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revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004 |
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Narciso de Andrade, o poeta do vento e das maresias Adelto Gonçalves
Para conhecer melhor a obra poética de Narciso de Andrade,
é preciso primeiro saber um pouco de sua vida. Embora seus versos raras
vezes tenham conseguido ultrapassar as fronteiras da província, o poeta
sempre esteve ligado ao que acontecia no mundo em termos de poesia. Sempre
foi moderno, ainda que, como disse Octavio Paz, o moderno seja também uma
tradição. Essa modernidade foi o que sempre fez de Narciso um poeta
avesso a todos os sectarismos, mesmo numa época em que parecia que a
sorte dos deserdados da terra seria mudada pelos ventos que vinham da
Europa Oriental. Narciso de Andrade Neto, filho de Agenor Andrade e Celina
Penteado, nasceu em São Paulo no dia 20 de julho de 1925, um ano e cinco
meses depois de seu grande amigo Roldão Mendes Rosa (1924-1989), o poetirmão,
como se definiam. Da São Paulo da década de 20, que ainda vivia os
derradeiros anos da belle époque,
apesar de toda agitação promovida por Mário de Andrade e seus
modernistas, ele nada carrega na lembrança porque, pouco depois de
nascido, foi levado para Santos pela família, que tinha algumas posses e
muito renome na praça. Mas viveu uma vida solta de moleque pelas ruas do
bairro operário do Macuco. Da infância, Narciso recorda de uma manhã, a bordo do
bonde 5, quando o poeta parnasiano Martins Fontes (1884-1937) o pegou no
colo, tirando-o das mãos de sua tia Carola e dizendo que o menino
precisava ir para a Capital da República. “Ele tem de conhecer o Rio de
Janeiro à hora do crepúsculo”, disse o poeta, com gestos largos e voz
de trovão. Narciso recorda que Martins Fontes já era à época um poeta
fora de moda, que nunca mais se recuperara desde que Mário de Andrade
ridicularizara o seu fazer poético na revista Klaxon.
“Mas, quando começava a falar, ele era fascinante”,
afirma Narciso. “Logo se formava uma roda”. De José Martins Fontes, o
Zezinho, médico famoso, homem
extravagante que fazia soltar pássaros apenas pelo prazer de vê-los se
perder no horizonte, antigo sócio de Olavo Bilac numa agência de
propaganda de produtos brasileiros em Paris, Narciso lembra de seu
enterro, um cortejo que parou as ruas de Santos até a entrada do cemitério
do Paquetá. “Nossas famílias eram próximas”, justifica. “E eu
gostava muito dele”. Em Santos, Narciso fez os estudos primários. O ginásio
ele seguiu no tradicional Colégio Santista, dos irmãos maristas. Foi lá
que conheceu Roldão Mendes Rosa, com quem cruzava nos pátios e
corredores, já admirando aquele colega que, apenas um ano mais adiantado,
publicava seus textos no principal jornal da cidade, A
Tribuna. A essa época, Narciso chegou a voltar para São Paulo com o
objetivo de concluir os estudos secundários no Colégio São Bento, que
oferecia o ensino mais avançado do País. Mas não guarda boas recordações. “Os frades
beneditinos faziam questão de uma disciplina terrível”, recorda. Sorte
foi que logo sua família decidiu que deveria voltar para Santos. Passou,
então, a estudar no Colégio Canadá, mantido pelo governo do Estado, num
tempo em que o ensino público, antes da massificação, era o que havia
de melhor porque destinado aos filhos das elites. “Até hoje tenho
saudade”. O avô de Narciso de Andrade foi um potentado político na
segunda metade do século XIX. Tanto que virou nome de uma praça no
tradicional bairro da Vila Mathias, em Santos, e de outra em Itanhaém,
onde fica a Igreja Matriz de Sant´Anna, de 1761, jóia rara da
