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revista de cultura # 41 - fortaleza, são paulo - outubro de 2004 |
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Hilda Hilst: a morte e seu duplo Cristiane Grando
I
Várias obras da autora de Tu não te moves de ti foram traduzidas em distintos idiomas –
francês, italiano, inglês, espanhol e alemão –
e conquistaram os maiores prêmios literários do Brasil: o Prêmio
Pen Clube de São Paulo em 1962, o Prêmio Anchieta de Teatro em 1969, o
APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) em 1977 e 1981, o Prêmio
Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1984 e 1993, o Prêmio Cassiano
Ricardo, do Clube de Poesia de São Paulo, em 1985, o Prêmio Moinho
Santista, da Fundação Bunge, pelo conjunto de sua obra poética, em
2002, e uma indicação para o Prêmio Intelectual do Ano, da União
Brasileira dos Escritores, em 1990. Seu maior sonho sempre foi o de ser
lida por um grande público, o que, de certa forma, proporcionaram as Obras
Reunidas de Hilda Hilst, organizadas pelo crítico e professor de
literatura na UNICAMP Alcir Pécora e publicadas pela Editora Globo, edição
que ganhou o Grande Prêmio da Crítica
pela Reedição da Obra – APCA
– 2002. “Sempre enfatizei a qualidade de suas imagens poéticas,
em obras como ‘Da Morte. Odes Mínimas’ e ‘Amavisse’, e sua condição
de escritora herética, gnóstica moderna”, afirma o poeta Cláudio
Willer (Folha de São Paulo,
5/2/04). A autora de Roteiro
do silêncio ficava muito raivosa quando a chamavam de poetisa, por
passar a idéia de moça prendada. Lygia Fagundes Telles, sua grande
amiga, conta que certa vez Hilda apresentou-se na antiga sala de chá do
Mappin, em São Paulo, afirmando: “sou poeta”. Guilherme de Almeida,
que estava presente, comentou que a palavra poetisa
já estava meio desmoralizada e que quando a escritora era séria,
considerava-se poeta. A autora
de Alcoólicas constrói um universo da mulher que assume seu papel
social, num mundo normalmente dominado pelo ponto de vista masculino:
“Deu-me o amor este dom:/ O de dizer em poesia./ Poeta e amante é o que
sou...” (Trovas de amor para um
amado senhor). Seu trabalho criativo e suas atitudes, pouco
compreendidos pelos conservadores, contribuíram muito para uma amplitude
da visão: “Uma das funções dos escritores está em alargar os
horizontes morais de onde vive. [...] A Hilda produziu uma boa literatura
e sabia desafiar a moral”, afirma o escritor Fernando Bonassi (O
Estado de São Paulo, 5/2/04).
Em Júbilo, memória,
noviciado da paixão e nas demais obras poéticas, Hilda retoma parte
significativa da tradição literária, dialogando com várias formas
fixas de poemas – ode, trova, soneto, balada, elegia, cantares e fábulas
– às vezes aceitando-as, normalmente inovando-as. Amor, Deus e Morte; a
Poesia e o Tempo. Temáticas de predileção da autora de Sobre
a tua grande face, versos dedicados à busca de um Deus ausente e
opressor: “Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão./ Tu sabes que
amo os animais/ Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome/ Não
desejo alívio. Apenas estreitez e fardo./ Talvez assim te encantes de tão
farta nudez./ Talvez assim me ames: desnudo até o osso/ Igual a um
morto.” “Chegar e partir são só dois lados da mesma viagem”,
canta Milton Nascimento. Nesse momento de despedida de Hilda Hilst e ao
mesmo tempo de (re)encontro de muitos leitores com sua obra, recordo uma
frase do poeta chileno Jorge Teillier: “Los
trenes desaparecen pero no desaparece el alma de los trenes. Es como si
alguien se muere, no sólo queda su tumba, queda su herencia.” No caso da literatura hilstiana, uma herança de
