revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004






 

Caminhos do rock

Pablo Laignier

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Pablo LaignierO Rock'n'Roll surgiu nos anos 50, nos Estados Unidos da América, através de músicos como Chuck Berry e Little Richards. Consistia em uma mistura entre o Blues e o Country e tornou-se uma febre em todo o mundo. Um gênero musical negro em sua essência, embranqueceu e se popularizou na pele branca de Elvis Presley e Buddy Holly.

Nos anos sessenta, foi a vez de bandas inglesas como os Beatles e os Rolling Stones darem o tom do Rock, inclusive influenciando outras bandas norte-americanas. Ali se iniciava o Pop-Rock, em baladas de amor açucaradas e uma sofisticação em termos de arranjos que elevou o esquema básico de três acordes a um outro patamar de elaboração musical. Os últimos discos dos Beatles (de 66 em diante) são bons exemplos disso.

A evolução melódico-harmônica do Rock inglês levou-o, no início dos anos 70, a uma nova vertente: o Rock Progressivo. Assumindo elementos da música erudita e de outros estilos tradicionais (música celta, etc), este novo formato do Rock foi importante em sua aceitação por boa parte da opinião pública mundial, que ainda o considerava um gênero exclusivamente voltado para adolescentes. Através de grandes discos lançados por bandas como Pink Floyd, Yes, Jethro Tull e Gênesis, o Rock começou a ser encarado pela imprensa como um gênero sério, uma nova forma de arte.

A despeito disso, o virtuosismo técnico e a elaboração musical do Rock Progressivo fizeram justamente com que a geração de adolescentes ingleses da segunda metade da década de 70 não apenas o abominasse, como criasse a sua antítese: o Punk-Rock. Voltando ao estilo básico de três acordes que caracterizou os primórdios do Rock (nos anos 50), o Punk-Rock, sob o lema "faça você mesmo", era a expressão musical dos adolescentes pertencentes à classe operária inglesa, com letras de protesto e quase nenhuma preocupação em tocar ou cantar "bem".

A primeira metade dos anos 80 trouxe o sucesso das bandas Góticas na Inglaterra. Tratava-se de uma vertente mais niilista e suave do Punk, na qual se destacaram bandas como The Cure e The Smiths. Nos EUA, por sua vez, a primeira metade dos 80 foi caracterizada principalmente pela ascensão do Rock New Wave, uma vertente Pop aonde a utilização dos teclados sintetizadores sobrepujava o uso das guitarras elétricas (que sempre foram consideradas um símbolo do Rock).

A segunda metade dos anos 80 foi um período mais difuso, em que diversas vertentes do Rock estiveram presentes tanto na Inglaterra quanto nos EUA. Havia bandas como Guns N’Roses, Bon Jovi e Poison, nos EUA, consideradas "Posers", aonde o peso das guitarras convivia com um visual andrógino (calças de couro apertadas e rostos bastante maquiados). Mas também bandas vindas do Indie-Rock, como o REM, caracterizadas por um som mais cru. Já na Europa, os irlandeses do U2, com um Rock político e de timbres de guitarra muito próprios, foram o grande destaque deste período.

O crescimento do Indie-Rock e das gravadoras independentes nos EUA deu início ao movimento musical que mais influenciou o Rock nos anos 90: o Grunge. Baseadas em Seattle, bandas como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice In Chains foram os maiores expoentes de um Rock básico, cru, que retraduzia o Punk-Rock, mas que também era influenciado (principalmente no caso das duas últimas bandas citadas) pelo peso das guitarras do Heavy-Metal.

Carlos M. LuisE, depois de tantas mudanças nos últimos 50 anos, como anda o Rock no início do século XXI? Quais são as novidades do cenário mundial? Que estilos têm feito a cabeça e os ouvidos dos adolescentes de hoje? Até aqui, fizemos uma breve análise dos caminhos do Rock no passado. Chegaremos agora ao momento presente.

II

Não houve grandes movimentos no Rock norte-americano ou inglês a partir da segunda metade da década de noventa. O único estilo que se pode considerar novo (até certo ponto) é o Nu-Metal de bandas como o Korn e o Limp Biskit. Mesmo assim, ele não chega a constituir um gênero musical, sendo apenas um novo estilo de Rock Pesado, um pouco mais Pop do que o Heavy-Metal.

