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revista de cultura # 41 - fortaleza, são paulo - outubro de 2004 |
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Roman Polanski: talento diabólico Antonio Jr.
Nascido casualmente em Paris, o
polaco Roman Polanski é autor de vários filmes fundamentais, desde a
aplaudida estréia com Faca na Água (1962). Depois de duas décadas
ingratas, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes e o Oscar de direção
por O Pianista (2002). Sua vida intensa e extraordinária é
marcada por cruéis experiências: a mãe morreu em um campo de concentração
nazista, passou a infância no gueto judeu de Cracóvia, teve a esposa
Sharon Tate e o filho a ponto de nascer assassinados por um fanático
religioso, foi acusado de manter relações sexuais com uma menor na casa
de Jack Nicholson, expulso dos Estados Unidos e outros turbulentos
acontecimentos. De sunga minúscula, camiseta azul,
descalço, olhos pequenos e irônicos, baixinho, enxuto e simpático, o
talentoso autor do asfixiante O Bebê de Rosemary (1968) deixa cair
por terra o mito do homem enigmático, libertino e perverso. Durante duas
horas fala sobre sua vida e sua carreira, amavelmente revelando-se sem
artifícios. [AJr.] AJr. - Sua esposa, Emmanuelle
Seigner, teve papéis destacados em vários filmes seus. Qual a importância
dela para a sua vida e o seu trabalho? RP - Ela chegou num momento
decisivo de minha vida, trazendo harmonia e paz. Apesar de sua juventude,
descobri que possuía um instinto enorme em relação as pessoas e uma visão
muito justa diante das coisas da vida. É uma mulher realista que com a
idade vem adquirindo uma particular sabedoria. Nós nos conhecemos muito
bem e fizemos um pacto de esquecer nossa relação amorosa durante o
trabalho. Profissionalmente dissimulamos a intimidade para evitar interferências
na nossa criação. AJr. - Antes trabalhou com gente do
calibre de Mia Farrow, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani e Ben Kingsley.
Como funciona o seu relacionamento com os atores?
AJr. - Também é conhecido – e
louvável – o seu interesse por antigos atores, muitos deles
praticamente aposentados. RP - É um prazer trabalhar com
velhas glórias. Em O Inquilino dei um papel forte para Shelley
Winters. Trabalhei com Ruth Gordon, Melvyn Douglas e Ralph Bellamy em O
Bebê de Rosemary. Eles são grandes atores da grande época de
Hollywood. E um bom ator não tem idade. AJr. - Todos sabemos de sua infância
sofrida e dos inúmeros problemas futuros. O Pianista deu-lhe a
oportunidade de examinar suas angústias e medos pessoais? RP - Passei minha infância num
gueto e consegui escapar. Eu queria fazer um filme sobre essa época
usando material de minha vida, porém não queria contar minha história.
Quando comecei a ler o livro, soube que O Pianista seria meu próximo
filme. É uma história que, apesar do horror, tem um lado positivo. É um
homem que se salva por sua arte, é a sobrevivência de um artista. O
livro é objetivo, me impressionou, pois não queria fazer um filme
sentimental estilo Hollywood. AJr. - Fala de A Lista de
Schindler, de Spielberg? RP - Falo de muitos filmes. A
Lista de Schindler é um grande trabalho. Fui convidado por Spielberg
para dirigi-lo e recusei. A história é muito próxima da minha própria
história. Conheci intimamente a muitos dos personagens dela, e alguns
ainda estão vivos, são meus amigos. Eu não faria um bom filme nessa
situação. Jamais exploraria a minha vida ou a de meus amigos para vender
ingressos. O filme sem distanciamento não é arte, é autobiografia. AJr. - Foi duro recriar um momento
indigno da nossa história moderna e que faz parte do seu passado? RP - Na realidade, não. Filmar não
foi difícil. Meus fantasmas eram massacrados diariamente num set de
filmagens com centenas de pessoas. Tinha que estar com a mente voltada
para questões técnicas. Acompanhar o processo de criação do roteiro de
Ronald Harwood foi mais doloroso. AJr. - Esta obra resgatou-o de vários
insucessos e calou a boca dos que diziam que estava criativamente acabado.
Concorda? RP - É um filme realmente
importante para mim. Dirigi-o pensando num resultado simples, direto,
procurando mostrar as coisas tal como as recordava. Fiz todo tipo de filme
e tenho a impressão de que tudo que fiz antes era uma preparação para O
Pianista. Pode ser que seja como um último chamado, afinal eu sempre
soube que faria um filme na Polônia sobre a Segunda Guerra Mundial ou
sobre o período pós-guerra.
