revista de cultura # 41 - fortaleza, são paulo - outubro de 2004






 

Estranhas Experiências: Claudio Willer e atualidade do Surrealismo no Brasil

Lucila Nogueira

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Claudio WillerA recente publicação, pela Editora Lamparina (Rio de Janeiro, 2004) do livro de Claudio Willer Estranhas Experiências e outros Poemas, vem reacender, nos estudos acadêmicos, a importância de melhor situar-se a trajetória do Movimento Surrealista do nosso país. Daí porque optamos por celebrar a edição evocando, a cada poema transcrito, o contexto sócio-histórico em que essa estética entre nós evoluiu e foi produzida. Desta forma, em que elegemos um discurso crítico contrapontístico, acreditamos possibilitar a visualização estilística representativa do radicalismo das metáforas, com o suporte dialogal e narrativo do verdadeiro lugar desse movimento em nossa historiografia literária.

 

Visão de Nova York

 

O grande cavalo de lágrimas azuis desce do Oeste, lento como a névoa dos trigais. São hotéis de granito e espuma plástica em ruas que outrora foram violentadas, em manhãs mais suaves que a brisa dos grandes portos. Todos os túneis, todas as cavernas se encontram em um desfiladeiro de torreões metralhados. Todos os trilhos convergem para um só ponto, todos os subways apontam para uma só direção, e na vegetação dos grandes parques cresce o arbusto andrógino cujas raízes são de metal e seda. Os retângulos magnéticos geraram uma cidade onde cavalos à solta pisoteiam os gerânios dos patamares e a combustão espontânea anima os corpos dos amantes nas tardes de verão. Sementes germinarão violentamente em Blecker Street, pois um pântano noturno sacode os alicerces dos grandes prédios embebidos em aguarrás. Gritos gelados soam em um corredor de pálpebras estreitas, e no parque onde pastam as lhamas emergem montes de cristal, despertando a última sentinela de uma paisagem de antenas partidas e ventiladores retorcidos.

[de Anotações para um Apocalipse]

 

O Modernismo Brasileiro, instaurado oficialmente a partir da Semana Paulista de 1922, ao mesmo tempo em que buscava oficializar dicção e temática brasileiras, sofria influência evidente das vanguardas européias: o antropofagismo de Oswald de Andrade ligava-se a Blaise Cendrars, o qual tinha a ver com o dadaísmo de Zurich, tornando aquele poeta brasileiro refratário ao surrealismo quando este veio eclodir na Paris de 1920/1924; do ponto de vista ideológico, encontramos em Carlos Lima uma tentativa de explicar os motivos das dificuldades do surrealismo no Brasil:

“Num primeiro momento o surrealismo não interessou aos “espíritos” brasileiros, porque pregava a anarquia da beleza, a anarquia do amor e do estado burguês. No segundo momento, tornou-se muito mais perigoso, porque aderiu ao PCF de carteirinha e tudo mais. Daí, a condenação do surrealismo no Brasil. Para ilustrar essa condenação, basta citar o caso do poeta surrealista Benjamin Péret, expulso do Brasil por decreto. – ato de 10 de dezembro de 1931 assinado por Getúlio Vargas”.(in “Vanguarda e Utopia – Surrealismo e Modernismo no Brasil”)

É ainda Carlos Lima quem nos lembra que o surrealismo sempre esteve a serviço da revolução, acreditando que o socialismo era a utopia concreta; essa adesão apaixonada criou problemas para o movimento, iniciando a primeira ruptura do grupo: eles não apoiaram o pacto franco-soviético e se aproximaram da facção trotskista; a tensão entre comunistas e surrealistas resultou no suicídio do poeta René Crevel e foram os surrealistas os primeiros a condenar os crimes dos processos de Moscou.

 “Apesar das dissidências e das críticas ao PCF, os surrealistas nunca excluíram de seus planos o sonho da revolução socialista e a paixão pela utopia. Basta analisarmos a colaboração entre Breton e Trotski e o Manifesto “Por uma arte revolucionária independente”, redigido pelos dois no México em 1938. Por isso, em “Legítima Defesa”, Breton podia escrever: não há ninguém entre nós que não deseje a mudança de poder das mãos da burguesia para as mãos do proletariado.”

