revista de cultura # 41 - fortaleza, são paulo - outubro de 2004

artista convidado: valdir rocha






 

Bronzes e linhas: exposição de esculturas e desenhos de Valdir Rocha

Mirian de Carvalho

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Valdir RochaNa Galeria de Arte do IBEU/Copacabana, no Rio de Janeiro, de 6 de outubro a 5 de novembro deste ano de 2004, estará aberta ao público a exposição de esculturas e desenhos de Valdir Rocha. Na abertura dessa mostra, serão lançados os livros: A Escultura de Valdir Rocha, de Mirian de Carvalho, com 114 reproduções, e O Desenho de Valdir Rocha, de Péricles Prade, com 159 reproduções. Ambos os trabalhos publicados pela Escrituras (São Paulo, 2004). Incluindo depoimentos de teóricos da arte, dentre eles Jorge Anthonio e Silva, ao longo dessa mostra haverá exibição de DVD, focalizando etapas e procedimentos de trabalho recente de Valdir Rocha. Trata-se da Torre de Babel: escultura de grande formato – realizada em bronze –, obra ainda não apresentada ao público.

Escultor, desenhista, pintor e gravador, Valdir Rocha é autodidata e dedica-se às artes plásticas desde 1967. Residente em São Paulo, Valdir Rocha já realizou mostras individuais nessa cidade, e seu trabalho tem sido objeto de análise em diversos livros, artigos e ensaios, bem como tem sido tema de estudos e comunicações em eventos universitários relacionados à área artística, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Dentre esses enfoques, em 2003 seu trabalho foi tema de comunicação em Seminário realizado na UFRJ [1], e, no ano em curso, Valdir Rocha participou de evento com outros artistas, no Rio de Janeiro, onde apresentou esculturas e gravuras na Capela Ecumênica da UERJ, por ocasião do lançamento do periódico Dialoghi – Rivista di Studi Italici, na qual se encontra o ensaio O Mito de Jano na Escultura de Valdir Rocha: as duas faces do tempo e das portas. [2] Além das obras de Mirian de Carvalho e de Péricles Prade, lançadas na abertura da presente mostra, destacam-se os seguintes livros sobre o trabalho do artista:

1 Intimidades Transvistas (Escrituras, São Paulo, 1996), com reprodução de 80 de suas pinturas, ilustradas com poemas de 20 autores. Nesse volume, inverte-se a ordem usual das edições em que desenhos ou pinturas ilustram textos anteriormente escritos. Nele, os poemas partem de algo sugerido pelas pinturas de Valdir Rocha, com elas se harmonizando;

2 Fui Eu (Escrituras, São Paulo, 1998), volume em que 41 destacados poetas brasileiros, sob a coordenação de Eunice Arruda, escrevem poemas em torno de uma única pintura, que lhes serve de ponto de partida;

3 Valdir Rocha - Xilogravuras (São Paulo, Escrituras, 2001), com mais de 120 gravuras reproduzidas e texto de apresentação de Nelly Novaes Coelho;

4 Cabeças (São Paulo, Arte Aplicada, 2002), com reproduções de pinturas e esculturas em bronze e texto de apresentação de Péricles Prade;

5 Gravuras em Metal (São Paulo, Artemeios, 2002), com 125 reproduções e texto de apresentação de Carlos Soulié do Amaral.

Transeuntes, de Valdir Rocha

Valdir Rocha tem divulgado sua arte, principalmente, através da mídia impressa, utilizando imagens associadas a textos poéticos e a estudos críticos, bem como por meio das mídias eletrônicas, tais como vídeo, DVD e CD, dando à sua produção artística possibilidades de leitura conceitual. Dentre os vários teóricos que escreveram sobre seu trabalho e / ou deram depoimentos gravados, destacam-se professores universitários e / ou críticos de arte filiados às Associações Brasileira, Internacional, e Paulista de Críticos de Arte. Neste número da Revista Agulha, apresentamos imagens do trabalho de Valdir Rocha – abrangendo várias técnicas – e o seguinte texto referente à mostra de esculturas e desenhos, em exposição no Rio de Janeiro:

A produção artística de Valdir Rocha implica diversificação de meios expressivos e utilização de materiais inusitados, apresentando estrato estilístico de cunho expressionista-simbólico, pautado numa poética do estranhamento. Nessa poética, definimos por estranhamento incursões nos campos do motivo, da temática e da técnica, deflagradas através da imaginação. Quanto ao motivo, o estranhamento compreende mundivisão mítica e encantatória. Mas, trazido ao cotidiano, o mundo mítico-mágico se diversifica em temas que abrangem seres pertencentes a uma espécie. E, quanto à técnica, o estranhamento se refere aos materiais inusitados e/ou transformados de modo não usual.

