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revista
de cultura # 42 |
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Intensos assombros: poesia de Claudio Willer &
Floriano Martins Álvaro Alves de Faria
De acordo com Willer, o horizonte literário de então
“vinha de Rimbaud para cá, e do Rimbaud final, de ‘Iluminações’ e
‘Uma temporada no inferno’, livros de cabeceira de tantas gerações
literárias, no início do século 20 até hoje”. Ele explica ainda que
esse foi o período da aproximação à geração beat: “A poesia de
Allen Ginsberg parecia falar-nos, falar de nós […] Éramos uma câmara
de ecos de poesia, e prosa, e filosofia. Dois ângulos ou duas
perspectivas para apreender o que vem a ser liberdade de expressão e criação:
as leituras sincrônicas, quase simultâneas, de ‘Os Cantos de
Maldoror’ de Lautréamont e de ‘Uivo e Kaddish’ de Ginsberg. Se
havia quem escrevesse daquele modo, então tudo era permitido”. Essas
considerações se fazem necessárias até mesmo para melhor situar a obra
poética de Cláudio Willer.
A narrativa poética de Floriano Martins é das mais
intensas da literatura atual deste país. Dália
do coração negro é um poema de versos longos que pode ser anotado
como o que de melhor se produz na poesia brasileira contemporânea. Isso
para citar apenas um exemplo, já que em Estudos de pele, ele
mergulha fundo na condição humana sem deixar de ser especialmente poeta
quando necessário. É até uma questão de atitude poética, sem muitos
discursos e invenções. O poeta, na verdade, cultiva a beleza. Ele
conclui num poema “que todas as dores são extensas”. O verso faz
parte de Dores do nada que, a
exemplo de Dália do coração negro,
se reveste da observação mais íntima na vida do homem, em que tudo se
despoja para a vida verdadeira de um poema. Some-se a estas observações Um
livro de Ângela, no qual a poesia se esgota na feitura do poema com
imagens em versos longos, prosa poética de beleza inquestionável (“As
páginas não eram propriamente um abismo”). Essa narrativa poética utilizada dentro do poema também
ocorre em relação aos contos envolvidos numa atmosfera de magia. Não é
demais dizer que os contos de Estudo de pele são primorosos.
Remetem a uma realidade de sonho construída com uma literatura elaborada,
palavra por palavra, como se pode ver e sentir em Visita
de um lagarto, no qual o sonho e a realidade se confundem, oferecendo
uma paisagem que corre entre a luz e a sombra. Mas não apenas o conto
citado. Outros fazem deste livro uma obra de se admirar sempre, caso de Nos
bolsos da sonâmbula e Lições
de abismo, incluindo ainda a última parte do livro, Modelos
vivos. Diante de uma literatura assim, pode-se dizer com alívio que
nem tudo se perdeu, porque existem ainda autores como Floriano Martins. Voltando agora a Claudio Willer. Seu Estranhas experiências
e outros poemas é uma afirmação viva de poesia em todos os
sentidos, o que é marcante em toda sua obra. Willer considerou “provocações”
algumas perguntas da conversa que tivemos. E disse achar “ótimo” ser
provocado. Um equívoco. Mas pelas respostas dadas a algumas dessas
“provocações” alegadas por Willer, fica-se sabendo, por exemplo, que
a chamada Geração 60 de poetas de São Paulo não passa, na verdade, de
um pequeno punhado de nomes, uns mais ungidos que outros. A unção revela
que a tal Geração (não sei se caberia aqui um G maiúsculo) é
simplesmente um grupinho de pessoas separadas entre si por motivos nem
sempre ligados à poesia. A expressividade ou a insignificância ocorre de
acordo com as regras de um jogo lastimável. As igrejas não são coisas
do passado. Um salve-se quem puder deprimente. É por esse motivo que a
política literária às vezes provoca náuseas. Romantismo à parte,
vamos ao que interessa, que é a poesia, salvo algum engano inesperado. Claudio Willer é um poeta atento e dono de fina elaboração
do poema. Veja-se, por exemplo, A
palavra, de Estranhas experiências: “…poesia é o que eu
ainda irei relatar em prosa/ poesia é o que ainda pretendo escrever/ para
depois reler e dar risadas, imaginando o espanto de quem vier a ler o que
escrevi”. Nesse poema Willer escreve que “poesia é névoa/ de fumaça
