revista de cultura # 42
fortaleza, são paulo - dezembro de 2004

discos da agulha

Sempre, de Chapéu de Palha1 Sempre, de Chapéu de Palha. Selo Rádio MEC. Rio de Janeiro. 2003.

Chapéu de Palha, um dos mais respeitados grupos de choro do país, foi fundado pelo músico Valdir Sete Cordas em 1977. Em 1982, depois de um sério acidente de carro, Valdir desfez o grupo, mas voltou atrás 10 anos mais tarde, “cedendo a pressões de todo o mundo”. “Nós estamos fazendo o choro como ele realmente é; o disco tem a essência da música dos tempos de Pixinguinha” – assegura Valdir. “Tecnicamente, todo mundo que estudou música conhece a estrutura do choro. Mas o espírito do choro, a maneira de se portar e o fraseado vêm mais por empirismo do que por técnica. Você tem que tocar e se imaginar naqueles ternos de risca de giz, sentindo cheiro de sobrado, e interpretar uma época, não só uma música. Isso não se aprende na escola, está no sangue”.

Apesar de feito coletivamente – “foi uma produção livre. Não tinha um produtor dentro do estúdio, todos deram pitaco. Este é um disco democrático” -, o repertório saiu do “fundo do baú” do líder do conjunto. Em Sempre, há música dos mestres Pixinguinha e Altamiro Carrilho a Paulinho da Viola e até uma inesperada releitura de Castigo, de Lupiscínio Rodrigues e Alcides Gonçalves. A única inédita é Tributo a Edson Sete Cordas, de José Siqueira, ex-integrante do Chapéu de Palha, que faz uma participação especial na faixa.

Nome de proa do choro, Altamiro avaliza o resultado e se abre em elogios à atual formação do grupo. "Eles têm sofrido alterações, como todo conjunto que se preza, mas têm sido felizes nessa renovação, com elementos à altura da sonoridade e da tradição do grupo. O Chapéu de Palha é como o Samba de uma nota só: outras notas vão entrar, mas a base é uma só. Tive a honra de participar em duas músicas do disco e fazer um efeito em uma terceira, todas de minha autoria - Maxixe das flores, Saliente e Aeroporto do Galeão; esta última com mais de 30 anos e já em sua 26a gravação. Bom, mas quanto ao grupo, eu espero que este Chapéu continue arrumadinho por muitos anos ainda, que continue enfeitando a nossa música instrumental. Eles sabem como fazer isso."

Este álbum é o primeiro registro da nova formação do tradicional grupo de choro carioca Chapéu de Palha, que, a partir de 2002, passou a reunir os veteranos Valdir, Josias Nunes (flauta) e Valter Sete Cordas (violão) aos recém-adotados Zé Mendes (sax soprano e sax alto) e Luis Carlos (pandeiro) e ao estreante Patrick Ângelo, um violonista de apenas 18 anos. Em Sempre, eles têm a companhia e o reforço de convidados especiais como Altamiro Carrilho (flauta e flautim), José Siqueira (cavaquinho), Roberto Marques (trombone) e Netinho (percussão). Com arranjos de Moisés Pedrosa, Sempre é um disco dedicado ao choro com uma entonação propositalmente clássica, ou eterna, como sugere o título. Mesmo quando a música é um samba, um maxixe ou uma polca, o espírito que prevalece é o do choro de um tempo em que o ritmo da vida era mais gentil. O CD recupera um estilo de interpretação que Valdir define como “um tanto bucólica”, de um romantismo que ele identifica ainda hoje no choro feito em São Paulo e Minas Gerais.

Brazilian Breath, de Daniela Spielmann2 Brazilian Breath, de Daniela Spielmann. Aosis Records. Japão. s/d.

Daniela Spielmann começou a tocar saxofone com 17 anos e sempre se interessou pela música brasileira. Sua performance foi influenciada pelos instrumentos de sopro mais usados no choro, como o clarinete e a flauta. Além de fortemente marcada pelo choro, sua música também incorpora o frevo, o maracatu, o samba a bossa nova e o jazz.

Fez curso de harmonia na escola de música Musiarte, no Rio, freqüentou a Berklee School em Boston num curso livre, graduou-se em licenciatura em música na Uni-Rio. Teve aulas particulares com Idriss Boudrioua, Juarez Araújo, Eduardo Neves e Rick Margitza. Estudou arranjo e harmonia com Vittor Santos e flauta erudita com David Ganc.

Já se apresentou com vários artistas de porte do cenário da MPB, como Moreira da Silva, Carmem Costa, Mauro Diniz, Zé Keti e Nelson Sargento, entre outros. Integrou a Rio Jazz Orchestra por dois anos, tendo grande destaque como solista. Faz parte da banda "Altas Horas" do programa homônimo, na TV Globo, elaborando arranjos semanais de acordo com o repertório do programa.