O Nu-Metal se caracteriza por ser um estilo de Rock em que guitarras pesadas (resquícios do Grunge, principalmente de bandas como Soundgarden e Alice In Chains) convivem com letras faladas (como no Hip-Hop) e refrões Pop, além de vocais guturais em alguns casos (como nas bandas de Trash-Metal e Death-Metal). Outra característica interessante do Nu-Metal é a utilização das guitarras de sete cordas, ao invés das seis cordas usuais. A sétima corda surge como um recurso para deixar o som mais pesado, já que é a mais grave de todas e torna, juntamente com os pedais de distorção e amplificadores valvulados, o som da guitarra realmente encorpado. Porém, ao contrário de outros estilos que utilizam violões e guitarras de sete cordas como o Chorinho brasileiro (aonde a sétima corda é afinada em Dó) e o Jazz (aonde a mesma corda, normalmente, é afinada em Lá), no Nu-Metal a sétima corda é afinada em Si, o que facilita a formação de acordes.

Esta característica da sétima corda, no caso do Nu-Metal, é uma influência direta e assumida de guitarristas virtuosos como Steve Vai, surgido nos anos 80 com um Rock instrumental aonde a sétima corda já era utilizada com a mesma afinação e finalidade do novo estilo. Os guitarristas precursores do Nu-Metal eram jovens que ouviam bastante Steve Vai, além de outros nomes como Joe Satriani e Tom Morello. Este último pertencia à banda Rage Against the Machine, e seus estranhos ruídos de guitarra influenciaram os arranjos deste instrumento nas já citadas bandas Korn e Limp Biskit.

O interessante na análise do Nu-Metal é notar que o peso do Heavy-Metal e do Grunge-Rock (estilos musicais essencialmente criados por brancos) convive com elementos da cultura negra norte-americana, como as rimas faladas e uma certa batida provenientes do Hip-Hop. Mais até do que isso, as próprias gírias que caracterizam os nomes das bandas, das canções e até mesmo do próprio estilo em si são fruto do chamado "Black-English", um modo de falar inglês surgido em guetos negros como o Harlem e que se fez notar nacionalmente (e internacionalmente também) através da cultura Hip-Hop de bandas como o Public Enemy. O próprio nome Nu-Metal é uma gíria, com grafia típica do “Black-English”, para New-Metal (ou "Novo Metal", traduzindo para o português).

Embora o próprio Nu-Metal seja um estilo musical criado por brancos, a presença de elementos da cultura negra em sua constituição é algo que serve para mostrar o quanto a música pode agregar diferentes culturas e possuir uma diversidade impressionante. É claro que, seguindo a tendência mundial da indústria fonográfica de uniformizar os tímpanos, já estão surgindo diversas bandas novas de Nu-Metal que não passam de cópias fiéis das precursoras Korn e Limp Biskit.

Algumas destas bandas, inclusive, já estão se dissolvendo (o conceituado guitarrista Wes Borland, do Limp Biskit, deixou a banda recentemente). Dessa forma, será que o Nu-Metal terá fôlego para agüentar mais uns cinco anos ou acabará rapidamente chafurdando em seu próprio pastiche, como aconteceu com o Grunge-Rock?

Embora a resposta seja mais do que previsível, haverá sempre a possibilidade de uma mudança no cenário musical mundial permitir uma longevidade maior deste ou daquele estilo de Rock. E essa longevidade se dará ou não, conforme a capacidade dos integrantes deste estilo musical de se reinventarem, de se renovarem, de seguirem em frente...

Carlos M. LuisAliás, por falar em longevidade, depois de abordarmos os caminhos do Rock no passado e no presente e, para isso, recorrermos à sua origem norte-americana e à sua consolidação na Inglaterra, chegou a hora de falarmos um pouco sobre as bandas de Rock brasileiras.    

III

Há muitas bandas desse gênero musical em nosso país e o mais impressionante é justamente a longevidade de algumas delas. Abordaremos particularmente o período dos anos 80, aonde se definiu o chamado BRock (ou Rock-Brasil).

Embora os anos sessenta tenham nos brindado com a Tropicália (em que a presença de guitarras e a influência do Rock eram bem perceptíveis) e os Mutantes (uma bela banda de Rock lisérgico), e os anos setenta nos tenham trazido o Clube da Esquina (uma mistura entre a MPB e o Rock-Progressivo), foi a partir dos anos 80 que aconteceu o movimento rockeiro mais relevante do cenário nacional.

