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revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004 |
livros da agulha
Esta
pergunta de Roberto Calasso resume seu livro: De
que falam os escritores quando mencionam os deuses? As
respostas passam pelo exame da dessacralização e desencantamento do
mundo associada à extinção do paganismo, e da morte de Deus a partir da
instauração da sociedade moderna, fundada no Iluminismo, entre outros
temas examinados neste recente A
Literatura e os Deuses. O ensaísta italiano, autor de outras obras já
publicadas no Brasil, sustenta que Os
deuses são hóspedes fugidios da literatura, pois Deixam nela o rastro de seus nomes. Mostra como, do Romantismo até
hoje, a poesia se apresentou como religião herética e cismática, na
tentativa de preencher o vazio deixado pelo refluxo do sagrado. Aparentemente,
não haveria nada de novo nesses tópicos e nessa ordem de considerações.
É um desafio ser original em um ensaio que começa pelo exame da ambivalência
baudelairiana diante do afastar-se dos deuses, da nostalgia pagã em Hölderlin,
e do combate entre Deus e Maldoror promovido por Lautréamont - todos,
temas que já renderam pilhas de ensaios. Há uma copiosa a bibliografia
sobre poetas, místicos e magos, sobre os deuses pagãos ou o Deus de um
cristianismo primitivo entrando pela porta dos fundos, pelo não-instituído,
associados à rebelião romântica, individual. Poeta
é sacerdote, disse Allen Ginsberg, em seu poema sobre Van Gogh. E
muitos foram os antecessores dessa proclamação. Basta lembrar como
Octavio Paz, em Los Hijos del Limo,
lê El Desdichado de Nerval, e No
Túmulo de Christian Rosenkreutz de Pessoa, como indicadores da morte
de Deus. No
entanto, se, de um lado, Calasso dá seqüência ao que já foi escrito,
de outro, enriquece esse capítulo da História da Literatura e do
comparatismo literário. Lautréamont ganha um capítulo sugestivamente
intitulado de Elucubrações de um
serial killer, sobre a aparente contradição entre Os
Cantos de Maldoror e Poesias,
para concluir que, Depois de
Stirner, Lautréamont é o outro bárbaro artificial que irrompe em cena,
pois….revelou aos satanistas românticos,
vasta tribo que culmina com Baudelaire, que eles haviam se detido nas primícias
do noir, sem descer ao detalhe do horror, com exatidão, paciência e
olhar sem névoa. Por isso, submeteu a literatura e a filosofia a uma lesão
fatal. Especialmente
denso é o capítulo sobre Mallarmé, que inclui uma interpretação do
soneto em yx. O autor de O
Demônio da Analogia é associado, com propriedade, à literatura
absoluta, onde deuses reaparecem, ao empreender desse modo a destruição
do sentido e a absolutização do poema. Há
muito mais autores discutidos em A Literatura e os Deuses. O importante a assinalar é que sua
argumentação não é mecanicista, não se limita à simples constatação
da emergência do sagrado em outro lugar, fora do institucionalizado.
Mostra a complexidade dessa aparição, ou reaparição, que, desde os
primórdios do Romantismo, com Hölderlin, se manifesta como o terrível,
o caos, a fulguração enlouquecedora, a destruição da individualidade.
Em outras palavras, os deuses não transigem: sua volta nunca deixa de
associar-se ao dionisíaco nietzcheano, mesmo em um autor aparentemente tão
cerebral como Mallarmé, o pai do formalismo. No
último capítulo, alguns parágrafos de alerta, sobre o modo como a política
e o pensamento social de matriz positivista tomaram o lugar da religião,
em um deslocamento cuja conseqüência inevitável são regimes totalitários.
Isso também já foi dito antes. Mas precisa ser repetido. É um motivo
adicional em favor da leitura e adoção de A Literatura e os Deuses. [Claudio
Willer]
O
que teriam em comum o argentino Jorge Luis Borges, o britânico Peter
Greenaway, o brasileiro Arthur Bispo do Rosário e o francês Georges
Perec, artistas aparentemente díspares na nacionalidade, na arte e na
vida? Podemos
dizer que Borges é/foi um catalogador irônico da insensatez e do
incontrolável; Greenaway, um desqualificador do esforço humano de
representar a racionalidade do mundo; Bispo do Rosário, um entulhador de
objetos avulsos, registros de sua passagem pelo mundo; e Perec, um
colecionador de sistemas como desejo de ordenação do mundo e do
conhecimento. Ou seja, todos experimentaram o “exercício criativo da
taxonomia (…) pelo propósito de subverter/criticar a lógica burocrática
que define o uso dos sistemas legitimados de organização do mundo.” Com
o sentimento dos versos da canção de Paulinho da Viola - “as coisas
estão no mundo / só que eu preciso aprender” -, diremos que precisamos
aprender a apreender. É a isto que o olhar crítico da mineira Maria
Esther Maciel (1963) nos estimula: apreender a ordem e a desordem, a
realidade e o delírio, a construção e a desconstrução de universos
artísticos. Demonstram-nos isso os textos escritos entre 1999 e 2003,
reunidos pela novíssima editora Lamparina, do Rio de Janeiro, em A memória das coisas: ensaios de literatura, cinema e artes plásticas. A
obra se divide em quatro partes: a primeira, “Inventários do mundo”,
inclui os artistas já mencionados, resgata Visconde de Taunay e sua Zoologia
fantástica do Brasil (1934) e acena para os contemporâneos Wilson
Bueno, Valêncio Xavier, Caio Fernando Abreu, Zulmira Tavares Ribeiro e
Sebastião Nunes; a segunda, “Texto, imagem, tradução”, reflete
sobre a interseção da poesia do cinema com a da literatura, via
Bressane, Helvécio Ratton, Buñuel, Wenders e Jarmusch, levando a crítica
a indagar “qual seria a poesia possível de nosso tempo?”; a terceira
parte, revê a poesia de coisas de Drummond, especula sobre as construções
