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revista
de cultura # 42 |
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Haicai, haicais: entrevista com Paulo Franchetti Wanderson Lima
WL - Para iniciar, o senhor poderia resumir, em poucas
palavras, o que é o haicai, já que a maioria de nós tem uma visão
estritamente tecnicista desta forma poética. PF - Em japonês o haicai é um texto breve, composto de 17
durações, centrado numa percepção da transição das estações. As
dezessete durações são divididas usualmente em duas frases, que
provocam uma contraposição entre o que é passageiro e o que é
duradouro, o que é humano e o que é cósmico, o que é pequeno e o que
é grande e assim por diante. No geral, o haicai é objetivo. Em poucos
textos escritos por grandes haicaístas encontra-se a expressão direta de
sentimentos. O mais das vezes, a emoção intensa que é despertada pelo
haicai é provocada pela cena rapidamente esboçada, pela expressão
indireta do sentimento. Assim, o haicai japonês é um poema breve,
objetivo, que tem como centro um fenômeno ligado à sucessão das estações
do ano. Usei a expressão “durações” porque em japonês se
contam as durações, como em latim ou grego. Isto é: há sílabas
breves, que valem uma duração, e longas, que valem duas durações. Nas
línguas ocidentais, quando se quer imitar a forma do haicai, substitui-se
o conceito de duração pelo conceito de sílaba. Daí que o haicai seja
definido como um poema breve composto de 3 versos: o primeiro e o terceiro
de 5 sílabas e o segundo, de 7. Mas essa é justamente a definição mais
pobre. A que deixa de lado tudo o que importa. Pois é na ausência de
sentimentalidade, na linguagem objetiva, no efeito de registro direto de
uma experiência que reside o sabor específico do haicai. E esse é o único
interesse do haicai: o seu sabor particular. A forma, o terceto imparissilábico,
é banal, sem importância alguma. WL - Quais as dificuldades que um tradutor de haicai deve
enfrentar? O haicai é, realmente, traduzível? PF - Penso que o haicai seja tão traduzível quanto
qualquer texto pertencente a uma civilização distante da nossa no tempo
ou no espaço. Não me parece que deva ser mais difícil traduzir um
haicai do que um poema provençal ou um poema árabe. Quando se lê muita
literatura de um período ou civilização, percebe-se a rede de referências
em que se apóia cada novo texto. A tradução deve levar em conta esses
efeitos de sentido, isto é, o que, no impacto de um texto sobre o leitor,
provém das alusões que ele faz a outros, pelo aproveitamento que faz dos
que o precederam. Um texto é sempre um ponto de tensão dentro de um
conjunto de outros textos: o leitor da época tinha costumes e referências
com as quais o texto se combinava ou colidia; os leitores das épocas
seguintes tinham também os seus costumes e referências, que incluíam,
modificados e selecionados, os costumes e referências do tempo da produção
da obra. Quando leio um haicai japonês, uma parte do que percebo provém
de eu conhecer um pouco da tradição poética japonesa, de ter lido
muitos haicais e textos sobre haicai. Na minha tradução, é claro, vou
tentar reproduzir os efeitos de sentido que percebi. Mas isso não quer
dizer que não precise complementar a tradução com notas de rodapé,
para que o leitor possa perceber de onde vem o brilho, a especificidade ou
o caráter de obra-prima do haicai que tem ante os olhos. Sucede o mesmo
com os poemas medievais, por exemplo. E com a poesia das civilizações clássicas.
Mas como a tradição clássica e medieval é a nossa tradição, esses
textos parecem mais compreensíveis. WL - A moda do haicai entre nós, como o senhor frisa no
estudo O Haicai no Brasil, “precede de muitos anos essa
nova onda de celebração do Japão tecnológico”. Apesar disso, resquícios
de visões acerca do haicai acentuadamente formalista ou mesmo eivadas de
exotismo ainda são recorrentes. Esse seria o motivo, feitas as exceções
pontuais, do baixo nível dos haicais produzidos entre nós? É preciso um
conhecimento denso da cultura japonesa para se produzir bons haicais? PF - O
haicai tem sido praticado no Brasil principalmente em três vertentes.
Para muitos, é uma forma fixa, uma espécie de minúsculo soneto. É a
vertente que deriva de Guilherme de Almeida e faz do haicai um primo da
trova. Para um outro grupo bastante significativo, o haicai é um registro
de uma vivência “zen”, de um jeito de estar no mundo. Para outros, é
uma forma poética tradicional japonesa que precisa ser aclimatada e
adaptada ao Brasil como já se aclimataram as artes marciais e a culinária
e se está adaptando a arte das flores. O exotismo
e o tecnicismo são assim fatais, eu creio.