palavras e sons, de sentidos múltiplos e ambivalentes. Hilda deixa saudade, especialmente de quando lia em voz
alta seus “versos cantantes”, como constata Dulce Salles Cunha Braga
no livro Autores contemporâneos
brasileiros. Depoimento de uma época (Editora Giordano, 1996): “Uns
barcos bordados/ No último vestido/ Para que venham comigo/ As confissões,
o riso/ Quietude e paixão/ De meus amigos.// Porque guardei palavras/
Numa grande arca/ E as levarei comigo// Peço uns barcos bordados/ No último
vestido/ E vagas/ Finas, desenhadas/ Manso friso// Como as crianças
desenham/ Em azul as águas.// Uns barcos/ Para a minha volta à Terra:/
Este duro exercício/ Para o meu espírito.” Em 1980, quando Hilda
completa 50 anos, publica Da morte. Odes mínimas, livro formado intencionalmente por 50
poemas, o que deixou registrado em seus manuscritos, adquiridos pela
UNICAMP em 1995 e em 2003, e arquivados no Centro de Documentação
Cultural “Alexandre Eulálio” (CEDAE-IEL). Nesse canto de exaltação
à morte, a autora de Cantares do
sem nome e de partidas insere-se num jogo de desejo e repulsão em que
cria a imagem da morte como amada, amante, irmã, criança, ou como
animais, em especial na sofisticada imagem do silencioso e duro trote da
negra cavalinha: “Os cascos enfaixados/ Para que eu não ouça/ Teu duro
trote./ É assim, cavalinha,/ Que me virás buscar?/ Ou porque te pensei/
Severa e silenciosa/ Virás criança/ Num estilhaço de louças?/ Amante/
Porque te desprezei?/ Ou com ares de rei/ Porque te fiz rainha?”
II
“Uma mulher encantada pela vida mundana que seduziu
muitos corações. [...] Depois de se retirar para a Casa do Sol, contudo,
Hilda transformou essa vitalidade em energia interior. ‘A solidão é
viver muito mais para as coisas de dentro do que para as coisas de
fora’, explicou. Em 1966, num recanto da fazenda materna, construiu seu
próprio sítio, a Casa do Sol. Foi uma espécie de conversão, não
propriamente uma conversão religiosa, mas, podemos pensar, uma conversão
poética.”, afirma José Castello, em 2003, no Caderno
B do Jornal do Brasil. A partir dessa introspecção e de leituras
variadas – desde biografias até textos de psicanálise, matemática, física
e, evidentemente, de poesia e prosa da literatura universal – surgiram
versos que foram se tornando cada dia mais complexos, peças de
teatro escritas sob o desejo de denunciar as atrocidades da ditadura
militar, textos redigidos em prosa poética, na qual o sagrado e o
profano, a transcendência e a sexualidade freqüentam o mesmo espaço
textual, além de crônicas bem-humoradas e irônicas que divulgaram inúmeros
poemas de sua autoria, buscando sempre desmascarar a sociedade brasileira
e mundial. A vida caminha em círculos. Hilda Hilst (Jaú, 1930 –
Campinas, 2004) abandona o mundo dissonante em que vivemos ao mesmo tempo
em que inicia sua trajetória pela imortalidade. A autora de Amavisse tinha consciência da eternidade da alma e de sua obra:
“As barcas afundadas. Cintilantes/ Sob o rio. E é assim o poema.
Cintilante/ E obscura barca ardendo sob as águas. [...]// As barcas
afundadas. Minhas palavras. / Mas poderão arder luas de eternidade. / E
doutas, de ironia as tuas / Só através da minha vida vão viver.”
(1989). Nesse momento de despedida de uma das maiores escritoras
brasileiras do século XX, os leitores são convidados a reler suas três
primeiras obras, Presságio
(1950), Balada de Alzira (1951)
e Balada do festival (1955), que
acabam de ser relançadas, neste verão de 2004, num único volume, Baladas, 12º título das Obras
Reunidas de Hilda Hilst (Editora Globo, organização de Alcir Pécora).
