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revista de cultura #
42 |
discos da agulha
Chapéu de Palha, um dos mais respeitados grupos de choro
do país, foi fundado pelo músico Valdir Sete Cordas em 1977. Em 1982,
depois de um sério acidente de carro, Valdir desfez o grupo, mas voltou
atrás 10 anos mais tarde, “cedendo a pressões de todo o mundo”. “Nós
estamos fazendo o choro como ele realmente é; o disco tem a essência da
música dos tempos de Pixinguinha” – assegura Valdir. “Tecnicamente,
todo mundo que estudou música conhece a estrutura do choro. Mas o espírito
do choro, a maneira de se portar e o fraseado vêm mais por empirismo do
que por técnica. Você tem que tocar e se imaginar naqueles ternos de
risca de giz, sentindo cheiro de sobrado, e interpretar uma época, não só
uma música. Isso não se aprende na escola, está no sangue”. Apesar de feito coletivamente – “foi uma produção
livre. Não tinha um produtor dentro do estúdio, todos deram pitaco. Este
é um disco democrático” -, o repertório saiu do “fundo do baú”
do líder do conjunto. Em Sempre, há música dos mestres
Pixinguinha e Altamiro Carrilho a Paulinho da Viola e até uma inesperada
releitura de Castigo, de Lupiscínio Rodrigues e Alcides Gonçalves.
A única inédita é Tributo a Edson Sete Cordas, de José
Siqueira, ex-integrante do Chapéu de Palha, que faz uma participação
especial na faixa. Nome de proa do choro, Altamiro avaliza o resultado e se
abre em elogios à atual formação do grupo. "Eles têm sofrido
alterações, como todo conjunto que se preza, mas têm sido felizes nessa
renovação, com elementos à altura da sonoridade e da tradição do
grupo. O Chapéu de Palha é como o Samba de uma nota só: outras notas vão
entrar, mas a base é uma só. Tive a honra de participar em duas músicas
do disco e fazer um efeito em uma terceira, todas de minha autoria - Maxixe
das flores, Saliente e Aeroporto do Galeão; esta última
com mais de 30 anos e já em sua 26a gravação. Bom, mas quanto ao grupo,
eu espero que este Chapéu continue arrumadinho por muitos anos ainda, que
continue enfeitando a nossa música instrumental. Eles sabem como fazer
isso." Este álbum é o primeiro registro da nova formação do
tradicional grupo de choro carioca Chapéu de Palha, que, a partir de
2002, passou a reunir os veteranos Valdir, Josias Nunes (flauta) e Valter
Sete Cordas (violão) aos recém-adotados Zé Mendes (sax soprano e sax
alto) e Luis Carlos (pandeiro) e ao estreante Patrick Ângelo, um
violonista de apenas 18 anos. Em Sempre, eles têm a companhia e o
reforço de convidados especiais como Altamiro Carrilho (flauta e
flautim), José Siqueira (cavaquinho), Roberto Marques (trombone) e
Netinho (percussão). Com arranjos de Moisés Pedrosa, Sempre é um
disco dedicado ao choro com uma entonação propositalmente clássica, ou
eterna, como sugere o título. Mesmo quando a música é um samba, um
maxixe ou uma polca, o espírito que prevalece é o do choro de um tempo
em que o ritmo da vida era mais gentil. O CD recupera um estilo de
interpretação que Valdir define como “um tanto bucólica”, de um
romantismo que ele identifica ainda hoje no choro feito em São Paulo e
Minas Gerais.
Daniela
Spielmann começou a tocar saxofone com 17 anos e sempre se interessou
pela música brasileira. Sua performance foi influenciada pelos
instrumentos de sopro mais usados no choro, como o clarinete e a flauta.
Além de fortemente marcada pelo choro, sua música também incorpora o
frevo, o maracatu, o samba a bossa nova e o jazz. Fez
curso de harmonia na escola de música Musiarte, no Rio, freqüentou a
Berklee School em Boston num curso livre, graduou-se em licenciatura em música
na Uni-Rio. Teve aulas particulares com Idriss Boudrioua, Juarez Araújo,
Eduardo Neves e Rick Margitza. Estudou arranjo e harmonia com Vittor
Santos e flauta erudita com David Ganc. Já
se apresentou com vários artistas de porte do cenário da MPB, como
Moreira da Silva, Carmem Costa, Mauro Diniz, Zé Keti e Nelson Sargento,
entre outros. Integrou a Rio Jazz Orchestra por dois anos, tendo grande
destaque como solista. Faz parte da banda "Altas Horas" do
programa homônimo, na TV Globo, elaborando arranjos semanais de acordo
com o repertório do programa. Daniela
integra os conjuntos Rabo de Lagartixa, Mulheres em Pixinguinha e
Sincronia Carioca, além de desenvolver um trabalho solo, explorando seu
lado compositora e arranjadora.