Daniela integra os conjuntos Rabo de Lagartixa, Mulheres em Pixinguinha e Sincronia Carioca, além de desenvolver um trabalho solo, explorando seu lado compositora e arranjadora.

Eu e eles, de Hermeto Pascoal3 Eu e eles, de Hermeto Pascoal. Selo Rádio MEC. Rio de Janeiro. 1999.

Aos 63 anos de idade, 49 de carreira e mais de 30 discos lançados, Hermeto Pascoal faz o primeiro disco em que toca todos os instrumentos, - piano, cavaquinho, pandeiro, flauta transversa e de bambu, flautim, bandola, bombardino, triângulo, zabumba, surdo, sax, soprano, sanfona, flugelhorn, escaleta, apitos, garrafas, panelas com água, assovio e percussão de pés e mãos - Eu e Eles.

"O primeiro som que eu fiz foi na hora em que eu nasci. Eu e minha mãe, o duo." A frase resume bem o que o multi-instrumentista Hermeto Pascoal pensa sobre a música: que ela está em tudo, em todos os sons e ruídos que pululam a mente e o mundo das pessoas. "O Bruxo", como é carinhosamente chamado, é um grande experimentador, mas sem esquecer os princípios básicos da música. Como ele mesmo diz: "A música tem três partes que são como pai, mãe e filho. O pai é o ritmo, a mãe é a harmonia e o filho é a melodia. A harmonia tem de ir antes de qualquer tema." Hermeto toca uma gama enorme de instrumentos que alia a sons pouco usuais como chaleira, sons de animais, chifre de boi, tubos metálicos, máquina de costura… Outra faceta comum do artista é de sair tocando "em procissão" quando acaba um show, com a platéia seguindo-o.

Esbanjando bom-humor e dotado de uma jovialidade que contrasta com seus 66 anos, Hermeto concedeu uma entrevista a mim, representando o Jornalismo da Unesp, e à repórter do Jornal da Cidade, Thaís da Silveira, momentos antes do show ocorrido no SESC-Bauru, na quinta-feira, 27. Durante o bate-papo, o músico falou sobre a gravação do novo CD - "Mundo Verde Esperança", do selo fonográfico Rádio MEC - e sobre seu processo de composição. Com 14 composições próprias inéditas, gravadas em uma semana, o novo trabalho reúne, além de antigos companheiros de palco, novas caras. Grande parte delas são integrantes da Itiberê Orquestra Família.

Hermeto ficou entre mim e Thaís, sentado num sofá. "É tão confortável aqui que tenho medo de dormir no meio da conversa", brincou. Seu olhar de quem não enxerga bem transmitia uma alegria de estar ali, falando sobre seu trabalho. Sua pele albina quase que se misturava com a textura de suas longas barbas. "Estou muito feliz e estou numa fase muito linda", fez questão de afirmar.

Na sala onde ocorreu a entrevista, alguns músicos da banda tocavam instrumentos de sopro. Hermeto, rindo, ergueu as mãos e gritou: "Õ, vamos parar com esse barulho aí que os dois aqui querem gravar". Virou-se pra gente e disse: "E então, já ligaram o gravador?".

EVJ - Como foi a concepção desse novo CD, em que você grava com um grande grupo de músicos, logo após a gravação do "Eu e Eles", no qual você toca todos os instrumentos sozinho?

Hermeto Pascoal - O grupo já é de muitos anos. O Itiberê (Zwarg) também está fazendo um grande trabalho com a orquestra dele. Ele é contrabaixista do grupo há 25 anos. O Márcio Bahia há mais de 22 anos. Quem tem menos ali vai fazer dez anos no grupo. É uma coisa muito bonita e agora temos convidados. Tem três cantoras excelentes que são justamente das orquestra do Itiberê. Tem as cordas também da orquestra do Itiberê, que convidamos também. Está um negócio maravilhoso; um trabalho muito bonito. Está todo mundo muito feliz. A imprensa e todo mundo está achando que é um trabalho que realmente está bom.

EVJ - Você descobriu na orquestra do Itiberê grandes talentos…

HP - É, justamente eu estou muito feliz porque no Brasil inteiro nunca teve uma época de tantos valores individuais de instrumentistas e cantores como agora. É um negócio seríssimo, uma maravilha. Eu estou muito feliz porque eu sei que quando Deus me levar - eu tenho certeza de que eu vou viver somente 300 ou 400 anos - e quando eu for eu sei que o mundo vai ficar bem entregue. Vai ficar uma maravilha com esse pessoal todo.

