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revista de cultura # 42
fortaleza, são paulo - dezembro de 2004

editorial

Mais ou menos: falso ou verdadeiro?

Onde a terra se nos escapa? Por onde uma greta de nada nos faz ver que o diâmetro de gigantismo existencial é bem mais ou menos. Hora de decidir: mais ou menos? Há tantas formas de exceção que uma pretensa normalidade tornou-se a única exceção na praça, ainda que até o momento não tenha sido reclamada por entidade alguma. Será uma outra forma de prostituição? Então indaguemos: as meninas da normalidade farão ponto em qual esquina?

Talvez se verifique demasiada impetuosidade nas observações acima, mas ao mesmo tempo cabe indagar se o que nos falta no momento não é justamente uma dose dupla de veemência. Estamos aquartelados num ardiloso conceito de normalidade, ao mesmo tempo em que imperceptivelmente esmagados por uma brutal angústia provocada pela ausência de valores. O impasse radica numa decisão eterna: mais ou menos. Não há como cegar este espelho.

Seguir indagando: mais ou menos? Prosseguir irritando: mais ou menos? Não suavizar em momento algum: mais ou menos? Chegamos ao fim das ideologias ou estamos vivendo um desfalque de ideologias? Igual efeito talvez esteja sendo provocado por certa inflação místico-religiosa. Dízimos cobrados na política e na religião como que comprovam que a base operacional mudou de meta. Devo pagar para crer. Igualmente para descrer. Mais ou menos? Até que o Inferno se converta em Paraíso.

Imaginemos um mundo em que todos estejam atravessando justamente agora a decantada crise da meia idade. Simular em tecnicolor todo o processo dessa angústia. Por onde andei, afinal? O que fiz de mim? No que acabei convertendo toda a minha vida? E onde arranjar forças afora para reverter todo este acúmulo de infortúnios, todo este canteiro de melancolias?

A rigor, assim nos encontramos neste princípio de século. E enquanto indagamos por nós, ante uma condição existencial abatida, não percebemos o quanto estamos sendo despojados do que nos é mais essencial, o quanto estamos expostos a uma fraude, cujo eixo real, deslocado, nos toca não por inaptidão, mas sim por anorexia induzida.

Mais ou menos? Insistir neste dispositivo como se fosse o condutor de uma cósmica viagem a caminho do próprio revés da existência humana. Quanto mais centelhas despertar melhor. Mais ou menos? Não há como adiar a decisão. Não há mais política, não há mais religião. Criamos uma nova ilusão: a ausência do enigma com a permanência do charlatão. Assim não sentimos nada, por mais que doa.

Mas por onde escorre cada desejo frustrado? O que fazer com essa crosta de insatisfação? Para mais circo, mais pão, vaticinava uma antiga cartilha. Seremos ainda as mesmas vítimas de sempre? O mesmo circo, o mesmo pão? Tudo se resume a isto: música ruim para o povo? Que a arte não prevaleça nunca, com essa sua mania de irradiar reflexão por onde passa? Que tudo seja apenas reconfortante alegria após o suor de nosso desamparo?

De uma forma ou de outra, somos sempre a permanência de um cativeiro, esteja a servidão em nome de Deus ou de sua morte, da Ideologia ou de sua erradicação. Nada altera a tirania com que os serviços públicos são manipulados em um moto perpetuo que garanta transmissão de poder como um ato retórico: troca de uma lâmpada onde a energia já de muito foi cortada.

Daí a insistência: como pôr em prática uma idéia nova, em um mundo já completamente emporcalhado de vícios? Seguramente alguém pouco atento na platéia dirá: a arte. Sim, sim, a arte, deveria caber a ela insuflar vida em nosso pulmão, suscitar em nós um renovado ânimo perante todos os descarrilamentos existenciais etc., etc, etc., ah a arte, sim, a arte! Mas por onde anda o artista? Alguém o viu por aí, quem sabe disfarçado em cobrador de impostos ou em sátiro de quermesse? Ele ao menos deveria estar inquirindo: mais ou menos? Ao menos isto. Como não o faz, nos ajuda a ampliar a perplexidade já de todo convertida em angústia.

Eis por onde se nos escapa a terra. Por onde o único orifício real é aquele que nos ceifa a existência. Por onde nos esvaímos sem saber: mais ou menos? Mas por onde saltaria alguém ainda a fazer tão inocente pergunta: mais ou menos? De que nos serve isto?