O segundo
motivo é que o haicai, em qualquer das vertentes indicadas acima, se
apresenta como uma atividade orientada, uma prática que se pode e se deve
estudar e aprender. Realizam-se hoje, no Brasil todo, muitas oficinas de
haicai. Por isso, pelo seu caráter de prática coletiva e algo escolar, o
haicai tem público fiel e interessado. Daí que se produzam muitos textos
e se publiquem muitos livros ainda sem a qualidade desejável. Há,
portanto, duas formas de ver a grande quantidade de haicais produzida hoje
e, nela, a predominância de haicais ruins: uma é lamentar e desejar que
se publique menos; outra é ver aí um índice da popularidade e do
interesse do haicai hoje, e esperar que, com a prática e com os bons
livros que também se publicam, o nível vá melhorando com o tempo. Quanto à
última parte da pergunta, se é preciso um conhecimento denso da cultura
japonesa para produzir um bom haicai, eu tendo a responder pela negativa.
O haicai é um caminho, um jeito de estar na linguagem e no mundo, mas não
creio que seja preciso saber japonês ou estudar profundamente os textos
budistas para fazer bom haicai. Como não é preciso um conhecimento denso
da cultura japonesa para ser um bom lutador de judô ou de karatê, ou
para ser uma pessoa capaz de fazer ikebana. Algum conhecimento é
necessário, principalmente para poder sentir a diferença, para perceber
o jeito de olhar e de registrar a sensação que respondem pela
especificidade do haicai. Décio Pignatari, contrapondo-se a um
conferencista que afirmava que era impossível compreender a gravura
japonesa sem conhecer o Zen e a história da cultura japonesa, afirmou,
certa vez: “não será preciso que eu vista uma armadura medieval para
entender uma igreja românica, nem tampouco que me enfie numa roupagem de
samurai para saber ver um kakemono”. Quanto a mim, nem tanto ao mar, nem
tanto à terra. A leitura dos clássicos, a percepção do quadro de referências
religiosas e culturais, a observação do que o poeta disse numa
determinada situação em que outras coisas podiam ou deviam ser ditas –
tudo isso compõe, à volta das breves linhas do haicai, um quadro de
estranhamento, em relação à nossa própria época e tradição, que é,
a meu ver, salutar. Em suma, penso que o haicai vale como exercício de
alteridade, e que cabe a cada um definir qual a porção de conhecimento
ou idealização da cultura japonesa que é necessária para produzir o
efeito de deslocamento que sempre se busca no cultivo de uma arte exótica,
distante de nós no tempo ou no espaço. WL - Já
existe um haicai “brasileiro”? Se existe, quais as peculiaridades
deste? PF - Não
sei se existe um haicai “brasileiro” para além da determinação da língua.
Quero dizer: não acredito em uma essência brasileira que possa ser
identificada no haicai ou em outra forma literária. Há um desejo de ser
brasileiro, tanto no haicai quanto em vários outros produtos culturais. E
existem vários modelos de haicai que desejam para si a qualificação
“haicai brasileiro”.