Conforme observa Carlos Lima, o surrealismo sempre declara sua indignação e o seu não conformismo para com a sociedade burguesa e o sistema capitalista; negavam, simultaneamente, a pura especulação artística, a arte pela arte. De modo que haveria uma ponte que parte do Manifesto Comunista, passa pela Carta do Vidente de Rimbaud e chega aos Manifestos Surrealistas, autorizando mesmo a concluir-se que estes representam para a arte e a literatura o que o manifesto comunista representa para a política e as ciências humanas.

Finalmente, Carlos Lima recorda a influência surrealista em Walter Benjamin, que ele considera o primeiro filósofo do surrealismo; sua “Obra das passagens” teria se originado do Nadja de Breton e “O camponês de Paris”, de Aragon; como última mitologia da modernidade, o surrealismo tornou-se o elemento deflagrador para Benjamin elaborar sua arqueologia da modernidade. Ele próprio escreveu que para dar conta do surrealismo seria necessária uma história esotérica da modernidade, concluindo que, naquele momento, os surrealistas eram os únicos a terem compreendido o significado do manifesto comunista.

O professor e crítico goiano Gilberto Mendonça Teles – em seu A Escrituração da Escrita (1996) - destaca o fato dos modernistas brasileiros haverem ignorado o ideário surrealista, não tendo disposição de estudar suas técnicas e temas, não só porque pregavam um movimento nacional, como porque talvez considerassem que alguns de seus princípios estariam no bojo de movimentos anteriores como o cubismo e o dadaísmo: a escrita automática não estaria na “tradução” da palavra em liberdade e da imaginação sem fio do futurismo? E o sonho, mesmo redimensionado pela psicanálise, não seria um tema antigo de literatura, assim como a loucura, a religião e a magia? Merece destaque a observação de Gilberto de não ser possível falar na influência surrealista em autores brasileiros antes de 1928, por conta não só dessa articulação do cubismo, expressionismo e dadaísmo, bem como do neo-simbolismo e penumbrismo de Graça Aranha na “Estética da Vida” de 1921; também comenta a questão de que as principais revistas da década de 20 não tiveram espaço para a repercussão do surrealismo. Vale ressaltar que, no Brasil, um ano após o lançamento em Paris do Manifesto do Surrealismo, Tristão de Athayde escreveu duas crônicas (14 e 21 de junho) que, como muito bem expressa Gilberto Mendonça Teles, atuaram como uma espécie de “pá-de-cal” sobre a repercussão do surrealismo entre nós, profetizando que o movimento “só lá para 1950 chegará por aqui”. Tudo isso com palavras que denotam uma reação violenta embarcada no temor de que a escrita automática do surrealismo viesse a retirar do escritor a sua consciência:

“O supra-realismo, portanto, é a abolição final da lógica, da consciência, da lucidez, da inteligência. O supra-realismo é a escravização do homem ao animal que existe em nós. É o servilismo ao instinto, a abdicação da personalidade. É a submissão humilde da inteligência ao pântano das imagens arbitrárias, moles, baixas, que rastejam no fundo do lodo de um lago íntimo”.

