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revista de cultura # 41 - fortaleza, são paulo - outubro de 2004 |
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Caminhos da literatura brasileira atual Rodrigo Petronio
O que tenho percebido é que há
um movimento forte da literatura brasileira das últimas décadas que pode
ser articulado em torno de três grandes vertentes. Chamo-as de Imagética,
Metafísica e Participativa. Elas podem ser insuficientes sob muitos
aspectos, mas têm a virtude de conseguirem coadunar em si autores
bastante diversos sem desfigurar suas especificidades. Por literatura de
imagem, há que se deixar claro, entendo aquele tipo de produção de alto
poder plástico e pictórico, na linha de uma radicalização do ut
pictura poesis, poesia como pintura e pintura como poesia, ou seja, um
tipo de representação que, em termos técnicos, tende sempre a resolver
mesmo os conceitos mais gerais e abstratos em imagens. A imagem é
produtora do real, está ligada à fatura da obra e à poética dos
artistas. Não tem nada a ver com Poesia Visual, que seria um domínio à
parte, com suas regras próprias. Já a vertente metafísica seria
aquela que se vale de certo caráter anímico ou ancestral, tão caro à
cultura brasileira, plasmando-o em poéticas de forte pendor
transcendental, órfico, mítico e iniciático. Há aqui a marca indelével
da cosmovisão própria a cada autor e a obra tenta sempre retratar o
nosso horizonte existencial em um enquadramento o mais amplo possível.
Por fim, por linhagem participativa, entendo aquela que se funda nas questões
históricas e políticas do mundo atual e do Brasil, em especial, e tenta
pensar a poesia em sua dimensão ética e estética. É óbvio que não são
categorias puras e muitas vezes temos hibridismo, sobretudo na poesia de
imagem de extração surrealista, como veremos. A divisão é apenas didática,
para facilitar a visualização do leitor. Vamos então a elas. VERTENTE METAFÍSICA Começo a falar desta vertente
por um nome que é um dos mais complexos da cena atual e, ao mesmo tempo,
como bem assinalou o excelente crítico André Seffrin, um dos mais
injustiçados: Foed Castro Chamma. Desde a publicação de O
Poder da Palavra, em 1959, Foed vem sedimentando uma obra poética
praticamente solitária. Dono de amplos vôos criativos e de um imaginário
alimentado na alquimia e na cabala, sua poesia tenta recuperar um sentido
mágico das palavras e, por meio delas, devassar uma espécie de realidade
anterior, que se oculta, opaca sob o véu dos sentidos e imersa no sonho.
Poeta culto, cuja poesia dialoga, em reminiscências, não só com os
grandes nomes do pensamento e da poesia ocidentais, mas também com uma
corrente hermética subterrânea, dos tratados de magia e alquimia aos
grandes místicos, Foed parece viver a dimensão épica do Espírito em
suas sucessivas encarnações no tempo. O arco e a lira de sua poesia
apontam sempre em direções alegóricas que tentam subsumir em si essa
tensão: o Sonho, o Real, a Sombra, o Duplo, o Espelho, o Tempo, o Fogo,
entre outros. Tal qual um Blake moderno, Foed é um arquiteto do seu próprio
castelo de mitos particulares; essa sua atitude representa não só sua
recusa radical de todas as convenções sociais, que são, para ele, nada
mais que a ilusão cordata com a qual nos iludimos mutuamente, mas também
o ponto-de-fuga ígneo onde a própria poesia se apresenta como uma espécie
de redenção e de vivência extemporânea, para falar com Nietzsche.
Depois de uma série de livros admiráveis, o ponto máximo de sua
atividade se dá com Pedra da
Transmutação, publicado em 1984, poema cosmogônico em dez mil
decassílabos brancos que descreve a origem do Universo, palmilhando
aqueles espaços infinitos de que nos fala Milton. Ao mesmo tempo, a obra
de Foed tem uma circulação bastante restrita, ainda hoje à base de
tiragens artesanais, a ponto do crítico Carlos Newton Jr. caracterizar o
seu isolamento como um crime contra a literatura nacional. Assina traduções
em versos das Bucólicas de Virgílio,
de epigramas de alquimia e de obras de línguas modernas, além de ter um
trabalho como ensaísta. Trata-se, senão de um dos grandes, ao menos de
um dos mais complexos e enigmáticos poetas da língua portuguesa em
atividade. Em sentidos diferentes se
direcionam as obras de dois grandes autores: Ariano Suassuna e Vicente
Franz Cecim. A despeito de suas opiniões idiossincráticas e de seu
ufanismo, Suassuna vem construindo uma das obras literárias mais sólidas
dos últimos tempos. Sua obra-prima, Pedra
do Reino, é um romance-monumento onde ele revisita todo o imaginário
popular do Nordeste, desenvolvendo fatos maravilhosos com engenhosidade e
humor. Sua obra deita raízes profundas no romance picaresco espanhol e na
tradição do romanceiro ibérico, além de dialogar verticalmente com a
formação cultural do Brasil no que ela tem de mais ancestral e atávico.