Também
poderia dizer que o haicai tradicional, tal como praticado, por exemplo,
pelo Grêmio Haicai Ipê, é o mais “brasileiro”, já que se faz
inteiramente a partir de um inventário de nomes de fenômenos atmosféricos,
plantas e animais da natureza brasileira. Mas justamente essa obsessão
com o catálogo das palavras-de-estação (kigos) me parece muito japonesa
e o resultado poético às vezes parece um tanto estranho, pois a
naturalidade da expressão lingüística muitas vezes é sacrificada em
nome do uso do termo correto, quase científico, constante do catálogo. Por outro
lado, seria igualmente possível argumentar que o haicai que provém da
matriz Paulo Leminski, com os seus trocadilhos e tom de slogan e de
“sacada”, é mais “brasileiro”, porque corresponde melhor à
imagem corrente: brincalhão, informal, esperto e afetivo. Entretanto, se
essas características se encontram nos melhores poemas que Leminski
denominou haicais, elas também se encontram no resto da sua poesia, e em
muito poema breve que atesta a sua influência. Uma vez que não há
recusa à personificação, à metáfora ou à exposição sentimental, o
“haicai” leminskiano acaba restrito à indicação de filiação ou à
intenção indicada num título ou projeto. Nisso, sem dúvida representa
um processo extremado de assimilação brasileira do haicai, em que o
haicai passa a ser apenas, como nome e como forma, uma indicação de
origem. Se, sob
cada um desses ângulos, cada uma dessas vertentes do haicai poderia ser
muito “brasileira”, e se é impossível sintetizá-las numa só, ou
mesmo encontrar um mínimo múltiplo comum entre elas, a afirmação da
maior brasilidade de uma ou de outra acaba por ser menos um ato descritivo
do que valorativo. De modo que a questão acaba por se despir de interesse
real. E a pergunta sobre a “brasilidade” do haicai talvez deixe de
fora tendências importantes. Um exemplo é um tipo de haicai que pode ser
descrito como de inspiração “zen”, e que tanto pode provir da matriz
leminskiana, quanto da tradicionalista, mas que delas se distancia por
recusar tanto a metáfora, a personificação, a exibição técnica e a
expressão direta do “eu” no poema, quanto a obrigatoriedade do
“kigo” (palavra que indica a estação do ano) quase científico e a
rigidez métrica. Nele, há poucas marcas que poderíamos identificar como
“brasileiras”, exceto a extrema coloquialidade da expressão e a
recusa a qualquer determinação formal ou temática. E, no entanto,
talvez seja aqui, nessa vertente à margem de toda rigidez e de toda
caracterização “brasileira”, que se localize muito do que hoje se
faz de melhor no Brasil sob o nome genérico de haicai. WL - Entre
os grandes haicaístas japoneses, Issa parece-me ser aquele mais aclimatável
ao Brasil, dada, entre outros aspectos, a sua forma de humor. O senhor
mesmo já frisou, en passant,
pontos de aproximação entre Issa e Bandeira. PF - Creio
que Issa é mais assimilável pela sensibilidade média de hoje. Nos seus
haicais, sente-se muito mais do que em Bashô ou Buson o caráter pessoal
da experiência. Issa se refere a si mesmo em muitos textos, expõe mais
claramente os seus próprios sentimentos. Quando lemos Bashô, o texto não
é tão evidente. Depende de mediações culturais várias: é preciso, no
caso dos haicais que vieram em diários de viagem, ler o texto em prosa,
conhecer a situação em que foram compostos; e muitos dos seus haicais
pressupõem conhecimento histórico e literário específico, pois são
alusivos e retiram parte da sua força do procedimento de trazer para o
momento rápido da percepção individual o pathos de um evento
anterior. Buson, por outro lado, produz uma impressão de extrema
objetividade. Já a poesia de Issa
parece escrita por alguém que deixa transparecer a sua pessoalidade, por
alguém que, no pequeno espaço do haicai, se lamenta, ri de si mesmo,
condói-se da própria miséria, saboreia intensamente os aspectos agradáveis
da sua vida de extrema pobreza, exibe uma grande ternura pelo pequeno,
pelo desprezado, pelo marginal, e ao mesmo tempo busca uma expressão
despojada, simples. Essas características me parecem torná-lo mais próximo
da sensibilidade ocidental marcada pelo romantismo. E, para quem leu
Manuel Bandeira, é fácil ver que alguns aspectos da descrição que fiz
do haicai de Issa poderiam encontrar alguma correspondência na descrição
da sua poesia.
PF - É
difícil responder à pergunta, porque a denominação “formalista” é
pouco precisa e de difícil utilização. Principalmente porque pressupõe
algum tipo de “conteudismo” ou “realismo”, que não sei bem o que
seja, se estamos falando de linguagem, de poesia. Assim,
penso que não devemos utilizar ou receber com tranqüilidade a palavra
“formalismo” para nos referirmos à Poesia Concreta. Em S. Paulo,
temos essa idéia de que a Poesia Concreta é bem descrita pelo termo
“formalista”. Como se qualquer tipo de poesia não fosse
“formalista”... Creio que esse uso é ainda um resquício do combate
travado, no último terço do século passado, entre concretos e discípulos
de Antonio Candido. O debate foi animado, e a mídia paulista soube
balizar e promover espertamente essa espécie de fla-flu cultural. Daí
talvez provenha a permanência da palavra, que era uma espécie de condenação
ou insulto que aqueles que se arrogavam o conhecimento do que seria
verdadeiramente nacional e popular, bem como do que seriam os reais
motores da vida econômica e cultural, brandiam contra os
“concretistas”. Eram tempos difíceis, e a acusação de
“formalista” equivalia, mais ou menos, à de “alienado”. Mas agora
que estamos fora desse contexto, o que pode querer dizer ‘formalismo’?
