revista de cultura # 41 - fortaleza, são paulo - outubro de 2004






 

Hilda Hilst: a morte e seu duplo

Cristiane Grando

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I

Hilda HilstLego-te os dentes./ Em ouro, esmalte e marfim.” Muito além da imagem de um rosto deslumbrante, Hilda Hilst legou-nos suas obras, mais de 40, publicadas, de 1950 a 1995, em versos que foram se tornando cada vez mais complexos; de 1967 a 1969, em peças de teatro escritas sob o desejo de denunciar as atrocidades da ditadura militar; de 1970 a 1997, em prosa poética na qual o sagrado e o profano, a transcendência e a sexualidade freqüentam o mesmo espaço textual, reconhecida como inovadora pelos críticos literários Leo Gilson Ribeiro, Anatol Rosenfeld e Nelly Novaes Coelho; de 1992 a 1995, em crônicas bem-humoradas e irônicas, que divulgaram inúmeros poemas de sua autoria, no Correio Popular de Campinas, e que buscaram desmascarar a sociedade: “Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas.” Além disso, a autora d’O caderno rosa de Lori Lamby ousou tocar num tema-tabu, em especial na fase conhecida como obscena, de 1990 a 1992, com três obras em prosa e com as Bufólicas em versos, que escandalizaram grande parte de seus leitores e da crítica. “A sexualidade que a inspirava nunca se tornava pornografia, mesmo se ela às vezes, por razões esdrúxulas, quisesse fazer-se pornográfica”, afirma Jorge Coli, crítico e professor de história da arte na UNICAMP (Folha de São Paulo, 5/2/04). Hilda, sempre questionadora, em notas manuscritas, pergunta-se: “O que é OBSCENO? OBSCENO? Ninguém sabe até hoje o que é OBSCENO. OBSCENO para mim é a miséria, a Fome, a crueldade, a NOSSA época é OBSCENA.”

Várias obras da autora de Tu não te moves de ti foram traduzidas em distintos idiomas – francês, italiano, inglês, espanhol e alemão –  e conquistaram os maiores prêmios literários do Brasil: o Prêmio Pen Clube de São Paulo em 1962, o Prêmio Anchieta de Teatro em 1969, o APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) em 1977 e 1981, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1984 e 1993, o Prêmio Cassiano Ricardo, do Clube de Poesia de São Paulo, em 1985, o Prêmio Moinho Santista, da Fundação Bunge, pelo conjunto de sua obra poética, em 2002, e uma indicação para o Prêmio Intelectual do Ano, da União Brasileira dos Escritores, em 1990. Seu maior sonho sempre foi o de ser lida por um grande público, o que, de certa forma, proporcionaram as Obras Reunidas de Hilda Hilst, organizadas pelo crítico e professor de literatura na UNICAMP Alcir Pécora e publicadas pela Editora Globo, edição que ganhou o Grande Prêmio da Crítica pela Reedição da ObraAPCA – 2002. “Sempre enfatizei a qualidade de suas imagens poéticas, em obras como ‘Da Morte. Odes Mínimas’ e ‘Amavisse’, e sua condição de escritora herética, gnóstica moderna”, afirma o poeta Cláudio Willer (Folha de São Paulo, 5/2/04).

A autora de Roteiro do silêncio ficava muito raivosa quando a chamavam de poetisa, por passar a idéia de moça prendada. Lygia Fagundes Telles, sua grande amiga, conta que certa vez Hilda apresentou-se na antiga sala de chá do Mappin, em São Paulo, afirmando: “sou poeta”. Guilherme de Almeida, que estava presente, comentou que a palavra poetisa já estava meio desmoralizada e que quando a escritora era séria, considerava-se poeta. A autora de Alcoólicas constrói um universo da mulher que assume seu papel social, num mundo normalmente dominado pelo ponto de vista masculino: “Deu-me o amor este dom:/ O de dizer em poesia./ Poeta e amante é o que sou...” (Trovas de amor para um amado senhor). Seu trabalho criativo e suas atitudes, pouco compreendidos pelos conservadores, contribuíram muito para uma amplitude da visão: “Uma das funções dos escritores está em alargar os horizontes morais de onde vive. [...] A Hilda produziu uma boa literatura e sabia desafiar a moral”, afirma o escritor Fernando Bonassi (O Estado de São Paulo, 5/2/04).