enchendo o quarto, todo mundo a dar risadas sem conseguir parar/ poesia é
porrada”. Confessa, ainda dentro do poema (se é que cabe esta consideração)
que “sempre usei uma linguagem direta/ Prometeu, Fausto/ não quero
falar, quero ser dito”. E na narrativa Chegar lá, do mesmo livro, ele sintetiza certamente sua literatura
poética: “E agora, quero a palavra reduzida ao simples gesto de agarrar
alguma coisa, pura denotação, linguagem-referência, mão estendida
apontando para esses pedaços de realidade”. A sinalização deste Estranhas
experiências Willer colocou em epígrafe em palavras de Fernando
Pessoa: “Não procures nem creias: tudo é oculto”. Ou a parte seis de
Poemas para ler em voz alta: ‘É
PRECISO QUE SEJAMOS MODERNOS COMO O AMOR”. Ele completa: “…mas não
sei/ se não recuaremos/ confundidos diante da visão de nossa
crueldade”. Diante destes Estudos de pele, de Floriano Martins,
e Estranhas experiências e outros poemas, de Claudio Willer, é
ainda possível vislumbrar uma paisagem mais clara e honesta em relação
à produção de poesia e de prosa neste pobre país de coisas ridículas,
tudo muito bem amparado pela política literária que empobrece a
literatura e enriquece a mentira. Aqui estão dois exemplos de trabalho e
seriedade. E para os bons poetas - como observa Willer em resposta a uma
“provocação” - “para o poeta, escrever poesia é inevitável”.
[AAF] 1
Claudio Willer
AAF - O que significa este Estranhas experiências e outros poemas em sua obra?
AAF - Quando os poetas da
chamada Geração 60 de poetas de São Paulo começaram a se juntar em
torno do editor Massao Ohno - tínhamos todos 20 anos - você e o Roberto
Piva se diferenciavam do grupo no que diz respeito à poesia, à
linguagem, aos temas poéticos. E até hoje vocês mantêm essa postura. O
que você poderia dizer sobre isso? CW - O que eu tenho a dizer não vai muito além da
constatação de que sim, isso é verdade. Já naquela época, havia uma
categoria pela qual tínhamos especial apreço, a transgressão.
Felizmente, a crítica começa a entrar em cena, a apontar diferenças, e,
melhor ainda, a examinar o que cada um desses poetas tem de específico,
próprio, pessoal. Qualificar um autor apenas pela geração da qual fez
parte seria redutor, empobrecedor. Ainda mais uma geração cuja marca,
conforme já observado várias vezes, foi a não-adesão a uma poética, a
um plano de criação ou plataforma. Daí sua diversidade, a
irredutibilidade a modelos, paradigmas e às grandes tendências como
poesia concreta, populismo, academicismo, poesia marginal, etc. AAF - Sua poesia e sua prosa cumpriram a trajetória que
você desejou ao longo de todos esses anos, ou você nunca se debruçou
sobre essa questão, deixando que as coisas acontecessem por elas mesmas? CW - Nunca desejei nada. Não me imaginava ocupando um
lugar em um panorama literário. Tudo, publicação, lançamento, críticas,
comentários, respostas de leitores, é uma série de surpresas. Constar
em livros de História da Literatura, então - quem diria! Por muitos
anos, fui de uma completa desatenção com relação à crítica e divulgação.
Talvez tenha praticado uma espécie de zen-budismo aplicado à política
literária. Ou mantido uma postura consistentemente surrealista, no
sentido de não ir atrás, não procurar reconhecimento. Fui surpreendido
por Massao Ohno, por volta de 1964: “Willer, quero te publicar!” E,
novamente, ele me surpreendeu em 1976 e em 1981. A primeira vez em que
enviei originais a algum editor, a priori, foi em 1996, quando terminei Volta, minha narrativa em
prosa. AAF - Além do trabalho de poeta e de crítica e ensaio,
você também exerce a tradução, uma tradução honesta. Peço que você
discorra também sobre seu trabalho de tradutor? CW - Em 1970, Inácio Araújo, o crítico de cinema da Folha
de S. Paulo, que nos freqüentava, sugeriu a Wladir Nader, da Editora
Vertente, que comemorasse o centenário de nascimento de Lautréamont,
publicando uma tradução minha de Os cantos de Maldoror. Arregacei
as mangas e fiz, meio às pressas. Foi minha estréia como tradutor, em
livro - antes, havia publicado traduções, de D. H. Lawrence na revista Diálogos.