Aos 63 anos de idade, 49 de carreira e mais de 30 discos
lançados, Hermeto Pascoal faz o primeiro disco em que toca todos os
instrumentos, - piano, cavaquinho, pandeiro, flauta transversa e de bambu,
flautim, bandola, bombardino, triângulo, zabumba, surdo, sax, soprano,
sanfona, flugelhorn, escaleta, apitos, garrafas, panelas com água,
assovio e percussão de pés e mãos - Eu e Eles. "O primeiro som que eu fiz foi na hora em que eu
nasci. Eu e minha mãe, o duo." A frase resume bem o que o
multi-instrumentista Hermeto Pascoal pensa sobre a música: que ela está
em tudo, em todos os sons e ruídos que pululam a mente e o mundo das
pessoas. "O Bruxo", como é carinhosamente chamado, é um grande
experimentador, mas sem esquecer os princípios básicos da música. Como
ele mesmo diz: "A música tem três partes que são como pai, mãe e
filho. O pai é o ritmo, a mãe é a harmonia e o filho é a melodia. A
harmonia tem de ir antes de qualquer tema." Hermeto toca uma gama
enorme de instrumentos que alia a sons pouco usuais como chaleira, sons de
animais, chifre de boi, tubos metálicos, máquina de costura… Outra
faceta comum do artista é de sair tocando "em procissão"
quando acaba um show, com a platéia seguindo-o. Esbanjando bom-humor e dotado de uma jovialidade que
contrasta com seus 66 anos, Hermeto concedeu uma entrevista a mim,
representando o Jornalismo da Unesp, e à repórter do Jornal da Cidade,
Thaís da Silveira, momentos antes do show ocorrido no SESC-Bauru, na
quinta-feira, 27. Durante o bate-papo, o músico falou sobre a gravação
do novo CD - "Mundo Verde Esperança", do selo fonográfico Rádio
MEC - e sobre seu processo de composição. Com 14 composições próprias
inéditas, gravadas em uma semana, o novo trabalho reúne, além de
antigos companheiros de palco, novas caras. Grande parte delas são
integrantes da Itiberê Orquestra Família. Hermeto ficou entre mim e Thaís, sentado num sofá. "É
tão confortável aqui que tenho medo de dormir no meio da conversa",
brincou. Seu olhar de quem não enxerga bem transmitia uma alegria de
estar ali, falando sobre seu trabalho. Sua pele albina quase que se
misturava com a textura de suas longas barbas. "Estou muito feliz e
estou numa fase muito linda", fez questão de afirmar. Na sala onde ocorreu a entrevista, alguns músicos da banda
tocavam instrumentos de sopro. Hermeto, rindo, ergueu as mãos e gritou:
"Õ, vamos parar com esse barulho aí que os dois aqui querem
gravar". Virou-se pra gente e disse: "E então, já ligaram o
gravador?". EVJ - Como foi a concepção desse novo CD, em que você
grava com um grande grupo de músicos, logo após a gravação do "Eu
e Eles", no qual você toca todos os instrumentos sozinho? Hermeto Pascoal - O grupo já é de muitos anos. O Itiberê
(Zwarg) também está fazendo um grande trabalho com a orquestra dele. Ele
é contrabaixista do grupo há 25 anos. O Márcio Bahia há mais de 22
anos. Quem tem menos ali vai fazer dez anos no grupo. É uma coisa muito
bonita e agora temos convidados. Tem três cantoras excelentes que são
justamente das orquestra do Itiberê. Tem as cordas também da orquestra
do Itiberê, que convidamos também. Está um negócio maravilhoso; um
trabalho muito bonito. Está todo mundo muito feliz. A imprensa e todo
mundo está achando que é um trabalho que realmente está bom. EVJ - Você descobriu na orquestra do Itiberê grandes
talentos… HP - É, justamente eu estou muito feliz porque no Brasil
inteiro nunca teve uma época de tantos valores individuais de
instrumentistas e cantores como agora. É um negócio seríssimo, uma
maravilha. Eu estou muito feliz porque eu sei que quando Deus me levar -
eu tenho certeza de que eu vou viver somente 300 ou 400 anos - e quando eu
for eu sei que o mundo vai ficar bem entregue. Vai ficar uma maravilha com
esse pessoal todo. EVJ - Você considera essa etapa da sua carreira uma nova
fase? HP - Cada dia é uma nova fase, cada dia é uma história,
cada dia é um mar novo, cada dia é uma maravilha. Estou muito feliz e
estou numa fase muito linda. Passei por várias turbulências, a patroa
