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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004 |
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Além dos símbolos: a tessitura poética do caos na poesia de Péricles Prade Mirian de Carvalho
Os espaços da diferença poética
nos atraem à visitação, desencadeando sentidos da linguagem recriada
nas vicissitudes da existência. Momento em que a poesia joga o ambíguo
jogo do desocultar/ocultar. O difícil jogo do desvelamento/ocultamento.
Jogo pressentido por Heráclito de Êfeso no fragmento de número 123:
“A natureza se compraz em esconder-se” (Gomes, 1973). Ou seja, a
natureza - physis - força propulsora do movimento do mundo, força
que se esconde para ensejar o pensamento, ela nos afeta e atrai ao que
vive em ocultamento. Esse processo corresponde à ambigüidade do poético:
mostrar/esconder, atuando na raiz de algo que nunca vem à tona por
completo, posto que a poesia percorre o silêncio. E, no silêncio,
pressentimos coisas fixadas e dispersas, animando em musicalidade chão e kósmos,
clarificando a diferença poética, quando vislumbramos no poema uma
faceta do mundo visto pela primeira vez. Nessa clarificação, vivemos o
instante de uma imagem nascente. Torna-se, então, importante registrar as
sutilezas das palavras de Jacques Bousquet: “Uma imagem custa tanto
trabalho à humanidade quanto uma característica nova à planta”
(Bachelard, 1989). Inaugurando imagens, sonoridades
e sentidos, a poesia reúne o eu e o infinito, reunião que nos leva aos
sentidos metafísicos do poético: “A poesia é uma metafísica instantânea.
Num curto poema deve dar uma visão do universo e o segredo de uma alma,
ao mesmo tempo um ser e objetos” (Bachelard, 1986:183). Nessa articulação,
o poeta nos revela o mundo tensionado por diferenciais e ou antíteses,
questão que no Barroco se instaurou como consciência desse confronto,
nos planos teológico, filosófico, cosmológico e estético. Mas os
elementos tensionais, com variáveis, se fazem implícitos à poesia de
todos os tempos, nos vários modos de apreender o mundo como arquétipo e
existência, articulando ser e ente. Entreato da surpresa, a poesia se
mostra dádiva do silêncio. Não pede leituras histriônicas. Em alguns
casos, sobrevive, apesar delas. Na concepção do poema, o poeta habita
espaços do afeto. Entreaberto por forças oníricas articuladoras do real
e do irreal, o espaço poético é vivido, não é representado. “E
vivido não em sua positividade, mas com todas as parcialidades da imaginação”
(Bachelard, 1993:19). Na poesia, criam-se lugares de amorosidade –
lugares vividos na pele e nos desejos. E eclodem tempos de silêncio –
nas sonoridades íntimas, que regem o poema, instaurando instantes da
diferença poética, no processo do desvelar. Em Além dos Símbolos, Péricles
Prade nos chama a habitar uma alétheia explicitadora da diferença
poética, revelada pelos não-ditos, ao sugerir-nos dizeres e sentidos de
antes e depois do verso. Poeta das antíteses. Poeta do caos. Ele nos lança
à surpresa do poema, tirando poesia de onde menos se espera. Seja
admitindo as mazelas do anjo caído. Seja aceitando as circunstâncias da
morte e da privação, fazendo-as transitar entre o cotidiano e o fantástico,
primordialmente nos poemas Fugit Veluit Umbra, O que me Consola,
e Brevíssimo Inventário das Palavras Nervosas - poemas que podem
ser lidos como arcabouço da poética de Além dos Símbolos - por
concentrarem recursos estilísticos comuns ao todo da obra, enfatizando a
emergência da diferença poética. Nos dois primeiros, tal emergência se
localiza na predominância de tensões antitéticas, cujo fulcro se fixa
na imagística da morte e da vida. No último, esse fulcro emergente se
enfatiza em virtude da enumeração caótica das imagens – em escrita
paratática - gerando tensões diferenciadas. Observe-se ainda que esses
três poemas tangem o elemento fantástico, para anunciar diante do caos o
carpe diem, como topos intrínseco à escrita de Além
dos Símbolos: o carpe diem se desvela instante da vida no
instante da poesia, e se revela recorrente na imagística do erotismo, em
outros momentos desta obra. Nessa visitação ao caos poético, vamos
percorrer primeiro os três poemas mencionados, perscrutando-lhes as
singularidades. No primeiro poema, contempladas entre sombras e ossos, as
antíteses se inscrevem na visitação a uma capela habitada por
desenganos, profetas e santos mortos: A vida foge como sombra pagã Estes versos nos lançam à imagística
da morte, antecipando-se a nós com inexorável força de convencimento.