Foi um dos idealizadores e protagonista do movimento Armorial, lançado em
1970, cujo objetivo era reunir poetas, escritores, músicos, artistas plásticos
e dramaturgos em torno do ideal de aproveitamento do conteúdo mito-poético
da herança popular e folclórica brasileiras, bem como utilizar os
componentes mais profundos desses aspectos da nossa cultura na arte. O
resultado plástico e literário desse movimento é de grande valor,
justamente por conseguir incorporar esse substrato artístico, muitas
vezes anônimo, mas que vinha sendo amadurecido, geralmente de maneira
subterrânea, ao longo de séculos, e que tem suas raízes profundas na própria
história da Península Ibérica e no processo colonizador das Américas.
Foram partícipes do Armorial alguns grandes artistas plásticos
brasileiros da atualidade, como Francisco Brennand e Gilvan Samico.
Suassuna também é dramaturgo, autor do Auto
da Compadecida, peça teatral de grande êxito, que já teve inúmeras
montagens, e cujo protagonista pode ser comparado aos pícaros da
literatura espanhola. Com um trabalho também em pintura, que ele define
como Iluminupinturas, misto de iluminura com pintura, o autor congrega
imaginação transbordante, humor, nonsense, mitologia e magia das crenças
religiosas populares a um amplo conhecimento da grande literatura,
sobretudo a de língua portuguesa. Suassuna é um nome de proa da
literatura brasileira atual. E há quem diga que o único ponto de comparação
de Pedra do Reino seja Grande
Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, publicado em 1956. Já a obra de Franz Cecim se
desenvolve em uma direção mais existencial e chega a ser difícil
defini-la nos limiares da prosa e da poesia. Escrita de rupturas e de
vertigens, Franz Cecim escreve uma única obra, Viagem
a Andara, que se subdivide em diversos livros. O palco mítico de sua
prosa é a Amazônia, mas estamos muito longe sequer de vestígios de
literatura regionalista. O autor fala sempre na Floresta Sagrada. Trata-se
de uma floresta totalmente alegórica, e é nela que se desenreda a vida
de seus personagens e seu texto-vida insurrecto, como o definiu certa vez
Benedito Nunes, um dos maiores críticos brasileiros em atividade. Tanto
que por muitas vezes sua prosa é auto-referencial: diz o que é o livro
de Andara e o que vem a ser Andara, como em um dos livros, intitulado A
Asa e a Serpente, mas sempre de maneira elíptica, tentando produzir
um isomorfismo entre o real e o imaginário, entre os personagens da trama
e o enredo da vida empiricamente situada. Mais do que uma filiação à
Literatura Fantástica, que levou a literatura da América Latina a um
conhecimento de nível internacional, Cecim reivindica uma literatura
fantasma: aquela que só é legível, não em termos icônicos nem simbólicos,
na famosa distinção de Peirce, mas sim indiciais e residuais. Uma
prosa-poesia que deixa vestígios do ato criador em cada linha. Uma
poesia-prosa que lida o tempo todo com a dimensão transcendental da
representação e não está interessada no que é verossímil, no sentido
clássico e aristotélico do termo. Uma escrita que deixa rastros do
sangue do escritor na página e da corporalidade de seus personagens na
escritura. Como notou com lucidez o crítico Leo Gilson Ribeiro, há algo
na literatura de tipo realista, aquela que se preocupa com o registro
fidedigno das disparidades sociais, que não consegue dar conta da aflição
estrutural e existencial do homem em estado de abjeção. Só uma prosa
que bebe em correntes arquetípicas profundas, como a de Cecim, e, para
lembrar uma escritora da mesma família espiritual, Clarice Lispector, é
capaz de solver esse impasse formal e dar conta da amplitude ética e
existencial dessa realidade. A melhor maneira de visualizar algo parecido
com a sua literatura é cinematográfica: Andrei Tarkóvski.