arquitetura colonial. Em Santos, era dono de um vetusto casarão nas
imediações da atual Avenida Conselheiro Nébias, a caminho da Praia do
Boqueirão, onde, durante algum tempo, por concessão do proprietário,
manteve seu ateliê o pintor Benedicto Calixto. Vivia cercado de luxo e conforto, como todo pró-homem do
Oitocentos. Era senhor de alguns escravos. Um deles, já liberto, o jovem
Narciso conheceu bem idoso: “Fiquei com uma vergonha danada de saber que
aquele homem havia sido escravo de meu avô”, contou-me, ao início dos
anos 90, quando nos encontrávamos com uma freqüência lorquiana às
cinco da tarde en punto no Café
Paulista, ali no antigo Largo do Rosário que alguns estouvados mudaram
para Praça Rui Barbosa. Como se vê, a
arte e a cultura sempre tiveram livre acesso entre os Andrades. Um irmão
de Narciso, Nelson Penteado de Andrade, foi um dos maiores pintores da
história de Santos, lídimo seguidor de Benedicto Calixto, ainda que com
outro e mais moderno estilo. Seus quadros retratam quase sempre as ruas e
os casarões antigos de Santos, imagens que ele mesmo via de seu ateliê
na Rua João Pessoa, a antiga Rua do Rosário. Morreu cedo, antes de
chegar aos 40 anos, provavelmente intoxicado pelo acre cheiro das tintas,
apaixonado e envolvido por sua arte. Hoje, Nelson Penteado dá nome à
galeria de arte da Prodesan, empresa de economia mista ligada à
Prefeitura. Ao tornar-se moço à época em que o mundo saía da
Segunda Guerra Mundial e o Brasil livrava-se da ditadura do Estado Novo e
seus arroubos fascistóides, Narciso de Andrade, entusiasmado pelas
letras, em 1948, iniciou carreira de repórter no antigo O
Diário, de Santos, órgão dos Diários
Associados, cadeia de comunicação do então “rei” do Brasil,
Assis Chateaubriand. “Briguei no emprego que tinha e Miroel Silveira e
Cassiano Nunes me levaram para trabalhar em O
Diário”, lembra. Quem recebeu o jovem Narciso em O Diário, na Rua do Comércio, ali a poucos passos do Café
Paulista, foi o chefe de redação Francisco Azevedo, o Azevedinho, um
tipo esquisitão, que nem tirava os olhos do papel para se dirigir ao
interlocutor, mas apaixonado por poesia, correspondente de Rui Ribeiro
Couto desde que o poeta largara Santos para seguir uma vida errante de
diplomata na Europa. Entre as façanhas de sua vida tumultuada, Azevedinho
gostava de lembrar a Narciso o dia 11 de outubro de 1933 em que o navio Conte
Grande aportara em Santos, a caminho de Buenos Aires. A bordo, vinha o
poeta espanhol Federico García Lorca e, assim, Azevedinho pôde acompanhá-lo
por todo um dia em sua visita à cidade. Azevedinho cuidava diretamente da seção Vida
Marítima, que fornecia aos leitores os nomes dos vapores que entravam
e saíam no porto, além de uma ou outra reportagem sobre o que ocorria no
cais, entre muitos anúncios de agências marítimas e fornecedores de
navios. Foi nessa seção que Narciso encontrou lugar: logo começou a
sair cedo da redação, ao lado do fotógrafo José Dias Herrera, o
Zezinho, para acompanhar a movimentação no maior porto da América
Latina. “Se não havia assunto, a gente ia para o cais porque sempre
aparecia alguma coisa”, recorda. E não se imagine que iam de carro de praça. Seguiam mesmo
de bonde. Narciso gostava daquela vida. “Quando eu era menino, o bonde
me levava para o colégio”, lembra. “Depois, adulto, para o
trabalho”, diz, recordando que o bonde o conduzia, na hora propícia,
para os mais belos passeios. “Percorrer toda a orla, da Ponta da Praia
até São Vicente, era conhecer a mais bela paisagem do mundo”, diz,
acrescentando logo para que não o tomem por bairrista: “Palavra de
poeta: ouvi isso de muitos estrangeiros, quando repórter marítimo”.