No segundo dos poemas mencionados – O que me Consola –, essa
tensão básica advinda da imagem da morte se associada à imagística do
lacunar, transitando entre ausência, inexistência e privação,
assinaladas em outro momento da poética de Prade, quando a diferença poética
nos revela potências de uma tensão precária, unindo pólos diversos, e
fazendo-os participar um do outro, posto que ambos mostram variacional
imagística do luminoso, vertendo gradações de luzes e centelhas dos
fogos de uma vela: Acordo-me olho, centro do cosmos,
espalhando Ante transiente luminosidade, o
olho se apercebe fulcro de luz. O olhar alcança o luminoso. Mas não pode
deter a luz. A luz não pode mudar o ciclo das coisas finitas. Não pode
conter o reflexo. E logo essa luz se vê lançada às ambigüidades de si
mesma, no entreato das orações escritas pelo eu lírico: No livro do profeta escrevi duas
orações. A primeira
Dependendo do dia Essa tensão primordial,
observamos, se exacerba quando o eu se vê mediando realidade caótica, a
entrecruzar morte e vida – alvo e flecha –, no curso de um viver
potencialmente gerador da morte, se atingido o alvo. Momento fatal -
sinalizado pela alegoria de Judas - na antítese virtude/traição: Quando chove em Lisboa não é a
água Por outro lado, desdobrando essas
antíteses, outras tensões se constituem na imagística multiplicadora da
desordem do mundo. No terceiro dos três poemas localizados como paradigma
da obra de Prade, à maneira da Enciclopédia Chinesa escrita por Borges
– um livro das diferenças, que inclui o “etc” como termo comum à
classificação caótica (Foucault, 1966) –, o poeta vai tecendo inventário
de palavras lançadas ao caos: Cavalos de Diomedes, Reunindo diferenças e ambigüidades
imagísticas enumeradas aleatoriamente, este poema situa linguagem e
imagem numa cadeia sonora lançada ao caos. Poema esse que, assim como
outros, tangencia o encantatório, para construir não um estrato surreal.
Mas uma realidade aos nossos pés – uma diferença poética reveladora
do eu vivendo em estranhamento, e habitando lugares do caos, ao reunir
imagística mítica e imagens do ser-hoje-aqui-e-agora. Desse modo, a
poesia de Prade registra a relação eu/mundo, na passagem e rastro do
homem, atuando nos espaços da inquietude da vida – da angústia –
vista no pólo tensional finitude/infinitude. Enigma e circunstância,
conduzindo-nos ao fantástico, como momento áureo da poesia, e ato decisório
na confissão poética. Em Além dos Símbolos, do
ponto de vista formal, a tessitura do caos transparece nesta obra dividida
em dez núcleos temáticos, apresentando títulos que sugerem um poema
articulado por enumeração caótica. Os núcleos temáticos, compostos
por cinco poemas, mantêm internamente analogias formais, porém se
diferenciam entre si por variações na concepção do texto: que engloba
versos livres – curtos e longos –, prosa poética e soneto.
Entretanto, ainda que valendo-se da forma fixa, Prade abdicada da rima,
lançando-se ao tom poético através do ritmo dos versos,
predominantemente decassilábicos, cuja quebra – instalando-se no
momento exato – retira do poema a monotonia comum à métrica perfeita
(Read, s./d.). E no caso do aludido verso curto, essa escolha não
assinala fôlego curto. Mas expressivo momento antitético. Tensão máxima
dos opostos, que, nessa circunstância, não demandam extensão do verso.
Numa visão sincrônica, os três poemas mencionados como paradigma – um
paradigma intrínseco à obra de Prade – vinculam seu trabalho ao Pós-Modernismo,
tangenciando recursos do Pan-Barroco, norteando o conjunto de poemas desta
obra e de outras obras do autor. Observe-se, porém, quanto ao
Pan-Barroco, não se tratar nem de uma repetição do estilo Barroco, nem
de um estilo de época. Com base na estilística espanhola, o nome
Pan-Barroco foi cunhado por Ivan Cavalcanti Proença, que sistematizou
procedimentos barrocos observados em vários momentos históricos.