Gerardo, como frisou o grande e
saudoso crítico José Geraldo Nogueira Moutinho, em artigo antológico,
intitulado Poeta Grego do Ceará,
é um poeta antigo, no sentido forte do termo, um aedo, poder-se-ia dizer.
Recicla cantos populares e a tradição rítmica da poesia oral, aliados
ao conhecimento amplo da grande poesia moderna e ao domínio de diversas línguas,
inclusive o grego e o latim. Esse percurso pode ser notado com muita
nitidez em sua trilogia: O País dos
Mourões, Peripécias de Gerardo
e Rastro de Apolo, os dois
primeiros de 1972 e o último, de 1977, posteriormente reunidos no livro Os Peãs. Esse curioso nome, peã, no masculino, parece dar a chave
para a poesia de Gerardo. Trata-se de um tipo de canto ritual dos antigos
gregos. Louvação da terra, dos animais, dos sentidos, dos prazeres
mundanos e ao mesmo tempo meio de elegê-los e inscrevê-los num domínio
sobrenatural, de pura participação nas essências, cujo acesso nos é
possibilitado pelo sopro da poesia pela flauta do poema, a obra de Gerardo
é um dos maiores elogios que a poesia brasileira já fez à liberdade. Não
à liberdade como falta de comprometimento, mas sim como a liberdade
radical, profunda e conquistada de que nos falam todas as filosofias da
existência, desde Kierkegaard, passando por Heidegger até Sartre. Como
homem, teve e tem vida turbulenta, repleta de acidentes políticos e
viagens por vários lugares do mundo. Sua poesia é uma espécie de canto
multifacetado onde tenta reviver suas origens familiares e, ao mesmo
tempo, recompor as peças da história e a triste fragmentação do mundo
onde lhe foi dado viver. Assim, tende sempre ao épico, mesmo quando o
registro é lírico e a música é de câmara. Gerardo também publicou
duas obras magistrais na área da ficção: Piero
della Francesca ou As Vizinhas
Chilenas e Valete de Espadas.
É autor de inúmeros ensaios sobre poesia, literatura, política,
economia, entre outros assuntos, onde podemos rastrear seu percurso
intelectual. Poeta de repercussão e vivência internacionais, chegou a
ser correspondente de jornais brasileiros em Pequim. Dele disse Ezra Pound
que foi um dos poucos poetas que conseguiram escrever a poesia épica da
América. Em sentido semelhante, poetas
com espírito cosmopolita, que parecem ter superado a dicotomia proposta
pelo Modernismo entre uma literatura colonizada e outra, colonizadora, têm
dado a pauta das discussões. Podemos identificar o espírito de superação
dessa aporia inicial em nomes como Bruno Tolentino e Affonso Romano de
Sant’anna, embora o primeiro se vincule mais às questões
transcendentais e o segundo tente fazer uma síntese do embate político e
cultural de nosso tempo. A obra de Tolentino entra de vento em popa na
supracitada vertente metafísica. Não porque adere à paisagem mítica
que os poetas que mencionei acima mobilizam de maneira exemplar em seus
versos. Mas sim porque pertence a uma linhagem de poesia meditativa, de
forte extração religiosa e sacramental. A grande maioria de sua obra
segue formas fixas e se cumpre em torções clássicas do verso. Porém,
sua modernidade é de outra ordem. Pode-se dizer que ela se cumpre numa
espécie de teologia negativa que o poeta encarna, já desde a publicação
de Anulação, seu livro de estréia, de 1963, tratando o mundo
decadente em que vivemos sempre como fruto da marmorização do ser levada
a cabo pelo império da Idéia. Esse percurso, poético e intelectual, por
meio do qual o autor identifica, na emergência dos sistemas e das
especulações abstratas, o início da crise do pensamento ocidental,
passa por obras como Os Deuses de
Hoje, de 1995, talvez um de seus melhores livros, e vem desaguar em O
Mundo como Idéia, de 2002, livro-ensaio de poemas e reflexão crítica,
onde o autor demarca o itinerário paulatino de substituição da luz
inteligível pela luz conceitual, valendo-se de toda a história das artes
plásticas no Ocidente como emblema, desde Paolo Uccello. Para Tolentino,
a modernidade, em termos amplos e seculares, se funda sobre o vazio
calamitoso da ausência do divino. Já a modernidade de sua poesia, por
seu turno, reside justamente no avesso dessa constatação e na tentativa
de redenção e repúdio a este absurdo que nos constitui. Sua obra aponta
para esse problema e tenta fazer a sua contrafação, como crítica e como
peroração, por meio da poesia, de um sagrado veraz e possível, ainda
nos dias de hoje. Tolentino também tem obras em inglês, About
the Hunt, e francês, Le Vrai le
Vain, que receberam críticas positivas de nomes como Jean Starobinski
e Yves Bonnefoy. VERTENTE PARTICIPATIVA Poeta que procura efetuar sínteses
e que tenta agregar à poesia um repertório não necessariamente
nacional, embora preocupado com os grandes vôos e a grande abrangência
que lhe podemos facultar, em termos históricos e culturais, Affonso
Romano de Sant’anna nos oferece esse movimento em duas de suas grandes
obras: o A Grande Fala do Índio
Guarani e Catedral de Colônia.