Lautréamont já era um autor fundamental para mim. Mas ler é uma coisa e
traduzir é outra - é hiperleitura, confluência da leitura, criação
literária e crítica. Como aprendi traduzindo. Mais ainda, nas ocasiões
em que refiz essa tradução, a última, em Lautréamont - Obra
completa, pela Iluminuras (1997). Prosseguindo: em 1982, telefona-me
um inesperado gaúcho, “Tchê, sou Ivan Pinheiro Machado da L&PM,
queria que tu traduzisses Antonin Artaud!”. Foi por recomendação do
jornalista Marcos Faerman, grande amigo, pessoa generosa, que também me
havia convidado para colaborar em Versus
e Singular e Plural, entre outros lugares. Aproveitei o embalo e na
seqüência sugeri Allen Ginsberg, o grande poeta da beat, de quem já havia traduzido algo para leituras em teatros, em
1967. Foi quando tive a ocasião de me corresponder com Ginsberg. Essas
traduções foram bem, tiveram reedições e boa acolhida pela crítica.
Para traduzir, você não se relaciona apenas com o texto. Tem que
assimilar a poética do autor traduzido. Conforme já comentei no prefácio
de Estranhas experiências, ser convidado para traduzir Artaud,
Ginsberg e Lautréamont, autores especialmente importantes para minha
formação, é algo que sinto como manifestação do “acaso objetivo”
do surrealismo. AAF - Vários poetas da Geração 60 de São Paulo e Rio de
Janeiro estão lançando sua obra poética, 40 anos de poesia. Faz também
40 anos que você publicou seu primeiro livro de poemas. O que você acha
dessa iniciativa de reunir toda a poesia como vem ocorrendo? CW - Tivemos o lançamento dos seus 40 anos de poesia. E de
Eduardo Alves da Costa, já examinado aqui, em Rascunho. A obra poética
completa de Neide Archanjo. Estranhas experiências também
corresponde a 40 anos, desde minha estréia com Anotações para um
Apocalipse. Já houve, uns cinco anos atrás, aquele volume com a
poesia de Carlos Felipe Moisés, pela Nankim. Ano que vem sairá a obra
completa do Piva pela Editora Globo. Haverá outras edições de contemporâneos
e amigos nossos. Espero que um próximo da vez seja Rodrigo de Haro, com
uma poesia de alta qualidade, conhecida por poucos. Tudo isso mostra a
permanência da poesia. Pode vender menos, conforme a superstição de
editores e livreiros. Mas resiste ao tempo, reaparece. AAF - Você é um poeta que batalha em muitas frentes na
questão cultural do Brasil. Por isso eu lhe faço uma pergunto que
costumo fazer sempre aos poetas que entrevisto para o Rascunho:
por que e para quem escrever poesia? CW - Quanto ao para quê, diria que, para o poeta, escrever
poesia é inevitável. Fernando Pessoa já dizia que o poema acontece.
Breton falou em imagens que “batiam na vidraça”, querendo entrar.
Escrevo porque gosto. Por querer mudar o mundo, a vida. Por dialogar com o
que leio. Por paixão e por paixões. Criar poesia é algo como magia
propiciatória, gesto simbólico para transformar ou realizar algo. O
ensinamento freudiano nos mostra que escrever, comunicar-se, em geral, é
um modo de sedução, de aproximar-se do outro. Para quem? Para aqueles a
quem a circulação do poema materializar. AAF - Uma questão que está sempre em pauta quando a gente
conversa é a do jornalismo cultural, da “crítica” literária
brasileira, que eu coloco entre aspas. Para mim o cenário é melancólico.
Como você vê o comportamento da crítica literária brasileira? Ela
existe? É séria? CW - Já escrevi muito sobre isso. Crítica no Brasil na
verdade nunca foi lá dessas coisas. Era tradicionalista, tímida,
academicizante, conservadora. Agora, salvo exceções, oscila entre o
burocrático-superficial e o mercadológico-superficial. Reduziu-se,
perdeu espaço, na proporção inversa do crescimento do mercado editorial
(ou do decrescimento, alarmante nos últimos anos). A resposta está nos
novos periódicos literários, como este Rascunho, um espaço aberto, que
privilegia a diversidade, onde se escreve com paixão, pelo prazer, e não
no modo burocrático, bem como na revista Cult,
na qual colaboro regularmente, divulgando autores novos, e em outros periódicos.