EVJ - Você considera essa etapa da sua carreira uma nova fase?

HP - Cada dia é uma nova fase, cada dia é uma história, cada dia é um mar novo, cada dia é uma maravilha. Estou muito feliz e estou numa fase muito linda. Passei por várias turbulências, a patroa morreu há três anos. Mas agora estou namorando e feliz. Tocando e cada vez inovando mais. Vendo a imprensa toda nova também, olha só vocês - não é só na música, não. Todo mundo com a cabeça nova. Ninguém fica me perguntando toda hora quando você nasceu e essas coisas que já cansei de falar. O Brasil, no momento, é o país mais musical e mais criativo da terra. É só nós, de todas as áreas, acreditarmos nisso.

EVJ - Por falar em "cada dia é uma nova fase", você continua compondo uma música por dia, como no ano em que lançou o "Calendário do Som"?

HP - Eu não paro. Eu não paro nunca. Por exemplo, cada concerto desses que a gente tem, sempre saem composições na hora. Eu faço uns improvisos às vezes que é como uma melodia. Eu chamo de improvisos melódicos. Tem aquele improviso que não tem condições de escrever. E tem uns que eu faço de propósito - para se eu quiser depois transcrever aquilo. Quase sempre eu não faço não. Tudo tem que acontecer sem premeditar. Eu não gosto de premeditar. Acho que as coisas têm que fluir.

EVJ - Você acha que sua música é uma música difícil de ser ouvida, como muitos críticos acreditam?

HP - Ainda bem que são alguns, porque a maioria, graças a Deus… Você vê: onde eu estou passando para tocar não tem mais ingressos. É quantidade e qualidade. As pessoas gostam, mesmo sem tocar nas rádios. Eu estou muito feliz de me ver com 66 anos e com um público de oito anos a 18, 19, 20, 30 anos. Muito pouquinho de 80 anos. Porque é até bom que velho não venha dormir no auditório (risos). Eu brinco com eles. Nos shows sempre tem 10% de coroas. A turma toda é jovem. Eu fiquei admirado. Como é que pode? Essas pessoas não viveram a minha geração. Mas eles falam que escutaram o meu primeiro disco e não pararam mais de comprar os discos. Isso é uma paixão. Eu fui ao Japão e fiquei louco. Eles vêm me pedir autógrafo tremendo de emoção.

EVJ - Você não se sente mais reconhecido no Exterior?

HP - Eu não estou [morando] no exterior, mas é como se eu estivesse. Eu estou em evidência e dou entrevistas em todos os meus aniversários. Eu não dei entrevista para rádio nenhuma no Brasil e ninguém me ligou para falar comigo no meu aniversário. Mas eu dei entrevista para Boston, para o Canadá, para Nova York, Los Angeles. Programas de uma hora, talk shows. Tem 1.200 sites falando de mim nos Estados Unidos - mais do que músicos de lá têm. Mas isso é graças ao Brasil. Mesmo com menos divulgação. Eu não queria ter esse sucesso morando fora. Tudo o que acontece com o Hermeto é porque a imprensa gosta do Hermeto. É amor. E o que acontece em tudo com o Hermeto é por amor. Porque as pessoas gostam do Hermeto. Do pouco que acontece aqui, a essência é tão forte e tão grande que paira no mundo inteiro e sai voando. Se eu estou fazendo sucesso nos Estados Unidos e moro no Brasil, é graças ao Brasil porque eu estou aqui. Eu estou provando para mim mesmo que o santo que não faz milagre em casa é pior porque não faz fora. Eu estou conseguindo fazer milagre na minha casa. Eu não sou santo não, mas o santo que gosta de mim está fazendo milagre. Para mim é uma beleza, uma coisa linda. Eu estou feliz e vou morrer sem vontade de me mudar do Brasil - se eu não viver mais 400 anos. Está bom demais.

EVJ - Como surgiu "Mundo Verde Esperança"?

HP - Fiz o CD "Mundo Verde Esperança" depois de doze anos sem gravar com o grupo - porque eu gravei antes "Eu e Eles". Foi bom porque eu fiz outras coisas. O grupo me tomava muito tempo. Cada show que a gente toca a gente tem uma lista de 30, 40 músicas. A gente toca dez, no máximo, porque tem os improvisos. O "Mundo Verde Esperança", estava todo mundo a fim de fazer. E ele foi quase recorde. A gente gravou em uma semana. E hoje (quinta-feira, dia 27) vamos tocar músicas do CD também. Eu nunca toquei num lançamento de CD tantas músicas como eu estou tocando agora nesse CD. Não sei o por quê, mas dá uma vontade de tocar.