Por esse tempo, Santos destacava-se pelo movimento de seu
porto, especialmente por causa das exportações de café. Os corretores
atropelavam-se na Rua XV de Novembro com os canudos em que levavam as
latas de amostras para a Bolsa de Café, onde em meio a telas de Benedicto
Calixto acompanhavam o pregão e as cotações diárias. O dinheiro escorria pelas ruas do centro antigo e fortunas
eram construídas no dia-a-dia da cidade portuária. Seu comércio era
intenso: a loja Ao Camiseiro, ao lado da redação de O
Diário e quase em frente ao Café Paulista, vestia com gabardine,
tropical inglês e outros tecidos finos os corretores de café, os
despachantes aduaneiros e seus ajudantes, os fiscais da Alfândega, toda
uma classe que ascendia socialmente com os negócios que se faziam em
torno das mercadorias que entravam e saíam do porto. Ali, na Rua XV de Novembro, ao final da tarde, depois do
texto posto sobre a mesa de Azevedinho, Narciso tratava de se dirigir ao
Bazar Paris, onde invariavelmente encontrava o amigo Roldão, que, à época,
já era repórter de A Tribuna e
poeta muito comentado nos salões da cidade por seus versos inovadores. O Bazar Paris era uma livraria que trazia todas as
novidades da França e de Portugal: em suas prateleiras era possível
encontrar as edições mais recentes e seus atendentes destacavam-se pela
polidez e pela seriedade das informações que passavam aos clientes. Atraía
escritores e homens de letras de todo o País: o letrado que visitasse a
cidade não deixava de procurar a famosa livraria. Ali, algumas vezes,
Narciso, acompanhado por Roldão, manteve longas conversas com Washington
Luís, o elegante e discreto ex-presidente da República que vivia como
uma sombra depois de seu regresso do exílio. Enquanto trabalhava como repórter, Narciso começou a
publicar seus poemas em O Diário, especificamente no suplemento Hoje
é Domingo, que era editado por Miroel Silveira. E manteve uma
colaboração semanal até 1951. Por esse tempo, a cidade respirava
cultura, continuando uma tradição que vinha desde o século anterior e
tornara-se marcante no começo do século XX pela presença de
intelectuais como Galeão Coutinho, Afonso Schmidt, Alberto Leal e
Ranulpho Prata, além de Martins Fontes, Rui Ribeiro Couto, Paulo Gonçalves
e Albertino Moreira, em épocas sucessivas. No final da década de 40, havia o grupo dos pesquisistas
em que se destacavam Miroel Silveira, Cassiano Nunes, o contista Francisco
De Marchi, Nei Guimarães, Nair Lacerda, Leonardo Arroyo e Roldão Mendes
Rosa. Todos se reuniam em torno de Cid Silveira, irmão de Miroel,
intelectual e filho de uma família tradicional da cidade. “Fui um dos últimos a aderir ao pesquisismo, até porque
era um dos mais novos”, conta Narciso, lembrando que o movimento
manteve-se até o final dos anos 50. “Era um grupo de escritores e
intelectuais que se reuniam todos os domingos para estudar e debater o fenômeno
literário”, recorda, explicando que o objetivo de seus integrantes era
renovar as atitudes em relação à literatura, tornando-a mais atual e próxima
da época. “Pesquisava-se o que se publicava no Brasil e até no
exterior”, diz, observando que o nome do movimento vinha dessa postura
intelectual. “Discutíamos aquilo que escrevíamos”. Para Narciso, a razão dessa efervescência pode ser
resumida numa “palavrinha”: liberdade. Ele conta que havia, sobretudo,
um exercício constante de liberdade, elemento primordial para a realização
de qualquer atividade cultural: “Este clima de liberdade e a presença
de gente de real valor na cidade possibilitaram um ambiente de intensa
atividade cultural”, diz. A esse grupo já havia aderido Roldão Mendes Rosa, que
como poeta a essa época alcançara projeção, especialmente porque
publicava de maneira constante em A
Tribuna. Atraído por Roldão, Narciso passou a participar das discussões
entre os pesquisistas a um tempo em que o movimento já havia concluído o
seu ciclo mais agudo. “Eles me acolheram, me estimularam e, com seu
exemplo e sua fidelidade, ajudaram a fomentar em mim ainda mais a paixão
pelo livro, pela literatura, pela poesia”. Em 1949, Narciso casou-se com Amélia. E a necessidade de
ganhar a vida de maneira mais objetiva o fez largar a carreira jornalística
um ano depois. “O repórter não era valorizado e a remuneração muito
baixa”, diz, lembrando que logo teria família para sustentar, com o
nascimento de seus cinco filhos – três homens e duas mulheres.