Isso, na mídia impressa; no meio digital, há muito mais. Têm que ser
apoiados. São cultura de resistência. Podem desempenhar um papel
decisivo, em um país com 75% de analfabetos funcionais,
semi-alfabetizados que não têm o hábito da leitura, onde a questão da
mediação entre o livro e o leitor, por meio do ensino e da imprensa, é
dramática.
CW - Você me fez três perguntas numa só. Sobre geração
60, já comentei acima. Se não existisse, não teria escrito sobre ela.
Sobre o vídeo do Ugo Giorgetti, em primeiro lugar, que coisa - além de
tudo, tenho filmografia: Uma outra
cidade do Ugo, mais um média-metragem de 1983, Inventário
da rapina, do Aloysio Raulino, todo em cima de imagens do Jardins da provocação (em 35 mm, tomara que seja passado para vídeo),
mais as participações em Filmedemência
de Carlos Reichembach, Antes que eu
me esqueça de Jairo Ferreira, e no recente documentário sobre Piva. Uma
outra cidade nunca foi apresentado por Ugo Giorgetti como documentário
sobre toda a Geração 60 de poesia. Se o fizesse, aí sim, estaria sendo
parcial, viesado. É uma criação pessoal, apresentando a visão dele
da cidade e da poesia. Isso me parece evidente. Tem que ser entendido no
contexto da obra de Ugo, na qual a recuperação do passado, associada a
um sentimento da passagem do tempo como perda, são uma constante, tratada
de modo elegíaco em O príncipe,
de modo irônico e também elegícaco em Boleiros,
e através de poetas em Uma outra
cidade. Daqueles poetas, é claro, dos quais ele se sentia mais próximo.
Adelante. Sim, Roberto Piva, Rodrigo de Haro, Antonio Fernando de
Franceschi e eu, mais Décio Bar, Raul Fiker, Juan Hernandez, e artistas
plásticos como Maninha e Guilherme de Faria, outros poetas como Roberto
Bicelli, em ocasiões Sergio Lima, e pessoas que não publicaram nem
expuseram nada ainda, mas são extraordinárias, como Regastein Rocha,
entre outros, formamos um grupo, uma confraria de amigos e de agitadores
que se distanciou dos demais poetas que surgiram na mesma época em São
Paulo. Naquele ciclo de poesias no teatro de Arena, relatado aqui, em
outra entrevista sua, por Eduardo Alves da Costa, fizemos uma sessão
apenas nossa: Piva, Rodrigo de Haro, Décio Bar e eu. Endossamos os
manifestos anarco-surreais do Piva, de 1962, Os
que viram a carcaça. Distribuímos um necrológio de autores
contemporâneos em 1963. Encontrávamo-nos e nos reuníamos com
regularidade. Diuturnamente - Piva me telefonava todo dia, Rodrigo de Haro
hospedou-se em minha casa por meses. Firmamos outros manifestos e outras
manifestações. Líamo-nos. Partilhávamos leituras, informação,
ativamente. Achávamos outras produções e exteriorizações do período,
a exemplo da Catequese Poética de Lindolf Bell, demasiado
bem-comportadas. Unia-nos a dimensão mais transgressiva, a simpatia ou
afinidade com anarquismo, e, em graus diferentes, conforme o autor, com as
imagens poéticas, uma escrita mais livre, mais delirante, e com geração
beat e surrealismo. Por isso,
cunhei o termo “periferia rebelde”, referindo-me a esse grupo, em meus
textos sobre o período. Há uma sinopse disso em dois dos meus poemas, A
palavra e A princípio. E
bons relatos nos depoimentos de Antonio Fernando de Franceschi e Rodrigo
de Haro publicados na coletânea Azougue
10 anos, organizada por Sérgio Cohn (Azougue editorial, 2004) e na
entrevista que o Piva fez comigo, disponível na Internet, entre outros
lugares. Há uma tese de mestrado - Roberto
Piva e a “periferia rebelde” na poesia paulista dos anos 60, por
Thiago de Almeida Noya, UERJ, Letras, 2004, espero que saia em livro, por
enquanto só consultando na UERJ - que, entre outras boas contribuições,
mostra, de modo inteligente, as diferenças dentro
da geração, do movimento dos Novíssimos, além de corrigir a periodização
feita por Heloisa Buarque de Hollanda. Maior aproximação com outros
autores da mesma geração, isso aconteceu depois, a partir do final da década
de 1970 - foi quando Lindolf Bell conversou comigo sobre fazermos algo
mostrando a Geração 60 dos Novíssimos de São Paulo. Há dois eixos, da
sincronia e da diacronia. Não podemos nos prender apenas a um ou outro
deles. Seria redutor. A crítica, a partir do que Armando Freitas Filho