de Altino Caixeta de Castro e Maria Gabriela Llansol, portuguesa, e
comenta sobre vertentes da poesia híbrida, que se dá “às margens do
verso”; por fim, revela-se poeta, em entrevista concedida a Floriano
Martins. Ao
estudar a poesia do mineiro Altino Caixeta, a autora de O
livro de Zenóbia (Lamparina, 2004), surpreende-nos pela sutileza com
que trata a poética desse exilado da nossa cena literária. Pela leitura
transversa dessa poesia entrevista como paradoxal e atópica, assim como
pela re-visão do feitio enciclopédico e irônico do poeta, a nosso ver,
Caixeta aparenta-se com o cearense poeta Pedro Henrique Saraiva Leão,
autor de Meus eus (UCF/Casa de
José de Alencar, 1995). A
memória das coisas
é obra de pesquisadora arguta. O texto preciso distancia-se das empolações
e muitas vezes ininteligível escrita de pares acadêmicos. Trata-se de
obra que deve ser degustada lentamente, saboreados os vazios e as reentrâncias,
e, melhor ainda, se preenchida, simultaneamente, com as indicações da
autora. É talvez por ser também poeta que Maria Esther Maciel tonifica
seu texto crítico com a verve de quem lida com a subjetividade da matéria. Na entrevista contida no final da obra, a autora nos ensina que “o exercício crítico requer também a responsabilidade ética de entender a lógica do outro, para então colocá-la em crise, evidenciar suas contradições e fragilidades”. Se ela admite esse rigor em gestos de confissão, cabe-nos como leitores apreciar os gestos desses rigores. [Jorge
Pieiro]
A
essência brasileira está agora nas páginas da nova Coleção de
Fotografia: Brasil - Natureza e Poesia. Poesia que surge da terra,
do fogo, da água, do ar, do povo brasileiro. A poesia que se mostra em
palavras e imagens captadas por artistas de grande sensibilidade: os fotógrafos
Iara Venanzi e Luciano Candisani, e o poeta Raimundo Gadelha. “Quando
fui convidado a escrever estas palavras, para uma coleção chamada Brasil
- Natureza e Poesia, pensei: - Natureza e poesia É o Brasil. Que
iniciativa linda! Que alegria ver as fotos do livro! Que beleza os tankas
que o compõem!” - Lars Grael na apresentação desta edição. E como
ele mesmo diz, o Brasil é rico pela sua beleza natural, pelo seu conteúdo,
e agora é detentor de mais esta riqueza que se faz em livro. Raimundo
Gadelha é formado em publicidade e em jornalismo - com especialização
na Universidade de Sophia, em Tóquio, Japão - é poeta e fotógrafo. Sua
obra sofre grande influência da poesia clássica do Japão, onde viveu
alguns anos na década de 80. Trabalhou durante três anos como editor da
Aliança Cultural Brasil-Japão e, em 1994, fundou a Escrituras Editora. Iara
Venanzi iniciou sua carreira profissional como fotógrafa na agência de
publicidade Expressão Brasileira de Propaganda em 1982, onde realizou
trabalhos para diversos clientes, dentre eles a Varig. Passou a colaborar
com a Ícaro, a revista de borda dessa companhia, realizando
durante 20 anos matérias em várias regiões do Brasil e em diversos países
do mundo com enfoque em hábitos, cultura, comportamento, geografia e
arquitetura. Hoje exerce a função de editora de fotografia na revista Ícaro
e em seu estúdio próprio atende agências de publicidade, editoras e
clientes diretos, desenvolvendo trabalhos fotográficos nas áreas de
arte, jóias, arquitetura, still, retrato e culinária. Luciano
Candisani é fotógrafo especializado em temas de meio ambiente. Seus
trabalhos, premiados no Brasil e exterior, são publicados por revistas
como National Geographic, BBC Wildlife, Sailing Magazine,
Illustreret Videnskab, National Geographic Brasil (Prêmio
Abril de Jornalismo - 2002), Terra, Veja e Época.
Sua produção conta também com cinco livros fotográficos. Entre eles, Peixe-boi
(DBA, 2001), que traz o mais expressivo ensaio fotográfico já
produzido sobre a espécie, e Atol das Rocas (DBA, 2002), o
primeiro livro sobre essa ilha oceânica brasileira. Vem percorrendo
alguns dos locais mais remotos do planeta, como Antártida, Amazônia,
Terra do Fogo, Fiordes Chilenos, Patagônia, Galápagos, Atol das Rocas e
Ilha da Trindade para produzir matérias e livros com um estilo peculiar
de mesclar técnica fotográfica com criatividade. Atualmente dirige sua
agência de imagens de natureza e dedica-se ao registro da biodiversidade
e conservação no Brasil.
Desespero
Blue
vem somar-se aos treze livros de poesia já publicados por Lucila
Nogueira, que também é professora de Teoria Literária na Universidade
Federal de Pernambuco (Recife), e autora de uma copiosa produção ensaística.
Editora de uma revista voltada para a lusofonia, a aproximação entre as
literaturas de língua portuguesa, apropriadamente intitulada de Encontro. Sem
nunca negar sua relação com o Recife, Lucila Nogueira é uma poeta
cosmopolita. Ao longo das páginas de Desespero Blue, parece querer abarcar o mundo. Declara-se uma
viajante imemorial, uma outra
dentro de si mesma que assistiu
à fundação de Veneza; outra que é a mesma de quem meu
corpo adormeceu na ilha de Samos. O
que ela nos apresenta não é, portanto, um relato, mera descrição de
paisagens, lugares e experiências. Há vários mundos que se cruzam em
seus poemas. Aquele - físico, imediato, fenomênico - dos lugares onde
esteve ou tem estado; outro, da subjetividade, dos sentimentos e emoções;
e outro ainda, do simbólico, da palavra, especialmente em sua manifestação
mais elevada, como palavra poética. Pode-se
dizer que Lucila Nogueira viaja pelo mundo da literatura do mesmo modo
como viaja pelo mundo geográfico. Assim como, em um dos poemas, enxerga os
deuses de pele verde e olhos oblíquos da arquitetura de Gaudí, em
outros apresenta-se como avatar, porta-voz de autores, na série Desdizeres.
