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revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004 |
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Às voltas com Frank Zappa & indigestões do absolutamente
livre Floriano Martins & Mário Montaut
De
onde puxar um fio de voz? Um fio de altíssima tensão interligando os
sentidos. Estamos bem diante de Frank Zappa. É como se ele dissesse ao
Berio, ao Stockhausen, mais: à música eletrônica, ao serialismo, e também
ao rock: vejam só: há muito mais a ser feito, vejam o que se pode fazer
com todos os insights que vocês carregam em si potencialmente. É um
dínamo, como sugere um de seus personagens. Criou um mundo chamado Frank
Zappa, e anulou toda a vida à volta. Quando se foi deixou um vazio impensável.
O mesmo se deu com o Fernando Pessoa, e aqui recordo uma idéia da poeta
portuguesa Rosa Alice Branco quando diz que Pessoa se insere na categoria
dos grandes predadores, grandes terroristas. É bem possível que no Brasil
se possa pensar em um Chico Buarque. Outro dia caminhava pelas ruas do Porto
e me lembrava do Julinho da Adelaide, personagem criado pelo Chico para
driblar a censura no regime militar. Mas também sempre penso no Hermeto
Paschoal, pelo quanto de músicos que envolveu consigo, pela enorme abrangência
de sua música. Claro que não teve o mesmo raio de influência dos três
outros, mas vale mencioná-lo pela perspectiva cosmogônica. Também o
Pessoa não viu, em vida, funcionar o que deixou rigorosamente preparado.
Uma dia andei conversando com o músico Mário Montaut e descobrimos uma
simpatia conjugada pelo Frank Zappa. Sugeri então que muitas coisas
poderiam ser conversadas envolvendo os nomes todos aqui mencionados. Quando
menos, isto seria diálogo entre um músico e um poeta, algo não muito
comum em terras brasileiras. Vamos ver o resultado e desde já serão bem
vindas quaisquer opiniões. Abraxas FM
- A rigor o universo que abrange a música de Frank Zappa é tão vasto que
se torna difícil saber por onde começar a evoca-lo. Que tal se começarmos
pela música eletrônica? Para ele, muito do que se fazia sob este rótulo
era insuportável, lixo, e o que mais observava a respeito é que o artista
necessita “entender a sua tecnologia”. Crês que de alguma maneira a
arte – a música, por exemplo - que nos é contemporânea esteja
desprezando a percepção da tradição? MM
– Está
sim, desprezando em absoluto a tradição. Um tilt na Net e voltamos
para a Idade da Pedra. E não é só em música essa tendência, mas no
comportamento, de forma geral. E essa máxima foi proferida por um amigo
adolescente de meu filho, por um garoto de 17 anos. E de uma espontaneidade
estarrecedora, aquela afirmação seguida de sinistros risos. Mas veja, por
exemplo, quando o Zappa fala em o artista “entender a sua tecnologia”. A
tecnologia musical, Floriano, já há muitas “Estações”, é das mais
desenvolvidas. Apenas uma fugazinha, um brandemburgues de Bach são mais do
que suficientes para tal percepção. A vivência de um acorde, a convivência
de um músico com certas harmonias. Isso é necessário, é o entendimento
íntimo das nossas tecnologias musicais. E a pesquisa, a brincadeira rítmica,
claro, porque, e principalmente em se falando de Zappa, não há como
pensarmos em seriedade e ludismo sem que esses termos se envolvam, profunda,
graciosa, apaixonadamente. Há que se aventurar pelas brincadeiras, e há
muito que se brincar nas maiores aventuras. Ouça Sleep Dirt (1978),
com aqueles fraseados luminosos, sombrios, abissais, de um violão em estado
de pura magia aplicada, e ouça aquela versão impagável do Bolero
de Ravel. E muito do que Zappa achava insuportável na música eletrônica
foi realizado num espírito “sério” (risos). Já ouvi muitas tentativas
“eletrônicas” de conciliar Schoemberg, Stones e Noel. E, bem antes do término
da audição, vem uma vontade irrefreável de aconselhar aos músicos do
delito a ouvidinha em algo bem complexo, como, vejamos… uma Cantiga de
Roda. Sério! Ali eles aprenderiam um mínimo da noção de forma. E não
faltam adeptos das teorias do ruído, com todo um lixo sonoro realmente
muito além do limiar de resistência de qualquer um. Lembro agora de Jazz
