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revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004 |
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Ruínas: a fotografia como fragmento da arquitetura Fernando Freitas Fuão
Neste sentido as fotografias também se aproximam da
categoria de ruínas, pois mumificam o presente, os corpos ainda novos,
dando-lhes passado instantâneo e eliminando o tempo atual. Aceleram a
passagem do tempo com sua representação. A ruína é a câmara escura da memória. A história, a ruína que revela a fotografia. Antigamente algumas arquiteturas eram responsáveis pela
representação do transcurso do tempo. O monumento, originalmente, era aquele objeto austero e nem
sempre monumental, destinado a sobreviver a passagem do tempo e gravar a
narrativa do grupo em sua viagem pelo tempo, que era sempre o mesmo. Mas,
com a criação e o transcurso da história, o monumento, o templo, deixou
de encarnar, de falar da morte, agigantou-se e passou a representar a duração
da matéria e da história. Na Antigüidade e na Idade Média não se tinha o sentido
dos monumentos como arte. A mudança só foi provocada pela formação de
um novo conceito de memória no século XV, na Itália, onde se permitiu
apreciar os monumentos da antigüidade não somente pela sua lembrança
patriótica da potência e grandeza do Império, mas também pelo seu
valor de arte e categoria histórica. Na verdade, esse novo interesse pela
arte estava exclusivamente limitado às obras das civilizações antigas,
nos quais os italianos do renascimento gostavam de ver seus ancestrais.
Isso explica sua versão simultânea ao gótico. Nessa mesma época foram
inventados o valor da arte e dos monumentos da antigüidade e
produziram-se as legislações sobre as proteções dos monumentos. Para
Alois Riegl, como não podia ser distinto devido a sua visão
evolucionista, um monumento, em seu sentido original do termo, designava
uma obra construída com a intenção precisa de manter sempre presente na
consciência das gerações futuras. Os fatos, ou os fatos humanos
particulares ou uma fusão de um e outro. Roland Barthes em A câmara
clara explica muito bem essa relação entre monumento, fotografia e
história. “A sociedade moderna renunciou ao monumento, a coisa que
falava da morte, e ela mesma era imortal, como recordação, substituto da
vida. E substituiu pela história e pela fotografia. Mas a história é
uma memória fabricada, uma falsa memória, um puro discurso intelectual
que anula o tempo mítico. A história é histérica, só se constituiu se
a gente a olha, e para olhá-la é necessário estar fora dela.” Tanto o monumento como a fotografia encarnam e
personificam. O monumento é sinônimo de colossal . Kolossós era o duplo que colocava em relação este mundo com
outro, o dos mortos. O Kolossós
ao contrário da fotografia não se fixa no parecido e muito menos no
semelhante “Se não existe parecido, qual é a razão por que o Kolossós
mimetiza e encarna ? A petrificação é símbolo da morte e como tal é
inerte, quieto, fixo, nem cresce, nem se move, essa simplicidade está na
essência na monumentalidade: ser fixa e ser pétrea. A comemoração do kolossós é uma substituição. Tanto o monumental e o colosso
devem ser presença de outra coisa, de um outro mundo nesse, de um ser
passado, de um tempo passado, que se foi. O museu é filho legítimo do monumento. Os museus são
também monumentos que designam a certos funcionários de conservadores,
museólogos que evocam a lembrança da mumificação tal como a
fotografia. Museu é o lugar onde se seleciona, se guarda e se
institucionaliza-se os fragmentos. Como disse Quétglas “Museu e necrópoles
tem em comum o conservar algo desgarrado de seu ambiente vital. Pinturas,
roupas, manuscritos: qualquer objeto em um museu chega embrulhado em um
manto vazio que assinala sua estranheza com relação ao nosso tempo espaço.”
Nas ruínas, os inevitáveis fantasmas que nelas rondam, assinalam com
especial intensidade o temor ao regresso aos poderes do passado, tal como
observou Breton; por isso, todos aqueles que têm sede do que foi, se
aproximam delas. O vazio deixado pela fragmentação, pelo distanciamento
dos corpos e espaços característicos do Barroco só podia mesmo
traduzir-se em nostalgia, sentimento de ausência, que a partir do século
XVIII se tornou patente na estereotipação da ruína. A ruína é o vazio em cena, a metáfora da descontinuidade
entre os corpos, a hegemonia da monarquia sobre o tombamento das muralhas
do feudalismo. O trauma do nascimento, tempo original e perfeito. Uterino.