[Entrevista originalmente publicada no http://www.wtzine.com/hermeto.htm, e aqui reproduzida com autorização do entrevistador, Edison Veiga Júnior. Contato: edisonjornalismo@yahoo.com.br.]

Nicanor Teixeira por 28 grandes intérpretes4 Nicanor Teixeira por 28 grandes intérpretes. Egberto Gismonti, Galo Preto, Guinga, Maria Haro, Turíbio Santos, dentre outros. Selo Rob Digital. Rio de Janeiro. s/d.

Quatro gerações do violão brasileiro participam deste disco. De João Rabello (filho de Paulinho da Viola) e Alexandre Gismonti (filho do Egberto Gimonti) a nomes consagrados deste instrumento. Um marco histórico, registrando parte importante da obra de um dos grandes compositores brasileiros, gravado por violonistas em todo mundo.

14 de janeiro - João Rabello de Faria e Alexandre Gismonti - 16 anos cada um - são os convidados para gravar o Cateretê das Farinhas e a valsa Velha Lembrança, respectivamente. João é filho de Paulinho da Viola, sobrinho de Raphael Rabello e neto de César Faria. Seu pai vai buscá-lo ao final do dia e ao ouvir o resultado, entre surpreso e orgulhoso, comenta: "Nicanor, sua música não vai morrer nunca." Quase ao mesmo tempo toca o telefone. É o Egberto chamando o Nicanor para elogiar a qualidade e a beleza da valsa que seu filho tocara e querendo tocar também. Mais um sinal de que este é um disco para ficar na história.

22 de janeiro - Turíbio Santos grava o choro Carioca 1 com toda a sua elegância e sabedoria. Chega o Guinga. A Canção Terna foi escolhida a dedo para ele. Em meio aos preparativos de gravação, dos estudos para um melhor posicionamento dos microfones, Guinga aquecendo os dedos, para por um momento de tocar a canção e diz: "Agora, bateu!". E chora de emoção. Naquele momento, com certeza passou pela sua cabeça toda a beleza da história que tem o violão brasileiro. A história de Quincas Laranjeiras que ensinou a Levino da Conceição que ensinou a Dilermando Reis que ensinou a Nicanor e a Jodacil, que ensinou a Turíbio, a Guinga e ao Léo, que ensinou a Maria, Farina, Luiz Otávio, Llerena, Nicholas, Graça, Vera, Cláudio, Nélson, Luciana, Ferrer, Filipe, Chuang e a Bartholomeu, que ensinou a João e Alexandre. Quatro gerações do violão brasileiro participam deste disco. Tudo sob as bênçãos e o olhar atento e feliz do mestre Nicanor, do alto dos seus setenta anos. Durante os três meses de gravação das músicas de Nicanor Teixeira passaram pelos estúdios da Blue Light, pilotado pelo Alexandre Freitas, nada menos que 28 músicos, dos quais 21 violonistas. Cada um com seu estilo, sua formação, seu toque, sua emoção.

Nicanor Teixeira nasceu em 1928 na cidade da Barra, na época um lugarejo com 25 casas, situada na bacia do rio São Francisco, alto sertão da Bahia. Foi para o Rio de Janeiro em 1948. Durante quatro anos teve aulas com Dilermando Reis, com quem aprendeu leitura e escrita musical, além da técnica violonística. Passou então a conviver com músicos, como Oscar Cáceres e Jodacil Damaceno, e fez diversos cursos de música, estudando harmonia e se aperfeiçoando no violão. Participou de programas de rádio (Nacional, Roquete Pinto, etc.), além de atuar em inúmeros concertos. Nicanor Teixeira, compositor respeitadíssimo por todos os que se dedicam ao estudo do violão e possuidor de uma obra enorme é reconhecido internacionalmente pela sua importância, consistência, criatividade, beleza e ainda brasilidade, constatada na edição de suas obras por editoras estrangeiras. Também pesquisador, suas peças abrangem uma imensa variedade dos nossos gêneros: lundus, batuques, cateretês, ponteios, choros, sambas, valsas, modinhas, temas nordestinos, baiões, frevos, etc. Suas músicas já foram gravadas por Sebastião Tapajós, Turíbio Santos, Waltel Blanco, Cláudio Tupinambá, Bartholomeu Wiese e Afonso Machado. Aos 71 anos, sua obra pela primeira vez é registrada em CD. Um lançamento inédito e histórico da gravadora Rob Digital.

