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revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004 |
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Saint-John Perse: o poeta da totalidade Rodrigo Petronio
Não é por acaso que, tendo-se em mente tal natureza de
criação poética e de concepção de arte, o próprio Saint-John Perse
comparará o poeta ao sacerdote: é aquele que no mundo moderno mantém
aceso o fogo da superação de todos os limites e que força o espírito a
transcender toda e qualquer contingência material. É desse impulso vital
que emana a sua poesia e nele é que se funda o ímpeto de transgressão
sobre o qual toda a verdadeira atividade poética se radica. Transgressão
porque faz das balizas que se divisam no mar os pontos flutuantes de uma
peregrinação incessante rumo ao Absoluto, e funda sobre a imagem mítica
deste mesmo mar um palco onde se desenrola o destino da humanidade rumo ao
esplendor e à transitividade, à impermanência e à grandeza épica que
este mar encerra, em oposição à derelicção, ao abandono, à amargura
e ao espírito de gravidade que aprisiona os homens no Porto, em terra
firme, seres feitos exclusivamente para a morte e cativos de sua própria
miséria. Em um paralelismo curioso, é por meio do trabalho incansável
de outro sacerdote espiritual, que também exerce função semelhante no
mundo das letras, tamanho é o seu empenho e generosidade intelectuais,
que o leitor brasileiro agora tem a oportunidade de ter acesso direto a
essa poesia. Trata-se da tradução de Amers
– Marcas Marinhas (Ateliê, São Paulo, 2004), obra fundamental,
dir-se-ia uma das grandes obras da língua francesa, que vem a lume sob a
esmerada e impecável tradução do Frei Bruno Palma, que há 30 anos se
dedica ao estudo e à tradução minuciosa deste que foi um dos maiores
poetas do século XX. Assim, a atividade de Bruno Palma como tradutor é
um caso exemplar em nossa vida intelectual. Haja vista o seu currículo
invejável: sólida formação humanista e filosófica, conhecimento das línguas
clássicas, longa estadia como pesquisador na França, onde foi aluno de
ninguém menos que Julien Greimas, e, por fim, condecorado com a alta
distinção de Cavaleiro pela Ordem das Artes e Letras do governo francês.
Por sua vez, a trajetória de Saint-John Perse, pseudônimo
de Marie-René Aléxis Saint-Leger Leger, é das mais singulares e vale a
pena ser comentada. Nascido em 1887, de família francesa, em Pointe-à-Pitre,
na ilha de Guadalupe, no arquipélago das Antilhas, logo parte para a França.
Cursa a faculdade de Direito e mais tarde, depois de cumpridos os anos de
aprendizagem na Escola de Altos Estudos Comerciais, ingressa na carreira
diplomática. Viaja pela Espanha, Inglaterra, Alemanha. Cumpre missões na
China e retorna à França, onde é nomeado para o alto cargo de chefe de
gabinete de Aristide Briand, Ministro de Relações Exteriores. Com a
ofensiva alemã e a tomada de Paris, é demitido de suas funções e tem
sua cidadania e seus bens confiscados pelo governo de Vichy, em 1940.
Exila-se nos EUA, de onde enceta uma série de novas viagens, podendo
regressar ao solo francês apenas no final da década de 50, quando dá início
a um novo período de sua vida, repleta de prêmios, condecorações,
publicações e traduções de sua obra, vindo falecer em setembro de
1975. Esses dados biográficos não são gratuitos, tampouco têm
função ornamental em relação à sua obra. Se pensarmos, como o fez o
crítico Albert Henry, que a obra de Perse se funda em uma poética do
movimento e do devir, sua própria situação itinerante pode nos afiançar
essa hipótese, bem como corroborar a permanente insatisfação e a
profunda insubmissão que movia o poeta, presentes ao longo de seus versos
e referidas como sendo a grande virtude da poesia, como diz a famosa (e poética)
carta a Dag Hammarskjöld, consultor do tradutor sueco de Perse. Se
pensarmos que a tônica de sua poesia é a adoção de uma perspectiva
cultural ecumênica, ou seja, uma poesia que pretende dar uma configuração
universal de toda a humanidade, na qual não raras vezes somos tomados por
uma riqueza vocabular, histórica e geográfica desconcertante, poesia
esta que também trata sempre de celebrar a viagem, não só em sua dimensão
literal, mas também em seu sentido alegórico, como travessia do homem
pela sua existência na Terra, os dados biográficos e poéticos se
complementam, formando juntos uma só fisionomia do homem que os compôs.
