Passarinho, de Valdir Rocha

 

revista de cultura # 41 - fortaleza, são paulo - outubro de 2004

Avidez, de Valdir Rocha

Editorial

A voz do Brasil

Há no Brasil um jornal intitulado Leitores & Livros, que circula mensalmente desde 1999, com uma tiragem de 5 mil exemplares, e que se destina à promoção de livros e conseqüente despertar de leitores. Com a versão on-line (www.leitoreselivros.com.br) da mesma publicação, surgida em 2001, considerando apenas os leitores cadastrados, atingiu já uma marca de 10 mil endereços, aí incluídos editores, livreiros, instituições de ensino, assessorias de imprensa e mídia em geral – o que, potencialmente, representa um amplo desdobramento de sua veiculação. É quando menos curioso observar então o que se passa entre publicação impressa e virtual. Ou melhor: o que não se passa, considerando a inexistência de relação entre as duas mídias. Leitores & Livros está associado a uma outra publicação, Nova Cultura (www.novacultura.de), que existe na Alemanha, onde se dedica amplo espaço à difusão da cultura brasileira, desde 2001. Esse tipo de enlace internacional vem aos poucos fazendo parte de uma perspectiva editorial na qual se percebe a importância da Internet como instrumento de veiculação de cultura. Pode-se mencionar a parceria que Agulha mantém, por exemplo, com a portuguesa TriploV (www.triplov.com/). Também se pode aqui mencionar outros periódicos brasileiros que circulam de forma tanto impressa quanto virtual, cabendo destacar a revista Cult (www2.uol.com.br/cult/) e o jornal Rascunho (http://tudoparana.globo.com/rascunho/) – este último, também um dos parceiros de Agulha.

Todos os grandes jornais do mundo dispõem hoje de uma versão on-line, mecanismo que tanto amplia vendas internas quanto difusão externa. Esse novo espaço de anúncio, ao contrário do que teimam em pensar alguns resistentes, tem reforçado a atuação do mercado editorial. Se este hoje se encontra em queda no Brasil, isso se dá por outros motivos, que incluem tanto a perversão comercial que estabelece um imenso abismo entre os preços inicial e final do produto, quanto uma quase total falta de assistência governamental, sobretudo no que diz respeito à manutenção das bibliotecas. Seguramente, sem o apoio da Internet a situação seria ainda pior.

O ponto em questão, contudo, é outro. Se na mídia impressa a concorrência tornou-se imperativa, na mídia eletrônica o que se verifica é uma desatenção entre partes. Talvez, em um primeiro momento, o assunto tenha sido dirigido por largos vícios empresariais. Isso reproduz certa ingenuidade típica da mídia impressa, onde revistas de pequena circulação acreditam que podem interferir nas relações culturais da mesma maneira como os grandes blocos estabelecidos.

A decantada democratização atribuída à Internet parece ainda não ter sido potencialmente considerada. É uma democratização que se configura de forma estranha. De um lado, o Estado desenvolve novos modelos de acompanhamento da produção cultural, artística e jornalística. De outro, a resistência que se faz necessária acaba por se perder por receio a boicotes ou pela displicência abusiva que demonstra uma presença indevida ou inconsciência da responsabilidade que cabe a todos nós. No todo, é como a democracia brasileira, com a perversão do voto obrigatório, ou nosso cosmopolitismo, com seus traços coloniais ainda acentuados. É sempre uma coisa que é outra, onde nada afirma o que de fato é. Ninguém nunca está onde deve, e, pior, ninguém nunca se sente responsável por qualquer situação. Claro que existe uma relação intrínseca de consciência entre um candidato à câmara legislativa e o diretor de um periódico de cultura.

