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revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004 |
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Annemarie Schwarzenbach: o anjo inconsolável Antonio Júnior
Annemarie Schwarzenbach nasceu em 1908, em Zurique (Suíça),
filha de um proprietário de um império têxtil, Alfred Emil, e de Renée
de Wille, sendo educada nos melhores internatos para moças ricas. Formada
em História em Zurique e Paris, publicou uma obra elogiada pela crítica,
"Amigos de Bernhard", mudando-se para Berlim em 1931, onde foi
acolhida pela elite intelectual. Morfinômana, íntima dos malditos Mann,
suicida em potencial (embora tenha morrido acidentalmente em 1942, aos 34
anos, de uma queda de bicicleta, após hemorragia cerebral e longo período
de inconsciência), correspondente de guerra, arqueóloga, fotógrafa,
escritora atormentada, lésbica alçada a ícone gay, mergulhou no lado
sombrio da vida em um naufrágio existencial doloroso. Sua biografia,
publicada em 1991 por Dominique Grente e Nicole Müller, não deixa o
leitor indiferente. Fala da sua busca desesperada do amor, fugas, vícios
e a difícil relaçao familiar (nunca conseguiu escapar do domínio da
opressora e sufocante mãe, filha de general e de uma Bismarck, amante de
uma cantora com a compreensao do marido, que acabou destruindo, ao morrer
a jovem, grande parte de seus escritos). Ainda na Alemanha, antes de fugir
do nazismo, escreve a peça histórica "Cromwell" e a novela
"Der Falkenkafig". Seus escritos geralmente falam de amores
homossexuais. Apaixonada por Erika Mann e, não correspondida, parte para
uma viagem de sete meses pela Ásia. Em 1934 visita Moscou e termina
rompendo definitivamente com a sua família preocupada com o julgamento da
sociedade e adepta ao nazismo.
"Morte na Pérsia" (Tod in Persien), o primeiro
livro de Annemarie Schewarzenbach publicado em castelhano, fala de várias
de suas passagens no Ira dos anos 30. A velha Pérsia era para a suíça o
lugar propício em que exorcizava sua angústia, seus medos e obsessões.
"Que procura na Pérsia?", lhe perguntou André Malraux. Buscava
materializar o seu desânimo. Encontrou uma terra desértica em que
projetou o seu sofrimento, um país que oferecia um território de tentações
para seus vícios, suas crises mentais e seus amores homossexuais. A
"horrível tristeza da Pérsia", sua beleza letal, é um dos
temas do livro, do qual surgem imagens inesquecíveis como as das dunas
vistas como ondas mortas, da caravana funerária com camelos carregados de
defuntos ou das lagostas estendidas sobre o chão como espigas secas e que
produziam, ao caminhar sobre elas, um crepitar sinistro. As ruínas de
Persépolis, os fragmentos de civilizações esquecidas, a cavalgada dos nômades,
as tempestades de areia, Mazanderán, "paradigma da
melancolia"… Tudo está descrito através do prisma de dor e
somente adquire sentido sob essa perspectiva. Como se o Irã inteiro
existisse unicamente para resumir na escritora uma frutífera e desoladora
"depressão persa", como ela mesmo denominou o mórbido estado
em que, em 1936, realizou a redação definitiva do livro.
A difícil aventura e a relação amorosa entre Annemarie e
Ella deu origem ao filme alemão "A Viagem ao Kafiristán"
(Journey to Kafiristán, 2001), de Donatello e Fosco Dubini, com Jeanette
Hain e Nina Petri, apresentado com sucesso em inúmeros festivais. A
poesia amargurada e a dolorosa experiência interior da autora suíça de
morte prematura também está no documentário canadense "A Suíça
Rebelde", de Carole Bonstein, premiado em vários festivais na Europa
e escolhido o melhor documentário na 11ª. Edição do Festival MixBrasil
da Diversidade Sexual, em 2003. Annemarie esteve na China com o
aventureiro Peter Fleming, seguiu o curso do africano rio Congo, tentou várias
vezes a desintoxicação, foi
internada como esquizofrênica, suspeita de espionagem na França em plena
Segunda Guerra, e quase estrangulou a namorada Margot von Opel, sendo
obrigada a abandonar definitivamente os EUA em 1940. Em 1987, depois de
muitos anos de esquecimento, e graças aos esforços de Ella Maillart e do
ex-marido Claude, a importância de Annemarie Schwarzenbach foi resgatada
com a publicação suíça de sua obra (romances, contos, artigos,
reportagens, prosa lírica e autobiográfica).
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Antonio Júnior (Brasil, 1970).
Escritor. Autor de livros como O aprendiz do amor (1993), Caprichos
(1998) e Artepalavra - Conversas no velho mundo (2003). Contato: antonio_junior2@yahoo.com.
Página ilustrada com obras do artista Francisco Quintanar (México). |