![]() |
revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004 |
|
Gerald Thomas: "Não quero e não posso aparecer no
Brasil tão cedo" Antonio Júnior
Aos 49 anos, Gerald Thomas já dirigiu 70 montagens em 12
países, trabalhou com ícones como Fernanda Montenegro e foi parceiro
amoroso de atrizes do quilate de Giulia Gam, Fernanda Torres e Beth
Coelho. A nossa conversa – e amizade – se desenvolveu on-line nos últimos
dois meses. Teve como ponto
de partida uma paixão mútua, o dramaturgo irlandês Samuel Beckett
(1906-89), que foi amigo pessoal do nosso entrevistado. [AJ] AJ - Como situa ANCHOR PECTORIS
em sua carreira? GT - Olha, querido, foi uma
volta e tanto ao lar, vamos dizer assim. La MaMa é o teatro onde comecei
a minha carreira teatral, há mais de vinte anos. Então, foi uma emoção
e tanto esse retorno nietzscheano. Fiz tudo lá, os Becketts, ou seja, as
premiéres mundiais de Beckett. Depois viemos pro La MaMa com a Companhia
Brasileira de Ópera Seca, com a Trilogia Kafka. Quando
desembarcamos aqui com Flash and Crash no Lincoln Center, em 1992,
foi uma catástrofe para Ellen Stewart, a fundadora do La MaMa, e isso foi
tomado como uma ofensa pessoal. Demorou anos pra ser curado. Prometi um
monte de espetáculos pra Ellen mas nunca consegui entregá-los por falta
de verba. Ela nunca me perdoou. Então, quando ela, do nada, de repente me
convida para (em 12 dias) criar, escrever, musicar e iluminar e dirigir um
espetáculo com uma companhia nova, aceitei o convite na hora. Anchor
Pectoris foi um estouro. O East Village veio em peso e a “volta ao
lar” foi tudo o que tinha que ser. Mas me deixou num estado
completamente melancólico e esse eterno retorno me atrofiou. Não tenho
resposta pra isso. AJ - O título é uma referência
ao termo que ilustra a depressão também como uma âncora no peito. Esta
obra é resultado de uma crise pessoal? GT - Justamente o que estava
dizendo. Crise total! Ao mesmo tempo, tendo delegá-la pra outros
trabalhos de forma metafórica, analógica ou metalingüística. Exemplo?
Dom Quixote – nesse momento ainda trabalho com o titulo provisório de Bloom’s
Quixote’s Expedition (simplesmente porque as iniciais BQE também
servem para a Brooklyn Queens Expressway, que é a maior via expressa que
liga dois dos maiores bairros aqui em Nova York). O espetáculo será
feito num terreno baldio debaixo dela (é uma via elevada) e o meu dom
Quixote é o Arthur Bispo do Rosário, magnífico louco genial artista, o
maior de todos, o dadá brasileiro, o Colombo brasileiro confinado a um
manicômio e que via lá seus monstros assim como qualquer um vê os seus,
assim como eu vejo os meus.
GT - A maior de todas em texto,
estética, mas não cenicamente. Cenicamente é Tadeuz Kantor e talvez o
Robert Wilson. Ou Pina Bausch. Difícil dizer...as influências são
muitas. Devo muito a Kafka e Dante por exemplo, mas até que ponto eles
que não são teatro e sim literatura não me levaram até o
teatro...entende? Nem sempre o teatro influência o teatro. Francis Bacon
o pintor tem mais a ver com o meu teatro, assim como Marcel Duchamp também
tem. Filosoficamente estou mais perto do cinema de Glauber do que de
qualquer teatrólogo. AJ - Como
foi sua convivência com Beckett? Dizem que ele era um homem difícil. GT - Nada difícil. Tímido,
deprimido, retraído e não queria ver ninguém. Até hoje não acredito
que ele me via com tanta freqüência. Conversávamos sobre absolutamente
tudo, desde quem estava trepando com quem na classe teatral de NY até –
ele me testava muito sobre o quanto eu sabia sobre sua obra – seus próprios
textos. Citava de repente, uma frase solta de uma de suas peças e eu
tinha que responder de qual peça se tratava, ano em que havia sido
escrita etc. Alto, magro....parecia uma escultura de Giacometti, assim
como seus personagens. Falava num irlandês baixíssimo. Ele era “O”
Beckett, mas sempre fazia com que a gente fosse grande, nos os visitantes
fossemos maiores do que ele. Estava sempre deprimido, não sabia se
conseguiria continuar. Olhava, às vezes, pro vazio por horas a fio. Dava
aflição. Abaixava a cabeça. Ficava lá, de cabeça baixa. A maior e
mais generosa figura da minha vida. AJ - Seu
mundo interior, Gerald, é uma resposta ao mundo externo? GT - Cara...