RP – Não acredito no
sobrenatural. Não sou uma pessoa religiosa, portanto não sou
supersticioso. Não tenho interesse na metafísica nem no esoterismo. O
sobrenatural é apenas um elemento que usei em alguns filmes. O sombrio
está dentro de nós, não é preciso procurá-lo muito longe. AJr. - Porém o macabro está
presente em muitos dos seus filmes. É uma atração incontrolável? RP - Como já disse, não creio no
sobrenatural. Rodei muitos filmes que não tratam do diabólico, e sempre
sou lembrado como o Polanski com seus infernos, com seus demônios. Dizem
o mesmo em todo o mundo. Participei de uma coletiva de imprensa
recentemente e todos os jornalistas falaram sobre tal assunto. O louco é
que querem que eu aceite um clichê, como se não fosse dono de minha própria
vida. Eu nunca vi o diabo e não creio nele da forma que é vendido. Não
participo de rituais ou bruxarias como dizem por aí. AJr. - Nada pergunto sobre o diabólico
banalizado, religioso, nada insinuo nesse sentido. Gostaria de saber o que
tem a dizer sobre o mal presente na sua obra. Não há como negar, é um
fato. RP - A verdade é que a metáfora
do mal me interessa, a idéia do homem enfrentando forças extremas que não
controlam. Gosto muito do macabro como espetáculo. O medo também pode
ser divertido. Uso o mal nas telas como diversão. Por que não? Ele está
presente em O Bebê de Rosemary e O Nono portal. AJr. - E em O Inquilino, Macbeth,
A Dança dos Vampiros, Lua de Fel… RP - Possivelmente goste desse
tema. Também me diverte de alguma forma. Porém, pode acreditar, sou um
sujeito comum e na minha vida não é isso o que me interessa. O engraçado
é que até Emmanuelle, minha mulher, disse-me certa vez: “O que faz de
melhor são as histórias de vampiros e de diabos”. Ou seja, minha própria
mulher colabora com essa etiqueta imposta. Portanto, nada posso fazer, só
resta dar risadas. AJr. - 16 filmes em mais de 40 anos
de carreira. Por que filma tão pouco? RP - Os filmes são caros, os
riscos são grandes e é difícil desenvolver um projeto, que pode durar
anos para converter-se em realidade. É preciso escolher um tema,
trabalhar no roteiro, organizar a produção, montar o financiamento,
encontrar os atores. Nos anos sessenta era mais fácil, agora os
interesses são outros e nem sempre vale a pena correr o risco. Quando se
é jovem, quando não se é conhecido, podemos arriscar sem problemas e
filmar da forma que for possível. Depois de uma certa experiência é
melhor esperar um pouco mais, estar convencido de que será uma obra
significante.
RP - Eu amo profundamente os
livros, seu aroma e tato, tudo o que faz parte deles. Amo a cadência das
palavras, a forma como o autor se apodera dela. Gosto muito de Faulkner,
Truman Capote e Scott Fitzgerald. Leio livros policiais, Raymond Chandler,
a série noir francesa. A literatura norte-americana é a minha
favorita, é a melhor. Porém prefiro a leitura de livros científicos e técnicos.
Infelizmente creio que um livro é uma espécie em extinção. AJr. - Sabemos que além de dirigir
filmes, teatro e ópera, e escrever roteiros, também atua. É importante
para a sua carreira? Woody Allen diz que só atua nos seus filmes quando não
encontra o ator ideal para o papel. RP - Levo a sério minha carreira
como ator. Gosto muito de atuar. Sou daqueles que incorpora realmente o
que interpreta, vive o seu papel com entrega. Creio que tive um dos meus
melhores momentos nessa área em “Uma Simples Formalidade”, de
Giuseppe Tornattore, dividindo cena com Gérard Depardieu. É mais fácil
atuar do que dirigir. Um ator faz o seu trabalho de preparação, atua, dá
algumas entrevistas e continua a sua vida. Um diretor pode passar anos
envolvido no mesmo projeto. AJr. - Algum cineasta foi
importante para a sua formação? RP - Luis Buñuel. Fiquei
impressionado com Los Olvidados, que vi na Escola de Cine de Lodz.
Nunca tinha visto algo parecido. Sua originalidade, seu estilo nada
convencional, suas interpretações realistas, me comoveram. O cinema de
Buñuel é fascinante, me interessa. Expressa certas idéias, pensamentos,
de forma muito bem utilizada. AJr. - Por que passa os verões em
Ibiza? Ajuda-o a elaborar os seus projetos? RP - Estive na Espanha pela
primeira vez no final dos anos cinqüenta. Acompanhava minha futura
primeira mulher, Barbara Lass, que apresentava um filme no festival de San
Sebastián. Terminei gostando da Espanha, seu idioma e costumes. Passei a
freqüentar Ibiza no final dos setenta e comprei esta casa uma década
depois. É uma ilha tranqüila e com bom clima. Aqui penso, falo, leio,
estudo propostas. No meio dessa tranqüilidade, estou sempre com a mente
inquieta preparando-me para o próximo filme. AJr. - E o que vem por aí? RP - Poderia dizer que quero continuar filmando, continuar alimentando o meu experiente e particular olhar em direção ao homem e suas paixões, obsessões e demônios. Trabalho atualmente na adaptação do livro “Oliver Twist”, de Charles Dickens. |
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Antonio Júnior (Brasil, 1970). Escritor. Autor de
livros como O aprendiz do amor (1993), Caprichos (1998) e Artepalavra
- Conversas no velho mundo (2003). A série de entrevistas que vem
realizado com distintos nomes da arte e da cultura em todo o mundo
encontra-se em El Gitano (www.elgitano.blig.ig.com.br). Contato: antonio_junior2@yahoo.com. Página ilustrada com obras do artista Valdir Rocha
(Brasil). |