Com semelhante posicionamento, não é de espantar que só 10 anos depois, por ocasião da morte de André Breton, viesse Murilo Mendes reconstituir a descoberta sua e de Ismael Nery, Mário Pedrosa e Aníbal Machado, na década de 20, do surrealismo. De qualquer forma em 1930, Mário de Andrade, escrevendo a propósito dos Poemas de Murilo Mendes, diz não ser esse poeta “surrealista” no sentido de escola, mas com um aproveitamento sedutor da “lição surrealista”, que ele classifica como “negação de inteligência seccionada em faculdades diversas, anulação de perspectivas psíquicas”. Em 1932, Tasso da Silveira vem comentar o caráter precursor de Adelino Magalhães, no que concerne a um “Surrealismo profundamente Brasileiro”, em seu livro “Definição do Modernismo Brasileiro”. Em 1935 vamos encontrar a primeira marca definida e com nomenclatura técnica precisa no que tange à repercussão do Surrealismo em nosso país: no Recife, Samuel Putman, a 10 de dezembro, no Diário da Tarde, em seu artigo “Uma apreciação estrangeira sobre ‘O Anjo’ de Jorge de Lima”, vem considerá-lo como “o mais audacioso surrealista do Brasil”. No ano seguinte, é publicado no Jornal da Manhã de Porto Alegre, de 2 de agosto de 1936, artigo de Renato Almeida sobre “O super-realismo e suas diretivas psicológicas”. Nesse mesmo ano, o Diário de Lisboa divulga os capítulos IV e V do romance “O Anjo” de Jorge de Lima com o artigo “O surrealismo na literatura brasileira”:

“O sobre-realismo, de que André Breton, em França, foi um dos principais iniciadores, tem em Jorge de Lima um discípulo da mais pura e característica maneira”.

Sátiros em momento de siso, de Valdir RochaTambém é de 1935 o livro publicado conjuntamente por Jorge de Lima e Murilo Mendes Tempo e Eternidade; a seguir A Túnica Inconsútil, em 1938, o mesmo ano em que Murilo Mendes publica A Poesia em Pânico; em 1943, Anunciação e Encontro de Mira-Celi, onde se dá a fusão de gêneros e preparação para Invenção de Orfeu. Gilberto Mendonça Teles considera Murilo Mendes o primeiro teórico do surrealismo no Brasil; nas suas memórias (A idade do Serrote, 1968) não fala em André Breton, mas em Freud, Antonin Artaud, Marx Ernst, Luis Buñuel; a seguir, em Retratos Relâmpagos (1973) Murilo confessa que abraçou o surrealismo à moda brasileira: tomando dele o que mais o interessava; declara que os surrealistas não se achavam fora da realidade, mas possuíam missão histórica, criando uma atmosfera poética baseada na acoplagem de elementos díspares – esse texto é considerado por G. M. Teles como o mais importante documento que se tem de escritor brasileiro sobre o surrealismo, destacando ser o livro de Murilo A poesia em pânico um dos livros mais surrealistas da poesia brasileira. Ainda nos Retratos Relâmpagos Murilo Mendes, além de escrever sobre Marx Ernst e René Magritte, refere-se a um pré-surrealista alemão do século XVIII, Georg Christoph Lichtenberg de que Freud muito gostava, a ele se referindo em “O chiste e suas relações com o inconsciente;”; Mendonça Teles lembra que Lichtenberg recomendava os sonhos e um de seus aforismos diz que “Toda a nossa história não é mais do que história do homem desperto; ninguém ainda pensou na história do homem dormindo”.

Tal solicitação viria a ser atendida por João Cabral de Melo Neto, em suas “Considerações sobre o poeta dormindo”: o poeta pernambucano, como já tivemos oportunidade de referir, haveria de se manter fiel à estética surrealista até a publicação do livro “O cão sem plumas”. [O Cordão Encarnado – tese de Doutorado apresentada à Pós-Graduação em Letras e Lingüística da UFPE, em 2002] Quando Cabral escreve um ensaio sobre Joan Miró, faz um capítulo sobre “Miró e o surrealismo”, onde opina que “ao automatismo psíquico Miró opôs o que havia em seu espírito de mínimo e meticuloso, de artesanal: à anulação da razão preferiu o excesso de razão e trabalho intelectual” – concordo com Mendonça Teles que é como se João Cabral estivesse aí falando de seu próprio projeto poético.