Ensimesmado, de Valdir RochaFilha da imigrante portuguesa Bedecilda Vaz Cardoso e do fazendeiro de café, poeta, jornalista e ensaísta Apolonio de Almeida Prado Hilst, Hilda nasceu em Jaú em 1930 e iniciou seu caminho à imortalidade aos 73 anos, no dia 4 de fevereiro de 2004. Dedicou grande parte de sua vida à literatura: em 1965, acompanhada de seu namorado, o escultor Dante Casarini (com quem se casa em 1968 e se divorcia em 1991), muda-se para a sede da fazenda São José, propriedade de sua mãe, a 11 Km de Campinas; nessas terras, inicia a construção de sua casa, onde viveu, desde 1966, afastada da vida citadina mas não do mundo nem das pessoas: a Casa do Sol – freqüentada por inúmeros artistas nas décadas de 1970 e 1980, como José Luís Mora Fuentes, Olga Bilenky e Caio Fernando Abreu, que chegaram a morar nessa casa onde tive o privilégio de ser recebida várias vezes por um riso alegre e ao mesmo tempo debochado e irônico, por olhos de doçura de um rosto que ainda guardava traços da beleza estonteante da juventude. Num primeiro contato, a presença de Hilda, assim como d’A obscena senhora D, provocava medo, estranhamento e encantamento; Hilda e seu alterego Hillé, a Senhora D, são diferentes das pessoas convencionais. A mudança radical, de São Paulo para a vida pacata do campo, é advinda da leitura de Lettres a El Greco, do poeta grego Nikos Kazantzákis (1885-1957). A obra, presente que ganhou em 1962 do amigo e poeta português Carlos Maria de Araújo, marca uma mudança na forma de ver o mundo: para pensar, sentir e escrever sobre o humano seria necessário afastar-se dele.

Em Júbilo, memória, noviciado da paixão e nas demais obras poéticas, Hilda retoma parte significativa da tradição literária, dialogando com várias formas fixas de poemas – ode, trova, soneto, balada, elegia, cantares e fábulas – às vezes aceitando-as, normalmente inovando-as. Amor, Deus e Morte; a Poesia e o Tempo. Temáticas de predileção da autora de Sobre a tua grande face, versos dedicados à busca de um Deus ausente e opressor: “Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão./ Tu sabes que amo os animais/ Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome/ Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo./ Talvez assim te encantes de tão farta nudez./ Talvez assim me ames: desnudo até o osso/ Igual a um morto.”

“Chegar e partir são só dois lados da mesma viagem”, canta Milton Nascimento. Nesse momento de despedida de Hilda Hilst e ao mesmo tempo de (re)encontro de muitos leitores com sua obra, recordo uma frase do poeta chileno Jorge Teillier: “Los trenes desaparecen pero no desaparece el alma de los trenes. Es como si alguien se muere, no sólo queda su tumba, queda su herencia.No caso da literatura hilstiana, uma herança de palavras e sons, de sentidos múltiplos e ambivalentes.

Hilda deixa saudade, especialmente de quando lia em voz alta seus “versos cantantes”, como constata Dulce Salles Cunha Braga no livro Autores contemporâneos brasileiros. Depoimento de uma época (Editora Giordano, 1996): “Uns barcos bordados/ No último vestido/ Para que venham comigo/ As confissões, o riso/ Quietude e paixão/ De meus amigos.// Porque guardei palavras/ Numa grande arca/ E as levarei comigo// Peço uns barcos bordados/ No último vestido/ E vagas/ Finas, desenhadas/ Manso friso// Como as crianças desenham/ Em azul as águas.// Uns barcos/ Para a minha volta à Terra:/ Este duro exercício/ Para o meu espírito.” Em 1980, quando Hilda completa 50 anos, publica Da morte. Odes mínimas, livro formado intencionalmente por 50 poemas, o que deixou registrado em seus manuscritos, adquiridos pela UNICAMP em 1995 e em 2003, e arquivados no Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio” (CEDAE-IEL). Nesse canto de exaltação à morte, a autora de Cantares do sem nome e de partidas insere-se num jogo de desejo e repulsão em que cria a imagem da morte como amada, amante, irmã, criança, ou como animais, em especial na sofisticada imagem do silencioso e duro trote da negra cavalinha: “Os cascos enfaixados/ Para que eu não ouça/ Teu duro trote./ É assim, cavalinha,/ Que me virás buscar?/ Ou porque te pensei/ Severa e silenciosa/ Virás criança/ Num estilhaço de louças?/ Amante/ Porque te desprezei?/ Ou com ares de rei/ Porque te fiz rainha?”