“Troquei as reportagens pelas colunas literárias, passando a escrever
crônicas, a fazer traduções e a publicar poemas”, relembra, fazendo
questão de dizer que O Diário
pagava pouco, “mas pagava”. Foi, então, trabalhar na Companhia Docas de Santos, onde
permaneceu por um ano, até que se transferiu para a Companhia City,
empresa canadense que era responsável pelo fornecimento de energia elétrica
e pelo serviço de bondes. O tempo em que a profissão de jornalista o fizera viver
junto ao cais despertara precocemente em Narciso a sua vocação irreprimível
para a poesia. Em 1951, começou a colocar seus versos também na página
literária de A Tribuna, que era
editava por Rubens de Ulhoa Cintra, o Torito. “Não havia rivalidade
entre os pesquisistas e publicávamos indistintamente num e noutro
jornal”. Segundo Narciso, o pesquisismo queria “limpar” a poesia
das enxúndias parnasianas. “Não éramos contra o parnasianismo em si,
mas contra o uso exagerado de suas formas”, explica, lembrando que os
pesquisistas conviviam bem com aqueles que ainda estavam apegados a
esquemas poéticos superados e que faziam poesia como se participassem de
jogos florais. Esses poetas de pouco talento dominavam a cena e
exercitavam uma poesia recitada com “boquinha de cereja”, preocupada
apenas com a rima, mas sem qualquer conteúdo social. “Mesmo assim,
nunca fomos inimigos”, diz. Narciso não sabe se foi de tanto ouvir Azevedinho falar de
García Lorca que tratou de conhecer a poesia do poeta andaluz. Reconhece
que a sua principal influência veio dele. Depois, vieram Carlos Drummond
de Andrade e Fernando Pessoa. Houve uma época, mais tarde, em que travou
conhecimento com o trabalho de alguns poetas portugueses, especialmente
José Régio, o maior nome do Segundo Modernismo português, herdeiro
espiritual de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro. Outro poeta luso que conheceu à distância foi Alexandre O´Neill.
“Trocávamos idéias por correspondência”, conta Narciso, lembrando
ainda que, em 1962, em companhia do escritor Geraldo Ferraz, então
redator-chefe de A Tribuna, foi
ao Rio de Janeiro conversar com Carlos Drummond de Andrade. “Ele não
suportava a poesia dos portugueses”, recorda. “Gostava mesmo era dos
concretistas”. Em 1953, Narciso começou a estudar na Faculdade de Direito
da Sociedade Visconde de São Leopoldo, atual Universidade Católica de
Santos (UniSantos). Fez parte da primeira turma que se formou em 1957. De
canudo na mão, ascendeu na Companhia City, chegando a ocupar o cargo de
chefe do departamento jurídico, até que se aposentou em 1984,
acompanhando a transição da empresa para Light e, depois, Eletropaulo. Nunca abandonou a paixão pela poesia. Em 1957, começou a
escrever para o Suplemento Literário
de O Estado de S.Paulo, que era dirigido por Décio de Almeida Prado.