From Hell (1986), que bela cópula de tecnologias! A resolução do
dilema harmonia versus consonância versus ruído versus
qualquer coisa, pode muito bem se dar num acorde composto de notas na
guitarra, no sax, numa torcida de futebol, num orgasmo de baleia, num gogó
em xingo ou reza… Soluções musicais bem humoradas para algumas
enfadonhas questões teóricas mal compreendidas. Isso é música. E como
isso é Zappa! FM
– Zappa nos dá ainda exemplo em discos como Francesco Zappa
(1984), onde recorre ao synclavier para sugerir novos acentos em um trio de
cordas, e The Yellow Shark (1993), com os duetos de piano mesclados a
um quinteto de cordas, compondo uma tessitura musical baseada em
atonalidades e estranhezas rítmicas. Já no que diz respeito ao jorro
inesgotável de soluções musicais, é possível encontra-lo também no
brasileiro Hermeto Pascoal, se concordas comigo, seja recorrendo a
tecnologias ou fazendo uma fusão entre jazz e música instrumental
brasileira. O que mais me chama a atenção no Hermeto, a propósito, é que
não seja travado pelo deslumbramento diante dos recursos que têm à
disposição, o que acaba sendo bastante comum em certos aspectos da cultura
brasileira. Na música, acaso poderíamos pensar em um Arrigo Barnabé como
bom exemplo dessa manifestação do que se poderia considerar provincianismo
ou mesmo complexo de inferioridade. Hermeto seria assim um dos poucos
exemplos do absolutely free evocado por Zappa. MM
- Retomo a questão do humor, sem o qual, em muitos casos, é quase impossível
ouvir a modernidade musical a sério. E só com muitos risos mesmo, vocais,
metálicos, instrumentais, a gente goza a delícia dessas incursões ao
atonalismo, de volta pro rock, e do minimalismo ao jazz, e tantos outros
ismos e delícias. Sinto no cosmopolitismo genuíno de Zappa uma forma
altamente rica e prazerosa de se fruir certas complexidades modernas. Nela a
gente consegue se divertir sem perder nunca o fio da atenção, o que nos
leva a seguir as fábulas de uma prodigiosa imaginação musical. Zappa é
americano, e nele a gente vê o quanto pode ser bom, às vezes, ser
norte-americano e não padecer desses complexos aos quais você se refere,
essa desalentadora realidade.
Se ouvirmos, por exemplo, Diversões Eletrônicas, do Arrigo, que,
original ou não, eu amo, como outras daquele disco, Clara Crocodilo,
percebe-se que o que põe muito a perder é um típico sentimento de
terceiro mundo, que nos torna deslumbrados, talvez, em excesso, diante
de procedimentos absolutamente humanos, mesmo que superlativos. E então
a coisa resvala pra uma seriedade, uma sisudez formal que em instante algum
se ouve em Frank Zappa. Ele passeia por imensas florestas sonoras e apreende quase
tudo, enquanto o Arrigo, no caso, frente a algumas espécies assaz
intrigantes da flora musical contemporânea, fica deslumbrado à beira da
rigidez, parece que alucina, e isso lhe dá um tipo de densidade que sua
obra realmente não merecia, não merecia. Já no caso do Hermeto, ele até
pode ser, como você diz, um exemplo do absolutely free, mas acredito
haver aí uma enorme distinção. Hermeto é realmente de uma imaginação
infinita, sua música felizmente não é nem um pouco impregnada desses
arrogantes complexos, mas percebo, talvez erroneamente, que não existe em
Hermeto nenhuma pretensão de ordem intelectual. Não vejo nisso um demérito,
e a gente sabe o quanto ele é genial, o quanto conhece de música. No caso
de Frank Zappa, porém, noto uma orientação de natureza filosófica, e não
apenas em relação à música, mas a tudo quanto o cerca e que acaba por se
incorporar à sua obra. Não sei o que você acha de tudo isso que estou
dizendo, mas se não estiver equivocado demais, tal porém abre um abismo
entre esses dois músicos. Quando enfatizei, a princípio, o extremado senso
de humor zappeano, isso desde sempre me pareceu um fruto de um pensamento
que de tão largo e profundo acaba fatalmente no humor. Não sobrevive sem
ele. Num certo sentido acho Hermeto até mais livre que o Zappa, mas é
neste que vislumbro, em bem maior intensidade, um grande diálogo da música
com todo o universo cultural, que em instante algum exclui o instintivo.