Nela, diz o que Artaud disse, ou teria dito: entre outras coisas, que o
fogo chegou antes da obra/ mas a obra irá destruir o fogo. Há mais
paráfrases ou pseudo-transcrições: segundo Bukowski, ver
o touro vencer o matador/ é o melhor. Também atribui frases a
Thoureau, Virgínia (Woolf), Sylvia (Plath), Alfonsina (Storni) e Al
Berto, entre outros. Ao fazer essas escolhas, toma o partido dos rebeldes,
dos inquietos e inconformados. Proceder
desse modo, reescrevendo outros autores, é uma ousadia, pela inevitável
comparação com o original que semelhante procedimento acarreta. Lucila
Nogueira é uma escritora que corre riscos, e essa, sem dúvida, é uma de
suas qualidades. Além disso, ela nos apresenta, não só nessa série de
poemas, mas também no restante do livro, uma metáfora da própria criação
poética, como sendo um diálogo apaixonado com a própria literatura. Chama
a atenção, ainda, em Desespero Blue, a disposição gráfica original dos versos de
alguns dos poemas, acentuando um ritmo tenso, acelerado. E a condensação,
a capacidade de síntese, algumas vezes deixando algo a ser dito,
incorporando a entrelinha, a alusão e sugestão, como modos de expressão.
Tudo isso muda no poema final do livro, Sentimento
Súbito, em tom confessional, extenso, e em verso longo. Mas isso não
significa uma queda ou quebra da tensão poética, porém, antes, uma
demonstração da pluralidade dos recursos expressivos de Lucila Nogueira,
pelo modo como esse poema complementa o que vinha sendo dito nas páginas
anteriores. [Claudio
Willer]
A
quienes creen que Pablo Neruda es el poeta más importante de Chile, a
quienes ven en él un elefante que marca, con su patita, el compás de los
poetas chilenos, Dios los guarde. Neruda tiene sin duda un lugar de
privilegio en la historia cultural chilena y latinoamericana, pero, ya sea
por razones literarias, políticas o puramente personales, para muchos es
un personaje irritante e aun despreciable. “Gallipavo senil y
cogotero”, lo llamó el poeta Pablo de Rokha, su detractor vitalicio. De
“gran mal poeta” lo trató Juan Ramón Jiménez. Y Vicente Huidobro
sentenció su obra como “la poesía especial para todas las tontas de América”.
Huidobro acuñó también el curioso y ladino apodo con que los
antinerudianos conocen al autor de Crepusculario: el Bacalao. Curiosamente,
o quizás no tanto, en la miríada de retratos que se han hecho del poeta
suele estar ausente ese pez escurridizo, oscuro y abismal que fue Neruda
en más de un aspecto. Este reverso de la medalla, menos grato que el del
poeta coleccionista y enamorado, resulta imprescindible sin embargo para
el conocimiento cabal de uno de los grandes hitos de la poesía
latinoamericana. Este
libro recoge textos antinerudianos en dos sentidos: textos contra Neruda
propiamente tales, y textos que muestran diversas facetas de ese
Antineruda desconocido o históricamente soslayado, muy diferente del vate
fotocopiado que vive ahora en Isla Negra. Son
los siguientes los autores de los textos que están en este libro: Vicente
Huidobro, Enrique Gómez-Correa, Pablo de Rokha, Eduardo Anguita, Juan Ramón
Jiménez, Juan Larrea, Octavio Paz, Guillermo Cabrera Infante, Floriano
Martins, Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal, Enrique Lihn, y otros más.
La compilación está hecha por Leonardo Sanhueza (1974), poeta, editor y
articulista de prensa, que ha publicado los libros Cortejo a la
llovizna (1999) y Trés bóvedas (2003). Además, ha realizado
como editor un valioso trabajo de difusión de la poesía chilena, en el
que sobresale la compilación de la Obra poética de Rosamel del
Valle (2000) y diversos libros de poetas jóvenes publicados en su sello
Quid Ediciones.
Forma
& alumbramento
é livro-irmão de Tumulto de amor e
outros tumultos, que o precedeu em 2001. Antes, Mário de Andrade.
Agora, Manuel Bandeira. Dois personagens. E como seria de esperar, Ruy
Espinheira Filho interpreta a obra de Bandeira com a mesma devoção com
que interpretou a obra de Mário. Trata-se de uma conversa de poetas, um
diálogo de criadores, evidente desde as epígrafes, onde tudo está dito
no trecho de uma carta de Mário a Oneyda Alvarenga: “Poetas e
romancistas foram sempre os melhores propulsores de compreensão estética.
Muito mais até que os críticos profissionais técnicos de suas artes,
porque estes são levados fácil e insensivelmente para o lado didático,
em vez de para o lado criador, da crítica.” Aqui, o personagem Mário
de Andrade de novo volta à cena imbuído do seu papel de mediador do
debate, distribuidor de poesia e crítico dos mais preparados de sua época.
É natural, pois as discussões técnicas também ocupam os poetas. E são
elas, as discussões técnicas, a substância e o tempero deste livro. Bandeira
confessa no Itinerário de Pasárgada que, estudioso que era - e admirador, é
bom que se diga - de Alberto de Oliveira, Bilac, Raimundo Correia e
Vicente de Carvalho, o verso livre seria para ele uma conquista difícil.
De maneira que só aos poucos pôde sentir-se totalmente liberto da
tirania métrica. Mais que isso: seduzido pelo que chamou de “conceito
musical do verso”, sabia como ninguém que mesmo as formas fixas podem
ser fluidas e dinâmicas, e isto em parte explica por que o artífice métrico
nele permaneceu intacto frente à aparente liberdade das formas polimétricas.