escreveu em 1979, tem observado maior afinidade minha e de Piva com Afonso
Henriques Neto, que é do Rio de Janeiro, e a quem nem conhecíamos
naquela época. Ou com Floriano Martins, de Fortaleza, a quem conheci por
volta de 1985 e com quem, há quatro anos, edito a revista eletrônica Agulha. Hoje, considero-me contemporâneo de poetas com 50, 40, 30 e
20 anos de idade. Alguns, vários dentre eles, com citações, paráfrases,
epígrafes de poemas meus em suas obras. Sou um intertexto. Por isso, no
prefácio de Estranhas experiências, digo que o importante não é
apenas ser lido, é ser escrito. Esses poetas formam um grupo ou geração
atemporal, ou então, situada em outra cronologia. Algum dia, reunirei
todos eles em uma bela festa. AAF - Na apresentação de Estranhas experiências, você diz que “numa época como a nossa,
quando há um aparente eclipse de utopias, a rebelião romântica,
individual, continuará a contribuir para a transformação do mundo”. O
que significa isso? CW - Breton encerrou a palestra-manifesto Posição
política do Surrealismo, de 1935, com uma frase famosa:
“’Transformar o mundo’, disse Marx; ‘mudar a vida’, disse
Rimbaud: para nós, estas duas palavras de ordem não são mais que uma só”.
Note bem, há dois pólos, representados, respectivamente, por Marx e
Rimbaud. Uma polaridade semelhante àquela estabelecida por Octavio Paz,
em Signos em rotação, entre revolução e rebelião ou revolta.
Ao longo da história, às vezes foram complementares; em outras,
convergentes; e em outras, francamente antagônicos - como durante o
pesado conservadorismo soviético, quando a rebelião individual, romântica,
era vista apenas como sintoma da decadência burguesa. Aceita a existência
desses dois pólos, e desses dois ciclos, da revolução e da rebelião,
é possível indicar problemas em um deles, o da revolução. É como se
tivesse completado um percurso, cuja data inicial pode ser o 14 de julho
de 1789, o apogeu, o outubro soviético de 1917. Seu ponto final, para
muitos, é a queda do Muro de Berlim, no final de 1989. Também pode ser
1991, com o fim da União Soviética. Ou - na minha opinião - janeiro de
2003, com a eleição e posse do governo Lula. Lembro de um artigo de José
Dirceu, em 1980, no Leia Livros,
criticando a social-democracia de Brizola, argumentando que aquilo era
reformismo, enquanto a proposta do PT era revolucionária, de ruptura.
Naquela época, eu recebia trotskistas vindos da França, que vinham ao
Brasil para conhecer o PT, a grande esperança da esquerda não-soviética.
As voltas que o mundo dá… Eu nunca tive dúvidas de que iria dar nisso
mesmo que está aí, no que está acontecendo agora. Enfim, e resumindo: o
outro pólo, da rebelião romântica, simbolizada por Rimbaud, continua em
pé, e vale como postura e proposta de transformação da realidade. Acho
que ainda haveria muito para conversarmos a respeito. 2
Floriano Martins
AAF - O que representa este Estudos de Pele na sua obra? FM - Gosto do que diz sobre este meu livro o artista plástico
Valdir Rocha, atento ao fato de que o mesmo “contém versos que carregam
poesia, versos típicos de prosa e até despidos da poesia corrente, prosa
que leva poesia, prosa que é prosa mesmo, e por aí vai. Diz-se a certa
altura, com razão, que ‘Não estou bem certo se o domínio de uma
linguagem afiança uma poética’. Reúne poemas e alguns não-poemas;
jamais antipoemas. Ilude sempre. Sinceramente, é muito difícil
indicar-lhe o gênero. E isso está longe de ser defeito porque é
virtude. Diria - só para não omitir uma classificação - que está
embebido de poesia. Cabe a quem recebe as confissões do texto ‘aprender
a lidar com o imprevisto’”. Isto é o que se poderia dizer de minha
poesia como um todo, Álvaro, desde que acentuando que à medida que avanço
na escritura de novos livros se vai cavando mais abismo sob os pés, tanto
do autor quanto do leitor. O que temos então em Estudos de pele -
e logo o teremos também em Duas mentiras, livro que será
publicado em seguida - é uma intensificação dessa aprendizagem com o
imprevisto. Gosto dessa provocação constante do imaginário, de provocar
a mim mesmo para que não incorra nunca na cristalização de um discurso.
