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revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004 |
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Israel Pedrosa: poéticas da cor nascente Mirian de Carvalho
O domínio da Cor Inexistente foi estudado por
Pedrosa, e materializado em sua pintura, gerando desdobramentos teóricos
e estéticos inseridos nas séries denominadas Variações Cromáticas
e Formas Virtuais, apresentadas nesta mostra de acrílicas e
serigrafias, reunindo essas três experiências do cromatismo. Três poéticas
da cor, conduzindo o olhar à dinâmica dos matizes. Da musicalidade dos
contrastes surgem as “tintas” da Cor Inexistente, aninhando-se
em áreas brancas ou neutras. Intrínseco às Mutações Cromáticas,
o desvelamento da ação mútua das cores originando diferenças do mesmo
matiz nos meandros pictóricos. Nas Formas Virtuais, a eclosão de
tensões e movimentos da cor, seguindo direções transientes entre retas
e curvas. Nessas três circunscrições da harmonia das diferenças cromáticas,
a cada instante nasce a cor. O que nasce aos olhos, vive dentro de nós. E
o que vive... ilumina a expressividade do diverso.
Na pintura de Pedrosa, a cor eclode diversificando-se.
Diversificando áreas neutras ou matizadas. Vivendo a singularidade do
diverso. Ressaltando tonalidades. Captando nuanças. Os lugares cromáticos
revelam cores em transparência, ou compactadas, ultrapassando o
fechamento implícito à forma. Por isso aludimos ao espaço no sentido poético.
Criando e expandindo regiões diferenciadas, a cor não se atém ao campo
restrito da relação figura-fundo: noção relacionada à demarcação
espacial. Inscrito no domínio da Cor Inexistente, o matiz se
torna sensação primeva de uma luminosidade atual, criando lugares de
insurgência da cor, a “tonalizar” e dinamizar na tela áreas
neutras. Mas não se trata de ilusão de ótica. Espaços neutros
tornam-se regiões de cor ativa, preenchendo sentidos na agudez da
visualidade desse fenômeno físico e estético.
Deslizando em Formas Virtuais, o campo pictórico
rompe por completo a relação figura-fundo, e se lança ao dinamismo da
cor inventada pelo pincel criando efeitos que induzem o olhar a romper os
limites do suporte. Navegadores da Vela ao Vento, lançamos
nossas naves às roupas de arlequim ondulando regiões cósmicas. Ouvimos
o vento sussurrando direções da cor. Pressentimos imaginárias costuras
desfeitas nas vestes abertas do tempo. E percebemos lugares em
transformação. Direções a serem reveladas, enquanto as formas se
desfazem para acolher espaços cromáticos.
Dinamizando as cores, Pedrosa alcança a essência da
Pintura. Por meio dos contrastes de luzes e sombras, ele desvela as nuanças
dos matizes. Rastreando a vida, o pintor tangencia o sentido da luz.
Momento áureo do encontro da razão e do sensível. Epifania do mundo
renascendo em nós... quando, nos espaços do quadro, o olhar inaugura
instante e perenidade do luminoso nas poéticas da cor nascente. Navegante
do ar, a Vela ao Vento simboliza o devaneio das delicadas mutações
oscilando no pêndulo das coisas que vivem. |
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Mirian de Carvalho (Brasil). Doutora em Filosofia, professora de Estética da UFRJ, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte. Autora de A escultura de Valdir Rocha (2004). Contato: mir3@infolink.com.br. Página ilustrada com obras do artista Israel Pedrosa (Brasil). |