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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004 |
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A arte de transgredir (uma introdução a Roberto Piva) João Silvério Trevisan
1.
Por isso, raramente se distanciou demais da capital, de onde foge sempre que pode, de ônibus ou carro, sobretudo para o litoral sul do estado de São Paulo, refugiando-se em casa de amigos na Ilha Comprida ou em pensões baratas de Iguape. É lá que realiza seus rituais xamânicos e entra em contato com seu animal xamânico, o gavião. 2.
Ao conhecer os poetas metafísicos ingleses, sobretudo
William Blake, Piva começou a aprofundar sua experiência mais direta com
o sagrado e a vida interior. A entrada em cena de Hölderlin e dos poetas
expressionistas alemães Gottfried Benn e Georg Trakl temperaram essa
experiência com uma ponta de pessimismo, que deixou de ser circunstancial
quando, ainda na década de 60, Roberto Piva teve contato com a obra de um
filósofo praticamente desconhecido,
no Brasil do período: Friedrich Nietzsche. À experiência juvenil de Piva agregou-se a contundência
desse profeta pessimista e decifrador da alma moderna. Mas nem só de espírito,
nem só de intelecto fez-se o aprendizado
juvenil de Roberto Piva, que cedo descobriu Rimbaud
e Lautréamont, recebendo a influência desses dois poetas visionários,
que extrapolam os limites da expressão racional e das escolas literárias.
A partir daí iniciou-se em sua vida o cultivo do
rimbaudiano “desregramento de todos os sentidos” para se chegar à
poesia. Das vanguardas do começo do século 20, Roberto Piva absorveu lições
do surrealismo, na vertente francesa de André Breton, Antonin Artaud e
René Crevel. É um dos três únicos poetas brasileiros a constar no
famoso Dicionário Geral do Surrealismo, publicado na França. A partir de
Artaud, Piva incorporou a idéia de que existe um compromisso absoluto
entre poesia e vida. O dito artaudiano “para conhecer minha obra, leia-se
minha vida” teve em Piva a contrapartida: “só acredito em poeta experimental que tem vida experimental”. Também é
flagrante em sua poesia a influência dos futuristas italianos (com seu
culto à fragmentação moderna), acrescida de algumas expressões
musicais da contemporaneidade do pós-guerra, através da onipresente
marca do jazz e da bossa nova, duas fidelíssimas paixões de Roberto
Piva. Mas há mais duas
fortes presenças contemporâneas em sua poética. Uma é a beat
generation americana, da qual Piva não só absorveu a estilística
fragmentada e a temática que aproxima o
contemporâneo do arcaico, mas através da qual
também sedimentou a orientação basicamente transgressiva dos
costumes do seu tempo. Na década de 70, a transgressão foi reforçada pela
descoberta do outsider Pier
Paolo Pasolini, protótipo do intelectual-profeta que caminha nas frinchas
do paradoxo. Dos poetas brasileiros, essa genealogia poética agregou as
figuras de Murilo Mendes -
com seu surrealismo intenso, expontâneo e sensorial, ao contrário dos
franceses intelectualizados - e Jorge
de Lima, sobretudo aquele barroco, visionário e atormentado de “Invenção
de Orfeu”. Os elementos finais da construção
poética de Roberto Piva evidenciam uma substancial ligação com o
aspecto mágico. Suas constantes caminhadas xamânicas pela represa de
Mairiporã e serra da
Cantareira, ambas nos arredores de São Paulo, além de Jarinu, no
interior do estado, selaram sua ligação sagrada com a natureza. Essa sacralidade é, para Piva, a única salvação possível
ao mundo moderno, que colocou a destruição da natureza como parte do seu
projeto consumista. No quadro da recuperação do sagrado e do mágico,
enquanto forças da natureza, Piva passou a estudar e praticar o
xamanismo. Para aprender o culto ao primitivo e às forças da natureza,
foi buscar elementos não apenas em teóricos como Mircea Eliade, mas
sobretudo nas culturas indígenas brasileiras e na prática do candomblé.
Ele não só cultua seus orixás (Xangô, Yemanjá
e Oxum) mas também toca tambor para invocar seu animal xamânico, o gavião. Paralelamente a essa trajetória em direção ao sagrado,
Piva agregou dois elementos ligados à civilização grega. Um: a ingestão
de drogas alucinógenas e bebidas libatórias, como formas de atualizar a
tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo. Dois: o
culto a uma erótica homossexual, resgatando para a modernidade o amor
grego, como um componente de transgressão do desejo.
Tome-se, como referência, seu "Poema XIV", de 20
Poemas com Brócoli, dedicado ao Carlinhos: "vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes & brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das cartas de amor." (20 Poemas com Brócoli, 1981) 3.