"Nicanor Teixeira representa para o violão brasileiro a síntese exata de uma erudição musical aliada à mais pura tradição popular do violão no Brasil. Seu virtuosismo como intérprete lhe permite, seguindo o exemplo de Agustin Barrios e João Pernambuco, uma grande liberdade de criação em seu instrumento. A sua obra tanto interessa ao estudante de violão como ao concertista, pela riqueza técnica e inventiva musical." Turíbio Santos (Paris - novembro de 1977)

"Quatro gerações do violão brasileiro participam deste disco. Tudo sob as bênçãos e o olhar atento e feliz do mestre Nicanor, do alto dos seus setenta anos." Afonso Machado

"Nicanor, sua música não vai morrer nunca." Paulinho da Viola

Forró brabo, de Pascoal Meirelles & Sexteto5 Forró brabo, de Pascoal Meirelles & Sexteto. Selo Rob Digital. Rio de Janeiro. 1998.

Baterista e compositor, Pascoal Meirelles nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1944. Inicialmente autodidata, estudou e graduou-se, posteriormente, no Berklee College of Music (Boston, EUA), a renomada escola de música por onde passaram músicos como Quincy Jones, Toshiko Akiyoshi e Gary Burton, entre outros.

O início de sua carreira profissional aconteceu aos 18 anos, tocando em bailes e casas noturnas. Formou o grupo Tempo Trio, em 1966, com o qual gravou um disco para a Odeon.

Mudando-se para o Rio de Janeiro, em 1967, foi convidado a participar do grupo de Paulo Moura, enquanto atuava em shows e gravações com Maysa, João Bosco e lvan Lins entre outros.

Excursionou pelo México, em 1972, e pelos EUA em 1974, com o grupo Festa Brasil, ao lado de Simone, Tenório Jr., Fernando Leporace, Chiquito Braga e João de Aquino.

Em 1975, obteve uma bolsa de estudos para o Berklee College of Music, onde estudou até 1979. Nesta época, atuou em clubes de jazz e participou do show "Saravá" apresentado na Broadway, em Nova York, além de gravar o álbum duplo Terra Brasilis, de Antonio Carlos jobim, com orquestração de Claus Ogerman, ao lado de Oscar Castro Neves e Michael Moore, entre outros.

De volta ao Brasil, atuou por mais de 10 anos na banda de Luís Gonzaga Júnior. Como músico de estúdio, gravou com Hélio Delmiro, Wagner Tiso, Chico Buarque, Danilo Caymmi, Edu Lobo, Claudio Roditi, Hendrix Meurkens e Luís Bonfá, entre outros.

Pascoal Meirelles é um dos fundadores do grupo instrurnental Cama de Gato, que originalmente contava ainda com Mauro Senise, Arthur Maia e Rique Pantoja (este último recentemente substituído por Jota Moraes). O grupo foi aclamado pela crítica corno o mais bem sucedido grupo instrumental dos anos 80. Com cinco discos lançados - "Cama de Gato", "Guerra Fria", "Sambaíba", "Dança da Lua" e "Amendoim Torrado" (este último recebeu indicação para o Prêmio Sharp) - o grupo ainda realizou turnês pelo Brasil, Espanha, França, Bélgica e Estados Unidos.

Paralelamente, a partir de 1981, Pascoal Meirelles dá início à sua carreira solo, lançando seu primeiro disco "Considerações a Respeito". Em seguida. vieram "Tambá" (1983), "Anna" (1987), "Paula" (1992), "Forró Brabo" (1998) e "Considerações" (CD compilação dos três discos iniciais, 1996). Recebeu indicações pelo seu trabalho em "Paula" e "Considerações" para o prêmio mais importante da música brasileira: o Prêmio Sharp.

Entre 1994 e 1996, participou como professor do Curso Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília; ministrou treze workshops na Dinamarca e Suécia, apresentando-se, também, em dois concertos no Kopenhagen Jazz House. Em 1996 conferiu cursos na cidade de Ouro Preto, no Festival de Inverno da Universidade de Minas Gerais e também em Santa Maria (Rio Grande do Sul), no II Encontro Latino-Americano de Percussão.

Em 1997 gravou a trilha sonora de Edu Lobo para o filme épico "A Guerra de Canudos", executando percussão clássica com orquestra de câmara, e em seguida realizou turnê de shows e workshops com o grupo Cama de Gato, em diversas cidades do nordeste do Brasil. Foi também convidado a tocar com Bob Mintzer Big Band, no Festival de Inverno da Universidade de Minas Gerais e, posteriormente, a ensinar no Berklee World Percussion Festival, em Boston (EUA). Em 1998, lecionou no I Festival Internacional de Música de Natal (Rio Grande do Norte).

Em 1999, apresentou-se com Paulo Moura em Roma, Milão, Tel Aviv e Jerusalém, além de ter tocado com Claudio Roditi Group no Bern Jazz Festival (Suíça) e ter ministrado workshops na Suécia.