AAF - No início do livro, você escreve que “toda a criação
está feita de equívocos, exageros, precárias aproximações da
realidade, falsas suspeitas”. Peço que se estenda nesse assunto.
AAF - O que me parece imensa beleza é ler seu livro como
se fosse um romance com começo, meio e fim. Ao mesmo tempo, quero
destacar imagens poéticas marcantes, escritas por quem conhece seu ofício
de escrever. Você afirma que não houve nenhuma caridade na escritura de
seu novo livro. O que significa isso? FM - A primeira observação diz respeito à estrutura do
livro, que se não é propriamente romanesca tampouco se trata de uma
simples coletânea de poemas soltos. Todo o livro se encontra montado
partindo da idéia de uma polifonia. E aqui cabe recorrer uma vez mais ao
que mencionas na pergunta anterior, sobre os exageros e fantasias que
neste caso, à diferença de um livro como Dom Quixote, não se concentram
na voz única de um narrador, mas sim num caudal de tramas secundárias
que acabam conformando aquele “rio onírico”, digamos, evocando a
aguda leitura que Milan Kundera faz da poética de Kafka, remetendo-nos a
um “longo fôlego da imaginação” que tão bem se descortina na obra
do autor de Castelo. Já em relação à caridade aludida, situemos
o contexto em que ela se dá, sempre considerando esse jorro incessante de
vozes que ambienta os cenários constitutivos do livro. Isto nos leva à
idéia de visitação que menciono no início, lembrando que todas as
vozes femininas estão por conta própria, que me procuraram para que eu
lhes desse passo a seus depoimentos viscerais. São elas que fazem do
autor seus inesgotáveis estudos. As mulheres de Estudos de pele são
um retrato de nossa perda de sensibilidade. É do que nos acusam em todo
momento. Tanto recorro a personagens bíblicos, pela notória violência
sofrida pela mulher nas tábuas fundamentais do catolicismo, quanto à
atualização desses padrões de sofrimento induzido. Estão presentes
tanto as discordâncias cotidianas, na maneira de compartilhar a vida,
quanto suas perspectivas míticas, as estranhezas manifestas, por vezes místicas.
Estas mulheres não têm medo de dizer do que padecem: do abandono
completo por parte de uma irracionalidade que assume o comando como sendo
a supremacia humana. AAF - Repito a você a pergunta que faço a todos os poetas
que entrevisto: afinal, a poesia serve para quê? FM - A rigor, já sabemos a resposta, conhecimento que também
não serve para nada, pois a perversão se encontra na pergunta, que pode
muito bem ser contestada com outra indagação: por que deveria servir a
poesia para alguma coisa? Por aí não chegamos nunca a parte alguma. Já
chega de tanta tolice que serve
apenas para a pirotecnia de quem exibe malabares como sendo sua razão de
ser. A serventia está ligada à idéia de manipulação. O que perdemos,
poetas? Perdemos o prazer pela existência, o mergulho intenso no
inapropriado, no inesperado, a cumplicidade com o imprevisto, até com o
indesejável, e saber tratar disso como quem se dispõe a receber novos
ensinamentos, abrir-se ao mundo, sim, Álvaro, abrir-se ao mundo, fugir da
manipulação desonesta que separa arte e vida, por exemplo, porque não há
mesmo vida sem forma, existência desgovernada em um plano estético. Então,
a questão não é para que serve a poesia, mas sim para que servimos nós,
seres humanos. E para que servimos nós? AAF - Os poetas de sua região [o Nordeste] sofrem de
preconceitos especialmente pela região sul do país tropical de tantas
alegrias e misérias? Quais são as dificuldades dos poetas dessa região
brasileira? FM - Não vamos acentuar caipirismos e regionalismos. As
dificuldades do país não afetam aos poetas mais do que a qualquer outro
cidadão. Evidentemente que as oportunidades de trabalho confluem para o
que se chama de eixo Rio-São Paulo, especialmente, no caso dos
escritores, no âmbito editorial. Não é diferente em outros países,