Por seu turno, a pluralidade de sentidos da obra já começa
pelo título. Amers, em
linguagem técnica da marinha, são marcas, balizes que se fixam no mar
para orientar a navegação. Porém, ela tem ressonâncias do verbo amar (aimers) e do vocábulo amares,
que quer dizer estar diante do mar.
Além disso há uma outra acepção: como notou a poeta Dora Ferreira da
Silva em estudo sobre o poema e como ratifica Bruno Palma, amers também se aproxima de amères,
que é amargo, e, ao dar a justa dimensão alegórica do percurso da
humanidade, compara o desenrolar do nosso destino neste mundo com a
amargura das águas que nos presenteiam com sua eterna novidade assim como
nos arrojam na mais profunda solidão, finitude e instabilidade. O mar
como correlato objetivo do puro movimento, do devir incessante, do ser unívoco
e monista dos primeiros filósofos pré-socráticos, como Unidade imanente
que corresponde ao próprio universo, tal como foi dito pelo poeta em
carta a Roger Caillois, um dos maiores estudiosos de sua obra. De fato, para Saint-John Perse o mar não é apenas uma
entidade mítica, uma metáfora poética de alta carga semântica ou o
ideal de uma vida colhida em pleno curso e em seu frêmito vital de expansão.
O mar é signo da própria existência, corresponde àquela clareira do
ser de que nos fala Martin Heidegger, e é também o Aberto por onde se
acede ao Absoluto e onde nos reconduzimos àquela nossa pátria natural
alienada: a Totalidade. Se desde o início dos tempos ela nos fôra
privada e por ela o homem erra como um eterno exilado, tal como o solitário
de Babel e Sião vive exilado da
pátria Celeste, como nos diz Camões, e por sua ausência o homem vive
preso à rotina da Cidade e da terra firme, entre as sombras do Porto, a
poesia é um dos meios privilegiados pelos quais ele pode reconquistá-la
e restituí-la. Porque nela se realiza a síntese suprema entre o instante
que pulsa e o eterno, entre o movimento das imagens que nos vêm aos
olhos, as vagas que quebram e se renovam, o mar que é sempre e sempre
outro e sempre recomeçado, e aquela Imobilidade fulminante que só existe
para além da percepção e dos conceitos, sede de toda a nossa vida possível
e horizonte de toda a nossa liberdade.
Poesia como ciência do ser, porque toda a poesia é uma
ontologia, diria Perse em um texto crítico. É um mergulho nas zonas
indevassáveis do real e um parti
pris do silêncio que institui a própria possibilidade da Palavra.
Poesia da liberdade, da liberdade em seu estado puro e de pura latência,
liberdade fundadora e original, não como algo perdido no tempo e em uma
ancestralidade remota, mas como uma força que irrompe e se projeta no
presente, e se oferece como o fundamento mesmo da própria possibilidade
de nossas vidas e de nossos atos. Assim é o mar de Perse: instância
projetiva do real, realidade fulgurante e ígnea, sempre apontando para a
transcendência de si mesmo e do mundo pobre dos fenômenos visíveis e
tangíveis. Para lembrar o discurso que o poeta pronunciou em Florença,
em 1965, no sétimo centenário de nascimento de Dante, a poesia partilha
de um tempo que não é nem histórico nem eterno: é um constante agora.
E nesse sentido, Perse, ao falar do grande poeta florentino, falava sim de
si mesmo. Dele que ergueu sua voz e fê-la alçar-se à dimensão daquela
era plena da linguagem, de que nos fala o poeta, domínio próprio da
poesia e sua morada, onde a palavra de Saint-John Perse, a sua precária
palavra de homem, transfigurou-se, se susteve e agora permanece e há de
se manter, como a de Dante, incólume e inaugural, sobre a lâmina do
abismo dos séculos que se sucederão indefinidamente. |
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Rodrigo Petronio. Poeta e ensaísta. Autor de Transversal do Tempo (ensaios) e História Natural (poesia), entre outros. Prepara novo livro de poemas que será publicado em breve pela Editora Girafa. Contato: pseudopetronio@directnet.com.br. Página ilustrada com obras do artista Francisco Quintanar (México). |