Com a abertura política e, posteriormente, o final da ditadura, o início dos anos 80 trouxe à tona um grande número de bandas de Rock, aonde jovens influenciados pelas bandas inglesas e norte-americanas se dividiam em duas vertentes principais: a que fazia um Rock mais político e niilista, influenciado pelas bandas inglesas de Punk-Rock, e as que produziam um som mais ingênuo, alegre, sem grandes preocupações políticas.

A primeira vertente citada englobava bandas como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, sobretudo vindas de Brasília. Talvez o fato da cidade citada ser a capital federal trouxesse para o som dessas bandas o forte conteúdo político de suas letras. Já a segunda vertente, representada por Os Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Barão Vermelho, Lulu Santos e a Blitz, fazia realmente um Rock mais ingênuo e divertido, em canções que certamente tocaram em muitas festas adolescentes. Tirando Os Paralamas (vindos de Brasília), as bandas desta vertente eram, em sua maioria, cariocas (e a temática das letras era essencialmente urbana e tinha a leveza das cidades de praia).

Mais do que analisar cada uma das bandas do BRock isoladamente, é importante enfatizar que o contexto ao redor destas bandas era propício ao movimento musical que ocorreu. Uma rádio e um lugar foram extremamente importantes para o surgimento e a consolidação das carreiras das citadas bandas na cidade do Rio de Janeiro (e daí para o resto do Brasil): A Fluminense FM e o Circo Voador.

A Flu FM era uma rádio de Niterói (cidade vizinha ao Rio) que tocava as fitas-demo produzidas por estas bandas. Por isso mesmo, ficou conhecida como a "Rádio-Rock". Apesar de sua importância, a Fluminense fechou as portas em 1994, gerando manifestos contrários por parte tanto dos artistas quanto do público e da imprensa carioca. Reabriu nos anos 2000, primeiro em AM e depois voltando às ondas do seletor em FM. Ficou cerca de 1 ano em funcionamento, chegou a iniciar um tímido movimento de colocar no ar bandas novas, mas, por questões comerciais, mudou seu direcionamento e se tornou uma rádio comum (nos moldes das FMs populares).

Carlos M. LuisO Circo Voador, por sua vez, surgiu nas areias do Arpoador (lá pelos idos de 82), mudando-se depois para a sua sede definitiva, sob os Arcos da Lapa (em 84). Congregava, desde o início, diversas formas de arte. Além dos shows musicais (não só de Rock, mas de diversos estilos e gêneros), grupos de teatro e dança apresentaram seus trabalhos sob a lona do Circo Voador. Além disso, projetos sociais foram desenvolvidos lá e o Circo chegou a possuir até uma gafieira com orquestra aos domingos, tornando-se, sem nenhuma dúvida, o ponto de encontro mais eclético da cidade. Fechado definitivamente em 1996, em um episódio tragicômico envolvendo o, à época, recém-eleito prefeito do Rio de Janeiro, o Circo Voador faz falta até hoje na cidade.

Devido a vários protestos da classe artística carioca e do público que costumava freqüentar o local, desde o início da década atual foram apresentados à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro projetos de revitalização do espaço aonde o Circo Voador funcionava, visando a sua reabertura. Um destes projetos foi aprovado, obras foram feitas no mesmo local que abrigou tantos shows importantes nas duas décadas anteriores e, recentemente, circulou na imprensa carioca que a data de reabertura do Circo será no próximo dia 03 de junho (com uma grande festa que inclui shows de artistas famosos do Rock nacional).

Esperamos todos que esta notícia venha a se confirmar, pois lugares como o Circo Voador são muito importantes para a renovação da música (principalmente o Rock, mas não só ele) e de outras manifestações artísticas brasileiras. E, pelo mesmo motivo, esperamos também que surjam (no Rio de Janeiro e em todo o Brasil) outras rádios como a Flu FM.

Atualmente, as rádios universitárias e comunitárias vêm fazendo um ótimo trabalho no sentido de dar espaço à renovação da música brasileira e ao crescente mercado musical independente. Mas isto já é assunto para um outro artigo… 

Pablo Laignier (Brasil, 1977). Músico e jornalista. Autor do CD Pa e Clau: Convite a Ouvir (2004), em parceria com Claudia Apóstolo. Contato: pablolaignier@yahoo.com. Página ilustrada com obras do artista Carlos M. Luis (Cuba).

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