cada ponteiro desse relógio
grava o tamanho das coisas na pele das palavras e lê, minuciosamente, as
mil e uma páginas do abismático prazer contido na escritura do poético. A
peça parece enfeitiçada pelos insumos mágicos de Sheherazade, a
mesma da Balada dos Malditos, que faz ecoar os secretos silêncios do corpo
no nascedouro discreto do amor. Com isso, o mundo passa a ser a metáfora
inversa do espelho: a infância múltipla da emoção entrecortada pelo lado
amargo da vida em constante revoada. O
primeiro ato é, em síntese, um relato plausível, caracterizado pela
subjetividade que inunda as situações dramáticas do escritor David Haize
– uma espécie de alter ego que deambula pelas páginas escritas da
vida em cada roteiro traçado por R. Roldan-Roldan. É o dia do escritor,
subjetivamente circunscrito em sua individualidade e alimentado por seus
avatares. A inspiração de David Haize parece se enroscar nas fímbrias dos
relatos pirandellianos, exercendo, dessa maneira, o poder de fogo de sua
palavra. O intimismo do primeiro ato denuncia um sujeito inteiramente
cindido, porém, consciente de seu papel agregador na sociedade, por mais
paradoxal que isso possa parecer. Tanto é que este mesmo sujeito que narra
dramaticamente a peça, vai-se insinuando no ato seguinte: o trem pede
passagem para desvelar os amores subterrâneos que inquietam a estranha
fauna dos personagens. Zirpiak é a derradeira estação, a fronteira dos
sagrados suspiros. O
segundo ato prima por um relato surrealista, mais voltado para o fantástico.
O foco no social e no coletivo contrasta, propositadamente, com o universo
noturno. Sendo assim, dia e noite são, a um só tempo, faces da mesma
moeda: David Haize, o narrador que seleciona suas lembranças, deixa-se
inundar pela principal figura da peça, o trem. A todo instante, as pessoas,
os espectadores nascentes são alertados para o teor daquilo que está a sua
frente: o que estão vendo é uma peça. A palavra é armadura da peça, o
poético é o hálito da peça, o texto ouvido é uma peça. As Loucas
Gaivotas Morrem na Fronteira ou O Trem do Delírio é uma peça, nada
mais que uma peça em sua sedutora sintaxe e em sua persuasão semântica.
Uma peça, sim, traduzida em plenitude pela gramática do desejo, esta
viagem errática em torno da palavra-vida. Não se espante, pois, com a
explicitude do que se assiste, já que o aviso foi pregado aos sete ventos:
a sua frente está uma peça, um inventário ditado, sílaba a sílaba pela
sedução do amor. Daí, pode-se afirmar que R. Roldan-Roldan que,
anteriormente, já havia escrito uma ode aos poetas, aos músicos, à própria
literatura, faz com este texto, a sua ode triunfal ao teatro. O
kosmos dionisíaco de As Loucas Gaivotas Morrem na Fronteira ou O Trem do
Delírio é traçado pela força-linguagem que imprime a dimensão mítica
do verbo, no instante em que o idioma, revirado do avesso, origina um
retrato meio desesperançado da condição humana. Os dois atos da peça
aparentemente independentes um do outro, formam, na realidade, um conjunto
bastante coeso, no qual as sensações de cada personagem interpenetram-se
num contínuo, dando margem à difusão sutil de uma mesma assinatura, a do
escritor David Haize, o maestro das seis cenas do primeiro ato e das outras
dezenove do segundo. Cada
personagem da peça representa o itinerário corporal de um desejo: Sandra
Haddad, a dramaturga, é o signo metalingüístico do próprio teatro
espichado nos arroubos éticos do jovem ator; o homem moreno, o homem loiro,
Laura Cohen e a mulher ruiva compõem a dicção erótica enunciada pela
fala corporal das ligações libidinosas; o arlequim, a camareira, o
pianista, o bandido, o violonista cego e a dama livoniana sustentam o ritmo
sibilante da prosaica sensação do existir; Simone-Lara-Annabella, a mulher
rosada e a mulher de burqa condensam as lembranças e as imagens do Outro - o imaginário é a confirmação do espanto em movimento; Anastacia
Lazarovna é uma poesia em pleno exercício da beleza; o Pai e a Mãe são
pulsões de vida e paixão do autor - é a marca sígnica de uma poética
do imaginário inoculada pela incondicional amor que desconhece tempo e espaço,
e que é Estética e Ética da condição existencial do narrador; as Queres
(filhas de Nix e de Tânatos) e as Parcas (Nona, Décuma e Morta) são, cada
uma a seu modo, as fiandeiras do destino, divindades portadoras das forças
determinantes da natureza, a onipresença mítica na lei dos homens. E
o escritor David Haize é o cúmplice-mor dessa viagem em direção a Logos
e a Eros, forças desejantes de um Trem que dispara amorosamente seus gestos
no tempo sem fim das recordações. As Loucas Gaivotas Morrem na
Fronteira ou O Trem do Delírio é uma peça e como tal necessita
respirar o hálito do mundo, esse vasto palco, onde os gestos concretos dos
homens fazem brotar a gramática sagrada e profana do pleno conhecimento. No
palco, heroicamente, as gaivotas atravessarão o pórtico do silêncio,
escrevendo, assim, o ofício poético da Grande Arte. [R. Leontino Filho] |
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