Estas e outras considerações encontram-se no Itinerário,
uma das fontes primordiais deste estudo que confirma Ruy Espinheira Filho
ao lado dos nossos melhores intérpretes do Modernismo. Sem esquecer que,
em Ruy, é o poeta quem orienta o crítico: “A ‘experiência’ é
muito menos uma vivência, uma experimentação do fatual, do que uma
percepção nascida da sensibilidade.” Lição válida não apenas para
a arte, mas, claro está, para a vida. Ainda
como no livro de 2001, também a obra de Bandeira nos sugere uma visão
panorâmica da poesia brasileira do século 20. Na medida em que exalta a
coerência e a beleza dessa obra, Ruy denuncia um sistema literário
erguido muitas vezes sobre os alicerces das omissões e dos embustes - uma
abordagem que ultrapassa as fronteiras deste ensaio e que no entanto o
autor tangencia admiravelmente. Apoiado por esse verdadeiro manancial que
é a correspondência Mário/Bandeira e por todo um aparato crítico que,
nos últimos decênios, veio comprovar e consagrar muito do que esses dois
grandes artistas disseram e fizeram, Ruy aos poucos coloca cada coisa em
seu lugar. Um
livro escrito com convicção, honestidade e envolvimento de alma. Um
livro no qual os poetas conversam. [André
Sefrin]
Vida
e obra do artista plástico Arcangelo
Ianelli são contempladas em sua essência com a edição deste
livro. Com coordenação editorial de Katia
Ianelli, a publicação é editada pela Via
Impressa e reúne textos de Eduardo
da Rocha Virmond, José
Roberto Teixeira Leite, Juan
Acha, Mariana Ianelli e Paulo
Mendes de Almeida, além de vasto material iconográfico. Um
registro definitivo para o artista que considera sua atividade "uma
profissão de fé". Foram
dois anos e meio divididos entre pesquisa e concepção, até que o livro
estivesse pronto. Este período inclui um hiato de seis meses, durante o
qual o artista enfrentou um problema de saúde, ocorrido no final de 2002.
Isso não o impediu de retomar o trabalho logo aos primeiros sinais de
recuperação, participando ativamente de todo o projeto, desde a diagramação
até a "Por
todas as circunstâncias, concluir este trabalho é cumprir um compromisso
com o próprio Ianelli, que tem a felicidade de poder presenciar este
momento especial de sua trajetória", resume Katia Ianelli.
Obedecendo a cronologia e encampando o caráter didático que sempre
permeou a obra do artista, o livro mescla suas memórias - colhidas em
sessões de entrevistas Esta
abrangência é comentada pelo curador e artista plástico Emanoel Araújo
no prefácio - que também traz considerações de Fábio Magalhães. Ele
ressalta a falta de visões gerais sobre o legado de importantes artistas
plásticos brasileiros. "Diante dessa forma generosa de produção
ianelliana, podemos refletir os muitos anos de consciência e trabalho. São
de fato "Primeiros
tempos" traz o registro de suas obras na Escola de Belas Artes, com o
rigor absoluto das sessões com modelos vivos. Na seqüência,
"Figurativo" reproduz uma série de obras nunca expostas ou
vendidas, criadas nas décadas de 40 e 50, que inclusive serão utilizadas
numa mostra prevista para o segundo semestre deste ano, em São Paulo. As
mudanças de fases - processos sempre conduzidos de maneira gradual por
Ianelli - são pontuadas no livro por análises aprofundadas dos críticos,
muitas delas escritas especialmente para o projeto. Neste
contexto, Paulo Mendes de Almeida recorda o momento em que Ianelli
abandona os salões oficiais para "recriar as formas visíveis da
natureza em valores eminentemente plásticos", na transição do
figurativo ao abstrato; José Roberto Teixeira Leite define a chegada dos
anos 60 como um momento em que "sua pintura já não representa,
significa em si mesma"; e Juan Acha, crítico de arte mexicano,
identifica a obstinação de Ianelli em "conservar a superfície
tradicional da tela, ansioso por enfocá-la e solucioná-la com um espírito
atualizado e conhecedor da realidade artística de nosso tempo",
quando ele opta pelo mais específico da pintura, já nos anos 80: a cor. Registros
da fase geométrica e da fase atual, as mais extensas de sua trajetória
artística, relevos em madeira, esculturas e da série realizada no Chile,
"Corpos Pintados" - alguns deles inéditos - completam o passeio
pelas seis décadas da arte de Ianelli.