Amnésia do sábio, de Valdir RochaEm texto de despedida, Jorge Coli pergunta: “Para onde foi Hilda Hilst?” E responde convidando o leitor a escutar atentamente as palavras e os sentidos amplos construídos pela autora do Auto da barca de Camiri: “Impossível dizer. Mas sabemos onde está: nas páginas numerosas do que escreveu, e que continuam a vibrar, tirando-nos de nossas estreitezas, desencadeando as mais belas, mais fecundas e mais terríveis interrogações” (Folha de São Paulo, 5/2/04). Nas Odes mínimas, Hilda mostra-nos onde podemos encontrá-la: “Não me procures ali/ Onde os vivos visitam/ Os chamados mortos./ Procura-me/ Dentro das grandes águas/ Nas praças/ Num fogo coração/ Entre cavalos, cães, / Nos arrozais, no arroio/ Ou junto aos pássaros/ Ou espelhada/ Num outro alguém, / Subindo um duro caminho// Pedra, semente, sal/ Passos da vida. Procura-me ali./ Viva.”

II

“Uma mulher encantada pela vida mundana que seduziu muitos corações. [...] Depois de se retirar para a Casa do Sol, contudo, Hilda transformou essa vitalidade em energia interior. ‘A solidão é viver muito mais para as coisas de dentro do que para as coisas de fora’, explicou. Em 1966, num recanto da fazenda materna, construiu seu próprio sítio, a Casa do Sol. Foi uma espécie de conversão, não propriamente uma conversão religiosa, mas, podemos pensar, uma conversão poética.”, afirma José Castello, em 2003, no Caderno B do Jornal do Brasil. A partir dessa introspecção e de leituras variadas – desde biografias até textos de psicanálise, matemática, física e, evidentemente, de poesia e prosa da literatura universal – surgiram  versos que foram se tornando cada dia mais complexos, peças de teatro escritas sob o desejo de denunciar as atrocidades da ditadura militar, textos redigidos em prosa poética, na qual o sagrado e o profano, a transcendência e a sexualidade freqüentam o mesmo espaço textual, além de crônicas bem-humoradas e irônicas que divulgaram inúmeros poemas de sua autoria, buscando sempre desmascarar a sociedade brasileira e mundial.

A vida caminha em círculos. Hilda Hilst (Jaú, 1930 – Campinas, 2004) abandona o mundo dissonante em que vivemos ao mesmo tempo em que inicia sua trajetória pela imortalidade. A autora de Amavisse tinha consciência da eternidade da alma e de sua obra: “As barcas afundadas. Cintilantes/ Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante/ E obscura barca ardendo sob as águas. [...]// As barcas afundadas. Minhas palavras. / Mas poderão arder luas de eternidade. / E doutas, de ironia as tuas / Só através da minha vida vão viver.” (1989).

Nesse momento de despedida de uma das maiores escritoras brasileiras do século XX, os leitores são convidados a reler suas três primeiras obras, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951) e Balada do festival (1955), que acabam de ser relançadas, neste verão de 2004, num único volume, Baladas, 12º título das Obras Reunidas de Hilda Hilst (Editora Globo, organização de Alcir Pécora). Na epígrafe de Balada de Alzira, Hilda Hilst anuncia duas temáticas de predileção: a morte e a busca de Deus. “Somos iguais à morte. Ignorados e puros./ E bem depois (o cansaço brotando nas asas) / seremos pássaros brancos à procura de um deus.” Em sua obra, a autora de Sobre a tua grande face renova o modo convencional de relacionar-se com Deus e com a Morte: “Juntas. Duas naves/ Números/ Dois rumos/ À procura de um deus.// E as mesmas perguntas/ No sempre/ No pasmoso instante.” (1980). Poeta e Morte estão juntas na empreitada da Vida, “à caça de um Nada”.

Apesar de certa regularidade rítmica dos poemas, especialmente dos versos escritos a partir de Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974),  nota-se que Hilda Hilst preza, e muito, a irregularidade. A escritora constrói textos ao mesmo tempo estáveis e instáveis. A obra publicada, nesse sentido, assemelha-se aos manuscritos de Proust estudados por Philippe Willemart no texto “Crítica genética e história literária” (Manuscrítica: revista de crítica genética, no 10. São Paulo: Annablume/APML, 2001, p.170): “Apesar da desordem da maioria dos 75 Cadernos que refletem uma instabilidade notável, existe uma ordem, isto é, uma estabilidade no sistema global dos Cadernos, comprovada pelo texto publicado, que possibilita a convivência de sistemas instáveis num sistema global estável.”