morreu há três anos. Mas agora estou namorando e feliz. Tocando e cada
vez inovando mais. Vendo a imprensa toda nova também, olha só vocês - não
é só na música, não. Todo mundo com a cabeça nova. Ninguém fica me
perguntando toda hora quando você nasceu e essas coisas que já cansei de
falar. O Brasil, no momento, é o país mais musical e mais criativo da
terra. É só nós, de todas as áreas, acreditarmos nisso. EVJ - Por falar em "cada dia é uma nova fase",
você continua compondo uma música por dia, como no ano em que lançou o
"Calendário do Som"? HP - Eu não paro. Eu não paro nunca. Por exemplo, cada
concerto desses que a gente tem, sempre saem composições na hora. Eu faço
uns improvisos às vezes que é como uma melodia. Eu chamo de improvisos
melódicos. Tem aquele improviso que não tem condições de escrever. E
tem uns que eu faço de propósito - para se eu quiser depois transcrever
aquilo. Quase sempre eu não faço não. Tudo tem que acontecer sem
premeditar. Eu não gosto de premeditar. Acho que as coisas têm que
fluir. EVJ - Você acha que sua música é uma música difícil de
ser ouvida, como muitos críticos acreditam? HP - Ainda bem que são alguns, porque a maioria, graças a
Deus… Você vê: onde eu estou passando para tocar não tem mais
ingressos. É quantidade e qualidade. As pessoas gostam, mesmo sem tocar
nas rádios. Eu estou muito feliz de me ver com 66 anos e com um público
de oito anos a 18, 19, 20, 30 anos. Muito pouquinho de 80 anos. Porque é
até bom que velho não venha dormir no auditório (risos). Eu brinco com
eles. Nos shows sempre tem 10% de coroas. A turma toda é jovem. Eu fiquei
admirado. Como é que pode? Essas pessoas não viveram a minha geração.
Mas eles falam que escutaram o meu primeiro disco e não pararam mais de
comprar os discos. Isso é uma paixão. Eu fui ao Japão e fiquei louco.
Eles vêm me pedir autógrafo tremendo de emoção. EVJ - Você não se sente mais reconhecido no Exterior? HP - Eu não estou [morando] no exterior, mas é como se eu
estivesse. Eu estou em evidência e dou entrevistas em todos os meus
aniversários. Eu não dei entrevista para rádio nenhuma no Brasil e
ninguém me ligou para falar comigo no meu aniversário. Mas eu dei
entrevista para Boston, para o Canadá, para Nova York, Los Angeles.
Programas de uma hora, talk shows. Tem 1.200 sites falando de mim nos
Estados Unidos - mais do que músicos de lá têm. Mas isso é graças ao
Brasil. Mesmo com menos divulgação. Eu não queria ter esse sucesso
morando fora. Tudo o que acontece com o Hermeto é porque a imprensa gosta
do Hermeto. É amor. E o que acontece em tudo com o Hermeto é por amor.
Porque as pessoas gostam do Hermeto. Do pouco que acontece aqui, a essência
é tão forte e tão grande que paira no mundo inteiro e sai voando. Se eu
estou fazendo sucesso nos Estados Unidos e moro no Brasil, é graças ao
Brasil porque eu estou aqui. Eu estou provando para mim mesmo que o santo
que não faz milagre em casa é pior porque não faz fora. Eu estou
conseguindo fazer milagre na minha casa. Eu não sou santo não, mas o
santo que gosta de mim está fazendo milagre. Para mim é uma beleza, uma
coisa linda. Eu estou feliz e vou morrer sem vontade de me mudar do Brasil
- se eu não viver mais 400 anos. Está bom demais. EVJ - Como surgiu "Mundo Verde Esperança"? HP - Fiz o CD "Mundo Verde Esperança" depois de
doze anos sem gravar com o grupo - porque eu gravei antes "Eu e
Eles". Foi bom porque eu fiz outras coisas. O grupo me tomava muito
tempo. Cada show que a gente toca a gente tem uma lista de 30, 40 músicas.
A gente toca dez, no máximo, porque tem os improvisos. O "Mundo
Verde Esperança", estava todo mundo a fim de fazer. E ele foi quase
recorde. A gente gravou em uma semana. E hoje (quinta-feira, dia 27) vamos
tocar músicas do CD também. Eu nunca toquei num lançamento de CD tantas
músicas como eu estou tocando agora nesse CD. Não sei o por quê, mas dá
uma vontade de tocar. [Entrevista originalmente
publicada no http://www.wtzine.com/hermeto.htm,
e aqui reproduzida com autorização do entrevistador, Edison Veiga Júnior.