O poeta e professor goiano refere que houve no Brasil uma vacilação entre as formas “super-realismo”, ”supra-realismo”, “sobre-realismo” e “surrealismo”; António Cândido, em “Brigada Ligeira” (1945), no artigo denominado “Surrealismo no Brasil” tenta abranger não só a variação francesa do surrealismo, como todos os processos literários que rompem o nexo lógico, chegando a falar em tendência “irracionalista” – isso para estudar o romance “O agressor” de Rosário Fusco. O estudioso paulista destaca algumas imagens surrealistas em livros de Mário Quintana e nas estréias de Domingos Carvalho da Silva (1943) Ledo Ivo, (1944), Bueno de Rivera (1944) e Péricles Eugênio da Silva Ramos, muito especialmente nas metáforas de João Cabral de Melo Neto, encadeadas não ao modo da escrita automática, mas de oposições entre o concreto e o abstrato:

“A sua originalidade dentro do modernismo é exatamente a expressão de imagens estranhas, abstratas e ao mesmo tempo concretas”.

Esse paroxismo de Antonio Cândido, apesar de antigo, merece esclarecimento pelo perigo que ainda representa. Como se sabe, o surrealismo nunca esteve circunscrito nem à escrita automática nem à mera criação artística de uma atmosfera onírica: o que ele caracteriza é um trato especial na metáfora e nas imagens. Se tiramos do surrealismo a escrita automática, provocamos a imagem por ela mesma e por aquilo que ela acarreta no domínio da representação de metamorfoses e de perturbações imprevisíveis, a partir da alteração dos códigos convencionais; a metáfora surge como uma maneira de escapar à ordem estabelecida e à imagem criada com a força de algo existente no real – essa imagem implica na aproximação de realidades distantes; daí porque a imagem surrealista mais forte é aquela que apresenta o grau arbitrário mais elevado, escapando à mera compreensão racional e exprimindo, por analogia, entre duas realidades pertencentes a registros diferentes, o nascimento de um universo desconcertante por desconhecido.

 

Cenas da vida urbana

 

A mulher que mastiga pedaços de vidro estende a mão verde na minha direção. Tudo tem endereço certo e data marcada, até mesmo a queda da última barreira de açúcar travando o olhar, até mesmo a tempestade que irá apagar o rastro do último homem das cavernas.

A mulher de cabelos compridos de prata elétrica estende sua mão violácea na minha direção. Cada canto de quartzo canta uma tonalidade de harpa ferida; as pedras sob o colchão amarelecem aos poucos e deslizam com solenidade para o canto do quarto; os momentos assumem sua estrutura fixa, os dentes não conseguem mais conter a saliva.

A mulher das tatuagens balinesas estende a mão negra na minha direção – já não há saída, do centro da massa vegetal sai um uivo, o calor é pressentido no meio da cortina que acompanha todos os meus movimentos.

 

A mulher das mãos verdes mastigando pedaços de vidro, a mulher dona das harpas, a mulher das antenas de radar, dispõe-se em círculos. Uma aurora boreal afugenta os pigmeus.

A mulher dos cílios de pedra estende a mão na minha direção. A partir de uma data certa do próximo ano, todas as janelas se abrirão ao mesmo instante, e nenhum passo mais poderá ser pressentido.

[de Dias Circulares]

 