Na epígrafe de Balada de Alzira,
Hilda Hilst anuncia duas temáticas de predileção: a morte e a busca de
Deus. “Somos iguais à morte. Ignorados e puros./ E bem depois (o cansaço
brotando nas asas) / seremos pássaros brancos à procura de um deus.”
Em sua obra, a autora de Sobre a tua
grande face renova o modo convencional de relacionar-se com Deus e com
a Morte: “Juntas. Duas naves/ Números/ Dois rumos/ À procura de um
deus.// E as mesmas perguntas/ No sempre/ No pasmoso instante.” (1980).
Poeta e Morte estão juntas na empreitada da Vida, “à caça de um
Nada”. Apesar de certa regularidade rítmica dos poemas,
especialmente dos versos escritos a partir de Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974),
nota-se que Hilda Hilst preza, e muito, a irregularidade. A
escritora constrói textos ao mesmo tempo estáveis e instáveis. A obra
publicada, nesse sentido, assemelha-se aos manuscritos de Proust estudados
por Philippe Willemart no texto “Crítica genética e história literária”
(Manuscrítica: revista
de crítica genética, no
10. São Paulo: Annablume/APML, 2001, p.170): “Apesar da desordem da
maioria dos 75 Cadernos que
refletem uma instabilidade notável, existe uma ordem, isto é, uma
estabilidade no sistema global dos Cadernos,
comprovada pelo texto publicado, que possibilita a convivência de
sistemas instáveis num sistema global estável.” “Comecei me desestruturando depois de 20 anos de poesia
arrumada”, afirma a autora de Ficções
em 1977, entrevistada por Ana Lúcia Vasconcelos (Folha de São Paulo). A
instabilidade proposta de maneira consciente por Hilda Hilst não registra
um universo caótico; ao contrário disso, o caos serve para dinamizar a
ordem, para criar textos com formas e ritmos múltiplos, fugindo da
monotonia e da simplicidade na maioria das vezes, mas sabendo valorizá-las
quando assumem uma função no texto.
“Estou viva./ Mas a morte é música./ A vida, dissonância.[...]// Alguns dias mais/ e serei música./ Serás ao meu lado/ a nota dissonante.”, versos de 1950. Em outro poema do mesmo livro, a poeta imagina, quando morta, o amado velando seu corpo e guardando seus olhos: “Quando terra e flores/ eu sentir sobre o meu corpo,/ gostaria de ter ao meu lado tuas mãos,/ E depois, guardar meus olhos dentro delas.” Jorge Coli, no texto “Meditação em imagens”, publicado originalmente na Folha de São Paulo em 1996 e divulgado em vários sites, pontua: “O poeta tenta a travessia para a morte e com ele seguimos o caminho do amor perdido, do amor afastado, do amor contido e mudo. Revelados pela poesia, a morte e o amor, feitos de pó porque feitos de corpo, eternizam-se nos ‘repentes de perpetuar a Duração’. Hilda Hilst vai buscar nas essências a matéria de suas palavras.” Aos leitores, Hilda legou mais de 40 obras, escritas sob fluxos amorosos intensos – júbilo pela poesia e pela vida, sempre; e muitas vezes pelo homem amado, que se funde na imagem paterna de Apolonio de Almeida Prado Hilst, com quem a filha teve pouco contato devido à separação dos pais. Resta agora, aos admiradores de seu trabalho literário, o desejo rutilante de que o leitor, em especial o brasileiro, encontre nas páginas de Hilda Hilst a vontade decidida de ler e reler – os textos hilstianos e da literatura universal, incansáveis vezes citados pela autora de Tu não te moves de ti. |
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Cristiane Grando (1974). Poeta, fotógrafa e tradutora. Diretora do Jardim das Artes: espaço cultural e residência internacional de artistas – Cerquilho-SP. Este ensaio teve sua parte I publicada em O Escritor # 107 (São Paulo, março de 2004), e a parte II em Garatuja # 65 (Bento Gonçalves, março de 2004). Contato: crisgrando@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Valdir Rocha (Brasil). |