revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004






 

Israel Pedrosa: poéticas da cor nascente

Mirian de Carvalho

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Israel PedrosaA produção artística de Israel Pedrosa entrelaça instâncias poéticas e resultados de pesquisas científicas por ele iniciadas a partir da visão da Cor Inexistente. Fascinante desvelamento de matizes, luzes, sombras. Assim como numa história encantada. Era uma vez uma tarde. Era uma vez “um barranco cortado em desmonte” (Da Cor à Cor Inexistente, de Israel Pedrosa. 9ª ed., Léo Christiano Editor, Rio de Janeiro, 2000) para dar passagem a ruas da cidade. E, ao surpreender vegetais ressequidos, o atento olhar do artista se dirigiu ao “efeito da harmonia dos tons que iam do amarelo puro à coloração da terra-de-sombra-queimada”. No chão, alguns papéis. Na lida da casa, “uma mulher estendeu no varal três lençóis brancos”. Então, sobre o branco, espraiou-se intenso violeta. Para o pesquisador, a intuição de um fenômeno físico. Para o artista, o êxtase cromático. Era o início das poéticas da cor nascente: cobrindo a cama da tarde / as três bandeiras do vento: / e aos lençóis as violetas / tingindo o parto da cor.

O domínio da Cor Inexistente foi estudado por Pedrosa, e materializado em sua pintura, gerando desdobramentos teóricos e estéticos inseridos nas séries denominadas Variações Cromáticas e Formas Virtuais, apresentadas nesta mostra de acrílicas e serigrafias, reunindo essas três experiências do cromatismo. Três poéticas da cor, conduzindo o olhar à dinâmica dos matizes. Da musicalidade dos contrastes surgem as “tintas” da Cor Inexistente, aninhando-se em áreas brancas ou neutras. Intrínseco às Mutações Cromáticas, o desvelamento da ação mútua das cores originando diferenças do mesmo matiz nos meandros pictóricos. Nas Formas Virtuais, a eclosão de tensões e movimentos da cor, seguindo direções transientes entre retas e curvas. Nessas três circunscrições da harmonia das diferenças cromáticas, a cada instante nasce a cor. O que nasce aos olhos, vive dentro de nós. E o que vive... ilumina a expressividade do diverso.

Israel PedrosaNa produção artística de Pedrosa, encontram-se inúmeras obras figurativas. Mas, quase sempre referidas as três séries desta mostra pela recorrência à Geometria, lançamos olhar diverso a estes trabalhos ora reunidos. Enfatizamos a dimensão ontológica da Pintura, através de uma “interpretação” do espaço instaurado pela gênese da cor. Nascedouro da cor /  nascedouro do espaço. Em descese ao universo pictórico, o espaço geométrico transforma-se em lugar poético. Não mais o espaço definido pelo conceito. Não mais o espaço neutro e homogêneo. Surge o lugar tonalizado pela cor nascente. O lugar com valor de cor. A cor fluindo em aproximações e fugas. Dinamizando áreas na amplitude do percurso visual, a pontuar no quadro lugares desejados pelo pintor. Lugares cromáticos. Contrastes gerando harmonias. Sincronia das tintas transformando tintas. Cores transformando o olhar. Olhar transformando o mundo.  

Na pintura de Pedrosa, a cor eclode diversificando-se. Diversificando áreas neutras ou matizadas. Vivendo a singularidade do diverso. Ressaltando tonalidades. Captando nuanças. Os lugares cromáticos revelam cores em transparência, ou compactadas, ultrapassando o fechamento implícito à forma. Por isso aludimos ao espaço no sentido poético. Criando e expandindo regiões diferenciadas, a cor não se atém ao campo restrito da relação figura-fundo: noção relacionada à demarcação espacial.

Inscrito no domínio da Cor Inexistente, o matiz se torna sensação primeva de uma luminosidade atual, criando lugares de insurgência da cor, a “tonalizar” e dinamizar na tela áreas neutras. Mas não se trata de ilusão de ótica. Espaços neutros tornam-se regiões de cor ativa, preenchendo sentidos na agudez da visualidade desse fenômeno físico e estético.

Israel PedrosaNas Mutações Cromáticas, a hierarquia na relação figura-fundo se dilui, em virtude da dinamogênese da cor, a criar na tela diversidades entre regiões cromáticas, a partir do mesmo matiz. Tais regiões extraem da repetição a diferença, enquanto a cor se desnuda em tonalidades múltiplas, sendo a mesma. Aqui, o ser assume o devir. Da similitude salta o diverso. Ao olhar, o constante aprendizado da transformação.

Deslizando em Formas Virtuais, o campo pictórico rompe por completo a relação figura-fundo, e se lança ao dinamismo da cor inventada pelo pincel criando efeitos que induzem o olhar a romper os limites do suporte. Navegadores da Vela ao Vento, lançamos nossas naves às roupas de arlequim ondulando regiões cósmicas. Ouvimos o vento sussurrando direções da cor. Pressentimos imaginárias costuras desfeitas nas vestes abertas do tempo. E percebemos lugares em transformação. Direções a serem reveladas, enquanto as formas se desfazem para acolher espaços cromáticos.

Israel PedrosaNessas três variações dadas à fruição estética, a Pintura não se reduz a esquemas demarcadores da “forma”. Atuando no plano sensível, as poéticas da cor nascente des-marcam espaços, para criar sentidos enfatizados na dialogia do colorido, originando lugares nascentes. Lugares expressivos de sutis diferenças de valor e tonalidade. Atentos aos desígnios do poético, percebemos que, através do controle dos fenômenos perceptivos, Pedrosa encontra a linguagem singular e múltipla do universo cromático, transcendendo o fenômeno físico. O pintor busca e encontra o “além-da-cor”. Realiza o além-da-forma. O além-da-técnica. 

Dinamizando as cores, Pedrosa alcança a essência da Pintura. Por meio dos contrastes de luzes e sombras, ele desvela as nuanças dos matizes. Rastreando a vida, o pintor tangencia o sentido da luz. Momento áureo do encontro da razão e do sensível. Epifania do mundo renascendo em nós... quando, nos espaços do quadro, o olhar inaugura instante e perenidade do luminoso nas poéticas da cor nascente. Navegante do ar, a Vela ao Vento simboliza o devaneio das delicadas mutações oscilando no pêndulo das coisas que vivem. 

Mirian de Carvalho (Brasil). Doutora em Filosofia, professora de Estética da UFRJ, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte. Autora de A escultura de Valdir Rocha (2004). Contato: mir3@infolink.com.br. Página ilustrada com obras do artista Israel Pedrosa (Brasil).

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