Nessa eclosão, podemos localizar – por princípio – uma divergência
dos padrões clássicos, em períodos posteriores ao Seiscentismo. Ao
fazer recensão desses recursos poéticos, Proença os localiza nos domínios
da imagem e das sonoridades. Dentre os muitos procedimentos do
pan-barroquismo [1], incluem-se elementos imagístico e sonoro-tensionais
– constituindo jogos antitéticos. O autor também menciona a freqüente
transgressão da ordem direta do discurso. Essa transgressão resulta, por
vezes, no parágrafo ou no verso longo, em alguns casos gerando escrita caótica.
Na obra de Prade, o
pan-barroquismo se insurge na forma, nas sonoridades e na imagística,
dentro de um Pós-Modernismo Autônomo, nome que adotamos para abranger na
poesia, assim como nas Artes Plásticas, a obra de poetas e artistas que,
a partir dos anos 60, vêm imprimindo marca própria ao seu trabalho,
afastando-se dos cânones herdados do Modernismo [2]. Nessa perspectiva,
alguns poetas fazem incursões pelas formas fixas [3], renovando-as.
Seguindo outro rumo, temos inúmeros poetas que recorrem ao verso livre,
porém interpretando e transgredindo recursos modernistas [4], posto que
esse período artístico-literário estabeleceu cânones e prescrições,
muitas vezes excludentes. Os poetas do Pós-Modernismo Autônomo,
utilizando ou não recursos pan-barrocos, criam poética singular, através
da imagística e ou da sonoridade. Por vezes, no plano da escrita caótica.
Referendando o imemorial das Babilônias,
Egitos, Grécias, e das terras daqui, a poética de Prade
capta o fugidio entre Narciso e Pomba-Gira, definindo-se em tonalidade lírica.
Dramaticamente lírica, dando voz à dialogia dos termos nas imagens antitéticas.
Revendo dia-dia e mito, o eu lírico adere ao mundo, de corpo e alma.
Nessa tessitura da poética do caos, o poeta não é o apaixonado
intimista. O corpo se traduz no erotismo da carne. O erotismo se faz
imagem do carpe diem. Habitante do caos, o eu atua com as vísceras.
Mas o veio alegórico percorre essa poética, dentro de um lirismo que revê
e amplia a ótica sartriana, ao referendar o “para o outro” em terras
do mundo, onde a América se destaca no poema Ovo de Colombo.
Caminho de passagem do errante eu lírico, em visitação ao mundo contido
no ovo que caiu e quebrou [5]. O eu é o outro nessa visitação ao
caos. O outro é o eu, vivendo em alteridade tensões da pele. Vivendo os
jogos da finitude/infinitude, nos fragmentos imagéticos advindos da
arqueologia dos não-ditos intrínsecos ao poema, à espera do leitor. Em silêncio, a poesia de Prade
nos lança às entrelinhas do poema e do mundo, percorrendo o solo pátrio,
e outros solos: de Portugal às terras de Bizâncio e da Escritura
Sagrada. No diálogo do silêncio, o eu lírico reencontra - em circunstâncias
“exdrúxulas” de morte, doença e humanidade - poetas, reis, deuses,
filósofos, santos e homens do povo, reunidos numa geografia caótica.
Lugar onde os habitantes percorrem e atuam nos espaços de
terra-a-terra e fábula. Nesses espaços, se desconstrói o símbolo do
herói, do poder, da santidade. Nesses espaços da desconstrução do símbolo,
se faz expressivo, por exemplo, o imaginário rosto da mulher - desfeito e
recriado pela privação: Verônica limpou-se Nestes versos, o mistério se
realiza como estranhamento, marcando uma presença na ausência da face,
que deixou de ser - para tornar-se imagem caótica.
Existente pela privação. Definindo-se através de estranhamentos, a poética
de Prade transcende abstrações, para concentrar-se na imagem como ontogênese.