Desde então, tem realizado diversos projetos, tais como: lançamento em 1997 do sexto CD solo "Forró Brabo" em diversas capitais brasileiras, participação na gravação do novo CD e em shows do cantor / compositor Ed Motta, participação em workshops na Feira Nacional de Arte e Cultura da Paraíba em 1999, lançamento do CD "Água de Chuva", com o grupo Cama de Gato em 2002, concerto no Festival de Jazz de Marsiac, França, com o grupo de Claudio Roditi, workshop na Escola Drumtech, em Londres, Inglaterra em 2003, lançamento do CD "Tom" em 2004, no Mistura Fina, no Rio, com o trio formado juntamente com o baixista Alberto Continentino e o guitarrista Nelson Faria, que apresentou-se no Projeto Bossa Nova 2000 e SESC Instrumental. Ainda em 2004, foi convidado pela Sociedade Filarmônica de Quito, Equador, para se apresentar com o Cama de Gato no Teatro Sucre e realizar workshops na Universidade São Francisco de Quito.

K-Ximblues, de Paulo Moura6 K-Ximblues, de Paulo Moura. Selo Rob Digital. Rio de Janeiro. 1999.

O encontro de dois talentos irrequietos e ousados da música brasileira produz um trabalho único, universal. Sua musicalidade excepcional revela uma fronteira ainda inexplorada entre o choro e o jazz.

De um lado K-Ximbinho, genial saxofonista e compositor. Como músico destacado, entre outras da Orquestra Tabajara, tocava seu instrumento com brilho seguindo os arranjos de maestros como Severino Araújo. Como compositor, violava as regras vigentes, criando choros em duas partes ao invés das três convencionais, e propunha como terceira o improviso jazzístico. Do outro lado Paulo Moura, instrumentista de múltiplas faces e mil recursos, que resolveu fazer uma releitura sem concessões, fiel ao espírito do compositor que foi seu parceiro na cena das "big bands" cariocas dos anos 50.

O resultado é este K-Ximblues, onde Paulo Moura em interpretações extraordinárias lidera uma formação de quarteto jazzístico nada convencional - Clarineta, Gaita, Guitarra e Baixo - e extrai dos temas de K-Ximbinho uma sonoridade com inflexões que estendem-se do choro ao jazz, revelando toda a complexidade do autor de "Sonoroso".

O repertório representa o cerne da obra de K-Ximbinho, uma variedade de temas com melodias e harmonias sofisticadas que pulsam nos arranjos e interpretações deste quarteto, que tem além de Paulo Moura, Mauricio Einhorn com seu timbre inconfundível na gaita, dialogando com a clarineta em vários temas, sempre irrequieto e surpreendente em suas citações. Nelson Faria na guitarra apoiando o quarteto com precisão e ritmo, além de executar alguns improvisos de muito brilho. Tony Botelho, baixista de raro talento capaz de perceber na "respiração" das músicas de K-Ximbinho um ritmo rico de nuances afro-brasileiras.

O CD foi gravado ao vivo em duas apresentações do quarteto no Teatro Leblon do Rio de Janeiro, dentro do projeto Grandes Encontros.

O polêmico e talentoso K-Ximbinho, genial saxofonista da época das grandes orquestras brasileiras e compositor de mão cheia, recebe do também genial Paulo Moura uma leitura alentada de sua obra. No auge da forma, o instrumentista e maestro reuniu um fino quarteto jazzístico composto por Mauricio Einhorn na gaita, Nelson Faria na guitarra e Toni Botelho no baixo para nos revelar com delicadeza e emoção todo o requinte das composições de K-Ximbinho, que vão muito além do "Sonoroso" , conhecido standard das gafieiras.

Os donos do mundo, de Raimundo Fagner7 Os donos do mundo, de Raimundo Fagner. Indie Records. Fortaleza. 2004.

O poeta cearense Francisco Carvalho chegou aos 77 anos de idade sem pagar os dividendos que a fama normalmente cobra de talentos extraordinários como o é o dele. Pública e notoriamente acanhado, nunca teve algo que se possa chamar de uma vida social e, quando sai de casa, quase somente em bastante esporádicas visitas à Academia Cearense de Letras, onde tem cadeira cativa, esse cantor da solidão ("meu Deus, essa cadela insigne, anda comigo e meu destino") se comporta de forma tão discreta que quase nunca é percebido, nem mesmo pelos velhos amigos. Embora tenha recebido o Prêmio Nestlé de Literatura de 1982 pelo livro Quadrante solar, um dos 30 que publicou em meio século de militância poética, o que lhe valeu o reconhecimento da crítica nacional, e continue a produzir de forma copiosa, sim, mas nunca enxundiosa, a definição que melhor cabe a sua figura é a do título do caderno especial lançado há alguns domingos pelo jornal O povo: "o homem invisível". Comparado com ele, seu colega itabirano Carlos Drummond de Andrade era um "exibido".

