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revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004 |
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Diálogo com Manuel Gusmão Floriano Martins
MG – São vozes ou por vezes apenas entoações,
citações de outros poemas ou de romances, às vezes de personagens de um
filme, mas podem também ser frases de cartas que recebi ou coisas que me
disseram, ou certos jeitos quotidianos da língua. Trata-se de responder a
essas vozes outras, de dar a entender como uma voz singular se faz ou pode
fazer a partir das “palavras dos outros”. Nenhum de nós inventa a língua
em que escreve, podemos reconfigurá-la um pouco, podemos construir alguns
possíveis novos dessa língua, mas no limite a invenção só é possível
porque a língua já existe. Aquilo que para muitos aparece como uma
condenação, para mim é como se fosse uma condição de possibilidade, a
generalidade e a socialidade da língua são aquilo mesmo que torna possível
o fazer da singularização e da individuação. Trata-se também da
descoberta e da invenção de uma coralidade que, mesmo se mínima, é uma
hipótese de vitória sobre o silêncio imposto, de não deixar que a
solidão, entretanto necessária, se feche por completo sobre nós e nos
congele, de dar voz ao que em nós e fora de nós não fala. Por outro
lado, trata-se também de uma tentativa de mudar de registo discursivo ou
rítmico no interior de um livro ou mesmo dentro de um só poema, de
acolher a heterogeneidade daquilo de que sou feito, a alteridade sem a
qual só abraçamos o ar demasiado puro e elevado. Na nossa câmara mais
íntima, quando fazemos silêncio para poder escrever, então aí, podemos
ainda escutar esses murmúrios em que outros falam, assim como cintilam e
vibram as imagens e os rumores do mundo. FM – De que maneira a escritura, em 1998, do
libreto da ópera Os dias levantados se insere dentro de tua obra
poética, e o que volta a significar agora quando o publicas em separado
da peça musical de António Pinho Vargas? MG – Sobretudo agora quando me autorizei a publicá-lo
autonomamente e com alterações, julgo que não posso rejeitá-lo, ou
seja, estou disposto a pagar o preço por assiná-lo. A dificuldade e a
diferença vêm de que este livro começou por ter um “programa” desde
o início – era para ser sobre o 25 de Abril, sublinho o “sobre”, e
para servir uma sua realização outra, pela música e num palco. Diria
que é um livro que mostra ou dá a ver coisas que nos outros livros de
poemas são mais oblíquas, menos directas, o que é no fundo admitir que
há traços ou formas de fazer que são comuns. Por exemplo: a coralidade;
a ostensão aqui explicitada das citações das vozes de outros; a afirmação
de uma posição política na história que não é demagogia, mas é
experiência vital, história da vida que tenho vivido e passionalidade
ideo-verbal e ético-política. Mas há também o lado da construção, da
arquitectura ou da composição do poema. Aí, admito que o libreto é um
poema dramático mais perto de visar uma cantata ou uma ópera por quadros
ou sequências. As acções são sobretudo conflito de vozes. A partir de
certa altura, praticamente desde um dos quadros do Iº Acto, vai-se
citando as transformações ou as glosas, por poetas do século XX (Jorge
de Sena, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e Gastão
Cruz), de um verso de Sá de Miranda (séc. XVI) que só será citado já
para o fim (no “Êxodo”). Por um lado, imagino a recitação ou a citação
repetida como uma espécie de repetição da origem, que regressa no
tempo; por outro lado, que o verso originário só apareça quase no fim,
pode significar que a origem ainda está à nossa frente, ou por vir. Por
outro lado, a recitação do verso através dos seus ecos é homenagem à
poesia e põe esse verso a costurar os tempos. Com estes procedimentos vários,
julgo que no libreto procuro maneiras para praticar a deslinearização do
tempo histórico, a constelação das várias formas do tempo – uma das
minhas obsessões, que vou buscar como herança a Walter Benjamin. FM - Como se deu então o diálogo entre músico e
poeta, e até que ponto crês interessante para a poesia essa aproximação
de outras áreas da criação artística? MG - Quando o compositor me convidou – não nos
conhecíamos pessoalmente - fiquei efectivamente surpreendido. Embora
sempre me tenha interessado por outras artes e até tenha trabalhado sobre
formas de encontro concertante ou dissonante entre elas, nunca tinha
pensado escrever sequer para teatro, quanto mais para uma ópera. Por
outro lado, o convite implicava escrever em direcção a uma realização
outra, diferente daquela que se processa na leitura, mesmo em voz alta, e
escrever “sobre” algo que era à partida político e muito menos
consensual do que pode parecer. Quando me decidi a aceitar, disse ao António
Pinho Vargas que não escreveria nem um texto de propaganda nem
exclusivamente celebratório, assim como também não poderia nunca
escrever uma coisa neutra e consensual, porque a data é daquelas que são
simultaneamente história colectiva e história pessoal de quem
activamente as viveu. Desde o princípio ficou claro que ele utilizaria o
meu texto como a música lhe fosse ditando, assim como eu ficaria livre de
o editar de forma autónoma. O texto foi sendo escrito em diálogo com o
compositor e depois também com o encenador, Lukas Hemleb, que trabalha
sobretudo em França. Esse diálogo que foi exigente interessou-me muito
por várias razões. Desde logo porque foi efectivamente um diálogo entre
diferentes, colaborando. Eu ia escrevendo cenas ou blocos de texto e
obtinha quase imediatamente a reacção de um ou dois leitores, que faziam
perguntas, comentários e sugestões. Depois, porque eu tinha de escrever
tendo à partida ou no horizonte algumas restrições ou constrições no
plano da produção: por exemplo, o número de solistas ou o número de
membros do coro. Para além disso, aquilo que o António sugeria poderia
levar-me a encontrar ou inventar soluções em que não tinha pensado ou
que tinha pensado de outra maneira. Enquanto experiência de um diálogo
que contamina ou move quem dialoga, de um trabalho de escrita que se
desenrola integrando já uma escuta, foi para mim uma experiência muito
interessante em si mesma e que de alguma forma se projectou no livro Teatros
do tempo que eu também já começara a escrever. Por outro lado, a
minha “preparação” para o libreto levou-me a ouvir outras peças
musicais do António Pinho Vargas ( iincluindo a sua 1ª ópera, “Èdipo,
tragédia do saber”, com texto de Pedro Paixão) e outras óperas
contemporâneas que ele me sugeriu.