“Comecei me desestruturando depois de 20 anos de poesia arrumada”, afirma a autora de Ficções em 1977, entrevistada por Ana Lúcia Vasconcelos (Folha de São Paulo). A instabilidade proposta de maneira consciente por Hilda Hilst não registra um universo caótico; ao contrário disso, o caos serve para dinamizar a ordem, para criar textos com formas e ritmos múltiplos, fugindo da monotonia e da simplicidade na maioria das vezes, mas sabendo valorizá-las quando assumem uma função no texto.

Felicidade incontida, de Valdir RochaEm seus primeiros passos literários, Hilda Hilst mostra saber que desde que nascemos caminhamos em direção à morte. Em 1980, aos 50 anos, sente a presença sonora da “negra cavalinha” batendo com insistência em seu imaginário de poeta, num silencioso e duro trote, em semelhança às leves e incessantes batidas d’O Corvo de Edgar Allan Poe, “Negro pássaro de ébano” vindo “Do reino da Noite escura/ Nessa hora negra, tão tarde/ Hora de sombra e loucura”, na tradução de Isa M. Lando; ambos, Corvo e Morte anunciando a separação inevitável entre seres queridos quando alguém morre: “Nunca Mais!”... “Nunca Mais!”... “Nunca Mais!”... expressão retomada e recriada nos Cantares do sem nome e de partidas, última obra inédita em versos publicada pela escritora paulista: “Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.” (1995). Na obra Da morte. Odes mínimas, em imagens e ritmos variados, Hilda Hilst compõe cantos de desejo e repulsão à “Velhíssima-Pequenina”, que “tão escuramente caminha”: “Cavalo, búfalo, cavalinha/ Te amo, amiga, morte minha,/ Se te aproximas salto/ Como quem quer e não quer/ Ver a colina, o prado, o outeiro/ Do outro lado, como quem quer/ E não ousa/ Tocar teu pêlo, o ouro// O coruscante vermelho do teu couro/ Como quem não quer.”

“Estou viva./ Mas a morte é música./ A vida, dissonância.[...]// Alguns dias mais/ e serei música./ Serás ao meu lado/ a nota dissonante.”, versos de 1950. Em outro poema do mesmo livro, a poeta imagina, quando morta, o amado velando seu corpo e guardando seus olhos: “Quando terra e flores/ eu sentir sobre o meu corpo,/ gostaria de ter ao meu lado tuas mãos,/ E depois, guardar meus olhos dentro delas.” Jorge Coli, no texto “Meditação em imagens”, publicado originalmente na Folha de São Paulo em 1996 e divulgado em vários sites, pontua: “O poeta tenta a travessia para a morte e com ele seguimos o caminho do amor perdido, do amor afastado, do amor contido e mudo. Revelados pela poesia, a morte e o amor, feitos de pó porque feitos de corpo, eternizam-se nos ‘repentes de perpetuar a Duração’. Hilda Hilst vai buscar nas essências a matéria de suas palavras.” Aos leitores, Hilda legou mais de 40 obras, escritas sob fluxos amorosos intensos – júbilo pela poesia e pela vida, sempre; e muitas vezes pelo homem amado, que se funde na imagem paterna de Apolonio de Almeida Prado Hilst, com quem a filha teve pouco contato devido à separação dos pais. Resta agora, aos admiradores de seu trabalho literário, o desejo rutilante de que o leitor, em especial o brasileiro, encontre nas páginas de Hilda Hilst a vontade decidida de ler e reler – os textos hilstianos e da literatura universal, incansáveis vezes citados pela autora de Tu não te moves de ti.

Cristiane Grando (1974). Poeta, fotógrafa e tradutora. Diretora do Jardim das Artes: espaço cultural e residência internacional de artistas – Cerquilho-SP. Este ensaio teve sua parte I publicada em O Escritor # 107 (São Paulo, março de 2004), e a parte II  em Garatuja # 65 (Bento Gonçalves, março de 2004). Contato: crisgrando@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Valdir Rocha (Brasil).

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