Zappa é um dos críticos mais terríveis e saudáveis que conheço. De
qualquer modo, é fascinante a colocação que você faz do Hermeto, porque
ela nos leva a pensar em música e muito mais. Até na própria noção que
se tem de liberdade criativa. E suas relações com outras áreas.
MM
- Claro
está que existe uma filosofia do sentir, de uma nova percepção, etc., mas
digo que não sinto em Hermeto uma preocupação intelectual, e quando digo
intelectual, vamos ao termo no que ele comporta de mais amplo, e sem pudores
ou papas na língua. João Cabral de Melo Neto, Drummond, são poetas intelectuais,
o que não é o caso de Luiz Melodia, Patativa do Assaré e tantos outros.
Salvador Dalí é um artista plástico intelectualíssimo, e instintivo, o
que não se pode dizer de Miró, e isso não diminui sua importância, pelo
contrário, em outras condições ele não seria Miró. É fatal que se
extrapole a questão da música para uma maior compreensão do que
estamos dizendo. Não desmereço em nada o Hermeto, apenas tenho de
reconhecer que ele não se relaciona com a cultura de sua época de um
modo tão amplo como Zappa o fez. Entendo que o intelectualismo pode
ter gerado uma série de mal-entendidos, de oportunismos, e de equívocos
absurdos. Mas diria que mesmo o Arrigo, com todo o seu deslumbramento, tem
um contato mais estreito com a cosmogonia de Zappa. Hermeto me parece um ser
glorioso, possesso, cheio de um orgulho infinito por seus instintos
poderosos e inteligentíssimos. E dou minha total razão a ele.
Zappa continuou sendo um instintivo, e nele, o artista sobreviveu à
aquisição de toda uma cultura que muito bem assimilada, acabou por lhe
fortalecer as vísceras, o que infelizmente não ocorre com tanta freqüência.
Seria tão mais saudável, se nós, brasileiros, admitíssemos as nossas
inferioridades, se não criássemos, no lugar delas, complexos, de
superioridade ou de inferioridade, e se acabássemos de vez com esses
discursos insuportáveis, e proferidos desde sempre, de Oswald de
Andrade a Tom Zé, sempre, sempre com a mesma tônica errônea, a de
querer disfarçar nossas inevitáveis dívidas culturais. O Arrigo pertence
a uma geração que prestou tributos excessivos ao que se chama de
modernismo brasileiro, o que foi desastroso. Hermeto, por outro lado, como
diria Tom Zé, “não teve medo de aprender na rua”, e nem nas escolas,
nem nas embaixadas, digo eu. O Tom Zé fica anos estudando toda a cultura
musical estrangeira em universidade de música e depois sai vomitando todas
as mínimas que ouviu lá. E por mais que ele não assuma isso, sinto-o
altamente xenófobo, como xenófobos se tornam, tristemente, tantos de nós.
A música brasileira que mais me fascina é a dita popular, em melhores
termos, aquela situada no universo da canção, e a dos chorões, a que tem
uma profunda intimidade com o homem da rua, que ama o samba, o frevo, os
botequins, o cordel, o carnaval, e amaria, se lhe fosse possível, todas as
maravilhas universais que inaceitavelmente alguns tentam barrar. Como
cantava Noel em “Positivismo (ou Araruta)”: “O amor vem por princípio,
a ordem por base, e o progresso é que deve vir por fim, esqueceste esta lei
de Augusto Comte, e foste ser feliz longe de mim”. Foi o que fizeram os
Beatles, ao esquecerem o postulado de teóricos dodecafônicos que
proclamavam a falência do sistema tonal, e terem criado algumas das mais
indeléveis melodias que a História da Música conheceu. Eles, Zappa,
Fernando Pessoa, Dalí, Miró, Jobim, e todos os que evitaram a Tônica
Dominante da burrice que ainda nos assola. FM
– Confirmo tuas palavras todas, por verdadeiras e precisas. Um verso como
este de Noel, sem saudosismo algum, é algo que tem feito enorme falta,
tanto à canção brasileira quanto à poesia livresca. Boa parte de nossos
poetas padece de certa disfagia, e uso o termo já que muitos se viciaram
tanto na deglutição evocada pela antropofagia. Enfim, é gente com certa
disfunção orgânica, que não sabe se alimentar de seu próprio tempo.