“Para publicar o meu poema Cais,
o jornal me pagou dois contos e quinhentos”, recorda. “Eu não ganhava
isso por mês”, acrescenta, observando que essa, na verdade, foi a única
ocasião em que ganhou dinheiro com poesia. Para Décio de Almeida Prado,
os versos de abertura do poema “Cais” constituíam umas das mais belas
passagens que a poesia brasileira produzira: 1. Com tanto navio para partir 2. A água comove a pedra 3. (Completa ausência de tempo. Cambía todos os tons 4. Não há gaivotas nem quaisquer 5. Vem do passado a romântica 6. Sirene arrepiando 7. Silenciosamente pesados Ah! receber todos os adeuses,
Poeta nada místico, descrente na existência de um Deus
transcendental, que estivesse sempre disposto a punir e recompensar a
humanidade, Narciso solidariza-se em sua poesia com o homem e a sua solidão
no universo, o seu drama diante dos embates da vida. É a mesma solidão
que marca a poesia de Fernando Pessoa, um dos poetas de sua predileção,
como se pode notar no poema acima, verdadeiro intertexto de referências,
alusões e reminiscências da produção pessoana, como o “cais saudade
em pedra” ou as “velas pandas”. Apesar das remissões pessoanas, Narciso é um poeta
marcadamente santista, o que pode significar quase a mesma coisa, não
fosse Santos uma das cidades mais portuguesas do Brasil, a que mais se
assemelha a Lisboa e que se assemelhava ainda mais ao tempo da juventude
de Narciso, nos anos 40 e 50, antes que a discutível sanha do progresso
tivesse botado abaixo muito do casario que lembrava zonas lisboetas como
Santos-o-Velho, Alcântara, São Bento e Xabregas ou portuenses, como
Campanhã. Se de algumas imagens podemos tirar evocações pessoanas,
já os efeitos sinestésicos de sua poesia fazem parte de uma paisagem da
cidade de Santos, de outros tempos, é verdade, como a sirene que o jornal
A Tribuna fazia disparar ao meio-dia para avisar à população que
era a hora de parar o trabalho e almoçar – Sirene arrepiando/ a
epiderme do meio-dia. Poeta moderno como Carlos Drummond de Andrade, Narciso de
Andrade, como esse mestre da poesia, também nunca deixou de render
homenagem a Luís de Camões, permeando seus poemas com paráfrases e alusões
à poesia do vate quinhentista, reapropriando-se de maneira criativa de
seu discurso épico e lírico, como se pode comprovar em “Cais” em que
reconstitui um breve roteiro das peripécias que marcaram as descobertas,
remetendo-nos para “Os Lusíadas”. Os anos de 60 foram de intensa agitação. Na companhia de
Roldão Mendes Rosa, “que era comunista fichado”, Narciso começou a
participar também da luta política. “Só não entrei para o Partido
Comunista porque sempre fui muito rebelde”, conta. “Nunca gostei de
excesso de disciplina”, acrescenta, ressaltando que, embora não fosse
simpatizante da direita, jamais admirou a esquerda. Mesmo assim, por influência
de Roldão, ia a comícios, acompanhando o fervor com que o amigo aderia
às causas populares. Entusiasmado, Roldão subia, muitas vezes, ao palanque para
declamar poemas participativos, arriscando-se a sofrer a repressão que
vinha na pata dos cavalos e nos sabres dos milicianos, ali na mesma Praça
da República, onde, em 1931, Patrícia Galvão, a Pagu, num comício do
Partido Comunista, levantara do chão, ensangüentada, a cabeça de um
estivador, que morreria em seu colo. Narciso preferia assistir a tudo de
longe. Distante da política, a vida transcorria até altas horas
no Bar Regina, que ficava no coração do Gonzaga, de onde partiam os
bondes para qualquer ponto da cidade. Nas noites do Regina, Narciso
conheceu toda espécie de artista, pintor, músico, poeta, escritor, a
gente espalhafatosa do teatro e um jovem que se anunciava analfabeto num
ambiente de intelectuais: Plínio Marcos, palhaço de circo, candidato a
escritor, apesar da pouca intimidade com o idioma, um tipo que fora
descoberto por Pagu, sempre ela. Narciso foi um dos poucos, à época, que defenderam o
talento de Plínio Marcos: “Sabia que ele não seria mais um escritor
provinciano”, escreveu, certa vez. “Seu destino de dramaturgo já
estava traçado”. Por esse tempo, acompanhava Roldão em suas incursões pela
sociedade intelectual. Iam às reuniões da loja Albor da Sociedade Teosófica,
presidida por um grande amigo de ambos, o advogado Nildo Serpa Cruz. E
participavam das discussões com os pesquisistas e das atividades do
Centro de Estudos Fernando Pessoa, do Clube de Arte e do Clube de Cinema
de Santos, do qual Roldão havia sido um dos fundadores. À época do prefeito José Gomes, no começo da década de
60, integrantes do mundo das artes foram convocados para compor uma comissão
municipal de cultura, inclusive Pagu, que morreria ao final de 1962. O
chefe de gabinete do prefeito era o jornalista e escritor Juarez Bahia,
que depois seria redator-chefe de A
Tribuna e faria carreira no Jornal
do Brasil, no Rio de Janeiro, e seria correspondente desse periódico
em Lisboa. “Pela primeira vez, foi formada uma comissão integrada
por pessoas consideradas rebeldes”, recorda Narciso, um dos convidados.