Agora, contudo, vai ficar cada vez mais difícil para ele não ser abordado na rua e não ter a casa, onde costuma se reunir apenas o núcleo familiar composto pelos próprios filhos, netos e bisnetos, invadida por fãs embasbacados com a natureza singular de sua lírica no panorama árido (e estéril) da poesia brasileira contemporânea. É que um de seus leitores, outro cearense, Raimundo Fagner, astro de primeira grandeza do negócio do espetáculo e da indústria fonográfica nacionais, pôs melodias e interpretou cinco poemas dele em seu útimo CD, Donos do Brasil. Depois de ter feito suas platéias se esgoelaram cantando o soneto Fanatismo, da galega Florbela Espanca, convencido um dos maiores poetas brasileiros, o maranhense Ferreira Gullar, a verter uma canção hispano-americana para fazer com ela enorme sucesso popular, apresentado ao público urbano o poeta matuto Patativa do Assaré e dado a conhecer o espanhol Rafael Alberti, o compositor e cantor jogou a luz dos próprios holofotes no personagem secreto da cidade onde ele também vive.

Francisco Carvalho é, sem favor nenhum, um dos melhores poetas em atividade no Brasil. E Raimundo Fagner mergulhou fundo em sua produção (reconhecida pelo especialista Gilberto Mendonça Teles como "uma das mais volumosas da atual poética brasileira") para dela extrair e reproduzir momentos de beleza sublime. É o caso do poema O bicho homem, que abre o CD. O texto, apoiado no jogo dos contrastes, faz parte do veio filosófico da obra, cuja unidade foi detectada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras, o também poeta Ivan Junqueira, que anotou: "Os poemas de Francisco Carvalho possuem aquela unidade descontínua própria da lírica". O poeta, crítico e professor pernambucano César Leal realçou esse caráter unitário do material trabalhado pelo compositor e intérprete, ao escrever: "É como se ele escrevesse um poema único, tamanha a coesão de um todo, cujas partes parecem articular-se graças a uma sutura que se diria mesmo inconsútil".

O poeta já havia escrito "O homem não é um sonho / nem alguma utopia. / O homem é senhor de seu destino / e dos caminhos que passam / por dentro da alma" (Desenho rupestre). E agora radicalizou na mesma direção: "Que bicho te oferta um ramo de rimas / e a sombra dos mortos semeia gemidos por sete Hiroximas?" No momento mais feliz da parceria, Fagner incorporou a esses versos profundos e instigantes uma dolente seresta brasileira de uma beleza e de uma simplicidade que a fazem ficar à altura dos versos que a inspiraram.

Mas o homem não é o único bicho a merecer a atenção do poeta, como captou Fagner. Fanático por vaquejadas, este sertanejo de Orós percebeu a riqueza da tauromaquia nos poemas selecionados pelo autor em Memórias do espantalho, seleta dos 19 livros que editou de 1971 para cá. Em Notícia do boi (Rosa dos eventos, 1982), o poeta constatou: "O boi às vezes pasta / a vontade de não pastar". Agora, Fagner musicou o poema Esse touro vale ouro e canta: "Esse touro quando muge / parte o arame das estacas."

Cristão fervoroso, camoniano inveterado, leitor atento de romances de cordel, fã de Murilo Mendes, Manoel Bandeira, Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade e Octavio Paz, dos quais se encontram muitos intertextos e paráfrases em sua poesia, Francisco Carvalho goza de invejável intimidade com o vernáculo. E cultiva um sense of humour muito mais sertanejo (é natural de Russas, no interior do Ceará) que britânico. Em Dialética do poema, ele escreveu: "Fazer um poema não é dizer coisas profundas. / É ver as coisas como as coisas não são." Essa contundência folgazã está presente no poema (aqui reproduzido na íntegra) Cesta básica, um dos musicados por Fagner, do qual vale a pena citar os dois versos finais: "Um quilo de aipim, pra não morrer de esplim / Um tiro no ouvido, pra não morrer de rir". O uso da palavra esplim (que significa enfado, melancolia), quase nunca usada na comunicação cotidiana, reforça o estranhamento desse fecho, sem dúvida antológico.

Impacto idêntico será produzido pela decisão do astro da MPB de dar ao Brasil o privilégio de conhecer a obra secreta desse poeta maior, embora "invisível".

[José Nêumanne Pinto]

Notas de viagens, de Ricardo Bezerra8 Notas de viagens, de Ricardo Bezerra. Selo Letra & Música. Ceará. 2003.