Este
livro de Maria da Paz Ribeiro Dantas, que tenho a satisfação de
apresentar, é uma obra de movimento em movimento, de envolvimento e
revolvimento de uma poeta paraibana-recifense que tem dedicado mais de
vinte anos de sua vida ao estudo da obra de Joaquim Cardozo. Sua chegada
coincide com um momento muito importante da história do nosso país, em
que se vislumbram alternativas de futuro-do-passado, assinalado por
esperanças e incertezas. Coincide também com um tempo em que se ampliam
os estudos sobre o dramaturgo que compôs De uma noite de festa (não
mais totalmente apagado da nossa história cultural), e que tem em Maria
da Paz, ao falar do Trivium, a desbravadora de uma verdadeira mata
virgem da poesia brasileira, para não dizer universal, representada por
“Visão do Último Trem Subindo ao Céu”. Joaquim
Cardozo contemporâneo do
futuro
analisa a poesia do autor de Mundos
paralelos, o homem
marcado pelo local de sua cultura, sua singularidade universal, sua
pluralidade e multiplicidade. Forma, espaço, tempo, arquitetura,
engenharia, movimento, ação, memória, mito, geografia, cosmos, física,
matemática, solidariedade, finitude e infinitude são balizas que
constroem o roteiro deste livro. Na
primeira parte da obra, Maria da Paz desvela um rizomático entrelaçamento
da vida e da obra do poeta, retomando e ampliando seu ensaio biográfico
sobre Cardozo, Prêmio Jordão Emerenciano na categoria Ensaios, dos Prêmios
Literários Cidade do Recife, versão de 1984, que veio a ser publicado em
1985. Neste Contemporâneo
do futuro, Da Paz, com
argúcia e sensibilidade poética, esmiúça as marcas do imaginário do
poeta-engenheiro, sua vida e sua relação criativa com o ser humano e a
natureza, além de absorver fragmentos de Água
de chincho, coletânea
inédita de contos autobiográficos, que ela considera como uma das
melhores fontes de informação sobre a vida de Joaquim Cardozo. Como
observa a autora, no poeta de Signo
estrelado “as palavras
não são apenas palavras; são rastros
de fenômenos […]”. Creio que essa seja uma das chaves para se abrirem
as portas da compreensão das obras aqui analisadas. Uma linguagem que se
edifica de rastros em movimento e ação; linguagem de restos do homem e
da natureza; fragmentos da história, da cultura e da sociedade tomados a
partir de um olhar multivário e
semovente, voltado para narrar e produzir sentidos. Cardozo não apenas
olha e vê com seu aparato de representação poética, mas empreende uma
visada de sujeito fraturado, segundo o conceito de Luiz Costa Lima,
reordenando suas imagens estilhaçadas da história, em fusões, superposições,
tensões, inversões e transmutações. Sua forma é energia. Energia
compartilhada e agenciada por uma poesia que se expande para além das
estrelas, partindo do local de sua cultura e de sua posição de sujeito
que ali se desloca. Cardozo
possui uma visada de mundo como revolução permanente, um processo
mutacional que reintegra o tempo, o espaço, o movimento a uma microfísica
e a uma macrofísica do fenômeno artístico contemporâneo. Essa visada
é averiguada com muita justeza por Maria da Paz, logo no início da
segunda parte do seu livro. A autora compreende que o esforço cardoziano
de produzir poesia como quem dissemina estrelas altera substancialmente
suas concepções de tempo e espaço. E acrescento: tempo e espaço
sociocultural, que vão se tornando mais e mais significantes a partir de
“Arquitetura Nascente & Permanente”, processando mundos paralelos,
de fronteiras arbitrárias, até alcançar o interior da matéria. O
trabalho de Maria da Paz possui muitas colinas de excelência, porém a
mais alta e profunda é aquela em que ela analisa o poema “Visão do último
trem subindo ao céu”, segunda composição da trilogia denominada Trivium,
escrita entre 1952 e 1970. Sua investigação, nesta parte do trabalho,
parece-me ser um daqueles frutos que necessitam de uma vida para
amadurecer. A autora, madura, demonstra seu grande esforço de aproximação
com a obra e a vida de Cardozo. Esforço da poeta que caminha ao encontro
da ciência, da sabedoria, do autor. Investimento epistemológico e humano
para compreender e assimilar a física contemporânea se fazendo poesia,
buscando romper barreiras e desfazer equívocos entre arte e ciência.
Essa penetração no mais complexo poema de Cardozo iniciou-se nos anos
1980, quando Maria da Paz publicou o resultado de sua pesquisa acadêmica
intitulada O mito e a ciência
na poesia de Joaquim Cardozo; uma leitura barthesiana, em convênio firmado
entre a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco e
a José Olympio Editora, em 1985. Entrando
no extremo do aqui e do agora, a
autora tem a nítida e inequívoca interpretação de como Cardozo concebe
e representa a morte-vida, presente não apenas no poema “eletromagnético”
que se encontra em Trivium, mas em toda a sua obra, notadamente a
obra dramatúrgica. Maria da Paz nos diz que o “tratamento dado ao tema
morte desbrava um espaço que talvez nunca tenha sido visitado pela
poesia. Com a imaginação auxiliada pela matemática, o poeta de ‘Visão
do último trem subindo ao céu’ entra nesses espaços inconcebíveis,
‘curvados’ à imaginação humana”. Eu diria mais: Cardozo desafia
nossa imaginação de atualizadores de sua obra mediante o efeito
provocado por sua forma de representar o irrepresentável, de configurar o
indizível. Sinto falta, no entanto, de uma pertinente analogia entre as
proposições poéticas de Cardozo, captadas da lógica e da física quântica,
e o processo sociocultural. Analogia entre posição social do sujeito e
situação pontual de um dado observador de eventos físicos, que
desconstrói um presente contínuo universal. Sei também que essa ausência
sentida extrapola os limites que a autora estabeleceu para a sua análise,
de cunho mais imanentista. Este trabalho, brilhante e honesto, mergulho
exaustivo no interno da poesia cardoziana, é um precioso presente ao
leitor, que encontrará elementos para fruir essa poesia, aqui escolhida,
e refletir sobre o Cardozo que ultrapassa gestos-palavras, em direção ao
futuro-do-presente-mutante. Lá onde se encontram novos cardozos, outros
espaços-tempos desconhecidos do universo, do corpo e da alma humana em
expansão. [João
Denys Araújo Leite]
En
poesía existe la inspiración y existe la reflexión. Son los dos
momentos de la concepción del poema: el don y el proyecto. El primero es
automático, involuntario, pertenece al oído y quizás al dictado de
alguna deidad tutelar que quiere comunicarse con el mundo sublunar; el
segundo está en el ámbito de la inteligencia, del trabajo formal.
Durante buena parte del siglo XX el proyecto quedó acorralado o anulado
para que el don pudiera encarnarse en todo su esplendor, para que el poeta
fuera un médium de un discurso que la inteligencia no debía ni podía
controlar: un discurso divino, de origen celestial o inconsciente. Veta
neorromántica agotada desde hace tiempo, aunque abunden todavía los
esforzados de la mera inspiración. Pero aparecen los poetas dotados que
nos muestran cómo el poema, para recuperar su entidad estética, necesita
del proyecto, de la reflexión: Samoilovich es uno de ellos. Desde hace
tiempo abandonó la publicación de libros como recopilación de piezas
sueltas y casuales para dedicarse al trabajo del poema como género único,
abarcador, completo. El poema no es para él un dictado de la musa: es la
mesa de negociación en que la musa insiste y claudica. Creó así algunos
de los libros más importantes de nuestra poesía en los últimos tiempos:
El carrito de Eneas (Buenos Aires, 2003); El despertar de
Samoilo (se publicará el año que viene), Las encantadas. Las
encantadas
es una visión fragmentaria, paródica, sesgada y tragicómica del viaje
de Darwin a las Galápagos, donde tuvo la primera iluminación de su teoría
de la evolución de la especie. Visión opaca y sesgada porque sobre el
viaje de Darwin se imprime el viaje de Melville, quien llamó Encantadas a
la Galápagos, y sobre él el viaje del propio poeta o de su personaje poético
desde Quito después de una noche en un casino, y el viaje de los dos
Ulises (el de Homero y el de Joyce; recordemos que El despertar de
Samoilo, libro gemelo de Las encantadas, surgió de un
malentendido acerca del “argumento” de Fginnegan’s Wake) y el
de Eneas (el del carrito y sus transmutaciones porteñas) y quizás también
el de Colón, puesto que se trata de América, de la lectura del Nuevo
Mundo con los ojos del Viejo y de la fractura en la lengua misma para
insinuar esa voz que no puede ser única y se troquela en un poliedro.