O poeta chegou a presidir a comissão entre 1962 e 1963, passando depois o
cargo para Roldão Mendes Rosa e, em seguida, para o jornalista e teatrólogo
Evêncio da Quinta, o Zego. “Promovemos uma exposição de arte
mexicana, um festival de teatro com Pagu à frente, um curso de Literatura
Brasileira e uma exposição de arte religiosa, entre outras
atividades”, recorda. Mas vieram o golpe militar de 1964 e a longa noite dos
generais. “Respondi a um inquérito policial militar e fui escoltado por
dois soldados até à delegacia”, lembra, logo ele que nunca simpatizara
com os ideais comunistas – o fantasma que os golpistas agitavam para
defender quase sempre interesses subalternos e mesquinhos. Nem assim Narciso mudou o rumo de sua poesia: “Cheguei a
fazer alguns poemas mais engajados, mas, depois, voltei a compor poesia
voltada apenas para o cotidiano”, diz, lembrando que Roldão, ao contrário,
antes e depois de 1964, fez muita poesia com orientação partidária. Mesmo quando Geraldo Ferraz deixou de ser editor-chefe de A
Tribuna, Narciso continuou a colaborar na página literária do
jornal, agora sob a direção de Juarez Bahia. Seus poemas continuaram a
sair quase sempre ilustrados pelo artista plástico Lúcio Menezes, às
vezes ocupavam quase toda a página. É dessa época “Instante”, o
poema que segue: Faz de conta que esta lua não existe Continuar andando nestas areias tudo é alegria quando pouco é possível faz de conta que estou dizendo a verdade Neste poema, com o “eu” desdobrado ambiguamente num
“ele”, Narciso de Andrade se coloca num ponto de onde avista o passado
e apreende a mutabilidade dos fenômenos do mundo, apontando para a
precariedade da vida. Para ele, a vida é uma “monótona sucessão de
fracassos, desencantos e desesperos”, que precisa ser ludibriada,
enganada, para que seja possível continuar a sonhar, mantendo viva a
chama, ainda que a morte seja o destino final.
Por circunstâncias alheias, não pude reunir aqui outros
poemas que pudessem formar um corpus passível de maiores análises,
mas tenho certeza de que “Cais” e “Instante” representam muito bem
a poesia de Narciso de Andrade. É bem provável que, como aconteceu com
seu amigo Roldão Mendes Rosa, só depois de sua morte, Narciso, enfim,
tenha seus versos recolhidos em livro. Com tantos poemas publicados em jornais, o poeta, ele
mesmo, nunca se preocupou em reunir a sua produção. “Sempre foi difícil
encontrar editor disposto a investir em poesia”, justifica-se. E para um
autor editar o seu próprio livro era um investimento pesado: “Nunca
tive condições financeiras para isso”, reconhece. “Sempre havia
contas mais importantes a saldar”. Uma rara exceção ocorreu em 1977,
quando, a convite de João Christiano Maldonado, integrou uma Antologia
da Poesia de Santos. Se não publicou nenhum livro em mais de meio século de
atividade literária, escreveu a apresentação para Poemas do Não e da Noite, obra póstuma de Roldão Mendes Rosa
publicada em 1992 pela Editora Hucitec, de São Paulo, com o apoio da
Prefeitura de Santos. Nesse livro, há o poema “Ao poetirmão do vento e
das maresias”, de 1981, dedicado a Narciso de Andrade, em que Roldão
diz: O
poeta, Irmão, se despede do dia.
