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Editorial
A
voz do Brasil
Há no Brasil um jornal intitulado Leitores &
Livros, que circula mensalmente desde 1999, com uma tiragem de 5
mil exemplares, e que se destina à promoção de livros e conseqüente
despertar de leitores. Com a versão on-line (www.leitoreselivros.com.br)
da mesma publicação, surgida em 2001, considerando apenas os
leitores cadastrados, atingiu já uma marca de 10 mil endereços, aí
incluídos editores, livreiros, instituições de ensino, assessorias
de imprensa e mídia em geral – o que, potencialmente, representa um
amplo desdobramento de sua veiculação. É quando menos curioso
observar então o que se passa entre publicação impressa e virtual.
Ou melhor: o que não se passa,
considerando a inexistência de relação entre as duas mídias. Leitores
& Livros está associado a uma outra publicação, Nova
Cultura (www.novacultura.de),
que existe na Alemanha, onde se dedica amplo espaço à difusão da
cultura brasileira, desde 2001. Esse tipo de enlace internacional vem
aos poucos fazendo parte de uma perspectiva editorial na qual se
percebe a importância da Internet como instrumento de veiculação de
cultura. Pode-se mencionar a parceria que Agulha mantém, por
exemplo, com a portuguesa TriploV (www.triplov.com/). Também se pode aqui mencionar outros
periódicos brasileiros que circulam de forma tanto impressa quanto
virtual, cabendo destacar a revista Cult (www2.uol.com.br/cult/) e o jornal Rascunho
(http://tudoparana.globo.com/rascunho/)
– este último, também um dos parceiros de Agulha.
Todos os grandes jornais do mundo dispõem hoje de uma versão
on-line, mecanismo que tanto amplia vendas internas quanto
difusão externa. Esse novo espaço de anúncio, ao contrário do que
teimam em pensar alguns resistentes, tem reforçado a atuação do
mercado editorial. Se este hoje se encontra em queda no Brasil, isso
se dá por outros motivos, que incluem tanto a perversão comercial
que estabelece um imenso abismo entre os preços inicial e final do
produto, quanto uma quase total falta de assistência governamental,
sobretudo no que diz respeito à manutenção das bibliotecas.
Seguramente, sem o apoio da Internet a situação seria ainda pior.
O ponto em questão, contudo, é outro. Se na mídia
impressa a concorrência tornou-se imperativa, na mídia eletrônica o
que se verifica é uma desatenção entre partes. Talvez, em um
primeiro momento, o assunto tenha sido dirigido por largos vícios
empresariais. Isso reproduz certa ingenuidade típica da mídia
impressa, onde revistas de pequena circulação acreditam que podem
interferir nas relações culturais da mesma maneira como os grandes
blocos estabelecidos.
A decantada democratização atribuída à Internet parece
ainda não ter sido potencialmente considerada. É uma democratização
que se configura de forma estranha. De um lado, o Estado desenvolve
novos modelos de acompanhamento da produção cultural, artística
e jornalística. De outro, a resistência que se faz necessária acaba
por se perder por receio a boicotes ou pela displicência abusiva que
demonstra uma presença indevida ou inconsciência da responsabilidade
que cabe a todos nós. No todo, é como a democracia brasileira, com a
perversão do voto obrigatório, ou nosso cosmopolitismo, com seus traços
coloniais ainda acentuados. É sempre uma coisa que é outra, onde
nada afirma o que de fato é. Ninguém nunca está onde deve, e, pior,
ninguém nunca se sente responsável por qualquer situação. Claro
que existe uma relação intrínseca de consciência entre um
candidato à câmara legislativa e o diretor de um periódico de
cultura.
Se a mídia eletrônica está infestada de ruído,
sujeira, recepções indesejáveis etc. – o que é verdade -, em
nada se distancia da mídia impressa, com seus anúncios encartados.
Diferem na natureza da transmissão, pois o que é imposição nesta
pode ser refutado naquela. Qual é então a natureza do mal que
devemos combater? Decerto que a discussão recai sobre a natureza do
combate e não do mal em si. Há o aspecto das vendas, que podem ser
reduzidas no caso do jornalismo diário. Mas como entender isso em
relação a periódicos de cultura? Alguém já poderia dizer que este
editorial está a embaralhar os assuntos. Pois é o que há de melhor
nele. De outra maneira, não separaremos o joio do trigo. Sequer
chegaremos à conclusão conceitual do que seja um e outro.
Quando há certo frisson na imprensa brasileira por
conta de perspectivas de negociação financeira entre dois partidos
políticos para manipulação de uma determinada situação, é
curioso observar que a negociação de cargos públicos – prática
dada como comum no meio político - parece ser entendida como sendo de
outra natureza. Ou seja, é ético me vender por um cargo, mas
não por dinheiro. Na esfera cultural, como assimilamos toda a
superficialidade da mídia estadunidense, com suas proclamas de
futilidade, o mundo pop, as passarelas etc., isto nos afastou
ainda mais da percepção de uma ética. A mídia ou a política, qual
das duas torna o mundo existencialmente mais pobre? E qual é a
intensidade da conivência entre os dois mecanismos?
Mais
tecnologia à mão quer dizer mais responsabilidade e amplitude também
na compreensão de uma retórica estética. Basta pensar no cinema,
que hoje é demasiado regido por uma tecnologia que ambienta nossa
satisfação, ou seja, que confunde eventual visão crítica acerca
dos temas que são abordados. O que há de imperativo, então, é a
compreensão do que temos à mão. E não cabe repetir os mesmos erros
da mídia impressa, criando zonas de tensão como se fôssemos
concorrentes entre nós. Estamos descortinando um espaço múltiplo de
ações igualmente múltiplas. Não estamos criando novos monstros,
mas a possibilidade de um convívio, sim: esta pode ser uma idéia
monstruosa, diante da esfera em que tem se manipulado a cultura em
todo o mundo, com destaque para o Brasil, por ser o país onde é
feita a Agulha, e pelos vícios aristocráticos, coercitivos,
que são mantidos entre nós, por interesses minoritários e
eficientes em sua cumplicidade.
Os editores |