Esse caráter ilógico dos nexos sintáticos não é sempre identificável com a escrita automática e irracionalista: ele pode ser deliberado, a partir da fragmentação do real com vistas a fabricar objetos no tratamento poético da realidade. Por outro lado, as associações livres do pensamento não conduzem necessariamente nem ao texto puramente onírico nem ao texto inconsciente automático, até porque a questão colocada por Breton em 1922 ainda não foi respondida: “E se a memória for apenas um produto da imaginação?” É bom recordar Carlos Bousoño quando esclarece que a escritura automática é um automatismo psíquico puro, mas que de nenhum modo caracteriza o surrealismo – ela se refere ao movimento de simbolização do qual o surrealismo apenas se constitui na etapa final, daí por que concordamos com o crítico espanhol quando declara que o surrealismo não fica delimitado pelo irracionalismo nem pela escrita automática, mas pelo modo ou registro em que eles aparecem. De forma que assim como a contextualidade simbólica inclui o absurdo, decorre da própria lucidez o mecanismo de desconexão, além de que os conceitos de ilogicidade e de irracionalismo não se confundem: pode-se ser irracional sem ser ilógico e pode-se ilógico sem ser irracional. De modo que o abandono da escrita automática implica apenas a recusa de uma fase do surrealismo no processo de simbolização da metáfora. A imagem, por sua vez, tanto serve à comparação como à metáfora, a qual, como sabe qualquer aluno de Letras na graduação, é uma comparação abreviada – distinguindo-se do símile que apenas aproxima objetos de natureza distinta, sem atingir sequer a comparação. São recursos estilísticos próximos, mas sem cujo domínio conceitual não se pode atingir a verdadeira compreensão poética: a imagem, a alegoria, o símile, a metonímia, a sinédoque, o símbolo, o mito. Assim como nem todo símile é uma comparação, nem toda comparação equivale a uma metáfora. Enfim, estas considerações são para mostrar velhas dificuldades entre críticos brasileiros com relação à própria base radicalizada do surrealismo: as imagens, que, para Antonio Cândido, surgem no texto cabralino são “abstratas e ao mesmo tempo concretas” (sic). Talvez por esse motivo o maranhense Luiz Costa Lima, haja interpretado que Cabral utilizava a imagem só na área do concreto, não chegando ela a constituir-se metáfora; e, então, João Alexandre tenha insistido em falar sobre um processo de “desmetaforização” em que o poeta pernambucano partiria para “a criação de uma outra metáfora” (!).

Ironia e Ausência Dela - Flagradas no Espelho, de Valdir RochaA abstração a que podem conduzir estudos como os dos professores citados se coaduna com um tipo de sofisticação construtivista que se criou na poesia brasileira a partir da obra de João Cabral de Melo Neto, o qual, bastante atento no início de sua vida literária às propostas de Murilo Mendes e Jorge de Lima, delas se afastou posteriormente; apesar de haver declarado que a melhor compreensão crítica de sua obra havia sido realizada pelo poeta e professor Antonio Carlos Secchin, cujo trajeto epistemológico se expressa de modo claro, sedutor e personalíssimo, Cabral terminou por aceitar tacitamente - por não haver negado de modo explícito - a condição de “guru” intelectual sempre reivindicada pelos batizados concretistas: três professores-tradutores poetas de São Paulo ligados ao circuito acadêmico e ao trânsito da mídia, que estruturaram um lobby que até hoje, mesmo após a passagem do Haroldo, continua exercendo incompreensível mandarinato nos acontecimentos literários desta província brasileira, onde a coragem de nomear os fatos nem sempre é constante e o medo de “perder espaços” atua como poderosa droga inibidora de qualquer reação ainda que suavemente representativa do mínimo indispensável de discernimento ético-intelectual. Com a hegemonia dos irmãos Campos e Décio Pignattari, considerados por Carlos Lima “os inventores da poesia de marketing no Brasil”, tem sido difícil a qualquer livro de versos que à sua forma superlativa do grafismo não se ajuste, receber o mínimo relevo e até mesmo ser levado a sério no cenário poético paroquial.

“O concretismo foi luckasianamente a quarta-feira de cinzas da Geração de 45 e croceanamente foi o ocaso do verso na eutanásia da poesia. O melhor juízo sobre o concretismo continua sendo a definição de Cacaso: o concretismo foi o AI-5 da poesia brasileira”.

Contudo, a partir dos anos sessenta no Brasil começa a existir na própria cidade de São Paulo o chamado grupo dos “Novíssimos”, que passaram a ser editados por Massao Ohno, nos quais predominava um ecletismo que não defendia temas relacionados com um projeto geral de criação, constituindo-se oposto dos concretos – estes, muito ocupados sempre com manifestos e com essa alquimia industrial da poesia com o desenho gráfico e a programação visual. Os “Novíssimos” tinham afinidades com Pessoa, Drummond, Baudelaire e Rimbaud; ainda com os surrealistas e os poetas americanos da geração beat.