O poeta Narciso preferiu continuar a escrever para o
dia-a-dia. Chegou a 49 anos de colaboração constante em A Tribuna, atividade que se intensificou no começo da década de
90, quando a jornalista Ivani Cardoso, assumindo a editoria do caderno de
variedades AT Especial,
convidou-o a escrever uma crônica semanal que seria sempre publicada aos
domingos. O retorno a uma atividade jornalística mais intensa coincidiu
com a época em que, já aposentado da Eletropaulo, cuidava de seu escritório
de advocacia, no centro da cidade, ao lado da mulher Amélia, que se
formara advogada em 1976. Narciso só interrompeu a colaboração no caderno de
variedades de A Tribuna em 2001,
quando começou a sofrer problemas de saúde. Nas crônicas que preferia
chamar de escritos, assinava-se
como poeta e advogado. Escrevia sobre Santos e seus personagens.
Datilografava em sua velha Remington
bem próximo à janela de seu apartamento no edifício Copacabana, na
Ponta da Praia, de onde se vê toda a orla da baía de Santos e seus crepúsculos
modorrentos. Como cronista, às vezes, deixou-se levar pelo crítico que
também carrega dentro de si. Em um de seus escritos, defendeu a
teoria de que existe um ciclo de romances sobre o porto de Santos que se
iniciou com Navios Iluminados (São
Paulo, Clube do Livro, 1946), de Ranulpho Prata, seguindo-se com Cais de Santos (Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara-Rio,
1939), de Alberto Leal, Querô
(São Paulo, Símbolo, 1976), de Plínio Marcos, e o meu Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio
Editora, 1981). Não se deve questionar a ordem estabelecida por Narciso,
com base nas datas de publicação dos livros, porque ele garante que Navios
Iluminados teve uma edição anterior à do Clube do Livro, embora
hoje seja difícil saber qual. “Neste viés, podemos encontrar ainda o inédito Barcelona
Brasileira, ousado e pungente, enfrentando sérios problemas de
linguagem pela sempre difícil relação tempo histórico-tempo
romance”, escreveu em crônica publicada a 19 de novembro de 1993 em A
Tribuna, referindo-se a um romance que lhe dei para ler em manuscrito
e que sairia à luz em 1999 pela editora Nova Arrancada, de Lisboa. Só ao
final de 2002 Barcelona Brasileira saiu pela editora Publisher
Brasil, de São Paulo. Pois é assim Narciso, sempre generoso com os amigos. Ainda
hoje, quando passo pelo Café Paulista, ao final de tarde, sempre olho lá
para dentro, em busca da mesa que reunia Narciso, Roldão e Dario, que não
era poeta, mas amigo de ambos. Só que, desde 2000, por causa da doença,
Narciso não sai mais de casa. Numa crônica publicada em 19 de novembro
de 2000 em A Tribuna, ele dizia que esperava se recuperar logo para
voltar ao Paulista e ver o bonde que, agora, passa de novo em frente ao
café. Mas não voltou até agora. Lembro-me especialmente dos últimos tempos, quando eu já
estava de volta a Santos e reencontrava apenas Narciso e Dario no Café
Paulista. Dario, sempre que me via, repetia, em tom de brincadeira, uns
versos de Camões: Com vossos olhos gonçalves, Eu respondia com estes versos de Narciso: Com tanto navio para partir E Narciso de Andrade sorria com olhos mansos. |
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Adelto Gonçalves (Brasil). Ensaísta. Autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (1999), Barcelona Brasileira (1999) e Bocage - O Perfil Perdido (2003). Contato: adelto@unisanta.br. Agradecimentos a Gilka Zannin Rosas, da Biblioteca Alberto Sousa (secult@carrier.com.br), por gentilmente nos haver encaminhado uma fotografia de Narciso de Andrade. Página ilustrada com obras do artista Francisco Quinanar (México). |