Contato: edisonjornalismo@yahoo.com.br.]
Quatro gerações do violão brasileiro participam deste
disco. De João Rabello (filho de Paulinho da Viola) e Alexandre Gismonti
(filho do Egberto Gimonti) a nomes consagrados deste instrumento. Um marco
histórico, registrando parte importante da obra de um dos grandes
compositores brasileiros, gravado por violonistas em todo mundo. 14 de janeiro - João Rabello de Faria e Alexandre Gismonti
- 16 anos cada um - são os convidados para gravar o Cateretê das
Farinhas e a valsa Velha Lembrança, respectivamente. João é filho de
Paulinho da Viola, sobrinho de Raphael Rabello e neto de César Faria. Seu
pai vai buscá-lo ao final do dia e ao ouvir o resultado, entre surpreso e
orgulhoso, comenta: "Nicanor, sua música não vai morrer
nunca." Quase ao mesmo tempo toca o telefone. É o Egberto chamando o
Nicanor para elogiar a qualidade e a beleza da valsa que seu filho tocara
e querendo tocar também. Mais um sinal de que este é um disco para ficar
na história. 22 de janeiro - Turíbio Santos grava o choro Carioca 1 com
toda a sua elegância e sabedoria. Chega o Guinga. A Canção Terna foi
escolhida a dedo para ele. Em meio aos preparativos de gravação, dos
estudos para um melhor posicionamento dos microfones, Guinga aquecendo os
dedos, para por um momento de tocar a canção e diz: "Agora,
bateu!". E chora de emoção. Naquele momento, com certeza passou
pela sua cabeça toda a beleza da história que tem o violão brasileiro.
A história de Quincas Laranjeiras que ensinou a Levino da Conceição que
ensinou a Dilermando Reis que ensinou a Nicanor e a Jodacil, que ensinou a
Turíbio, a Guinga e ao Léo, que ensinou a Maria, Farina, Luiz Otávio,
Llerena, Nicholas, Graça, Vera, Cláudio, Nélson, Luciana, Ferrer,
Filipe, Chuang e a Bartholomeu, que ensinou a João e Alexandre. Quatro
gerações do violão brasileiro participam deste disco. Tudo sob as bênçãos
e o olhar atento e feliz do mestre Nicanor, do alto dos seus setenta anos.
Durante os três meses de gravação das músicas de Nicanor Teixeira
passaram pelos estúdios da Blue Light, pilotado pelo Alexandre Freitas,
nada menos que 28 músicos, dos quais 21 violonistas. Cada um com seu
estilo, sua formação, seu toque, sua emoção. Nicanor Teixeira nasceu em 1928 na cidade da Barra, na época
um lugarejo com 25 casas, situada na bacia do rio São Francisco, alto
sertão da Bahia. Foi para o Rio de Janeiro em 1948. Durante quatro anos
teve aulas com Dilermando Reis, com quem aprendeu leitura e escrita
musical, além da técnica violonística. Passou então a conviver com músicos,
como Oscar Cáceres e Jodacil Damaceno, e fez diversos cursos de música,
estudando harmonia e se aperfeiçoando no violão. Participou de programas
de rádio (Nacional, Roquete Pinto, etc.), além de atuar em inúmeros
concertos. Nicanor Teixeira, compositor respeitadíssimo por todos os que
se dedicam ao estudo do violão e possuidor de uma obra enorme é
reconhecido internacionalmente pela sua importância, consistência,
criatividade, beleza e ainda brasilidade, constatada na edição de suas
obras por editoras estrangeiras. Também pesquisador, suas peças abrangem
uma imensa variedade dos nossos gêneros: lundus, batuques, cateretês,
ponteios, choros, sambas, valsas, modinhas, temas nordestinos, baiões,
frevos, etc. Suas músicas já foram gravadas por Sebastião Tapajós, Turíbio
Santos, Waltel Blanco, Cláudio Tupinambá, Bartholomeu Wiese e Afonso
Machado. Aos 71 anos, sua obra pela primeira vez é registrada em CD. Um
lançamento inédito e histórico da gravadora Rob Digital. "Nicanor Teixeira representa para o violão brasileiro
a síntese exata de uma erudição musical aliada à mais pura tradição
popular do violão no Brasil. Seu virtuosismo como intérprete lhe
permite, seguindo o exemplo de Agustin Barrios e João Pernambuco, uma
grande liberdade de criação em seu instrumento. A sua obra tanto
interessa ao estudante de violão como ao concertista, pela riqueza técnica
e inventiva musical." Turíbio Santos (Paris - novembro de 1977) "Quatro gerações do violão brasileiro participam
deste disco. Tudo sob as bênçãos e o olhar atento e feliz do mestre
Nicanor, do alto dos seus setenta anos." Afonso Machado "Nicanor, sua música não vai morrer nunca."