Acho bom que fales na xenofobia do Tom Zé, mas que não nos esqueçamos que
o que é xenofobia nele e em simpatizantes de um Patativa do Assaré,
equivale à xenofilia de um Haroldo de Campos e séqüito de epígonos que
ainda perduram entre nós. Mas vamos a essa relação curiosa que acaso se
poderia traçar entre Frank Zappa e Fernando Pessoa, no que diz respeito a
uma heteronímia, habilmente construída nos dois, embora declarada apenas
no poeta português. Pessoa desenhou personagens que até se opuseram entre
si, cada um constituindo estilo próprio, idiossincrasias particulares etc.
No caso de Zappa temos um elenco de personagens que, se observados em
conjunto, constituem todo um núcleo social, o arcabouço de um estrato caótico
de uma sociedade, a estadunidense. Em
cada um desses personagens – The Duke of Prunes, Harry the Beast, Flower
Punk, The Idiot Bastard Son, Eletric Aunt Jemina, Mr. Green Genes, Willie
the Pimp, Magdalena, Billy the Mountain, Bobby Brown, Disco Boy, The
Illinois Enema Bandit, Jewish Princess – vai sendo articulado o discurso
de uma crítica corrosiva ao way of life estadunidense. MM
- Tudo
o que dissemos traz-me inevitavelmente à lembrança um pouco de
"Samba do Criolo Doido" (risos). E por mais que o tal
"samba" universal, às vezes pareça esculhambar "o
critério", não há mais como nos livrarmos dessa cadência num
caos que pode ser até instigante, evitando-se as xenofobias, xenofilias e afins.
Agora, você tocou num ponto mágico: a heteronímia. Talvez um dos
desdobramentos mais impressionantes dessa bruxaria do Fernando Pessoa, possa
ser contemplado, em música, nas canções de Chico Buarque, que também
nunca "assumiu" a heteronímia. Mas todos sabemos que
Chico Buarque são muitos, e muitas. Sob o "cronista", o
"trovador", o "político", entre outros rótulos,
ocultam-se diversas individualidades que revelam a prática
despersonalizante, a força rítmica, melódica, da palavra cantada. A poética,
então, atinge uma densidade emotiva incomparável. Mas ali estamos nos
domínios da canção, com toda a gama de possibilidades e limitações
que ela comporta. Já em Zappa, músico superdotado, esse fenômeno é
apreendido de maneira amplamente diversa. Gostaria que você comentasse
um pouco mais esse universo de personagens, e como sente, percebe a
atuação deles no discurso musical de Frank Zappa.
MM
- E já não apenas o nosso samba sincopado, cairia bem ao Zappa, mas também
esse tipo de pensamento musical exposto de forma tão efetiva, muito o
animaria, creio. Há coisas que acredito estarem definitivamente sob os domínios
da música, e à minha indagação de suas percepções nas mudanças
do discurso musical de Frank Zappa, você foi autenticamente musical.
Tivesse jogado com especificidades estruturais e imensas
possibilidades de diálogo estariam perdidas. Mas noto que você, com
bastante ginga, soube transportar algumas sutilezas discursivas desse grande
artista para esta deliciosa conversa, e isso é música, no melhor
estilo Frank Zappa, sendo ela agora partilhada por quem realmente nos
acompanha, em sua generosa magnificência, e não em fastidiosos
deliriozinhos estruturalóides que não convencem a ninguém. Sinto que
essas reflexões, que levam um piloto kamikaze, Francisco Mignone e Chico
Buarque por american ways e jeitinhos brasileiros de se evitar
abismos do Pessoa, são também genuínos modos de vivenciarmos aqui,
com certo suingue, um pouquinho da bruxaria de Frank Zappa. Concordo
com o sentido literal e metafórico de várias afirmações que você
acaba de suingar, porém, mais do que o sentido, cativa-me a fluida
musicalidade de um pensamento em total sintonia com "Filthy
habits", "Sleep dirt", "The ocean is the
ultimate solution", algumas das obras que acabo de ouvir - Sleep
Dirt! Amo esse álbum - trouxeram-me também suas palavras, a lembrança
de outro disco, The Grand Wazoo, que toca nesse ponto
antimusical, justamente através de alguns personagens: "The
questions". E paralelamente me vem uma singelíssima frase
proferida por Chico Buarque numa entrevista: "O crítico, critica apenas
a letra. A música, ele não consegue criticar." Essas palavrinhas, sem
a mínima intenção de provocar embates metafísicos, denunciam, em
sua singeleza, todo o peso de um "jeitinho de
viver" que inviabiliza qualquer troca de experiências
em música e poesia, você não acha? FM
–Corre-se aí o risco de inviabilizar uma sensibilidade crítica para
perceber o que se passa com a canção, não mais separando letra e música.