Cabe repensar a fotografia também como uma categoria de
demolição, pois atua ao mesmo tempo como embalsamador do tempo e
mutilador dos corpos. A pulsão da morte trabalha sobre os dois de modo
igual. Aldo Pelegrini percebeu bem esse sentido “Um objeto que se destrói,
se liberta de sua virtualidade material. Por isso todo ato de destruição
tem um sentido de um atentado ao pudor quando nos oferece a nudez total da
matéria. O humor, neste sentido é também um fenômeno destruidor da
mais alta hierarquia, ataca o estúpido o rotineiro e o pretensioso.” Acabou-se o espetáculo das ruínas clássicas. Nelas já
nem existem os ratos ou os animais que costumam vagar serenamente sobre
seus escombros. Ela é agora o lugar para onde se dirigem os turistas com
suas câmaras fotográficas, com a vã intenção de transferir a
imortalidade pétrea para a fragilidade do papel. Passar da ruína de pedra à ruína do papel. Converteram-se em paradas obrigatórias de todos os guias
turísticos. São fontes de dinheiro e de exaltação à cultura.
Antigamente, era o lugar tradicional do picnic,
o lugar onde se descansava o corpo, tal como a ruína mesmo. Contam as
histórias e lendas que nela sempre se encontra algo interessante. As ruínas
despertam a mente e excitam o corpo para explorar seus escombros em busca
de uma descoberta, de um achado, de um tesouro. Agora, já não há nada
para explorar, só para ser explorado na bilheteria, ou no bar mais próximo
onde vendem os postais. A ruína estereotípica imaginária do romantismo estava
rodeada de um ar bucólico, tanto que é bastante difícil concebê-la sem
a presença do campo, das heras, da natureza que a devora e a transforma.
Para todo apaixonado da ruína, a natureza sempre foi a grande mestre,
como disse W. Benjamin, mas ela não aparece na flor, mas sim na excessiva
maturidade e decadência de suas criações. Curiosamente, a este tipo de
abraço da natureza sobre a arquitetura, dificilmente associamos a destruição
ou à demolição premeditada, está impregnada de um falso sentido de que
sua morte foi causada somente por um envelhecimento natural. Isto porque,
para nós, o que a natureza destrói, sempre tem um sentido purificador ou
criador. A ruína como categoria estética é a mais autêntica
museificação da arquitetura. E, nada manifesta melhor esta tendência à
mumificação que o monumento em ruínas, quando se transforma em museu
aberto para os turistas. Onde há ruínas, há turistas, e onde há
turistas há comércio. Intercâmbio. O fascínio e a paixão pelas ruínas sempre existiu.
Desiderio Monsu, no início do século XVII, já havia pintado várias
formas de destruição possíveis de cidades imaginárias. Também, H.
Bosch, no século XV, soube habitar e transfigurar brilhantemente, todas
as ruínas com corpos, seres, animais e plantas. Entretanto, a ruína como categoria estética jamais
existiu até então, ela é um elemento moderno, um culto do romantismo e
da modernidade, que surge como obra de arte no final do século XVII, e
que no século XX toma o sentido de espetáculo, com os dadaístas, em um
processo de destruição dos objetos, em uma anti-arte, na intenção de
arruinar a arte burguesa tradicional. A exaltação ao fantasma romântico expressa-se exatamente
na fabricação de ruínas instantâneas, e coincide com a fragmentação,
o narcisismo, com a afetação em posar ante o tempo, o pintor, a objetiva
da câmara. A fabricação das ruínas é antes de mais nada um
capricho, uma afetação arquitetônica, que tanto pode servir como crítica
à arquitetura, como também para promover o ranço do passado; tudo
depende sobre que tipo de edifício se opera e se representa a destruição.
Parece-me que, o único sentido crítico de tal 'recreação', atualmente,
está na ironia da destruição das formas do presente imediato, tal como
a clássica imagem da 'locomotiva devorada pela natureza' que ilustrava um
artigo de Benjamin Peret, ou das arquiteturas do grupo SITE.