Balbuceo, anacoluto, caligrama, voces resacosas que dicen que parece lo
que no parece, iguanas que confunden las botas amarillas con flores de
retama, ruletas en las que parece que se gana y al final se pierde, piezas
sueltas que se imantan en el giro de una narración oscura y sin embargo
cerrada en su espiral (Nabokov: “la espiral es un círculo
espiritualizado”). En la recuperación del poema como totalidad, como
encuentro del don y la reflexión, del oído y el proyecto, Samoilovich
dibuja una tradición que pasa por Milton y por Byron, por Juan de Mairena
(para quien “para ver del derecho hay que haber visto antes del revés.
O viceversa”) y por Girondo (para quien “paso a pozo nadiando ante
harto vagos piensos de finales compuertas que anegan la esperanza”). Por
el Neruda menos obvio del Canto general y quizás por otro viaje,
el que hizo el Altazor de Huidobro en paracaídas. Viajes
americanos en sentido horizontal o vertical, terrestres o celestiales, que
se plasman en proyecto poético, en obra cerrada. Enrique Lihn escribió
que Neruda fue “mal leído por sus manipuladores y admiradores acríticos,
entre los cuales se contó el propio Neruda”. Uno de los muchos aspectos
interesantes de Las Encantadas es que redescubre a Neruda e
inaugura una manera distinta de leerlo; del mismo modo en que vuelve sobre
los juegos más audaces de Girondo, los calembours masmedulares, y
los incorpora como un elemento más, como el sostenido de una nota, no
como elemento excluyente, clave, como suelen hacer los epígonos menos
dotados de los maestros vanguardistas. Pero
además subrayaría que, por la época en que escribe Las Encantadas,
Samoilovich traduce, junto a otra gran poeta, Mirta Rosenberg, Enrique
IV primera parte de Shakespeare, y algo de la voz, de la poderosa y
facetada voz de Falstaff, el gordinflón lleno de juramentos y
exageraciones que para hacerse pasar por rey usa como trono un banco de
taberna, como cetro una daga de plomo y como corona un almohadón sobre la
coronilla calva, está también en esta unidad de fragmentos, en estas
voces estalladas y recompuestas, en esta carcajada que sacude y reacomoda
el edificio de la argumentación y el discurso con varios espesores de
sentido. Bloom: “Los más libres de entre los libres son Hamlet y
Falstaff, porque son las más inteligentes de las personas de
Shakespeare”. Con
Las encantadas Samoilovich, más que agotar una vía propia, abre
un espacio poético. La rareza de nuestro presente consiste en que,
agotado estéticamente el siglo XX bastante antes de su final cronológico,
no podemos cerrar el broche del siglo XX: el visible carácter epigonal de
todo cuanto llega a nuestras manos así lo muestra. Como algunos poetas
argentinos más jóvenes que él (y ésta es una de las virtudes de
Samoilovich, constante al menos desde la fundación del Diario de Poesía
en 1986: no sólo saberse y pronunciarse deudor de sus mayores, cosa fácil,
sino haber desarrollado una gran capacidad de sincronía e intercambio con
los más jóvenes, cosa bastante más complicada), pienso en García
Helder, en Martín Gambarotta o en Sergio Raimondi, Samoilovich parece
haber decidido que, en tanto no esté en nuestras manos echar por la borda
las estéticas ya conocidas, nuestro deber es llevarlas hasta su grado máximo
de posibilidad, hasta su esfera más alta de enrarecimiento, allí donde
sus potencialidades se vuelven contradicciones y donde sus instrumentos
expresivos hacen parodia de sí mismo: es decir, donde el poema es
proyecto cuyo espacio se prolonga más allá de su propia vibración, como
la cuerda del arco. Las Encantadas oscila en esa frecuencia y por
eso leerlo y escucharlo aparece no sólo como ocasión de disfrute sino
casi como deber en la senda de la sensibilidad poética que vendrá. [Edgardo
Dobry]
Romances epistolares são uma modalidade anacrônica por
excelência. Estão associados às origens da narrativa moderna em prosa,
gerando pelo menos um grande clássico, uma obra que permaneceu, Ligações Perigosas, de Laclos. Isso, quanto às cartas fictícias,
não aquelas escritas pelo autor, mas atribuídas aos personagens desse
autor. Narrativas epistolares clássicas adotavam essa forma
porque era assim que as pessoas se comunicavam, em um tempo em que não
havia telefone, nenhum outro meio eletrônico, e a palavra escrita era
algo mais importante, muito mais levado a sério. Hoje, a carta é exceção,
um signo do distanciamento, da dificuldade de comunicar-se diretamente. E,
entre a carta e o e-mail, há uma diferença fundamental: este é meio de
comunicação rápido, econômico, breve. Nas cartas, seus remetentes se
expandiam: eram às vezes confessionais, outras ensaísticos. Daí cartas
de verdade, as não-ficcionais, terem um valor autônomo, atestado pela
permanência das centenas de páginas do volume da correspondência entre
Goethe e Eckermann, pelas obrigatórias cartas de Rimbaud, esclarecendo
sua poética, ou pelas Cartas do Yage de Burroughs e Ginsberg, narrativa
de suas viagens alucinadas e alucinógenas. Mas Betty Milan, nesta sua mais recente narrativa em prosa,
mostra sua contemporaneidade. Expõe o modo como a epístola retoma lugar
em nossas vidas, agora sob forma de e-mail, e não mais de carta pelo
correio ou através de um portador. Ao longo das páginas de O Amante Brasileiro, o fio do enredo é sustentado pela escrita mínima