Ontogênese, cujo vínculo pan-barroco dimensiona o eu lírico no precário
centro do lugar terreno, descentralizado no universo. E construindo a antítese
nas forças atuantes entre centro e descentro. No lugar terreno, a poética
não se esquiva das mazelas e fantasias, ao buscar o que se dissipa e se
encontra em nossas mãos, antes e depois da linguagem. Aqui o mundo se
flexiona entre o tangível e o fantástico, enquanto a fábula do caos se
flexiona entre concretude e quimera. Na inexistente linha divisória da
antítese finitude/infinitude, o caos instala lugares poéticos. O caos
é preciso. Eis uma figuração propícia à poética de Prade. Nesse
sentido, em Além dos Símbolos, podemos viver no caos. Podemos
tangenciar a morte. Tangenciar, dizemos, porque na poesia a morte rege seu
interlúdio, tal o aceitamos em musicalidade: Não dói Em
cima o Anjo Entreabrindo a tensão
primordial, essa poética nos faz alçar jogos caóticos. Desconstruindo o
mito do mundo aos nossos pés, as antíteses nos lançam à fábula do
real e do credo. Verdade por inverdade, através desta figuração, o
perene jogo do ser / não-ser adquire tom grave e cotidiano, quando um
toma o lugar da outro, no jorro das coisas visitadas nas paragens do não-simbólico: O marinheiro tem as chaves Ao jogo do verdadeiro e do falso,
sentidos poéticos se desdobram nas entrelinhas. Mas dúvida e certeza se
correspondem, tecendo diferença poética. Vivem no mesmo espaço.
Compartilham a mesma temporalidade. Transparecem nos não-ditos. Assim
como a dúvida que nos alcança olhos e presença, quando chegam à festa
doze misteriosas visitadoras. Onze retornam ao caos de onde saíram. Uma
delas fica entre os convivas. Aceitamos sua presença, que faz do campo
nosso corpo: Quem será ela? Dúvida e certeza, uma visitadora fica, sem
ter sido convidada: Com asas de bronze doze (…). Sobem onze almas Quem será essa visitadora? O
poeta nos fala através do silêncio. A diferença poética -
acentuando dualidades -
retoma, a cada instante, os desdobramentos da morte, da ausência, da
falta e da privação, em exacerbada voz do eu lírico, a percorrer esta
poesia silenciosa e grave, ritmada em aninus e anima. Uma poética
da tessitura de forças fortes e tênues, a entrelaçar passado e
presente, na linha de passagem para o caos, onde deuses e demônios vivem
a certeza e a dúvida da morte. Errante, a poesia extrai de si as vísceras
-
fragmentos do caos - para tecer o que restou. E
o que resta se dissipou, encravado entre mazelas e finitude, cujo verso máximo
nos conforta e aflige: Miserere nobis.
Tecendo clareiras de credo e paraíso
perdido, o eu habita o caos. Mãos dadas - o anjo caído e o tempo de
agora - encontram Cleópatra, Ramsés II, Demócrito de Abdera, Álvaro de
Campos, Pessoa Dioniso, Le Douanier, Júpiter, Carlos Magno, Mauríco de
Nassau, Aladim e outras alegorias, no limbo poético. Lugar de passagem e
abrigo, onde – reunidos - o anjo caído e os outros habitantes do chão
percorrem o pensamento ocidental, e ouvem a repetição da sentença da
morte de Deus, da morte da Metafísica, da morte da Arte e da morte da
Dialética. O oriente, também caótico, se vislumbra lugar distante no
mapa-múndi dos personagens mortos. Na tessitura da poética do caos, um
fio de cabelo sustenta o mundo brincando de cabra-cega. Imagens caóticas
perseguem o sentido do fantástico, para suportar o dia-a-dia. Localizados
nos poema, seres exóticos: cipós, adagas retorcidas, gamos marrons –
alojados à esquerda e à direita do caos – desconstroem o termo antitético
da sorte, quando esta se vai. Quando larvas de cera se tornam olho
a vigiar o conteúdo misterioso nas cestas de seda impura, que contém
poema e fábula: Nas cestas de seda impura As larvas de cera vigiam Relendo Além dos Símbolos,
passo à primeira pessoa. Percebo que minha leitura poderia ter sido
iniciada aleatoriamente, posto que, dentro dos núcleos temáticos, os
poemas não seguem seqüência linear. Aderindo ao caos, me vejo imagem. Não
há razão de causa e efeito para terminar este texto com as antíteses do
poema Sem Fortuna. Ao revisitá-lo, pressinto – antes e
depois do verso – a sorte tensionando-se em direção ao seu oposto. De
forma diversa à de uma tese a ser defendida, simplesmente pressinto.
Então, descubro no caos uma metáfora. Nessa tessitura da poética do
caos, da certeza à incerteza, assumindo o lugar do cavaleiro andante, o
eu lírico - assim como no Sétimo Selo de Bergman - joga xadrez
com a morte. O diabo contempla a cena. Sem trapacear, a poesia ganha o
jogo. CARPE DIEM! NOTAS |
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Mirian de Carvalho. Doutora em Filosofia, Professora de Estética da UFRJ, Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte, Membro da Associação Internacional de Críticos de Arte. Contato: mir3@terra.com.br. Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina). |