diferenciados por aspectos como dimensão territorial e condições econômicas
e culturais. Trata-se basicamente de uma aposta reincidente, viciada e
desgastada de manutenção de um grande centro produtor, centro de referência,
barreira que requer um esforço maior para ser dissipada, uma atenção no
sentido de não se importar um mesmo modelo, para cada região, digamos,
de novo caipirismo. É difícil, porque a grande imprensa comanda o espetáculo
e distribui a todos, indiscriminadamente, o mesmo santinho,
a mesma carta marcada de seu baralho de futilidades existenciais. Mais difícil
ainda porque todos sonham em virar carta marcada. AAF - Eu penso que a crítica literária brasileira -
honradas algumas raríssimas exceções - já morreu há muito tempo,
ficando no seu lugar um bando que prima pela desonestidade e pela
desinformação cultural. O que você pensa da crítica literária dos
jornais brasileiros, especialmente no trecho Rio-São Paulo? FM - Não te esqueças que as exceções servem apenas para
confirmar a regra. Quem se preocupa com a crítica? Evidente que o leitor
é um refém dela, um cliente a quem o marketing de venda trata com o
mesmo desapreço que qualquer outro consumista. A ausência de reflexão
sobre livros e autores em nossa imprensa não denuncia carência de visão
crítica, como se o país estivesse momentaneamente desprovido de certa
falta de argumentação e acuidade. O dilema central é o do comportamento
de nosso intelectual, ou seja, há conivência por toda parte, todos
sonham com o apogeu, a glória, buscam - até com incontrolável exasperação
- um lugar ao sol, confundindo causa e efeito, sempre. Não se trata de
setorizar a questão. Não há uma crítica regional,
pois o que se veicula, a título de crítica - que não passa de um bolsão
de resenhas definidas e apanhadas à pressa, além de mal pagas e com
atraso - é assinado por gente de qualquer credo ou região. Eu sinto a
tua preocupação, quase uma zanga, com o que se passa entre Rio e São
Paulo, mas agora mesmo estamos em diálogo aberto em um jornal no Paraná,
o que significa expressivamente que é possível buscar algo além do que
chamei de caipirismo. O exercício da crítica tem a ver com despojamento,
com clara intenção de diálogo, e não com o impositivo. Qual crítica
morreu há muito tempo? Dois grandes estilos de crítica ganharam terreno
no Brasil: o adjudicatório, onde a vítima paga pelos erros de sua
eventual vinculação com o criminoso, seja uma escola literária ou uma
mera preferência declarada em entrevista; e o evocatório, que - mais
astuto - dispensa explicações. Em resumo: aos amigos da corte, tudo; a
seus desafetos, nada. isto é crítica? Chegou a ser algum dia? AAF - Por que e para quem escrever poesia? Quem lê poesia
no Brasil? FM - Isto me recorda o Fellini. É como se alguém ao final
de um filme - e este filme representasse não apenas a sua vida, mas toda
a existência humana - indagasse: mas afinal, para que serviu este filme?
E então se poderia refletir que algo se passou de errado, de muito errado
com o filme, pois ele não deveria suscitar tal indagação, porque todo o
filme havia padecido da pretensão
de olhar o mundo por uma outra lente que não fosse a do sentido
histórico. E então Fellini, numa entrevista a Giovanni Grazzini, nos
dá a chave: “Olho para o cotidiano, enquanto estou vivo. O resto é
especulação”. AAF - Explique o seu trabalho na poesia de vários países
latino-americanos, desenvolvido há tanto tempo, organizando antologias e
eventos, levando a poesia brasileira para fora do país. Por incrível que
possa parecer, ainda existem na literatura pessoas como você. FM - Não sou dado a falsas modéstias, mas tampouco me atrai
a idéia de ficar a enumerar feitos. Gostaria que este meu trabalho ao
menos provocasse um mal-estar, no sentido que houvesse uma atenção para
a indagação-chave: por que evitamos o diálogo entre nossas culturas?
