revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004






 

Gilce Velasco: a mulher e os jogos

Daisy Peccinini

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Gilce VelascoA pintura de Gilce Velasco atinge um de seus grandes momentos; paira sobre a emanação de cores, formas e luzes de suas telas, acima de tudo, força imaginativa, cheia de frescor e sinceridade. E por que não? Verdade, que só pode se instaurar na obra pictórica com potência, como avalia Hegel, quando a arte preside a obra, dando-lhe esta qualidade. Nesta série, a artista atingiu um nível de maturidade, de sinergia entre a percepção/criação e a elaboração/materialização de sua arte.

O jorro criativo que gerou a série “A Mulher e os Jogos” resultou do mergulho no mais profundo do ser feminino, de um intenso e íntimo olhar-se e reolhar-se, num processo de automatismo aflorado de forma mais livre, e talvez mais leve, em relação ao surrealismo histórico. Não deixou de ser conseqüente à sua iniciação no processo do automatismo pictórico junto ao mestre surrealista argentino Victor Chab, que muito contribuiu para que Gilce Velasco soltasse as amarras do imaginário interior.

Gilce VelascoA artista se envereda com coragem em um processo e ação de espelhamento do interior de si mesma. Apresenta-se, em fragmentos, a mulher sensual, sedutora em jogos com o mundo e com impulsões eróticas de si mesma bem como de outros. Optando por diagonais, apresenta partes, quase nunca a cabeça, de um corpo feminino primitivo e sedutor, expondo seios fartos, coxas grossas e nádegas generosas, que se confrontam com a atmosfera dinâmica e relacional do contemporâneo. Esta conjunção entre o primitivo e o contemporâneo se manifesta na composição das telas, em flashes de imagens, dispostas em diagonais; são, relâmpagos, vindos do imaginário profundo. Acentuam simultaneamente a sensualidade feminina, nos seus equipamentos naturais de atração, defrontando-se com o mundo. São jogos de relações entre o erótico feminino com o masculino, mediante símbolos e metáforas fálicas; como por exemplo em “El Toro”, “A Serpente e os Seios” e,“El Beso”, bem como emanações do universo feminino pessoal, em “Menina”, “Rosto e Corpo” e “Rosto e Barriga”. Apresenta também um lado guerreiro; enfrenta de peito aberto, o contexto atual, as engrenagens do sistema, como em “Vida Urbana: Mulher e Máquina“ e com uma visão crítica da mulher-narcisa, em “Manequim”. Neste processo de aprofundamento interior, chega à completude do feminino com “Mulher Contente”, como também ao princípio masculino, que abriga em si, e que emerge em “Homem Feliz”, finalizando esta parte da série de jogos, relacionada ao corpo.  

Gilce Velasco

Em suas pinturas, a artista utiliza cores fortes e primitivas - preto, branco e vermelho e nuances de cinzas e rosas - que,em algumas telas, dialogam com verdes secos, laranjas e ocres - e uma prática particular de impregnar de luz as pinturas, marcando fulcros luminosos, que pulsam em brancos clarões ou fazendo vibrar fortemente as zonas do vermelho.

Gilce VelascoEm outra parte da série, Gilce Velasco dá um mergulho na memória da infância em uma alegre e deliciosa evocação dos jogos infantis. Afloram em imagens sintéticas, flutuantes na névoa das recordações, os brinquedos - tambor, bola, bicicleta, pião, carrinho, avião entre outros. A fantasia e a alegria de criança marcam estes brinquedos, que ocupam espaços oníricos, iluminados por clarões de postes de luz, ou dispostos sobre campos de cores claras, ou ainda pelos núcleos luminosos de suas formas sutis, de simulacros.

Neste circundar em torno de seu eu profundo, a artista, entre o erótico e o infantil, projeta seus jogos plenos de imaginação e sensualidade e convida-nos aos jogos da viagem em torno e dentro de nós mesmos.

Daisy Peccinini (Brasil). Crítica de arte. Pertence à Associação Internacional de Críticos de Arte. Contato com a artista: gilcev@uol.com.br. Página ilustrada com obras da artista Gilce Velasco (Brasil).

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