não sei mais diferenciar a imagem pública da privada. E isso é serio. Não
sei mais se sofro na primeira ou na terceira pessoa. Não sei mais se a
questão do ego ficou tão grande que o “ser humano” aqui dentro (e,
portanto, seus problemas físicos, emotivos, etc.) ficou “on hold” ou
negligenciado.Ou se só consigo me ver no planeta terra enquanto me
justifico através da minha arte. Não me considero tendo valor nenhum
enquanto não produzo. No entanto reconheço que isso não é normal. Mas
não tendo o que dizer e como dizê-lo, me sinto “unworthy”, inútil,
abaixo do nível do mundo. É o fim! AJ - O
livro que você está escrevendo, NOTAS DE SUICÌDIO, é uma
autobiografia? GT - Totalmente! Conto tudo
sobre esses 49 anos que me trouxeram até aqui. E se chama Suicide Note
porque eu começo onde Alan Schneider (o velho diretor de Beckett da década
de 50, 60 e 70) foi morto em Londres atropelado por um ciclista, a 500
metros de onde eu morei, cruzando a rua. Ele era norte-americano e olhou
pro lado errado no cruzamento de pedestres. Beckett havia me contado –
em meados dos anos oitenta – que ele morria de rir com as mil e uma
teses que os acadêmicos teciam sobre quem era Godot, e o que era Godot...
quando na verdade, Godeaux era um ciclista no Tour de France que, em 1938,
simplesmente não chegou até o Champs Elisées... e as pessoas ficaram lá
esperando por dias e dias e dias... e ele jamais apareceu e nunca mais se
ouviu falar do cara. Pra encurtar: Scheider teve seu Godot (ou Godeaux),
seu ciclista, mesmo que 50 anos depois e mesmo que em Londres, pois ao
postar uma carta pra Beckett em Paris, ele foi pego, caiu de mau jeito e
morreu. Começo Suicide Note dizendo que estou andando naquela
mesma rua 40 vezes ao dia, esperando que o meu
Godot chegue também.
GT - Sou assim na vida. Sou
assim quando vou ao banheiro. Sou assim quando ouço notícias. Não agüento
ir dormir. Mas também não agüento acordar. AJ - Como
é o seu processo de criação? Você é racional ou aposta no
inconsciente? GT - Não sei mais diferenciar
um do outro, sinceramente. Nesse mundo em que vivo, não sei mais a
diferença. Olha em volta, olha a loucura, olha o desespero! Ele é
racional ou é inconsciente? AJ - Já
foi casado com várias atrizes. Como lida com elas no seu trabalho? A
intimidade amorosa não interfere no processo criativo? GT - Esse é um assunto tão
delicado, mas tão delicado nesse momento que prefiro não entrar nele.
Depois que li uma entrevista da Fernanda Torres no Globo faz umas duas
semanas, percebi que somos todos uns alienígenas e que tenho mais é que
calar a boca mesmo sobre meus casamentos e que somente quando Suicide
Note sair é que as pessoas saberão o que se passou por trás do
palco. AJ - O
que pensa dos críticos que dizem que o seu trabalho é provocador e
visual, não valorizando o texto e os atores? GT - Honestamente já não leio
mais os críticos. Os mesmo que acabam comigo são os mesmos que me deram
todos os prêmios Moliéres, etc. Ha uma relação tão intensa e tão
antropofágica no Brasil que dá engulhos. AJ - Quem apontaria como
fundamental para o desenvolvimento do teatro brasileiro? GT - O estudo profundo de toda a obra de Nelson Rodrigues como
sendo matéria obrigatória em todos os colégios e faculdades. É incrível,
mas nem mesmo o pessoal que faz teatro conhece a fundo a obra de Nelson,
que definitivamente está entre as cinco maiores do mundo e de todas as épocas.
GT - É um tema delicado. No
momento estamos todos estatelados olhando uns nos olhos dos outros nos
perguntando o que fazer. Típico de virada de século, virada de milênio.
Não há uma vanguarda parecida com a outra, porque não há uma época
parecida com a outra. Nessa nossa época “virtual” terá que aparecer
a resposta, digamos, adequada. Ela ainda não apareceu. AJ - Quais os seus projetos?
Algo para o Brasil? GT - Não quero e não posso aparecer no Brasil tão cedo. Ainda não fui inocentado pelo tal ato obsceno. Além do mais, sofri de over exposure. Melhor dar um “tempo” de Brasil. - obra selecionada de gerald thomas All
Strange Away (1984) |
|
Antonio Júnior (Brasil,
1970). Poeta e ensaísta. Autor de O
aprendiz do amor (1993), Ficar
aqui sem ser ouvido por ninguém (1998), ArtePalavra
- conversas no velho mundo (2003). Dirige a revista literária virtual
No Silêncio da Noite. Contato: antonio_junior2@yahoo.com. |