Se a primeira tece uma longa antífona pensando a situação excêntrica
do protagonista de um país igualmente excêntrico em termos políticos e
econômicos, a segunda pode ser vista como a incorporação que um poeta
culto faz da história européia, e consiste em um longo poema, com menções
eruditas sobre a edificação desse templo, numa espécie de mosaico poético.
Mal comparando, pode ser pensada como um correlato do longo poema Auto-Retrato
num Espelho Convexo, de John Ashbery, publicado em 1975. Sant’anna
também se destaca como pesquisador e como crítico de arte, sobretudo
pela crítica contumaz que vem fazendo à arte conceitual, o que lhe valeu
o título de inimigo número um de curadores, marchands
e galeristas, alfinetados por suas palavras. De sua autoria,
Que Fazer de Ezra Pound? e Desconstruir
Duchamp talvez sejam os seus livros mais iconoclastas, aqueles onde
pretende implodir por dentro dois arautos da modernidade. Mas a sua
investigação, ao contrário do que pode parecer, nunca cede à pura polêmica.
Em artigo memorável, publicado
em maio de 1984, no Jornal da Tarde,
o sociólogo Gilberto Freyre, gênio que, também ele, aquilata a língua
portuguesa com sua obra, aborda a obra de outro ótimo poeta, em consonância
com as indagações e embates do processo civilizatório da América
Latina, definindo-a como uma poesia sócio-filosófica. A definição é
das mais pertinentes, quando se tem em mente que o poeta em questão é Mário
Chamie. Dono de um amplo arcabouço teórico nas áreas de semiótica e
lingüística, Chamie lança, em 1962, um dos seus livros capitais: Lavra
Lavra. Como adendo, o texto crítico que funda a Instauração Praxis
e que define o que vem a ser o Poema-Praxis. Instauração e não
movimento, porque Chamie quer recuperar o feixe de possibilidades poéticas
aberto pelo Modernismo brasileiro, além de dialogar com a arte moderna,
em sentido mais amplo, e assim tenta quebrar a própria idéia de um
movimento coeso, circunscrito a regras de domesticação e a um espírito
de rebanho. A obra é fruto de pesquisas lingüísticas do poeta no âmbito
rural do Brasil, mas usa esse substrato de maneira inventiva, de modo que
consegue dar uma idéia da exploração social e da situação campesina,
valendo-se de uma linguagem flexível e de grande complexidade sintática
e semântica. Depois, em Indústria, de 1967, Chamie vai seguir o mesmo itinerário de
pesquisa e intervenção. Porém, aqui é a estética serial das grandes
cidades e a fala entrecortada dos seus habitantes que serão o húmus
germinativo de sua floração poética. Pode-se dizer que Chamie pensa a
arte sempre em sintonia com a realidade histórica imediata, tentando
operar sínteses entre a experiência de viver em uma sociedade tecnológica,
porém subdesenvolvida, e a criação poética. Mas nunca o faz em conivência
com o status quo, mas sim em tom
crítico, sem nunca abrir mão da ourivesaria do verso. O poeta tem também
um importante trabalho como teórico da literatura e como ensaísta.