O que nasce velho não nasce jamais suficientemente velho,
para que não possa envelhecer ainda mais. Naturalmente as ruínas artificiais não mudam suas formas
da mesma maneira que a pintura de uma ruína, ou de uma fotografia. Não
é a ruína que decai, mas sim a pintura, da qual está composta. A luz
que afeta a química do papel fotográfico, ironicamente a mesma luz que
lhe originou. Bastante diferente da ruína artificial no parque, que muda
de forma e enganosamente se tornam genuínas com a passagem do tempo, ao
ponto de não se poder discernir exatamente a que período da história
pertenceram e se converterem em falsamente autênticas. O tempo
autentifica qualquer documento, ele põe uma fina película de passado
sobre todas as coisas vivas ou mortas. E quanto mais antiga seja uma ruína
fabricada, ou mais amarelada uma fotografia seja, mais verdadeiramente
falsas serão. A ruína refere-se a um sentido de destruição inato ao
homem e à natureza, e nunca deve ser confundida com o ruinoso, que
conserva a forma original, mas possui a matéria em um processo interno de
decomposição. Na criança podemos observar esse instinto de destruição
em sua pureza: a criança destrói objetos - como os castelos na areia que
ela mesma constrói -, não somente para conhecer melhor a totalidade do
fenômeno da criação, mas também para afirmar-se. Por este caminho,
facilmente chegaremos a compreender que a ruína é uma afirmação de
identidade. E é por isso que os nacionalistas recorrem sempre a ela, para
apoiar seus caducos discursos. Mas tudo muda no século XX, e mais precisamente a partir
da segunda metade, no que diz respeito à ruína. A experiência da 2ª
Guerra Mundial, tal como observou Ernest Bloch, distanciou as ruínas
sentimentais das provocadas pelos bombardeios. A ruína em Hiroshima
revelou, com sua química radioativa, a categoria máxima que se poderia
criar. Com a eminência de uma hecatombe nuclear dos anos 60, a ruína, ao
contrário de remeter-se ao passado, passou a aludir ao futuro próximo e
catastrófico, na qual a única protagonista seria ela mesma. Passa a ser
uma retenção, uma tentativa de parar o tempo. Esta dupla condição
atual vem caracterizando toda as representações e projetos que se fazem
das ruínas, principalmente no mundo do cinema. Muitos dos movimentos milenaristas escatológicos
reacionaram contra a ruína da história, tentando recuperar o tempo através
da recordação mítica, da ruína e do fragmento. A ruína é um revolvimento do passado, ela possui o poder
de voltar às origens, in illo
tempore, em busca de um tempo ideal. Como descreveu J. Quetglás:
"do passado só é nosso o que a memória conserva. Não as coisas,
mas o signo dessas coisas. A ruína, como o medo ou o amor, é um
sentimento. Não há ruína sem a crença em que houve o dia da origem. É
precisamente essa crença, e não o tempo, a causa direta e instantânea
da ruína". Já não existem tantas ruínas para serem descobertas,
escavadas, exibidas, como nos séculos anteriores. Perderam toda a fascínio
de revelação do passado portador de enigmas e mistérios. Quem caminha
sobre elas agora, não encontrará mais os mitológicos faunos saltitantes
ou as ninfas desnudas, só turistas com seus vídeos e câmeras fotográficas.
Ruínas sobre ruínas.
A arte que mais se assemelha às ruínas hoje é, sem dúvida,
o cinema, a fotografia e o vídeo. A imagem é a representação de um determinado universo,
num determinado momento. A fotografia é a representação deste universo,
num tempo passado. Por fim, a memória histórica parece não servir para
muita coisa, pois voltamos a repetir, mesmo conhecendo-os, os mesmos fatos
e erros cometidos anteriormente. A ruína arquitetônica não é mais necessária para a
recordação, foram designados outros suportes para sua representação,
menores, mais rentáveis, e mais fáceis de transportar: a fotografia, o
cinema e o vídeo. Esses suportes absorveram e substituíram uma das funções
da arquitetura. A ruína habita na fotografia. A ruína é a fotografia. A fotografia como ruína não passa de comprovação da
montagem da História. Atesta através de imagens o que a história
mediante texto ensina nos livros. Agora as ruínas arquitetônicas estão
mais arruinadas do que nunca. "O fotógrafo está comprometido, queira ou não, com
a função de transformar a realidade em antigüidade, e as fotografias em
si, configuraram antigüidades instantâneas. O fotógrafo oferece uma
contra-partida moderna desse gênero arquitetônico, tipicamente romântico
- a ruína artificial: a ruína criada para penetrar nas características
históricas de uma paisagem, para envolver a natureza numa aura - a aura
do passado". (Susan Sontag) A efemeridade do suporte se parece com as esculturas feitas
na areia. Um sopro de vento mais forte e as transformam em pó novamente.
De certa forma, desintegrar, fragmentar uma imagem, é consequentemente
liquidar com sua verossimilhança, com o objeto ou pessoa, com o passado,
não importando se realmente teve base em fatos reais, ou simplesmente foi
fruto da fantasia e da criação humana. Reagrupar tais fragmentos para construir um mundo novo
seria a reação no sentido exato do termo, seria a tentativa de
reconstruir um mundo que se destroçou. É verdade que não pode haver
collage num mundo ainda intacto, onde não existem cacos do mundo para
serem juntados. Quem faz collage não pode contentar-se com troços de um
mundo em ruína que o rodeia. E certamente, o que hoje os arquitetos
entendem erroneamente por Collage Temporal - justaposição de fragmentos
do passado e do presente- não será eterno. A visão cortada que a história
proporciona hoje, e que se apresenta agora como acumulação de trocas e
linguagens distintas, é falsa e será irrelevante para o olhar do amanhã.
Mas a vontade de trocar, a troca pela troca em si, é a expressão mais
cristalina de nosso tempo. |
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Fernando Freitas Fuão (Brasil, 1956). Arquiteto. Organizou o volume Arquiteturas fantásticas (1999). Autor de Canyons (2001). Contato: fuao@vortex.ufrgs.br. Página ilustrada com obras do artista Francisco Quinatanar (México). |