No posfácio que escreveu Claudio Willer à Antologia Poética da Geração 60 (2000), organizada por Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, encontra-se uma reconstituição da cidade e dos poetas na primeira metade da década de 60. Claudio destaca a importância da fundação de diversos teatros e museus no final dos anos 40 e começo de 50; menciona o deslocamento da agitação estudantil do largo São Francisco para a Rua Maria Antônia, a efervescência musical e até lembra das sessões de cinema, tudo a testemunhar vida e inquietação. Menciona as leituras sartreanas, a narrativa de João Antonio e Ignácio de Loyolla Brandão, o Suplemento Literário do Estado de São Paulo (tempo do Décio de Almeida Prado), o movimento do Kaos de Jorge Mautner, de tendência anarquista; Willer é de opinião que talvez por existir menos gente escrevendo e proporcionalmente mais livrarias e mercado editorial, era fácil o acesso à publicação; destaca a importância dos encontros nos bares com mesas nas calçadas com aqueles “excêntricos amistosos”, que considera bem diferentes dos chatos e dos loucos furiosos. Um aspecto interessante citado por Willer referindo-se a palestra de um ciclo sobre a década de 60, é que “era tudo mais barato; vivendo de pequenos salários, de mesada, de nada, era possível ir a restaurantes, freqüentar quase todos os lugares, encarar uma diversidade de programas”.

 

impulsionava-nos certa atração pelo sublime

e nós nos entretínhamos a decifrar a errante caligrafia do tempo

nervosamente rabiscada na pauta das ondas

até que punhais de nuvens arcaicas emoldurando o entardecer

viessem se cravar em nosso infinito

e sentíssemos os cabelos da noite crescerem vagarosamente

pois a escuridão havia chegado

para reclinar-se em seu colchão de maresias

então,

entre a onda e o lampejo da onda

entrevimos o perfil em chamas de nossos corpos

entre o vivido e o não-vivido

o traço cambiante da arrebentação

entre os ruídos do mar e os ruídos da cidade

a complicada geometria de nossos silêncios

e um inesperado perfume de jasmins

por mim

nunca mais sairia dali

ficaria por lá mesmo

para sempre percorrendo a praia

a acompanhar a insofrida inquietação dos astros presos a suas órbitas

 

[de Estranhas experiências]

 

Recorda Claudio que nessa época, a poesia e a condição de poeta tinham uma dimensão pública, lia-se muito em voz alta, quer os autores uns para os outros em pequenos grupos, em teatros, nas ruas e nas praças – esta busca de comunicação através do recital foi, naquele momento, uma reação distintiva com relação à poesia concreta e construtivismos afins; havia, sim, graus de afinidade com o surrealismo e a geração beat, composta entre outros, segundo Willer, por Roberto Piva, Sérgio Lima, Décio Bar e por ele próprio. Considera que nem eram formalistas, nem conteudistas, nem militantes ortodoxos, nem trancafiados em suas torres de marfim; além disso não adotaram a direção nacionalista e a busca da especificidade brasileira: na dualidade regional/universal, tomaram o partido do universal e tiveram uma postura coerente de cosmopolitismo, poetas que eram de uma metrópole emergente, afirmando seus valores em recitais onde não faltava a crítica radical à burguesia, com poemas de inspiração neo-romântica e marxista, reformista ou revolucionária; eles viam a criação artística como meio de melhorar a sociedade e, ao mesmo tempo, nela construir uma carreira literária, ainda que adotando uma postura marginal precursora da contra cultura que viria logo a seguir.

Em anexo ao livro A estrela da manhã – surrealismo e marxismo (2002), de Michael Löwy, Sérgio Lima está presente com “Notas acerca do Movimento Surrealista no Brasil (da década de 1920 aos dias de hoje)”. Nesse trabalho, ele considera que o primeiro período começa aqui com a visita de Péret (1929-31) e vai até o começo dos anos 60 – trata-se de um período difuso, ainda sem a formação de um grupo; o segundo período se formaria em torno de Maria Martins e do grupo surrealista de São Paulo / Rio de Janeiro (1964-1969); o terceiro, este estaria centrado no segundo grupo surrealista no Brasil (1991-1999).