Entendo a procedência da observação do Chico Buarque e esta se aplica a
uma circunstância. Por mais que se adaptem romances para o cinema ou que se
ponham música em poemas, cinema não é romance nem canção é poesia.
Trata-se de outra linguagem e os mídias deveriam ajudar na compreensão
dessas fusões de novas linguagens, abrindo espaço para críticos que
tenham a compreensão deste universo sempre em movimento. Em qualquer parte
se pode observar certa obsolescência na crítica que se pratica no tocante
à criação artística. No caso da música, é comum a presença de uns críticos
judiciosos que são guardiões supremos de seus preconceitos em relação a
dois aspectos: a obsessão pelo novo a qualquer custo e o desprezo por tudo
aquilo que venha a ferir uma tradição dada como cristalizada, intocável.
Duas faces da mesma moeda, sim. Eu reforçaria o que disse Chico Buarque com
uma frase do Zappa: “Aos diabos com todos os jornalistas de caneta na mão”.
Também os jornalistas têm que tratar de viver. E sobretudo não podem ser
uma gente frustrada, que trate a arte como projeção ou vingança em relação
ao que jamais conseguiriam ser. Tua observação a respeito do meu improviso
jazzístico em torno do samba sincopado é uma delícia, Mário, porque
estava mesmo a pensar em um disco do Zappa: Make a jazz noise here
(1988), onde uma ironia cortante afiança que não há arte além da vida. O
que há de invenção em Zappa conjuga-se vertiginosamente com o que há de
provocação. Ouvi-lo apenas é uma fragmentação, pois havia toda uma
presença cênica a partilhar a trama estética. Não à toa, compôs peças
desconcertantes dentro do âmbito burlesco, como 200 Motels (1970),
ou peças para orquestra como Lumpy Gravy (1968) e Joe’s Garage
(1979), que ele próprio chamava de atos musicais, e não se pode esquecer o
impacto provocado pela apresentação do Mothers of Invention no Fillmore
East em 1971, aquela “oral history”, segundo Zappa, em que soube somar
todas as influências (Varèse, teatro do absurdo, blues, sua crítica
mordaz ao flower power etc.), ao mesmo tempo em que criava uma cena
teatral absolutamente atípica, músicos funcionando como personagens
ativos, rejeição a toda manifestação psicodélica que caracterizava a época,
sim, Zappa era um contestador ciente dos riscos de ser confundido, em certo
âmbito, com um reacionário, porque percebia muito bem o dirigismo dessa
onda de liberdade que evocava a América. Nos anos 70 enfrentou dificuldades
enormes, rejeições de gravadoras, aventuras frustradas na criação de
selo particular, contratos não descumpridos etc. Ao contrário de um Carlos
Santana, músico de importância indiscutível nessa mesma ambientação,
Zappa jamais se deixou seduzir pelo estrelato de fim de carreira como tem
sido o caso deplorável do mexicano. Arte é atitude, sim. Zappa disse isto
com todos os acordes e rejeição a acordos.
