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revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004 |
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A claridade marítima da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen Fabrício Carpinejar
Seu nome aristocrático e longo contrastava com os versos
curtos, incisivos, flutuantes. Estava completando 60 anos de lírica,
desde seu primeiro livro surgido em 1944, quando tinha 24 anos, sob o título
genérico de Poesia. O último legado que deixou foi a encadernação leve
e hipnótica de O Búzio de Cós (1988). Sophia arrebatava (seduzir era
pouco). João Cabral de Melo Neto (de pia batismal que não perdia de
extensão para ela) dedicou-lhe um poema em A Educação pela Pedra
(1965), que dá a exata dimensão de sua importância: "Sofia vai de
ida e de volta (a usina); / ela desfaz-faz e faz-refaz mais acima, / e
usando apenas (sem turbinas, vácuos) / algarves de sol e mar por
serpentinas. / Sofia faz-refaz, e subindo ao cristal, / em cristais (os
dela, de luz marinha)."
Mandei para o largo o barco atrás do vento
Literatura,
de acordo com sua visão, era uma consciência mais funda do que a inteligência,
uma fidelidade mais pura do que poderia controlar. Os versos apenas
repercutiriam os dias densos, tensos. Escrever significava louvor e
protesto, o rigor de não deixar nada para depois. "A poesia não me
pede propriamente uma especialização, pois a sua arte é a arte do
ser", conceituava em Arte Poética II. A escritora perseguia a si, com elegância do se manter
unida até o fim, de não dispersar as palavras para longe de seu domínio.
Enquanto a maioria dos escritores tenta se multiplicar e se dividir para
evitar a repetição, Sophia se pacificava em uma lealdade inalterável a
sua origem. Tinha a cosmovisão de uma Cecília Meirelles e a feitiçaria
metafórica de Clarice Lispector. Já era em vida tão grande quanto Jorge
de Sena, que não deixou de lhe fazer uma pergunta, um tanto estarrecido:
"como quem pode matar-te?" Ninguém pode matar o que não viveu para morrer. Sophia
vivia seu merecimento. Ela costumava dizer que sua lembrança mais longínqua
era a de um quarto refletido de azul, onde uma maçã enorme repousava na
mesa. Não conheceu desertos, bastaram as dunas. Preservou essa imensidão
marítima na casa a ponto de elaborar a inscrição: "Quando eu
morrer voltarei para buscar/ Os instantes que não vivi junto do
mar".
Resistindo
ao excesso verbal, Sophia abdicava do que não comovia. Educada para as
pausas mais do que para música. Favorecia os mitos mais do que as histórias.
Ela poetiza para fundar o silêncio, não aboli-lo. Não se prende a uma
caligrafia, e sim ultrapassa a letra em nome da memória visual.
"Deixa-me limpo / O ar dos quartos / E liso / O branco das paredes.
// Deixa-me as coisas / Fundadas no silêncio." Fala para contentar a
mudez. A mudez das coisas apetecidas e saciadas. Nela, o poema talvez seja
a responsabilidade de viver, o máximo que se pode chegar da liberdade. |
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Fabrício Carpinejar (Brasil, 1972). Jornalista e poeta. Autor de Um Terno de Pássaros ao Sul (2000), Biografia de uma árvore (2002) e Cinco Marias (2004). Contato: carpinejar@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Francisco Quintanar (México). |