Especificamente quanto ao segundo período esclarece o autor:

“Voltando de Paris para São Paulo em 1962, passei a me reunir com os poetas ditos ‘novíssimos’ (estreantes que eram editados, por Massao Ohno). Logo organizamos, Roberto Piva, Claudio Willer e eu, uma central ou núcleo de debates por semana, no Bar de Léo, do Redondo ou no Ferro’s, em frente à sinagoga do Bexiga. Dessa turma inicial, além dos citados, apenas dois mais terão uma continuidade de produção literária: António Fernando De Franceschi e Décio Bar.” […] “Os três primeiros livros publicados pela nossa turma: Paranóia (lançado no final de 1962), do R. Piva; Amore, de S. Lima (editado em 1963), com textos de 1959 e 1960); e, pouco depois, no começo de 1964, Anotações para um Apocalipse, de C. Willer (onde se encontram as primeiras reflexões de Willer em relação à beat generation e suas implicações literárias)”.

 

Viagens 2

 

ficar por lá mesmo/ nunca mais sair daqui/ desta lagoa de reencontros/ deste território no avesso do mundo/ celebrar o reencontro/ do corpo com a planta do pé

 

sei que me repito

e que já disse isso antes

já falei

da mandrágora oculta entre samambaias

da descida pela encosta do morro

na hora do lobo

novos contornos nascendo da sombra

o amor como encontro na escuridão

o verdadeiro poema ainda não foi escrito

ele continua guardado

no lado oculto das montanhas

enquanto isso

estamos escavando o chão

com as unhas como se fossem garras

abrindo um buraco no tempo

este nosso espaço

tão duramente conquistado

o amor como viagem

reencontro de todas as viagens

 

Mauá, 1978

[de Jardins da Provocação]

 

Sérgio Lima através de uma bolsa de pesquisa em História da Arte e Teoria a que denominou A Aventura Surrealista fez um levantamento das relações entre o surrealismo e o Brasil: ele a fez publicar em São Paulo, numa edição da UNICAMP, UNESP e Vozes, Tomo 1. Ao comentar esse texto de Sérgio Lima, Claudio Willer lembra a tese que ele defendeu na USP, em 1998, “Surrealismo: polêmica de sua recepção no Brasil modernista”, orientada por Valentim Faccioli, por sua vez autor de obra sobre a conexão Breton-Trotsky e que foi aprovada com louvor – recorda, também, sua participação nas duas substanciosas coletâneas organizadas por Robert Ponge, professor na UFRGS, Organon 22, de 1994, dedicada a Aspectos do Surrealismo e Surrealismo e novo mundo, de 2001, publicadas pela editora da UFRGS.

Faremos tudo com muito gosto, de Valdir RochaClaudio nega as datas mencionadas por Sérgio Lima aqui já transcritas quanto aos lançamentos e desdiz que o livro Paranóia de Roberto Piva deva qualquer coisa às iniciativas de Sérgio Lima, havendo sido lançado em abril ou maio de 1963 e não em 1962; nega Claudio que ele e Piva hajam se afastado do surrealismo (conforme Lima) por se envolverem mais com a beat generation e a pop art, considerando essa idéia como pura ficção, uma vez que ele e Piva recebiam as edições beat da City Lights, diretamente de San Francisco, bem antes de Sérgio Lima entrar em cena, tanto que a descoberta epifânica de Alen Ginsberg por Piva já é evidente em sua “Ode a Fernando Pessoa” da virada 1961/1962, havendo inclusive marcas intertextuais do poeta beat americano no livro Paranóia, do reiterado Roberto Piva.

Claudio credita a Lima, contudo, a iniciativa de publicar, em “La Bréche-Action Surréaliste nº 8”, de fevereiro de 1965, uma nota sobre o surrealismo em São Paulo, declarando que, com Paranóia, de Roberto Piva, Amore, de Sérgio Lima e Anotações para um Apocalipse, de Willer pela primeira vez o Brasil dispunha de obras cujos autores reclamavam abertamente o surrealismo.

