.jpg)
|
Gilce Velasco: a mulher e os jogos
Daisy
Peccinini
A pintura de Gilce Velasco
atinge um de seus grandes momentos; paira sobre a emanação de cores,
formas e luzes de suas telas, acima de tudo, força imaginativa, cheia de
frescor e sinceridade. E por que não? Verdade, que só pode se instaurar
na obra pictórica com potência, como avalia Hegel, quando a arte preside
a obra, dando-lhe esta qualidade. Nesta série, a artista atingiu um nível
de maturidade, de sinergia entre a percepção/criação e a elaboração/materialização
de sua arte.
O jorro criativo que gerou a série “A Mulher e os
Jogos” resultou do mergulho no mais profundo do ser feminino, de um
intenso e íntimo olhar-se e reolhar-se, num processo de automatismo
aflorado de forma mais livre, e talvez mais leve, em relação ao
surrealismo histórico. Não deixou de ser conseqüente à sua iniciação
no processo do automatismo pictórico junto ao mestre surrealista
argentino Victor Chab, que muito contribuiu para que Gilce Velasco
soltasse as amarras do imaginário interior.
A artista se envereda com coragem em um processo e ação
de espelhamento do interior de si mesma. Apresenta-se, em fragmentos, a
mulher sensual, sedutora em jogos com o mundo e com impulsões eróticas
de si mesma bem como de outros. Optando por diagonais, apresenta partes,
quase nunca a cabeça, de um corpo feminino primitivo e sedutor, expondo
seios fartos, coxas grossas e nádegas generosas, que se confrontam com a
atmosfera dinâmica e relacional do contemporâneo. Esta conjunção entre
o primitivo e o contemporâneo se manifesta na composição das telas, em
flashes de imagens, dispostas em diagonais; são, relâmpagos, vindos do
imaginário profundo. Acentuam simultaneamente a sensualidade feminina,
nos seus equipamentos naturais de atração, defrontando-se com o mundo. São
jogos de relações entre o erótico feminino com o masculino, mediante símbolos
e metáforas fálicas; como por exemplo em “El Toro”, “A Serpente e
os Seios” e,“El Beso”, bem como emanações do universo feminino
pessoal, em “Menina”, “Rosto e Corpo” e “Rosto e Barriga”.
Apresenta também um lado guerreiro; enfrenta de peito aberto, o contexto
atual, as engrenagens do sistema, como em “Vida Urbana: Mulher e Máquina“
e com uma visão crítica da mulher-narcisa, em “Manequim”. Neste
processo de aprofundamento interior, chega à completude do feminino com
“Mulher Contente”, como também ao princípio masculino, que abriga em
si, e que emerge em “Homem Feliz”, finalizando esta parte da série de
jogos, relacionada ao corpo.
Em suas pinturas, a artista utiliza cores fortes e
primitivas - preto, branco e vermelho e nuances de cinzas e rosas - que,em
algumas telas, dialogam com verdes secos, laranjas e ocres - e uma prática
particular de impregnar de luz as pinturas, marcando fulcros luminosos,
que pulsam em brancos clarões ou fazendo vibrar fortemente as zonas do
vermelho.
Em outra parte da série, Gilce Velasco dá um mergulho na
memória da infância em uma alegre e deliciosa evocação dos jogos
infantis. Afloram em imagens sintéticas, flutuantes na névoa das recordações,
os brinquedos - tambor, bola, bicicleta, pião, carrinho, avião entre
outros. A fantasia e a alegria de criança marcam estes brinquedos, que
ocupam espaços oníricos, iluminados por clarões de postes de luz, ou
dispostos sobre campos de cores claras, ou ainda pelos núcleos luminosos
de suas formas sutis, de simulacros.
Neste circundar em torno de seu eu profundo, a artista,
entre o erótico e o infantil, projeta seus jogos plenos de imaginação e
sensualidade e convida-nos aos jogos da viagem em torno e dentro de nós
mesmos.
|