da correspondência eletrônica. Seu requisito de síntese e condensação
adapta-se ao estilo dessa narradora. E não a impede de passar em revista
o amor, ao longo da história da humanidade. Há uma tensão nas entrelinhas dos e-mails trocados entre
Clara e Sébastien, mais que um drama explícito. A questão, o aparente
conflito central da narrativa, aparentemente, é apenas quando irão
finalmente encontrar-se fisicamente, libertar-se das mediações. Acabam,
ao final, conseguindo transpor a distância entre continentes. Mas o
interesse não está apenas nesse fio do enredo, nem em alguns enredos
paralelos, porém na reflexão sobre a relação a dois. Betty indica o
sentido dessa reflexão, ao mencionar Octavio Paz e seu A
Dupla Chama, obra que, na esteira do surrealismo, reafirma a relação
amorosa, na continuidade do amor cortês, como desafio à odem
estabelecida. O
Amante Brasileiro é repleto de alusões. Parece sugerir que sempre há algo
entre, alguma mediação a
interpor-se. Fronteiras vão sendo superadas; mas comunicar-se não é
questão apenas de cliques através do computador: lutamos contra uma
agenda que determina onde poderemos estar; mesmo hoje em dia, quando, cada
vez mais, tornamo-nos cidadãos do mundo. O amor não perdeu a natureza
problemática, e O Amante Brasileiro
poderia ser lido como metáfora. Clara e Sébastien não são Werther e
Carlota, ou quaisquer outros arquétipo do amor impossível. Mas, ao mesmo
tempo, o são. Isso é sugerido pelo restante da rede de comunicações de
Clara: seus e-mails não são apenas com Sébastien, porém com aquelas
pessoas que a consultam, e expõe, por sua vez, seus relacionamentos (em
um enredo calcado, aparentemente, na experiência da própria Betty ao
conduzir um chat, sessões de
conversa pela net, sobre esses temas). E nessas histórias paralelas há
assimetrias, buscas do impossível, experiências abissais, trajetórias
que não chegarão a bom termo, renúncias e abdicações. [Claudio
Willer]
Não
faltaram publicações de interesse para comemorar os 450 anos de São
Paulo. Entre delas, destaca-se esta antologia preparada pelo também poeta
Luiz Roberto Guedes. Reúne, nas 182 páginas de uma edição graficamente
atraente, sugestiva e bem acabada, algumas dezenas de autores que
escreveram sobre a metrópole desde 1911, com Afonso Schmit, até hoje.
Abrange, portanto, modernistas e contemporâneos. E seu recorte cronológico
dá a impressão de que São Paulo é um fenômeno do século XX, ao menos
como tema de poesias. E, por mais que tenha mudado, que a cidade continua
a mesma, pois, em 1942, Afrânio Zuccolotto já proclamava: Meu
irmão, esta cidade/ Está crescendo demais. Mal sabia ele… A metrópole
aparentemente alucinada desse e de outros poetas da primeira metade do século
XX ainda era um burgo aprazível, se comparada ao que viria depois. Ao
longo das nove décadas cobertas pela seleção, o que se mantém, o que
permanece o mesmo, é a própria mudança, o fato de a cidade não ser a
mesma. Por isso, a diversidade dos poemas, a multiplicidade de estilos,
das soluções formais e das poéticas subjacentes, com seus contrastes e
antagonismos, talvez retrate melhor a realidade paulista do que este ou
aquele poema, tomado isoladamente. Talvez a dinâmica, esse atributo da
modernidade, conforme já havia antecipado Baudelaire, seja aquilo que
mais atraiu e inspirou os poetas, desde Mário de Andrade (no modo mais
obsessivo e recorrente) até Joca Reiners Terron e Sérgio Cohn. Mas
não é apenas a diversidade de estilos e poéticas que chama a atenção.
Também não há unidade temática, e esta é uma das qualidades dessa
antologia. Inteligentemente, Luiz Roberto Guedes fugiu à subordinação
ao tema. Nem todos os poemas “falam” de São Paulo, no sentido de se
referirem expressamente ou de procurarem descrevê-la. Assim, Luxo/Lixo de Augusto de Campos passa a ser sobre São Paulo no
contexto desta antologia, por haver sido incluído nela. Igualmente, meu
amor fuma luís-quinze, de Rubens Rodrigues Torres Filho, poderia ser
(ou estar, ou acontecer) em qualquer lugar do planeta; torna-se paulistano
pela inclusão. Proceder desse modo, desatrelando o poema da descrição,
da referência externa, enriquece a compreensão das relações entre
poesia e realidade. Há
diversidade, também, na relação dos poetas com a cidade, desde a paixão
e fascinação até o horror. Exaltada por Sérgio Milliet e Paulo Bomfim,
entre outros, é um luxuoso lixo para Augusto de Campos, e objeto de relação
ambivalente em Sérgio Cohn: Amar
esta cidade é um ato de necrofilia. Os
textos de Paixão por São Paulo
se distribuem ao longo de dois eixos: um deles, o da diacronia, da história,
da temporalidade; o outro, da sincronia, da contemporaneidade, das visões
de São Paulo hoje. Por sua condição de poeta contemporâneo,
diretamente ligado à vida literária de São Paulo, é compreensível que
Luiz Roberto Guedes tenha dado especial atenção a este segundo eixo,
através de um critério de inclusão abrangente e até generoso, que
possibilita a presença de bastante gente nova, ou que ainda não consta
entre os antológicos obrigatórios. Possivelmente, tenha procurado
traduzir, através dessas escolhas, sua própria visão de São Paulo. No
eixo da contemporaneidade, destaca-se a participação de Roberto Piva.