MG – Não sei se disse mesmo assim. Lembro-me que
nesse momento estava a referir uma passagem do epílogo do ensaio de
Walter Benjamin, “A obra de arte na era da reproductibilidade técnica”.
Nessa passagem, ele estabelece uma relação entre o fascismo e a
esteticização da política que segundo ele culminaria na guerra.
Benjamin diz que a humanidade se tornou de tal forma estranha ou
estrangeira a si própria que se dá em espectáculo a si mesma e é capaz
de viver a sua própria destruição como um prazer estético de primeira
grandeza. E termina dizendo que a resposta dos comunistas é a politização
da arte. Eu procurava entender o que ele escreve na sua circunstância e
recolocar o problema, hoje, em que a espectacularização da política e
da própria vida privada atingiu, juntamente com o crescimento das “indústrias
culturais”, uma exasperação enorme. E daí partia para a consideração
de que sem perder de vista a defesa da independência relativa da arte
(que justamente hoje está ameaçada) cujo esquecimento por quem quer
revolucionar o estado das coisas pode conduzir ao desastre e,
simultaneamente, sem a tomar como uma autonomização absoluta, abre-se um
espaço para trazer à consciência política e estética a percepção da
politicidade da arte e trabalhar por uma cultura ao mesmo tempo de resistência
e de alternativa. Trata-se de compreender, por exemplo, que a massificação
do acesso a certos bens culturais não é necessariamente uma democratização
e que se trata de intervir não tanto na criação (esse é um problema em
larga medida de opção do artista) mas nas formas de produção, circulação
e consumo culturais. A dissolução da arte no mercado ou a neutralização
da sua dimensão crítica e inventora de novos possíveis, é hoje uma
tendência dominante, de acordo, mas isso não torna necessariamente utópica
a intervenção pela arte. É
certamente mais difícil; obriga a pensar como, onde, de que maneira, com
quem e para quém. Por outro lado as utopias são nas suas
próprias formulações, contingentes, históricas, mesmo que não
tenham disso consciência. Se concebermos o utópico como aquilo que
resiste à tentativa de ocupação total do espaço, se reagirmos ao uso
da palavra “utópico” para acusar e desarmar toda a tentativa de busca
de um outro possível, numa estratégia de cancelamento ou estreitamento
de qualquer horizonte diferente para as nossas sociedades, então, eu
poderia aceitar essa dimensão utópica daquilo que me move, mas
insistindo na sua determinação histórica. FM – E qual contribuição têm dado, seja em
busca de solução ou na permissão de agravamento, os próprios artistas,
poetas, intelectuais? MG – Para além de julgar que é importante
procurar pensar a história do problema, digamos assim, até para perceber
melhor a sua configuração presente, posso falar do que tenho perto de
mim. Acho que posso dizer que uma grande parte dos intelectuais
portugueses desejaram e acompanharam, participando de formas muito
diversas, o fluxo pelo menos inicial da revolução portuguesa, entre
Abril de 1974 e o verão de 1975. Depois, nos longos anos que vêm até
hoje, dividiram-se, confrontaram-se, desistiram ou regressaram a casa, tal
como aconteceu com outras camadas sociais intermédias. É evidente que
abriu há umas décadas atrás uma espécie de caça aos intelectuais. Não
creio que seja um fenómeno redutível a uma compra e venda, antes se
trata de algo mais complexo, onde se usou e usa o quantum satis de
discriminação e, ao mesmo tempo se recorre em larga escala à sedução.