Personalidade de uma honestidade intelectual ímpar no nosso meio, Chamie
também é um dos nomes mais polêmicos e combativos das últimas décadas,
o que lhe valeu adversários aos montes, mas que nunca lhe fizeram demover
o pé de suas convicções e, na maioria das vezes, não se equiparam a
ele em talento. VERTENTE DA IMAGEM Um aspecto da literatura
brasileira a ser estudado ainda é o espírito refratário de seus críticos
e mesmo de seus escritores a algumas correntes da arte moderna, em
especial ao Surrealismo e ao Expressionismo. Mesmo tendo-se em conta que
dois dos maiores poetas brasileiros do século XX, Murilo Mendes e Jorge
de Lima, são de forte extração
surrealista, é estranho que no plano valorativo mesmo eles ainda esperem
ser devidamente lidos e apreciados. Pode-se aventar que o forte influxo
futurista no Modernismo brasileiro e sua subseqüente radicalização, com
o movimento da Poesia Concreta, lançado em 1956, tenham sido os responsáveis
por manter alijada dos centros de discussão uma estética tão rica e que
rendeu tantos bons poetas. Mais que isso: que pode nos possibilitar até
uma outra leitura, não só da arte, mas do próprio real, atenuando o
hiato que separa a vida da criação, a arte de sua inserção no mundo. Podemos começar por três
deles, embora haja divergências de base entre eles próprios sobre suas
respectivas obras: Claudio Willer, Roberto Piva e Sergio Lima. A atividade
de Willer na área da literatura é de uma generosidade pouco freqüente
nesses meios. Tradutor e introdutor de autores fundamentais, e até então
desconhecidos no Brasil, como Lautréamont, Allen Ginsberg, Antonin
Artaud, entre outros, difusor de literatura, crítico, ensaísta,
prosador, palestrante e durante bom tempo presidente da União Brasileira
dos Escritores, a obra de Willer, mais do que algo da ordem do puro
artefato literário, parece apontar para uma espécie de vivência
integral da literatura em todas as suas vertentes possíveis. Esse aspecto
lhe foi evidentemente instilado pelos surrealistas, com alguns dos quais
chegou a travar contato direto em Paris. A eles sua obra explicitamente se
liga, e ao seu imperativo, que tentava conjugar a transformação da vida,
exigida por Rimbaud, ao mudar o mundo, vindicado por Marx. É nessa conexão
indissolúvel, da arte não como uma representação do real, mas como uma
de suas zonas de sombra, da arte não como algo a ser conquistado, mas sim
como uma potência a ser vivida, que se desenvolve a obra de Willer. Em
termos poéticos, desde seu primeiro livro, Anotações
para um Apocalipse, de 1964, Willer parece tentar equacionar toda a
força da sua poesia em feixes luminosos de imagens. E mesmo a revolta
inexpressa ou o forte teor erótico que subjaz a seus versos, muitas vezes
em sintonia com o erotismo de Paul Éluard, por exemplo, encontram resolução
no silêncio aterrador da imagem e sua síntese de elementos distantes,
operada em alta voltagem metafórica. Trata-se de uma poesia de rebelião
romântica mais do que de revolta, na famosa distinção de Octavio Paz,
um dos seus autores prediletos. Poesia da vida e vivência cotidiana poética:
eis os termos da equação que ele nos propõe. Também é autor de Volta,
uma autobiografia.
A trajetória de Sergio Lima é
mais excêntrica. Tendo-se ligado ao grupo surrealista francês, com André
Breton, Lima segue os ditames da poesia de imagem surrealista de uma
maneira bem mais ortodoxa, dificilmente transigindo em pontos que ele
considera intocáveis do Surrealismo, sejam eles artísticos, éticos ou
ideológicos. O que mais chama a atenção em sua poesia é a própria
concepção do poema como texto e, mais além, como intertexto. Citações
e considerações vêm entremeadas ao poema em uma fluidez pouco usual, de
modo que perdemos às vezes a linha do desenvolvimento lógico dos versos
e suas demarcações de fronteiras. Outra tônica: o erotismo. Em doses
fortes, ele funciona como uma espécie de ímã da poética de Sergio
Lima, catalisando em torno de si versos, fragmentos, imagens, fotografias,
olhares, como podemos ler em A Alta
Licenciosidade, livro publicado em 1985, que reúne parte de sua produção
poética. Lima tem um importante trabalho como artista plástico e como
professor de história da arte e de collage,
e está preparando o segundo dos quatro tomos de Aventura
Surrealista, obra ambiciosa, onde pretende fazer uma espécie de
percurso amplo e exaustivo dessa estética. Nutrindo-se desse mesmo esteio
poético que alia imagem e verbo, temos dois nomes bastante singulares:
Floriano Martins e Contador Borges. A atividade de Floriano no campo da
literatura é das mais abrangentes. Provavelmente um dos maiores
conhecedores brasileiros de literatura hispano-americana, Floriano é
responsável pelas melhores dentre as escassas pontes que já foram
criadas entre os países vizinhos da América Hispânica e o Brasil, tão
próximos, cultural e lingüisticamente, e, no entanto, tão distantes.