Um grande articulador de deslocamentos, consultor de tendências, um mago da era tecno-explorada em que vivemos, garante que não há nada como a “recontextualização”. Mude de lugar os móveis da sala, uma estratégia governamental ou a incógnita em qualquer equação e aí voltarás a despertar interesse do alvo principal: o consumidor. Contudo, eis o imutável: não passamos de consumidores. E como sempre temos algo a ofertar - um poema, uma verdade, um kit qualquer coisa -, dividimos a sociedade não mais em tipos (quantum), mas em atuação: quando vendemos e quando compramos.

Isto quer dizer que o grande talento que requer de nós a aventura humana em nosso tempo é o de criar surpresa e excitação em um ambiente completamente corrompido pela hipocrisia. Acabemos com isto de mais ou menos. Não há inovação nessa angustiante permanência da dúvida. Mudemos de lugar os móveis na sala. Agora. Vamos lá.

* * *

Pertencem ao rol das falsas surpresas, do aparente mais que acaba por revelar-se um menos, as políticas públicas em favor do livro e da literatura no Brasil. Foi aprovada uma Lei do Livro, que, entre outras vantagens, desburocratiza a aquisição de livros por bibliotecas públicas. E os livros foram desonerados, tiveram a tributação reduzida - ou, antes, foi reduzida a incidência sobre eles da voracidade fiscal brasileira. O Ministério da Cultura apresentou programas, políticas públicas em favor do livro, e recebeu propostas, assinadas por dezenas de escritores, de ações e iniciativas valorizando a literatura.

Porém... Porém, ao mesmo tempo, o mesmo governo, através de sua ECT, Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, aplica uma nova tabela de preços para a remessa de livros. Agora, um livro não pode mais ser enviado como carta comum: o volume que antes viajava pelo país a R$ 2,50 (pouco menos de um dólar, para efeito de comparação), agora passa a custar R$ 9,50. O prazo de entrega, antes equivalente ao de uma carta comum, de um a dois dias, agora passa a ser de dez a quinze dias úteis. Remessas de livros para o exterior tiveram prazos e preços majorados na mesma proporção. Vê-se que, para o Ministério das Comunicações, ao qual os correios brasileiros são subordinados, livro é algo pernicioso, cuja circulação deve ser onerada ao máximo, como estratégia para impedi-la.

É como se o governo tivesse duas mãos, inteiramente desarticuladas. Uma nos acena, aponta para um futuro mais. Outra nos retira algo e nos oferece um imediato menos.

Os editores

sumário

1 a dialética diabólica da poesia. rodrigo petronio
2 a imagem em murilo mendes. edson cruz
3
al diablo los versos: diálogo com gustavo pereira. floriano martins
4
antonio tabucchi: el escritor y sus fantasmas. federico rivero scarani
5
coração independente, de manuel fernando gonçalves: a ordenação das sombras. teresa martins marques
6
fernando de szyszlo: el homicidio de un sueño (entrevista). gonzalo márquez cristo & amparo osorio
7
haicai, haicais: entrevista com paulo franchetti. wanderson lima
8
intensos assombros: poesia de claudio willer & floriano martins (entrevistas). álvaro alves de faria
9
literatura menor y despreocupación poética. rafael hernández rodríguez
10 o que antoni tàpies nos grava. luigi augusto de oliveira
11
o trauma e a tara de elfriede jelinek: a pornografia na poesia, a desforra despudorada & outras ejaculações. viviane de santana paulo
12 paco de lucía
: "o flamenco é a arte mais importante da Europa" (entrevista). antonio jr.
13
paul mccartney & chico buarque: sonhos sonhos são. mário montaut
14
releituras de guimarães rosa. claudio willer
15
susana wald: el mundo interior de la artista. martha mabey

artista convidado ernesto león (gravuras) texto de josé ángel leyva
resenhas livros da agulha juan calzadilla (por juan antonio calzadilla arreaza), zigmunt bauman (por sandra baldessin), josé mármol (por médar serrata), martha canfield (por silvio ramat), ronaldo costa fernandes (por antonio carlos secchin), roberto bolaño (por adelto gonçalves), mirian de carvalho  (por flávio moreira da costa), floriano martins (por carlos barbarito)
música
discos da agulha chapéu de palha, daniela spielmann, hermeto pascoal, nicanor teixeira, paschoal meirelles, paulo moura, raimundo fagner & ricardo bezerra
cumplicidade galeria de revistas alforja (méxico), capitu (brasil), común presencia (colombia), cult (brasil), malabia (espanha), vaso comunicante (méxico)

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
josé luis vega
(porto rico)
j
uan calzadilla (venezuela)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (pintura)
ernesto león

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