Por que mesmo escritores, intelectuais, artistas, jamais promoveram a
aproximação dessas culturas? Por que os acordos recentes entre países
latino-americanos desconsideram a cultura desses povos? Por que reagimos
de forma tão apática quando a pauta trata da cultura do país, em
contrapartida à maneira efusiva com que saltam de órbita nossos olhinhos
quando a única peça em questão no tabuleiro é o umbigo? Evidentemente
que as estratégias do mercado artístico, por exemplo - se pensarmos em
cinema ou música - delineiam-se buscando novos clientes, nada mais. Se
nos submetemos todos a essa regra básica, tudo está perfeito. E como em
um negócio qualquer, se a qualidade do produto foi substituída pela eficácia
da apresentação do mesmo, sua retórica, digamos, como esperar da música
ou do cinema, que queira voltar a ser arte? Pelo contrário, toda a arte
agora quer ser cinema ou música. É uma grande enrascada em que nos
metemos, e com a plena conivência dos artistas. AAF - E o seu trabalho de tradutor? FM - Imaginemos a cena em que um tradutor tenta
obsessivamente evitar o original que está a traduzir. A todo custo tenta
construir ali um objeto outro, o mais longe possível do original. Este
será - segundo pensa - seu grande mérito. A lição - a não ser
repetida por ninguém - é de que a tradução quer fazer com que o
original desapareça por completo. Porém, sua grande perversão consiste
no fato de que, mesmo ausentado, ele esteja sempre presente, com sua nova máscara, porque
afinal a linguagem se transmite de máscara em máscara. Existem três
determinantes estilísticas no trabalho de um tradutor: o estilo comum, o
estilo do tradutor e, finalmente, o estilo do autor. É possível reduzir
as transgressões de um autor a
um mero idioma bem escrito, dialogar intensamente com elas ou destroná-las
em nome da hipotética transgressão do tradutor. Teríamos aí os três
estágios em que se movimenta a tradução: sufocação, despojamento,
presunção. Creio que há apenas uma originalidade
na tradução: a de perceber - e jamais será exata essa percepção - o
grau de transgressão do que se está a traduzir. O resto é traquinagem,
ou crime de lesa linguagem. AAF - A poesia brasileira atual, em muito casos, deprime,
tal a inconseqüência de alguns nomes que têm respaldo da festividade do
jornalismo cultural sem compromisso. Isso ocorre também em outros gêneros
da literatura, mas no que diz respeito à poesia essa questão é
alarmante. Então, para concluir, como anda a poesia brasileira hoje? FM - Desconfio que a poesia feita no Brasil sempre levou o que se poderia chamar de uma vida dupla: de um lado a vertente explícita, encorajada pela crítica acadêmica e a mídia, ou seja, sua agradável estação formalista, onde Semana de Arte Moderna e Concretismo, eventos de maior circulação internacional, representam uma mescla de conservadorismo e alheamento em termos de contato com a realidade. Observe-se que manifestos de uma tendência e outra se aproximam na estratégia de não reconhecimento do que está à volta ou atrás. Se o Modernismo simplesmente apaga as pistas que lhe são mais caras, no caso do Concretismo há uma presunção em negar tudo o que lhe antecede. Por outro lado, há a gestão solitária de eclosões que acabam por traçar um mapa mais denso de nossa cartografia poética. Evidentemente que isto se passa em qualquer parte. Mas por vezes me impressiona a maneira como um ilusório status quo da poesia encanta o que há de mais medíocre, catadores de versos que perseguem uma condição que, a bem da verdade, quem a tem, de fato, se sente incomodado com ela. Os poetas são uns chatos, que sempre alertam para as tolices cometidas pela espécie humana. Como alguém pode sentir prazer em ser poeta? É de uma morbidez impecável. Mas todos querem se sentir poetas. É o lado espetacular da coisa, onde a sensação tem mais importância do que o poema em si. O personagem ganha a parada. O poeta em nossos dias não busca senão tornar-se personagem de si mesmo. Nem precisa escrever versos. É tão simples e ao mesmo tempo todos parecem felizes com a situação: críticos e editores e poetas se felicitam por esse acerto de ocasião. Nas outras artes também se passa o mesmo. O que antes se poderia pensar que era uma fábrica discreta de autores, agora ganha uma logística mais apurada: trata-se de uma fábrica de leitores. Pensemos no cinema, por exemplo, naqueles atores que estão sempre a estragar as cenas porque exibem um patético olhar de quem se sente extasiado com a própria - e suposta, claro - genialidade: Antonio Banderas e Hally Berry são boas lembranças deste caso. Para melhor compreensão, misturemos as artes - já não seria sem tempo. Acabaríamos percebendo que, no geral, uma vez que estamos falando de Brasil, o poeta tornou-se um grande canastrão. |
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Álvaro
Alves de Faria (Brasil, 1942). Jornalista, poeta e escritor. Autor de 20
poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra e Poemas
portugueses, entre outros. Contato: poetalves1@hotmail.com.
Página ilustrada com obras do artista Ernesto Leon (Venezuela). |
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