Isto em determinadas circunstâncias sociais e culturais marcadas pelo
crescimento rápido das indústrias e de um mercado cultural que se rege não
apenas por regras económicas, mas também por determinados valores simbólicos
e ideológicos. FM – Mas se poderia acaso dizer, de uma maneira
geral, que esta camada social, artistas e intelectuais, esteja hoje como
que acomodada a esse avançado processo de atomização, sendo raro
manifestar-se em «defesa da independência relativa da arte»? Em
havendo, isto viria unicamente do fascínio exercido pelos meios de
comunicação de massa?
FM – Retornando à tua poética, onde está bem
clara a relação com o tempo, indagaria agora por sua relação com o
corpo, ou seja, que gradação de sexualidade da escrita se poderia evocar
ao tentar compreender esta poesia? MG – De algum modo a poesia na sua
enorme diferença em relação a si mesma sempre foi uma forma de inscrição
perdida do corpo amoroso, do “amor realizado de um desejo que permanece
desejo” como escreveu René Char. Aquilo que escrevo imagino-o em certa
medida como uma espécie de extensão não-orgânica do corpo-a-corpo
amoroso, pelo qual procuro estar próximo do coração da terra, uma
narrativa interrompida e recomeçada dos corpos que me tatuaram, uma
narrativa que acumula feridas e queimaduras e procura reinventar, para
sobreviver, aquela inenarrável perda da consciência que nos liberta de nós
e que só julgamos conhecer nesse corpo-a-corpo. O Eros prolongado no
corpo da linguagem ou, melhor no corpo-a-corpo com a linguagem, é uma
maneira de querer a alegria, de imaginar a morte como a condição de uma
alegria feroz, de aprender e aceitar que “só pode queimar quem aceita
ser queimado”. E então as coisas confundem-se muito. A experiência do
amor que julgamos receber da vida e que em larga medida seria muda sem a
poesia, a arte, vem-me por exemplo não só daqueles corpos-músicos que
amei e me amaram como da definição da alegria por Spinoza, ou da
fabulosa frase de Catherine Earnshaw no inesquecível Monte dos
Vendavais, de Emily Brontë:
“I am Heathcliff”. De certa maneira gostaria que a poesia
pudesse ser um dar voz à experiência que a frase final de um poema de
Rimbaud, “Being beauteous” inventa: “Oh! nos os sont revêtus dun
nouveau corps amoureux”.
MG – Deixa-me começar por dizer que não partilho
da ideia de que a poesia acabou, nem mesmo da versão reduzida de que o
lirismo estaria exausto, ou teria chegado ao fim. È mais um decreto,
proclamado no quadro da ideologia dos fins, e no máximo poderá ter o
valor de sintoma de um mal-estar na cultura sobretudo em algumas
sociedades contemporâneas desenvolvidas. Julgo, por outro lado, que é
mais interessante admitir que há várias tradições e não apenas uma
ou, então, falar de uma tradição plural e heterogénea, que comporta
diversas genealogias que, aliás se podem cruzar. No meu caso, gosto de
imaginar que aquilo que faço procura manter unidos gestos e processos de
linhagens diferentes: por um lado, a obsessão com a construção de cada
livro, o rigor da composição verbal que não deixe o lírico ronronar e
creio ter andado a aprender, por exemplo, com poetas como Carlos de
Oliveira; por outro lado, não desistir da veemência, da imagem
alucinada, como ela sopra lá para os lados de Herberto Helder e,
entretanto, trazer a estas duas genealogias a heterogeneidade de registos
e níveis discursivos, como a podemos encontrar de modos muito diversos e
de forma particularmente intensa numa poeta como Luiza Neto Jorge. É difícil
falar disto, sem parecer pretensioso ou sem ter a sensação de que me
perco entre espectros, então, que sejam eles ao menos os daqueles que
prefiro. Apenas, diria mais que me fascina a possibilidade de encontrar
para hoje as formas ou as entoações da poesia narrativa. E ainda, esta
tensão de procurar manter unidas - nunca sei bem como – duas exigências:
não deixar de me manter perto do coração selvagem do que é da terra e
ao mesmo tempo não faltar à resposta que, por tomar a palavra, devo àqueles
que da sua própria voz são expropriados. Saber que vimos de muito longe,
que somos animais longos no tempo, imaginar que há qualquer coisa em
frente à minha espera mas que me vem de Hölderlin, do 1º romantismo
alemão, o romantismo de Jena, de Rimbaud, e que é uma promessa e, ao
mesmo tempo, não me despedir nunca por completo daqueles que me trazem a
depuração de uma oficina onde pode soprar uma fúria rigorosa, Mallarmé,
Cesário Verde, Ponge, João Cabral de Melo Neto, Carlos de Oliveira. Aqui
já comecei a alucinar, portanto é melhor calar-me.
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Manuel Gusmão (Portugal, 1945). Poeta. Autor de livros como Mapas / O Assombro a Sombra (1996), Teatros do Tempo (2001) e Os Dias Levantados (2002). Contato: mgusmao@netcabo.pt. Floriano Martins é um dos editores da Agulha. Entrevista realizada em fevereiro de 2004. Página ilustrada com obras do artista Carlos M. Luis (Cuba). |