Se a mídia eletrônica está infestada de ruído, sujeira, recepções indesejáveis etc. – o que é verdade -, em nada se distancia da mídia impressa, com seus anúncios encartados. Diferem na natureza da transmissão, pois o que é imposição nesta pode ser refutado naquela. Qual é então a natureza do mal que devemos combater? Decerto que a discussão recai sobre a natureza do combate e não do mal em si. Há o aspecto das vendas, que podem ser reduzidas no caso do jornalismo diário. Mas como entender isso em relação a periódicos de cultura? Alguém já poderia dizer que este editorial está a embaralhar os assuntos. Pois é o que há de melhor nele. De outra maneira, não separaremos o joio do trigo. Sequer chegaremos à conclusão conceitual do que seja um e outro.

Quando há certo frisson na imprensa brasileira por conta de perspectivas de negociação financeira entre dois partidos políticos para manipulação de uma determinada situação, é curioso observar que a negociação de cargos públicos – prática dada como comum no meio político - parece ser entendida como sendo de outra natureza. Ou seja, é ético me vender por um cargo, mas não por dinheiro. Na esfera cultural, como assimilamos toda a superficialidade da mídia estadunidense, com suas proclamas de futilidade, o mundo pop, as passarelas etc., isto nos afastou ainda mais da percepção de uma ética. A mídia ou a política, qual das duas torna o mundo existencialmente mais pobre? E qual é a intensidade da conivência entre os dois mecanismos?

Mais tecnologia à mão quer dizer mais responsabilidade e amplitude também na compreensão de uma retórica estética. Basta pensar no cinema, que hoje é demasiado regido por uma tecnologia que ambienta nossa satisfação, ou seja, que confunde eventual visão crítica acerca dos temas que são abordados. O que há de imperativo, então, é a compreensão do que temos à mão. E não cabe repetir os mesmos erros da mídia impressa, criando zonas de tensão como se fôssemos concorrentes entre nós. Estamos descortinando um espaço múltiplo de ações igualmente múltiplas. Não estamos criando novos monstros, mas a possibilidade de um convívio, sim: esta pode ser uma idéia monstruosa, diante da esfera em que tem se manipulado a cultura em todo o mundo, com destaque para o Brasil, por ser o país onde é feita a Agulha, e pelos vícios aristocráticos, coercitivos, que são mantidos entre nós, por interesses minoritários e eficientes em sua cumplicidade.

Os editores

Ensimesmado, de Valdir Rocha

Sumário

1 a crítica morreu? uma mesa com alcir pécora, moacir amâncio e paulo franchetti (debate). álvaro kassab & eustáquio gomes
2 a treva no calor do dia - nós/nudos de ana marques gastão: 25 poemas sobre 25 obras de paula rego. teresa martins marques
3
arte e evidência: uma conversa com juan calzadilla. floriano martins
4
as aventuras e os subterrâneos de jack kerouac. claudio willer
5
caminhos da literatura brasileira atual. rodrigo petronio
6
dois ensaios sobre george orwell: rolando pérez betancourt & bernard crick
7 ernesto ríos
: el lenguaje de la fotografía. miguel ángel muñoz
8
estranhas experiências: claudio willer e atualidade do surrealismo no brasil. lucila nogueira
9
hilda hilst: a morte e seu duplo. cristiane grando 
10 la muerte de allen ginsberg. raúl henao
11 leda astorga
: "mis esculturas llevan el signo, la marca de la libertad" (entrevista) alfonso peña
12 roman polanski
: talento diabólico (entrevista). antonio jr.

artista convidado valdir rocha (vária) texto de mirian de carvalho
resenhas livros da agulha dalila teles veras & luzia maninha - ricardo daunt (por valentim faccioli) - paulo archer (por adelto gonçalves) - dario restrepo soto (por raúl henao) - ricardo cuéllar valencia - floriano martins (por valdir rocha) - enrique fierro (por mariella nigro) - josé nêumanne pinto - clarice lispector (por rodolfo alonso)
música
discos da agulha rildo hora & maria teresa madeira - jorge marciano - sergio brandão & manga rosa - rodrigo leão - hermeto pascoal & grupo - mário delgado - sergio rossoni grupo
cumplicidade galeria de revistas  amauta (peru) - iararana (brasil) - portal de poesía contemporánea (espanha)

Horizontes, de Valdir Rocha

Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (vária)
valdir rocha

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