Paulinho da Viola
Baterista e compositor, Pascoal Meirelles nasceu em Belo
Horizonte, Minas Gerais, em 1944. Inicialmente autodidata, estudou e
graduou-se, posteriormente, no Berklee College of Music (Boston, EUA), a
renomada escola de música por onde passaram músicos como Quincy Jones,
Toshiko Akiyoshi e Gary Burton, entre outros. O início de sua carreira profissional aconteceu aos 18
anos, tocando em bailes e casas noturnas. Formou o grupo Tempo Trio, em
1966, com o qual gravou um disco para a Odeon. Mudando-se para o Rio de Janeiro, em 1967, foi convidado a
participar do grupo de Paulo Moura, enquanto atuava em shows e gravações
com Maysa, João Bosco e lvan Lins entre outros. Excursionou pelo México, em 1972, e pelos EUA em 1974, com
o grupo Festa Brasil, ao lado de Simone, Tenório Jr., Fernando Leporace,
Chiquito Braga e João de Aquino. Em 1975, obteve uma bolsa de estudos para o Berklee College
of Music, onde estudou até 1979. Nesta época, atuou em clubes de jazz e
participou do show "Saravá" apresentado na Broadway, em Nova
York, além de gravar o álbum duplo Terra Brasilis, de Antonio Carlos
jobim, com orquestração de Claus Ogerman, ao lado de Oscar Castro Neves
e Michael Moore, entre outros. De volta ao Brasil, atuou por mais de 10 anos na banda de
Luís Gonzaga Júnior. Como músico de estúdio, gravou com Hélio
Delmiro, Wagner Tiso, Chico Buarque, Danilo Caymmi, Edu Lobo, Claudio
Roditi, Hendrix Meurkens e Luís Bonfá, entre outros. Pascoal Meirelles é um dos fundadores do grupo
instrurnental Cama de Gato, que originalmente contava ainda com Mauro
Senise, Arthur Maia e Rique Pantoja (este último recentemente substituído
por Jota Moraes). O grupo foi aclamado pela crítica corno o mais bem
sucedido grupo instrumental dos anos 80. Com cinco discos lançados -
"Cama de Gato", "Guerra Fria", "Sambaíba",
"Dança da Lua" e "Amendoim Torrado" (este último
recebeu indicação para o Prêmio Sharp) - o grupo ainda realizou turnês
pelo Brasil, Espanha, França, Bélgica e Estados Unidos. Paralelamente, a partir de 1981, Pascoal Meirelles dá início
à sua carreira solo, lançando seu primeiro disco "Considerações a
Respeito". Em seguida. vieram "Tambá" (1983),
"Anna" (1987), "Paula" (1992), "Forró
Brabo" (1998) e "Considerações" (CD compilação dos três
discos iniciais, 1996). Recebeu indicações pelo seu trabalho em
"Paula" e "Considerações" para o prêmio mais
importante da música brasileira: o Prêmio Sharp. Entre 1994 e 1996, participou como professor do Curso
Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília; ministrou treze
workshops na Dinamarca e Suécia, apresentando-se, também, em dois
concertos no Kopenhagen Jazz House. Em 1996 conferiu cursos na cidade de
Ouro Preto, no Festival de Inverno da Universidade de Minas Gerais e também
em Santa Maria (Rio Grande do Sul), no II Encontro Latino-Americano de
Percussão. Em 1997 gravou a trilha sonora de Edu Lobo para o filme épico
"A Guerra de Canudos", executando percussão clássica com
orquestra de câmara, e em seguida realizou turnê de shows e workshops
com o grupo Cama de Gato, em diversas cidades do nordeste do Brasil. Foi
também convidado a tocar com Bob Mintzer Big Band, no Festival de Inverno
da Universidade de Minas Gerais e, posteriormente, a ensinar no Berklee
World Percussion Festival, em Boston (EUA). Em 1998, lecionou no I
Festival Internacional de Música de Natal (Rio Grande do Norte). Em 1999, apresentou-se com Paulo Moura em Roma, Milão, Tel
Aviv e Jerusalém, além de ter tocado com Claudio Roditi Group no Bern
Jazz Festival (Suíça) e ter ministrado workshops na Suécia. Desde então, tem realizado diversos projetos, tais como:
lançamento em 1997 do sexto CD solo "Forró Brabo" em diversas
capitais brasileiras, participação na gravação do novo CD e em shows
do cantor / compositor Ed Motta, participação em workshops na Feira
Nacional de Arte e Cultura da Paraíba em 1999, lançamento do CD "Água
de Chuva", com o grupo Cama de Gato em 2002, concerto no Festival de
Jazz de Marsiac, França, com o grupo de Claudio Roditi, workshop na
Escola Drumtech, em Londres, Inglaterra em 2003, lançamento do CD
"Tom" em 2004, no Mistura Fina, no Rio, com o trio formado
juntamente com o baixista Alberto Continentino e o guitarrista Nelson
Faria, que apresentou-se no Projeto Bossa Nova 2000 e SESC Instrumental.