Multidão, de Valdir Rocha

No trabalho de VR, o estranhamento se inicia pelo motivo apreendido como fragmento. Na quase totalidade dos trabalhos, o artista esculpe, desenha, pinta e grava Cabeças. Arquétipo e centro de sentidos do ser, as Cabeças integram uma plêiade de fisionomias reveladoras de sentimentos, paixões e atos próprios dos humanos. A partir dessa matriz simbólica, VR reúne um rebanho de seres diversos e aparentados. Figuras míticas. Animais. Objetos. Vegetais. Fenômenos da natureza. Seres Humanos.

Na Escultura, seja ela em bronze, pedra ou argila, VR capta o “ser” da Cabeça. Esse ser se pontua um e vários. Revela-se na rugosidade das coisas antigas. Revela-se na indiferença da eternidade. Dinamiza-se na velocidade da Cabeça em busca de algo – ou de si mesma. Dinamiza-se na personificação dos animais, na animização dos vegetais, e no íntimo das coisas inanimadas. E se atualiza na longevidade das imagens totêmicas. Fazendo-se motivo originário, a Cabeça adere a um corpo intuído, enquanto a matéria revela metamorfoses e/ou se vê valorizada em aspectos sensoriais. Do ponto de vista escultórico, o estranhamento se insurge também através da “pintura” das peças, bem como por meio das pátinas.  Não se trata de efeito decorativo, nem de efeito de envelhecimento artificial da matéria. Mas de recurso plástico-expressivo, dando qualidades à fisionomia, e ao corpo – seja ele imaginário ou substancial. 

Convicto, de Valdir RochaNo Desenho, assim como na escultura, as Cabeças se diversificam em várias tipologias [3]. E, do ponto de vista da transformação dos materiais, o estranhamento se deflagra nas superfícies. Plástico. Chapa de acrílico. Tecido. Recouro. Pedra. Madeira. Papelão. Papel, etc. Em incursões apropriadas ao papel, a linha úmida de tinta algumas vezes atravessa o suporte, atuando nas duas faces. Em alguns casos, recortado com as mãos, o suporte integra o contorno do próprio desenho.  No rastro da linearidade gráfica, VR igualmente se lança à surpresa dos materiais. Extrato de nogueira. Óleo. Aquarela.  Lápis de cor. Giz de cera. Pastel. Conté. Guache. Grafite. Caneta. Nanquim. Rastreando a descoberta de efeitos, VR dá qualidades sensíveis ao desenho, realizando-o por meio de percursos aditivos do traço que, além de se deslocar em movimentos de ir e de volta, ganha espessura, expansão lateral, profundidade, densidade. Por meio de estados sinestésicos da linha, o estranhamento inaugura no desenho superfícies e riscos.

Como se faz usual na contemporaneidade, no trabalho de VR a separação entre as artes se revela tênue na entredoação de materiais – que adquirem novos sentidos e funções estéticas rastreando motivo e tema. Alheias ao mimetismo, as Cabeças explicitam o sentido da completude e do fragmentário, revelando o limiar das várias situações do homem diante da vida.   

NOTAS
1 O Jardim das Cabeças de Bronzes, de autoria de Mirian de Carvalho. IPUB / UFRJ.
2 De autoria de Mirian de Carvalho.
3 Cf. PRADE, Péricles. O Desenho de Valdir Rocha. São Paulo: Escrituras, 2004.

Mirian de Carvalho (Brasil). Doutora em Filosofia, professora de Estética da UFRJ, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte. Autora de A escultura de Valdir Rocha (2004). Contato: mir3@infolink.com.br. Página ilustrada com obras do artista Valdir Rocha (Brasil).

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