 |
Editorial
Identidade
cultural: se não se espalha não se espelha
A idéia de uma “Identidade Brasil” é algo que já nos
persegue há muito. Por mais que vá sendo ultrapassada ou
aparentemente vencida está sempre a ressurgir. Estamos sempre a dois
passos de um novo acesso de xenofobia. Mário de Andrade falava em
polifonismo e simultaneidade, e pode-se mesmo dizer que aí se
encontraria a grande raiz de toda a cultura brasileira, nesta cascata
de vozes inúmeras que se entrecruzam não para formar um novo núcleo
mas sim para seguir criando multiplicidades de perspectivas artísticas
e culturais.
Conceitos como “Identidade Brasil” ou “Povo
verdadeiro”, mais do que simplesmente regressivos, são excludentes,
endogâmicos, restritivos. E há nuanças as mais escorregadias, como
a negação do passado ou uma afirmação do insular como condição
propícia para se proteger uma cultura. Há exemplos de ambas tanto no
manifesto do Concretismo quanto na apologia de uma cultura popular do
Nordeste do Brasil levada a termo por um ideal positivista.
O assunto é delicado, por mais que recorrente, e ainda
conduz a enganos como a crença na necessidade de se produzir mais conteúdo
nacional (nos meios artísticos e jornalísticos, por exemplo)
como fator condicionante de um fortalecimento cultural. Adicionar
elementos, sim, mas não limitá-los a uma feição única. Não
permutar xenofilia por xenofobia. Não adianta, por exemplo, discutir
que 80% dos filmes que entram no Brasil são importados considerando
este percentual como uma necessidade apenas quantitativa de fazer
circular mais cinema nacional entre os brasileiros. A rigor não temos
uma tradição cinematográfica tão rica quanto nosso carente prosaísmo
ufanista decanta. Todo o recurso destinado pelo Estado à produção
de cinema – que é demasiado e em completo desequilíbrio com as
demais áreas de criação artística – deveria ser reavaliado e em
grande parte deslocado para cursos de formação de roteiristas.
Em meio a essa discussão em torno do que seja genuinamente
brasileiro, o Ministro da Cultura observou que, “se cruzarmos os braços
poderemos ter nossa cara cultural ameaçada”. Mas é preciso que o
Ministro esclareça que a ameaça não vem de fora e sim de dentro.
Como não temos ações que despertem nossa sensibilidade – e não
se trata aqui de apologia do folclore em seu sentido mais cristalizado
-, estamos sempre às voltas com as reações, não chegando sequer a
estabelecer uma cultura do protesto mas sim uma paisagem dispersa de
atônitos personagens que perceberam demasiado tarde que havia algo em
questão.
Uma visita ao site do Jornal Nacional, da
Rede Globo de Televisão, nos leva a essa retomada de uma
“Identidade Brasil”. Uma declaração do diretor Guel Arraes cabe
aqui com justeza à nossa observação. Diz ele que “temos no Brasil
uma situação privilegiada, com todo o horário nobre ocupado com
produção brasileira”, logo concluindo que “o povo brasileiro ama
a televisão brasileira”. O que seria então uma televisão
brasileira, considerando a existência de outras empresas
televisivas – com programação de alguma maneira distinta – e a
clonagem de modelos da televisão estadunidense em grande parte dessa
programação? Pensando ainda no já referido conteúdo nacional,
em termos de argumento ele já foi melhor resolvido em produções de
outras décadas, tendo hoje se convertido em didatismo exemplar, com
um sentido moral quando menos questionável, sobretudo considerando
seu poder de intromissão nos destinos do público, o povo brasileiro.
A cultura de massas é uma arte da indução e não do
esclarecimento. No entanto, no afã de uma recaída nacionalista nos
pegamos com todos os detalhes quantitativos e à mão, esquecendo
(sempre) a qualidade e o submerso. Diz o ator José Wilker que “os
franceses são de um rigor, de uma exigência e de um deleite, um
prazer com a cultural nacional deles”. Há pelo menos duas maneiras
de deleitar-se com a cultura de cada país: expandindo-a ou
enclausurando-a. Pensando em termos de música encontramos exemplos em
Hermeto Pascoal e Antonio Carlos Nóbrega, frisando o respectivamente.
A rigor, esse deleite – como qualquer outro - não pode
ser usufruído se não se difunde. Se não se espalha não se espelha.
E a grande infusão realizada por nossos meios de comunicação
(termo que hoje é de um eufemismo extremo) diz respeito a uma digestão
mais fácil, o que acaba contribuindo intencionalmente para manter em
índices os mais ínfimos a sensibilidade brasileira. Trata-se, a
rigor – o rigor a que se refere José Wilker com relação à
cultura francesa, mas que se faz de desentendido quando o assunto é
Brasil – de uma manipulação da sensibilidade, onde não somos
levados a experimentar mas antes nos tornamos experimentos, espécie
de cobaias de um deus solúvel.
O assunto de que trata este editorial está plenamente
compreendido por todos aqueles nomes aqui referidos. O que mais nos
inquieta é a complacência de todos em relação ao tema. Será esta
a verdadeira “Identidade Brasil”, a benevolência, a comprazia? O
Ministro da Cultura tem lá a sua razão: se cruzarmos os braços o
mundo se desfaz. Mas que mundo estamos querendo impedir que se desfaça?
Os elementos que já aportamos aqui parecem ser suficientes para o
convite a uma discussão. Agulha gostaria de ouvir seus
leitores, invocando a multiplicidade de vozes para tratar de um
assunto que não requer senão outra compreensão: a da
multiplicidade.
Os editores |