Ainda em 2004, foi convidado pela Sociedade Filarmônica de Quito,
Equador, para se apresentar com o Cama de Gato no Teatro Sucre e realizar
workshops na Universidade São Francisco de Quito.
O encontro de dois talentos irrequietos e ousados da música
brasileira produz um trabalho único, universal. Sua musicalidade
excepcional revela uma fronteira ainda inexplorada entre o choro e o jazz.
De um lado K-Ximbinho, genial saxofonista e compositor.
Como músico destacado, entre outras da Orquestra Tabajara, tocava seu
instrumento com brilho seguindo os arranjos de maestros como Severino Araújo.
Como compositor, violava as regras vigentes, criando choros em duas partes
ao invés das três convencionais, e propunha como terceira o improviso
jazzístico. Do outro lado Paulo Moura, instrumentista de múltiplas faces
e mil recursos, que resolveu fazer uma releitura sem concessões, fiel ao
espírito do compositor que foi seu parceiro na cena das "big
bands" cariocas dos anos 50. O resultado é este K-Ximblues, onde Paulo Moura em
interpretações extraordinárias lidera uma formação de quarteto jazzístico
nada convencional - Clarineta, Gaita, Guitarra e Baixo - e extrai dos
temas de K-Ximbinho uma sonoridade com inflexões que estendem-se do choro
ao jazz, revelando toda a complexidade do autor de "Sonoroso". O repertório representa o cerne da obra de K-Ximbinho, uma
variedade de temas com melodias e harmonias sofisticadas que pulsam nos
arranjos e interpretações deste quarteto, que tem além de Paulo Moura,
Mauricio Einhorn com seu timbre inconfundível na gaita, dialogando com a
clarineta em vários temas, sempre irrequieto e surpreendente em suas citações.
Nelson Faria na guitarra apoiando o quarteto com precisão e ritmo, além
de executar alguns improvisos de muito brilho. Tony Botelho, baixista de
raro talento capaz de perceber na "respiração" das músicas de
K-Ximbinho um ritmo rico de nuances afro-brasileiras. O CD foi gravado ao vivo em duas apresentações do
quarteto no Teatro Leblon do Rio de Janeiro, dentro do projeto Grandes
Encontros. O polêmico e talentoso K-Ximbinho, genial saxofonista da
época das grandes orquestras brasileiras e compositor de mão cheia,
recebe do também genial Paulo Moura uma leitura alentada de sua obra. No
auge da forma, o instrumentista e maestro reuniu um fino quarteto jazzístico
composto por Mauricio Einhorn na gaita, Nelson Faria na guitarra e Toni
Botelho no baixo para nos revelar com delicadeza e emoção todo o
requinte das composições de K-Ximbinho, que vão muito além do
"Sonoroso" , conhecido standard das gafieiras.
O poeta cearense Francisco Carvalho chegou aos 77 anos de
idade sem pagar os dividendos que a fama normalmente cobra de talentos
extraordinários como o é o dele. Pública e notoriamente acanhado, nunca
teve algo que se possa chamar de uma vida social e, quando sai de casa,
quase somente em bastante esporádicas visitas à Academia Cearense de
Letras, onde tem cadeira cativa, esse cantor da solidão ("meu Deus,
essa cadela insigne, anda comigo e meu destino") se comporta de forma
tão discreta que quase nunca é percebido, nem mesmo pelos velhos amigos.
Embora tenha recebido o Prêmio Nestlé de Literatura de 1982 pelo livro Quadrante
solar, um dos 30 que publicou em meio século de militância poética,
o que lhe valeu o reconhecimento da crítica nacional, e continue a
produzir de forma copiosa, sim, mas nunca enxundiosa, a definição que
melhor cabe a sua figura é a do título do caderno especial lançado há
alguns domingos pelo jornal O povo: "o homem invisível".