Conforme Sérgio Lima, já na década de noventa vai surgir um novo grupo surrealista em São Paulo, agora em parceria com Fortaleza, a partir da atividade de Floriano Martins, que pode ser tratado historicamente como de 1991 até a data presente, tendo como primeiro documento um relatório do próprio Sérgio e do mencionado Floriano, enviado em 1990, para o Boletim Internacional do Surrealismo, então editado em Estocolmo.

Levando-se em consideração a crescente freqüentação do surrealismo em Portugal e na América hispânica, é fundamental para os estudos de literatura brasileira a constatação de que, apesar de obstáculos como os que aqui foram mencionados, o surrealismo manteve o espírito revolucionário e, no Brasil, permanece vivo. Porque a poesia surrealista contemporânea, regada pelos fluidos diversos da pós-modernidade, continua partidária de um mundo onde o medo da loucura não conseguiu nem há de conseguir hastear com pouca altura a bandeira da imaginação.

Daí revestir-se de grande importância a reunião, pela editora Lamparina, dos versos anteriores de Claudio Willer acrescidos de inéditos como este, que atesta a vitalidade criativa no terceiro milênio de uma das principais cabeças do surrealismo no Brasil:

 

(mal me atrevo a anotar isto)

 

sua loucura tempestade tropical

sua loucura clarões de fogueiras no sopé da montanha no distante horizonte

sua loucura que gosta de vestir-se de santa medieval, da dançarina egípcia, de camponesa boliviana, sua loucura envergando a máscara de palha de um sacerdote africano

sua loucura de frases medidas e sopesadas, querendo expressar-se com clareza, com muita clareza, para que cada palavra tenha o sentido exato

sua loucura de caminhar ao acaso

sua loucura noturna, tão sem fim quanto a própria noite

sua loucura diurna, encarando o sol de frente

sua loucura que vai descobrindo inesperadas cachoeiras à beira do caminho

sua loucura de roupas de pano batidas pelo vento

sua loucura de cabelos claros secando ao sol após o banho

sua loucura fascinada pelas paisagens submarinas, ah, sua loucura tão marítima e náufraga

sua loucura muito atenta por saber que está na encruzilhada, na exata interseção de todas as filosofias, ideologias e correntes de pensamentos da nossa época

sua loucura que deseja tornar-se poema, vir a ser um texto que por sua vez quer vir a ser o mundo

sua loucura galáxia de disponibilidade

sua loucura cuja história é o avesso da história que estou contando

sua loucura em transito de um lugar a outro, sua loucura que caminha, trafega, navega e voa pelo mundo, e cruza países e seus territórios, suas metrópoles, vilarejos e campos, sempre acompanhada por visões e por um bando de vagabundos errantes, os andarilhos sem destino, tão loucos como você

sua loucura densa umidade do bojo das matas

sua loucura que se apoderou de todos os seus cinco sentidos

sua loucura felina, olhar faiscante, pronta para o salto

sua loucura expressiva, gestual, dançante

sua loucura torrencial, puro turbilhão de palavras e gestos

sua loucura vista pelos olhos da própria loucura

sua loucura descrita em um livro fechado e lacrado no qual é feito o relato da vida dessa gente toda que também ficou louca e agora está à solta, à deriva pelo mundo

sua loucura mudando de expressão, alterando sua fisionomia conforme o instante, a hora, o dia, a estação do ano, os ciclos do universo

sua loucura que se quer lucidez flagrando totalmente a loucura em que o mundo mergulhou

sua loucura da qual sempre voltarei a falar, sua loucura feita de infinitas histórias que ainda voltarei a narrar, que nunca mais deixarei de relatar

sua loucura, minha própria loucura 

Lucila Nogueira (Brasil). Poeta e ensaísta. Autora de livros como Ideologia e Forma Literária em Carlos Drummond de Andrade (1997), A Quarta Forma do Delírio (2002), e A Lenda de Fernando Pessoa (2003). Contato: luc.nog@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Valdir Rocha (Brasil).

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