FM
– Tuas observações são muito oportunas neste sentido em que vamos perdendo
o miolo por fascinação pela casca. Há uma grande tradição de língua
inglesa que inclui tanto cummings quanto Wallace Stevens, tanto Ginsberg quanto
Dylan Thomas, tanto Edgar O’Hara quanto Robert Graves. E no Brasil encalhamos
com os olhos estupefatos diante do que chamas de “dogmas mais do que questionáveis”
de Mr. Pound, ingenuamente sujeitados pelos caprichos das cartilhas, carentes de
vida própria. Tanta debilidade existencial me irrita, Mário. Nosso diálogo
naturalmente requer uma mesa mais ampla, mais tempo (todo o infinito) para
seguir viagem por desdobramentos inesgotáveis. Gostaria, no entanto, de repisar
algo. Lembremos que o Bernardo Soares (Livro do Desassossego) era tido
pelo Fernando Pessoa como uma mutilação de si mesmo, condição que ele não
dispensava aos demais heterônimos. Veja bem que a escrita do Bernardo Soares
reflete uma fragmentação em estado limite. Evidente que a matriz da mutilação/fragmentação
era o próprio Pessoa. Caberia indagar de que maneira estes aspectos se mostram
tanto em Zappa quanto em Chico Buarque. Como a dissociação de personalidade
age em cada um. É naturalmente assunto que não se esgota aqui, apenas sugere
uma reflexão acerca, leitura distinta entre si inclusive, centelhas que
estimulam a pensar que a criação artística não poderia mesmo se limitar a
mero jogo de palavras, ainda que saturado de sentidos, como equivocamente se
entende em nossa tradição beletrista, essa linha que atravessa todo o século
XX praticamente sem livrar-se do parnasianismo. Como obersvar a si próprio no
pleno ato da escrita? Quem o faz? Pessoa, Zappa, Buarque? Como se cria hoje? De
que maneira um poeta, um letrista de canção, um dramaturgo, um roteirista de
cinema, não consegue romper com certo casulo existencial, uma alegoria do ego,
e perceber certa transfiguração que será ponte indispensável para que se
relacione consigo mesmo e com seu tempo, ir e vir, circulação livre, mão no
leme e aceitação da deriva? De outra maneira não haverá o que inventar. MM – Floriano, você acaba de perguntar: "como observar a si próprio no ato da escrita”? E também retoma o Fernando Pessoa referindo-se ao Bernardo Soares como “uma mutilação de si”. Em outra passagem desta conversa, você afirma que Zappa teria sido “o último romântico ativo”. Justamente quando todos lamuriam, alardeiam suas conversações com o próprio umbigo (como tristemente o fez Lenine, em “Falange Canibal”), essas pseudo contestações nos deixam entrever um drama ainda maior, o de quem não entra mais em contato consigo, e conseqüentemente perde a essência de todo o real, que só pode ser apreendido pelo indivíduo, e não por membros de comunidades artísticas, religiosas, políticas. Todos os criadores acerca dos quais falamos possuem a marca da profunda individualidade, em vias de interdição quase absoluta no universo contemporâneo. Lembro o Denys Arcand (Invasões Bárbaras) nas páginas amarelas da última Veja. Ele acha que estamos adentrando uma Idade Média moderna, onde teremos um acervo incomensurável a ser redescoberto daqui a sabe-se lá quantas gerações. Embora acredite que isso possa ser ao menos parcialmente revertido, tenho a íntima convicção de que não ocorrerá um processo civilizatório real, sem o resgate dessa imensa turma que trouxemos para esta conversa. Nossa grande aventura é o Redescobrimento do Indivíduo. Talvez alguns astronautas tenham deveras posto os pés na lua, mas os influxos lunares que mais nos inspiram continuam nas noites de candomblé e no Clair de Lune, na resistência ingênua de simples cidadãos que ainda crêem ter sido a conquista da lua, uma fraude da mídia. Certos mitos da ignorância são tão saudáveis como a sabedoria de um Zappa, de um Pessoa, que tentaram, e ainda tentam, através de nós, a construção de todas as pontes necessárias, no ser humano, no Cosmos. É imprescindível que o homem cante, que o homem fale, contra toda a massa amorfa de cínicos intelectuais calados em cima dos Muros da Grande Estupidez. E não há mísseis que bastem para tantas Muralhas da Burrice. Ouço agora, “The ocean is the ultimate solution”. E concordo com o Zappa, uma de nossas últimas melhores tentativas. |
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Floriano Martins é um dos editores da Agulha. Mário Montaut é compositor e intérprete, autor do CD Bela Humana Raça (1999). Diálogo registrado em Fortaleza, São Paulo e Porto (Portugal), em janeiro/fevereiro de 2004. Contatos: florianomartins@rapix.com.br e mario_montaut@hotmail.com. Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina). |