Comparado com ele, seu colega itabirano Carlos Drummond de Andrade era um
"exibido". Agora, contudo, vai ficar cada vez mais difícil para ele não
ser abordado na rua e não ter a casa, onde costuma se reunir apenas o núcleo
familiar composto pelos próprios filhos, netos e bisnetos, invadida por fãs
embasbacados com a natureza singular de sua lírica no panorama árido (e
estéril) da poesia brasileira contemporânea. É que um de seus leitores,
outro cearense, Raimundo Fagner, astro de primeira grandeza do negócio do
espetáculo e da indústria fonográfica nacionais, pôs melodias e
interpretou cinco poemas dele em seu útimo CD, Donos do Brasil.
Depois de ter feito suas platéias se esgoelaram cantando o soneto Fanatismo,
da galega Florbela Espanca, convencido um dos maiores poetas brasileiros,
o maranhense Ferreira Gullar, a verter uma canção hispano-americana para
fazer com ela enorme sucesso popular, apresentado ao público urbano o
poeta matuto Patativa do Assaré e dado a conhecer o espanhol Rafael
Alberti, o compositor e cantor jogou a luz dos próprios holofotes no
personagem secreto da cidade onde ele também vive. Francisco Carvalho é, sem favor nenhum, um dos melhores
poetas em atividade no Brasil. E Raimundo Fagner mergulhou fundo em sua
produção (reconhecida pelo especialista Gilberto Mendonça Teles como
"uma das mais volumosas da atual poética brasileira") para dela
extrair e reproduzir momentos de beleza sublime. É o caso do poema O
bicho homem, que abre o CD. O texto, apoiado no jogo dos contrastes,
faz parte do veio filosófico da obra, cuja unidade foi detectada pelo
presidente da Academia Brasileira de Letras, o também poeta Ivan
Junqueira, que anotou: "Os poemas de Francisco Carvalho possuem
aquela unidade descontínua própria da lírica". O poeta, crítico e
professor pernambucano César Leal realçou esse caráter unitário do
material trabalhado pelo compositor e intérprete, ao escrever: "É
como se ele escrevesse um poema único, tamanha a coesão de um todo,
cujas partes parecem articular-se graças a uma sutura que se diria mesmo
inconsútil". O poeta já havia escrito "O homem não é um sonho /
nem alguma utopia. / O homem é senhor de seu destino / e dos caminhos que
passam / por dentro da alma" (Desenho rupestre). E agora
radicalizou na mesma direção: "Que bicho te oferta um ramo de rimas
/ e a sombra dos mortos semeia gemidos por sete Hiroximas?" No
momento mais feliz da parceria, Fagner incorporou a esses versos profundos
e instigantes uma dolente seresta brasileira de uma beleza e de uma
simplicidade que a fazem ficar à altura dos versos que a inspiraram. Mas o homem não é o único bicho a merecer a atenção do
poeta, como captou Fagner. Fanático por vaquejadas, este sertanejo de Orós
percebeu a riqueza da tauromaquia nos poemas selecionados pelo autor em Memórias
do espantalho, seleta dos 19 livros que editou de 1971 para cá. Em Notícia
do boi (Rosa dos eventos, 1982), o poeta constatou: "O boi
às vezes pasta / a vontade de não pastar". Agora, Fagner musicou o
poema Esse touro vale ouro e canta: "Esse touro quando muge /
parte o arame das estacas." Cristão fervoroso, camoniano inveterado, leitor atento de
romances de cordel, fã de Murilo Mendes, Manoel Bandeira, Euclides da
Cunha, Carlos Drummond de Andrade e Octavio Paz, dos quais se encontram
muitos intertextos e paráfrases em sua poesia, Francisco Carvalho goza de
invejável intimidade com o vernáculo. E cultiva um sense of humour
muito mais sertanejo (é natural de Russas, no interior do Ceará) que
britânico. Em Dialética do poema, ele escreveu: "Fazer um
poema não é dizer coisas profundas. / É ver as coisas como as coisas não
são." Essa contundência folgazã está presente no poema (aqui
reproduzido na íntegra) Cesta básica, um dos musicados por
Fagner, do qual vale a pena citar os dois versos finais: "Um quilo de
aipim, pra não morrer de esplim / Um tiro no ouvido, pra não morrer de
rir". O uso da palavra esplim (que significa enfado, melancolia),
quase nunca usada na comunicação cotidiana, reforça o estranhamento
desse fecho, sem dúvida antológico. Impacto idêntico será produzido pela decisão do astro da
MPB de dar ao Brasil o privilégio de conhecer a obra secreta desse poeta
maior, embora "invisível". [José Nêumanne Pinto]
Em nível mundial, o final dos Anos 60 foi um período de
grandes transformações políticas e culturais.