No caso de Roberto Piva, talvez fosse mais adequado falar
em escrita delirante. Essa prática
levou, também no caso do poeta brasileiro, à utilização do método da livre
associação de idéias, a partir da crença na importância poética
do inconsciente. Resultado: metáforas explosivas que Roberto Piva
articula com estonteante propriedade. Do seu poema
“A vida me carrega no ar como um gigantesco abutre”, veja-se o
final delirante: "minha dor é um anjo ferido de
morte você é um pequeno deus verde &
rigoroso horários de morte cidades cemitérios a
morte é a ordem do dia a noite vem raptar o que sobra
de um soluço". (Coxas,
1979) Ou, no início do seu "Poema VII" de 20
Poemas com brócoli, note-se a homenagem embutida numa metáfora
explosiva, que mistura elementos de sensualidade contraditória: "mestre
Murilo Mendes tua poesia são os sapatos de abóboras que eu calço nestes dias de verão." (20 Poemas com brócoli, 1981) Outro traço marcante na obra de Roberto Piva é o total
desmantelamento da versificação métrica, influência modernista que, no
seu caso, caotiza-se, na tentativa de transpor para a poética escrita o ritmo
sincopado do jazz e a respiração do músico de jazz. A rítmica
entrecortada, a batida imprevista e a respiração irregular, com notas se
sucedendo lânguidas, são traduzidas inclusive numa distribuição
desordenada dos versos o espaço da página. Veja-se como o poema dança,
neste seu "O Robot Pederasta": "Não vale
sair com asas
onde o cra
cra
cra
cra cra
cra
cra
cra
cra cra
cra
cra
cra se amassava
nas
velas apagadas
quem
quer
o telhado
de lágrimas?
beberei veneno
contra
teu temperamento
alegria que se
espera
raio X de gente que
desce do alto
porta acesa
olhar inchado no escuro Signorine, la danza della
Morte è servita
algumas
ficaram
LOUCAS" (Piazzas,
1964)
Depois, veio a influência do cinema. Trata-se de uma obra
pontuada por cortes cinematográficos
que remetem ao cinema experimental, com passagens abruptas de espaço,
tempo e imagética. Confira-se neste “Ganimedes 76”: "Teu sorriso olhinhos como margaridas negras meu amor navegando na tarde batidas de pêssego refletindo em teus olhinhos de
fuligem cabelos ouriçados como um pequeno deus de um salão
rococó força de um corpo frágil como âncoras gostei de você eu também amanhã então às 7 amanhã às 7 tudo começa agora num ritual lento & cercados de
gardênias de pano Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes a tarde
de São Paulo como um desejo espetacular tão
dopado de coragem marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem" (Abra
os olhos e diga Ah!, 1976) No geral, temos uma temática
muito diversificada, que parte do urbano e quotidiano, passando pelo erótico
e carnal, até atingir o metafísico e o sagrado. Confira-se neste trecho
do seu "Beija-flor badulaque": "nus & feéricos/ olho no gatilho meia-lua/ nado
esta manhã a favor da correnteza/ à deriva/ no miolo do furacão/ eu era uma Sibila entre os gonzos da lingua- gem/ Samba-Vírus/ exus nanicos carregando cabaças de pedra da lua no portal do meu ouvido/ cruzamento das Avenidas Assassinato & 69/ garoto-pombinha no balcão da lanchonete/ esperando o pernilongo da Mor- te/ estrelas rachadas gotejam leite dos deuses/ é com
este que eu vou sambar até a Pradaria -Kamikase/ no trecho Belém-Brasília da Teogonia" (Quizumba,
1983)
4.
Roberto Piva persegue e vive o ideal do poeta-profeta,
como menciona em seu "Poema
Vertigem": "Eu sou uma metralhadora em
estado de Graça Eu sou a pomba-gira do Absoluto". No espelho da poesia, sua imagem é daquele que reflete, de
modo nem sempre aceitável, os paradoxos da contemporaneidade, através
dos seus próprios. Define-se a si mesmo como um anarquista de direita. E,
muito contemporaneamente, ama
as corridas de carros, ainda que criticando o culto à tecnologia. Com
suas transgressões na vida e na
poesia - que formam um só organismo - Piva veio para confundir. Por ser incômodo, recebe mais pedras do que reconhecimento
dos seus contemporâneos. Para não falar da conspiração de silêncio da
qual sua obra poética tem sido vítima. Como gente demais no Brasil não o conhece, encerro com
mais um exemplo da sua contundência.
Saboreiem este festival de musicalidade, ritmo e delírio
expressivo em seu "Piazza V", um dos poemas mais emblemáticos da
sua obra emblemática: "Oswald Spengler tem uma
porta no seu tornozelo
& nuvens através dele
limpando a pele
que projeta
um velho cachecol marrom em seu olho eu penso
pelos seus líquidos compassos de sátiro até
um cenário de músculos
impedido de esmagar
o carvão de
vidro verde
que aquece a estrela nua de
anteontem Oswald Spengler tem uma porta no seu tornozelo
batendo até altas horas" (Piazzas,
1964) |
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João Silvério Trevisan (Brasil, 1944). Ficcionista, ensaísta e tradutor. Autor de livros como Em Nome do Desejo (romance, 1983), Devassos no Paraíso (ensaio histórico-antropológico, 1986), e Seis Balas num Buraco Só: A Crise do Masculino (ensaio, 1998). Palestra proferida na Biblioteca Mário de Andrade, 24/04/96, em São Paulo. Posteriormente publicada em Pedaço de mim (Ed. Record, 2002). Foto de Roberto Piva: Mario Rui Feliciani. Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina). |