Sua atividade se espraia em uma série de ramos: crítico, tradutor, ensaísta,
compositor, biógrafo do músico Alberto Nepomuceno, poeta, ficcionista e
editor da revista virtual de cultura Agulha, junto com Claudio Willer. De sua obra poética, talvez o
livro Alma em Chamas, de 1998,
reunião de parte de seu trabalho anterior, seja o mais paradigmático.
Unindo prosa poética e poesia, labirinto de imagens e teatro com nomes
fictícios, muitos dos quais inspirados em personagens reais do convívio
do autor, esta obra vai desde os mergulhos mais verticais nas zonas do
inconsciente à pintura tomada ipisis
litteris como motivo poético central, como é o caso da sessão de
abertura: Aula de Pintura. Amante das vertigens e da imagem como
pontos-de-fuga existenciais, dos improvisos luminosos à maneira de Keith
Jarrett, leitor dos surrealistas e de toda uma tradição heterodoxa da
poesia hispano-americana, Floriano parece unir todo esse material de
experiência e de leituras feito em sua poesia, sendo obra de
verticalidade e de entrega, mais do que de falsas e inócuas contensões
hipoteticamente rigorosas. Desenvolve um trabalho na área de
collage, com os quais geralmente ilustra seus livros. É autor também
do livro de poemas Estudos de Pele.
E por falar em pele: teias,
estampas, máscaras, folhas de rosto, poros, nudez, véu e pele. A poesia
de Contador Borges parece feita desses tecidos de imagens que ele mimetiza
a seu bel-prazer e lhes dá volume, dimensão, consistência, textura,
cor, brilho e intensidade, sugerindo que são reais, quando na verdade são
algo entre o etéreo e mais profundo rito saído dos ventres da terra. Tal
oscilação é difícil de ser apreendida e aprendida: lida com os limites
da representação e com o ir e vir do mais desencarnado espírito ao mais
telúrico dos prazeres. Talvez seja nessa chave que possamos ler os dois
livros principais de Contador: Angelolatria,
de 1997, mas que reúne sua produção anterior, e O
Reino da Pele, de 2003. Essa construção literária tem uma fonte.
Aliás, algumas. E se lembrarmos que Contador, além de poeta, é tradutor
de autores como Gerard de Nerval, René Char, Marquês de Sade e estudioso
da obra de George Bataille, talvez tenhamos aqui algumas pistas de suas
leituras e de seu universo imaginário. A conexão que Contador estabelece
com os anjos não é, porém, semelhante à de Rilke. Há ironia e também
nostalgia de uma espécie de pátria alienada, ideal e desmaterializada,
em seus versos. Da mesma forma, só temos acesso ao sensível. Ele é que
constrói a trajetória de nosso ser e nos lapida em nosso íntimo. Para
falar com Paul Valéry: não há nada mais profundo que a pele. Contador
sabe disso e é por isso que ele faz dela o seu reino e seu império, pois
querer atravessar o seu mistério e transcender os seus limites é correr
o risco de nos perdermos, em plena queda, no vazio da mais completa falta
de sentido. NOVOS RUMOS |
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Rodrigo Petronio. Poeta e ensaísta. Autor de Transversal do Tempo (ensaios) e História Natural (poesia), entre outros. Prepara novo livro de poemas que será publicado em breve pela Editora Girafa. Contato: pseudopetronio@directnet.com.br. Página ilustrada com obras do artista Valdir Rocha (Brasil). |