Uma verdadeira revolução no pensar e agir da juventude veio para
transformar a sociedade como um todo. No bojo deste movimento mundial,
surge, aqui no Ceará, um inquieto grupo de jovens estudantes universitários,
atuando nos mais diversos campos das artes e da política. Eram seus
‘quartéis generais’ o Bar do Anísio, o velho Estoril e o Centro Acadêmico
da Escola de Arquitetura da UFC. Dentre todos estes grupos, no entanto, foi o de música o
que mais se destacou, principalmente através dos festivais e dos
programas de TV da época. No meio dessa ‘turma’ estava Ricardo
Bezerra, estudante de Arquitetura, vindo, pelo lado materno, de uma família
de Aracati, terra de reconhecida musicalidade. Da convivência entre esse grupo de jovens, surgem então,
as mais diversas parcerias musicais, algumas que são, hoje, clássicos da
música brasileira. Tendo composto, em parceria, com poetas e compositores
do calibre de Brandão, Mino, Fausto Nilo, Augusto Pontes, Yeda
Estergilda, Rodger Rogério e Petrúcio Maia… é, no entanto, com
Raimundo Fagner que o trabalho musical de Ricardo Bezerra se consolida em
composições, hoje antológicas, dentre as quais se destacam Cavalo-Ferro,
Manera Frufru Manera e Sina, esta última em parceria com o
renomado poeta popular Patativa do Assaré. No momento da decisão de dedicar a carreira profissional
à música, o que significava, na época, a mudança para o eixo Rio-São
Paulo, RB opta pelo estudo da arquitetura e urbanismo e permanece em
Fortaleza, continuando seu trabalho musical nessa cidade, procurando
incentivar os novos valores musicais que vinham surgindo no rastro do
grupo inicial. Entre estes se destacaram Amelinha, os irmãos Gracco e
Caio Silvio e Francisco Casaverde. Em 1972 se casa (com a jornalista Bete Dias), mora durante
um ano em Recife, trabalhando como diretor de criação de uma agência de
publicidade, oportunidade em que se relaciona com um variado grupo de
artistas e intelectuais pernambucanos onde se destacavam Alceu Valença,
Geraldinho Azevedo, Thiago Amorim, Zé Ramalho, Cavani Rosas, Ricardo
Noblat, Ivan Maurício e Tadeu Lubambo entre outros. Em 1974 retorna a Fortaleza e passa a morar, com a família,
na Maraponga, num sítio à beira da lagoa, local que se torna ponto de
referência para o pessoal da música e das artes em geral. Nessa época
Fagner passa a morar com a família e reforça ainda mais a convergência
do local para os artistas da terra e de fora. Foram hóspedes na
Maraponga, no começo de suas carreiras, figuras do calibre de
Gonzaguinha, Antônio Adolfo, Alceu Valença e muitos outros que por lá
passaram. Em 1977, RB resolve voltar à música como profissional e a
partir de convite do Fagner, se muda para o Rio com a finalidade de gravar
um LP com a produção esmerada deste amigo e parceiro para a então CBS.
Mais uma vez, sentindo que o mundo da música popular, o chamado show
business, não era sua verdadeira vocação, RB retorna a Fortaleza e
resolve dedicar-se ao ensino de arquitetura, sendo então admitido como
professor na UFC. Sua música, no entanto, continuou nascendo em esparsas mas
significativas composições feitas em parceria com amigos. Enquanto isso
tem músicas gravadas pelo Quarteto em Cy, Nara Leão, Ney Matogrosso,
Vange Milliet e Pessoal do Ceará (Ednardo, Ródger e Teti). Nos meados
dos anos 80, parte com a família (agora mulher e três filhos) para o
Arizona, onde faz um mestrado em paisagismo. No início dos anos 90,
continuando sua formação acadêmica, parte para a Inglaterra a fim de
obter um doutorado em urbanismo. É durante a fase de redigir seu trabalho
que ressurge a música e uma série de composições nasce das entrelinhas
da sua tese que versa sobre habitação popular em Fortaleza. São estas composições, somadas a algumas que haviam
ficado esquecidas no passado que RB compõe este novo disco, feito mais de
20 anos após o primeiro. Neste trabalho estritamente instrumental, com
produção executiva de Henilton Menezes, as palavras estão traduzidas em
notas musicais, regiamente arranjadas por Adelson Viana, Cristiano Pinho e
Ricardo Bacelar, compondo um conjunto harmônico de músicas de qualidade. parceiros da agulha nesta seção |
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