Se o objetivo da palavra for designar a fala ecolálica, isto é, a que se
produz como um eco, como repetição fragmentária, sem marca de autoria,
então é certo que boa parte da poesia contemporânea brasileira sofre
desse mal, e não só a que deriva direta ou indiretamente da Poesia
Concreta. O triunfo de um certo neoparnasianismo que hoje ganha espaço
editorial e prêmios com a sua métrica de bate-estaca, o seu vocabulário
repolhudo e a previsibilidade tediosa das rimas e das imagens é, sob esse
ponto de vista, muito mais notável. Nas suas
vertentes mais interessantes, que são a de orientação zen e a de
orientação nipônica conservadora, o haicai faz da modéstia e do
apagamento do eu valores estéticos. E tendo como norma central a busca de
uma linguagem objetiva e coloquial, tanto o haicai zen quanto o haicai
tradicional tendem a recusar o exibicionismo, a ostensiva e fácil elaboração
lingüística ou metalingüística. Além disso, essas duas vertentes do
haicai o difundem basicamente por meio de oficinas, debates, concursos e
sessões de estudo, de modo que o nome haicai designa aí, mais do que um
gênero literário ou uma forma, uma prática, um modo específico de
utilizar a linguagem. Uma prática que se revela avessa à celebração e
à exibição do “gênio”, e na qual o produto é, muitas vezes,
avaliado principalmente como testemunho de uma ação dirigida para uma
finalidade. Bom, se
“formalista” quiser dizer, em alguma medida, ecolalia e/ou preciosismo
de ouropel, então é possível que o haicai possa ser visto e tomado como
antídoto. WL - No
estudo introdutório ao livro Haikai
– História e Antologia, o senhor desmistifica o papel de excessiva
relevância que Haroldo de Campos atribui à visualidade do kanji
(ideograma), assim como critica o artificialismo da tradução do famoso
poema da rã de Bashô feita por ele. PF - Penso
que as traduções de Haroldo foram feitas com um viés muito específico.
Ele julgava que devia concentrar a atenção no ideograma. Ora, uma dada
palavra, num haicai, tanto pode ser escrita com ideograma ou com
caracteres silábicos. É uma escolha que o poeta ou o calígrafo tem. Além
disso, a poesia clássica japonesa, da qual o haicai emerge tardiamente
como forma autônoma, é eminentemente oral: os participantes se reúnem e
dizem as estrofes do poema coletivo, que são anotadas por um
secretário. Já o haicai, o terceto isolado do poema coletivo, era
apresentado sempre com um outro texto, verbal ou visual. Quando era
apresentado com um acompanhamento visual, a escolha do kanji ou da
grafia silábica era determinada pelas necessidades da composição
visual. Quero dizer: há muito mais visualidade, no haicai, do que a
visualidade enfatizada por Haroldo, que tinha uma perspectiva
simultaneamente etimológica e paronomástica: etimológica porque buscava
decompor o kanji nos seus componentes, e paronomástica porque
buscava, ao longo do haicai, as repetições, as retomadas das partes ou
figuras identificadas na decomposição do ideograma. Minha crítica
à tradução do haicai da rã, nesse livro, se funda no fato de que o
texto de Bashô, cuja singularidade na história do haicai reside no fato
de ter tratado a rã sem personificações, alusões ou ironia, acabou por
originar, em português, um texto desequilibrado, que atrai sobre o jogo
verbal, e não sobre o seu despojamento imagético e lingüístico, a atenção
do leitor. WL - A
bibliografia em língua portuguesa sobre haicai tem aumentado? Que
trabalhos sobre o tema, entre os mais recentes, o senhor recomendaria? PF - A bibliografia tem aumentado pouco, do ponto de vista
da reflexão conseqüente, que não se contenta em ser apenas uma glosa
das idéias de Campos ou de Leminski. A rigor, os mais interessantes que li nos últimos anos, porque originais e consistentes, são alguns trabalhos assinados por Luis Dolhnikoff. Creio que ainda são inéditos, o que é uma pena para os leitores, porque dois deles, um ensaio sobre o haicai em Pedro Xisto e um sobre a diferença do haicai em relação à poesia ocidental, me parecem o que de mais vivo se escreveu recentemente sobre o assunto. |
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Wanderson Lima é poeta e
professor, autor de Morfologia da
Noite (2001). Contato: wandersontorres@hotmail.com.
Página ilustrada com obras do artista Ernesto Leon (Venezuela). |
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