Isso, não só por ter-lhe sido dado um número maior de páginas, mas por
comparecer, por sua vez, como tema ou alusão direta no vigoroso Cine
Piva de Joca Reiners Terron, na dedicatória de Paulistana,
de Rodrigo Garcia Lopes, e na menção em A
Cidade e os Livros de Carlos Vogt; e, sem dúvida, como intertexto em
outros dos autores presentes em Paixão
por São Paulo. É como se Guedes o propusesse como poeta emblemático
da cidade. Antologias
têm, em primeira instância, função documental. Paixão
por São Paulo vai além, pois, além de oferecer oportunidades de
fruição, sugere discussões, releituras da poesia e da própria cidade.
Fernando
Pessoa e T. S. Eliot se desconheciam. Não se encontraram em vida. Menos
ainda, em New Haven. Quem esteve lá foi o narrador, crítico e estudioso
de literatura Ricardo Daunt. Nessa localidade, desenvolveu um estudo
comparativo, demonstrando haver diálogo, não entre os personagens históricos
Pessoa e Eliot, porém entre seus textos. Literatura
comparada é o campo onde a crítica, entendida como estudo universitário
de literatura, respira. Promove sua desburocratização, ao libertá-la do
jugo deste ou daquele paradigma. Trabalhando diretamente com o texto,
busca, não apenas relações lineares de influência, porém aquelas mais
complexas de intertextualidade e, ainda, as sincronias, diálogos implícitos,
entre autores que, em alguns casos, sequer chegaram a ter a oportunidade
de ler um ao outro. Assim
procede Ricardo Daunt - de quem também acaba de ser publicada a narrativa
Anacrusa, pela Nankin Editorial
- ao confrontar dois vultos maiores da literatura no século XX. Examina,
não apenas o que têm em comum, porém diferenças que correspondem, por
sua vez, a relações de complementaridade. No
plano das diferenças e da complementaridade, o modo como ambos
organizaram sua obra, deixando-nos, no caso de Pessoa, um caos, uma profusão
de anotações e textos esparsos, em um desafio a compiladores e
organizadores, conforme bem registra e comenta Daunt; e, no caso de Eliot,
um corpus perfeitamente
organizado. Complementares também foram suas vidas, e a recepção de
suas obras: na década de 1930, Eliot já era um poeta reconhecido e um crítico
respeitado, ganhando aos poucos a reputação de mestre; e Fernando Pessoa
ainda era o autor de textos em revistas literárias, reconhecido por não
muito mais gente que os integrantes de Presença
e os remanescentes de Orfeu. Diferenças
entre esses dois vultos maiores tornam mais importante ainda o exame das
afinidades: cada um a seu modo, herdaram a ironia simbolista,
especialmente de Laforgue, e se identificaram com os metafísicos, de
Donne em diante. O modo como viram a questão, central em poesia, da relação
de razão e emoção, estaria ligado, mostra Daunt, a seu vínculo com a
vertente metafísica. Há
continuidade de T. S. Eliot e
Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven com relação a O
Castelo de Axel de Edmund Wilson, onde, de modo precursor, foi
estabelecida a conexão entre os simbolistas Laforgue e Corbière, e os
modernizadores anglo-americanos Pound e Eliot. Cotejando O
Castelo de Axel e T. S. Eliot e
Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven, vê-se que Daunt prossegue e
completa a contribuição de Wilson ao introduzir Pessoa, dando-nos uma
versão mais completa da gênese dos modernismos e vanguardas do século
XX. T.
S. Eliot e Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven
também serviria como argumento adicional para reforçar as afirmações
de Octavio Paz (em Os Filhos do
Barro e em seu ensaio sobre tradução, Traducción:
Literatura y Literalidad) sobre o caráter transnacional e translinguístico
das literaturas: …mais correto
seria considerar a literatura do Ocidente como todo unitário, no qual os
personagens centrais não são tradições nacionais - a poesia inglesa, a
francesa, a portuguesa, a alemã - senão os estilos e as tendências.
Nenhuma tendência e nenhum estilo têm sido nacionais, nem sequer o
chamado “nacionalismo artístico”. Todos os estilos foram translingüísticos:
Donne está mais próximo de Quevedo do que de Wordsworth; entre Gôngora
e Marino há uma evidente afinidade, enquanto nada, salvo a língua, une a
Gôngora e ao Arcipreste de Hita que, por sua vez, faz pensar por momentos
em Chaucer. Os estilos são coletivos e passam de uma língua a outra; as
obras, todas enraizadas em seu solo verbal, são únicas. A
citação acima é de Traducción:
Literatura y Literalidad, onde, justamente, Paz examina a influência
de Laforgue, de um modo em Eliot, de outro em modernistas
hispano-americanos, resultando em poemas distintos, imitando o simbolista
francês e oferecendo, ao mesmo tempo, versões originais. São Lunario
Sentimental de Leopoldo Lugones e Zozobra
de López Velarde, de um lado, e Prufrock
and other observations de Eliot, de outro: Em Boston, recém-saído de Harvard, um Laforgue protestante; em
Zacatecas, escapado de um seminário, um Laforgue católico, diz
Octavio Paz. O
modo como Octavio Paz examinou essas conexões não retira a originalidade
do ensaio de Daunt. Ao contrário, serve para acentuá-la, mostrando que
enfrentou um desafio, ao apresentar um acréscimo importante à compreensão
de como se constituiu a grande poesia do século XX. A
originalidade de T. S. Eliot e
Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven não reside apenas na comparação
efetuada, mas no estilo. Sem abandonar, em momento algum, o rigor acadêmico,
a boa fundamentação de seus argumentos, seu autor escreve como se
conversasse com alguém. Os diálogos
do título da obra não se referem apenas às relações entre Pessoa e
Eliot, mas ao modo como procura relacionar-se com seu próprio leitor. [Claudio Willer] |
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