Em nível mundial, o final dos Anos 60 foi um período de grandes transformações políticas e culturais.  Uma verdadeira revolução no pensar e agir da juventude veio para transformar a sociedade como um todo. No bojo deste movimento mundial, surge, aqui no Ceará, um inquieto grupo de jovens estudantes universitários, atuando nos mais diversos campos das artes e da política. Eram seus ‘quartéis generais’ o Bar do Anísio, o velho Estoril e o Centro Acadêmico da Escola de Arquitetura da UFC.

Dentre todos estes grupos, no entanto, foi o de música o que mais se destacou, principalmente através dos festivais e dos programas de TV da época. No meio dessa ‘turma’ estava Ricardo Bezerra, estudante de Arquitetura, vindo, pelo lado materno, de uma família de Aracati, terra de reconhecida musicalidade.

Da convivência entre esse grupo de jovens, surgem então, as mais diversas parcerias musicais, algumas que são, hoje, clássicos da música brasileira. Tendo composto, em parceria, com poetas e compositores do calibre de Brandão, Mino, Fausto Nilo, Augusto Pontes, Yeda Estergilda, Rodger Rogério e Petrúcio Maia… é, no entanto, com Raimundo Fagner que o trabalho musical de Ricardo Bezerra se consolida em composições, hoje antológicas, dentre as quais se destacam Cavalo-Ferro, Manera Frufru Manera e Sina, esta última em parceria com o renomado poeta popular Patativa do Assaré.

No momento da decisão de dedicar a carreira profissional à música, o que significava, na época, a mudança para o eixo Rio-São Paulo, RB opta pelo estudo da arquitetura e urbanismo e permanece em Fortaleza, continuando seu trabalho musical nessa cidade, procurando incentivar os novos valores musicais que vinham surgindo no rastro do grupo inicial. Entre estes se destacaram Amelinha, os irmãos Gracco e Caio Silvio e Francisco Casaverde.

Em 1972 se casa (com a jornalista Bete Dias), mora durante um ano em Recife, trabalhando como diretor de criação de uma agência de publicidade, oportunidade em que se relaciona com um variado grupo de artistas e intelectuais pernambucanos onde se destacavam Alceu Valença, Geraldinho Azevedo, Thiago Amorim, Zé Ramalho, Cavani Rosas, Ricardo Noblat, Ivan Maurício e Tadeu Lubambo entre outros.

Em 1974 retorna a Fortaleza e passa a morar, com a família, na Maraponga, num sítio à beira da lagoa, local que se torna ponto de referência para o pessoal da música e das artes em geral. Nessa época Fagner passa a morar com a família e reforça ainda mais a convergência do local para os artistas da terra e de fora. Foram hóspedes na Maraponga, no começo de suas carreiras, figuras do calibre de Gonzaguinha, Antônio Adolfo, Alceu Valença e muitos outros que por lá passaram.

Em 1977, RB resolve voltar à música como profissional e a partir de convite do Fagner, se muda para o Rio com a finalidade de gravar um LP com a produção esmerada deste amigo e parceiro para a então CBS. Mais uma vez, sentindo que o mundo da música popular, o chamado show business, não era sua verdadeira vocação, RB retorna a Fortaleza e resolve dedicar-se ao ensino de arquitetura, sendo então admitido como professor na UFC.

Sua música, no entanto, continuou nascendo em esparsas mas significativas composições feitas em parceria com amigos. Enquanto isso tem músicas gravadas pelo Quarteto em Cy, Nara Leão, Ney Matogrosso, Vange Milliet e Pessoal do Ceará (Ednardo, Ródger e Teti). Nos meados dos anos 80, parte com a família (agora mulher e três filhos) para o Arizona, onde faz um mestrado em paisagismo. No início dos anos 90, continuando sua formação acadêmica, parte para a Inglaterra a fim de obter um doutorado em urbanismo. É durante a fase de redigir seu trabalho que ressurge a música e uma série de composições nasce das entrelinhas da sua tese que versa sobre habitação popular em Fortaleza.

São estas composições, somadas a algumas que haviam ficado esquecidas no passado que RB compõe este novo disco, feito mais de 20 anos após o primeiro. Neste trabalho estritamente instrumental, com produção executiva de Henilton Menezes, as palavras estão traduzidas em notas musicais, regiamente arranjadas por Adelson Viana, Cristiano Pinho e Ricardo Bacelar, compondo um conjunto harmônico de músicas de qualidade.

Esse novo disco recebeu o apoio da Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, mediante o uso dos incentivos fiscais oferecidos pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura (Lei Jereissati). 

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