![]() |
|
revista
de cultura # 42 |
|
Coração independente, de Manuel Fernando Gonçalves: a ordenação das sombras Teresa Martins Marques
Love is a shadow. Meu pai morreu quinze vezes. Há um corpo irretocável e vazio em meus braços, Limiares, ou a melancolia difusa
A melhor poesia, tal como a entendo, é diálogo
inter-geracional, às vezes expresso, outras implícito, ocorrendo entre
famílias de poetas, que se encontram à flor dos textos, criando
comunidades de sentido, que os tornam reconhecíveis por essas afinidades,
transformando-se em elos poderosamente fortes da cadeia da memória
literária. Toda a leitura reflecte um olhar parcial, mas, como olhar
pessoal que é, cruza-se com o de outros leitores, que o confirmarão ou
infirmarão, consoante a sua própria experienciação de leitura. Um
olhar não vale nem menos nem mais do que qualquer outro olhar. A sua
capacidade de sedução é que determinará o tempo que os nossos olhos se
demoram nele. No caso deste livro de Manuel Fernando Gonçalves, poeta já
com significativa obra publicada, a sua capacidade de sedução não foi
despicienda, exactamente pelo carácter intrigantemente paradoxístico do
conteúdo latente e manifesto da obra. A começar pelo título e pela bela
capa de Ana Vidigal, consagrada pintora, a quem, no mesmo ano da edição
deste livro (2003), foi atribuído o Prémio
Amadeo de Souza Cardoso. Em fundo negro, vemos um coração em tons
pastel, iluminado por dentro, crivado de metálicos alfinetes, com uma
cicatriz costurada, e rolhado como se de um frasco se tratasse, ostentando
um rótulo a maiúsculas: «Saber Cicatrizar». Este coração, apontando
para o imaginário dos afectos, nomeadamente para o potencial de
sofrimento que eles envolvem, é, de imediato, subvertido por uma leitura
irónica, já que as caixas de costura das nossas avós continham
frequentemente uma almofada em forma de coração, onde alfinetes e
agulhas eram espetados, não apenas por uma questão de organização, mas
também para que ao serem manejados se tornassem inofensivos. Ora, será
exactamente esta componente irónica, incidindo sobre diversas formas de
sofrimento, uma das vertentes mais extraordinariamente conseguidas neste
livro, o que mostra, desde logo, o cuidado extremo e a rigorosa
consonância entre a leitura que do livro fez a artista plástica Ana
Vidigal e a do poeta Manuel Fernando Gonçalves, tal como eu própria a
leio. O que poderia indiciar um livro de vertente lírica é, de imediato,
neutralizado pelo qualificativo “independente”, que apela para o valor
da racionalidade, à rebours de
Pascal, mostrando que este coração terá razões que a razão
sobejamente conhece e reconhece. Ainda ao nível paratextual o leitor
depara com uma intrigante dedicatória que saberá depois ser muito mais
do que uma dedicatória canónica: ”Para
o Pedro Gil./ Celebro, neste livro, a luz própria do meu filho/ e o poder
que tem de ordenar as sombras.” Na realidade, este paratexto afigura-se-me ainda subtil estratégia interpretativa e
prospectiva de um sentido: a ordenação das sombras. Autonomia, luz
própria, independência estelar face aos planetas que rodopiam à volta
de outrem, isto é, o princípio da afirmação metonimizadamente
transposta e comutável, não raro da voz autoral e da voz filial,
encenando o livro um diálogo tácito entre aquelas duas vozes. Esse filho
será um dos fios condutores da matéria poemática, encerrando
circularmente a obra no último poema:«Quem tem um filho tem tudo». E
esse círculo fechado é, no fundo, o mais aberto dos círculos. O excipit ao descodificar em parte o título, subvertendo uma
conhecida fraseologia: “quem tem
mãe tem tudo”, insinua e configura uma ausência, tanto mais
presente quanto ela assoma ao rés do texto em discretas figurações. O
coração independente do filho poderá ser lido como sabedoria
primordial, pureza cristalina do olhar da infância, que o sujeito
preserva ou desejaria preservar, sendo, em qualquer dos casos, uma mais
valia da memória. Na realidade, o que me parece deveras interessante é
esta hipótese de figuração identitária especular do sujeito através
do filho, projectando um largo circuito energético na geografia dos
afectos. Sendo a enunciação de um dizer, é também um reformular do
passado, uma indirecta forma de o viver, uma catarse por metonímia:
“Quem tem o meu filho tem tudo,/ quem não tem, tem tudo, menos/ o meu
filho que é o mapa do coração/ que eu sou! Será riqueza a mais diz
/quem tem tudo e mais alguma coisa,/ menos o coração independente do meu
filho/ que é de sangue igual ao meu.” Sendo o livro constituído por vinte e sete poemas,
o número cíclico lunar por excelência, será ainda fortemente
simbólico este “dois” e este “sete,” já que a estrofe tem sete
versos, somando o pai e o filho a própria essência da alteridade, que o
número dois consubstancia: um outro espelho textual do sujeito. E, sendo
o círculo a simbolização da ordem por excelência, o filho-pai fará
então a regulação do caos, a mais exacta ordenação das sombras. A
função ficcionalizante do contar revela ainda uma dimensão salvífica
através do filho. Assim parece ocorrer em «Conta-me uma história»,
sendo bem outra a história que é contada ao leitor pela intrusão de
elementos inesperadamente iconoclastas: o silêncio construído por Deus,
paredes meias com o silêncio do frigorífico. Será esta uma forma de
transferir e salvaguardar a ironia do sujeito reduzindo a metafísica à
sua mais pura dimensão física: um ruído de electrodoméstico. Poderemos
ler aqui, em simultâneo, uma deriva muito íntima do sujeito
auto-transportado ao imaginário de infância que atravessa em susto o
olhar adulto do presente. Será ainda o ludismo de duas crianças em que
uma supostamente cuidará da outra, mas não necessariamente aquela que
supostamente o faria: “Os meus
heróis povoam/ a casa/ e a casa nem sei bem o que é./ Escondido no
armário dos sustos logo me denuncio:/ estou aqui, olá!” Interessante
que se esconda para melhor se denunciar: é afinal o silêncio que receia,
o silêncio, com uma pincelada de ironia, obra de Deus. Ironia bem
expressa na seguinte imagem comparatística: “Como
silêncio estragado/ cheio de penas/ e ossos e preto/ e logo morro.” O
silêncio e o negrume da morte funcionando por associação ao alimento
estragado no frigorífico e as várias penas mostrando a interessante
polissemia da construção desta escrita: penas de ave, pena de
sofrimento, pena como simbiose de metáfora e metonímia de escrita,
mantendo sempre o diálogo: “e tu
ajudas-me não é?” Quem ajuda quem? A simplicidade da infância e o
poder da presença face aos dramas adultos. “Tenho
uma coisa para te dizer:/ Pai?! Sim?!/ Nada…/ Pronto! Já disse!”
Dizer é tão somente nomear. Ser é tão somente estar presente. Ali. O diálogo com o filho será ainda visível no poema
«Do Lado do Crescente» focando o bulício da cidade, o inferno do
trânsito e os carros funerários (significativamente recorrentes ao longo
da série poemática): “Passam/
loucos de gravata, bárbaros/ em camisa, pretos e amarelos/ aos gritos,
carros funerários/ cheios de cerimónia, polícias/frenéticos e
assustados, raparigas/ provocantes e senhoras,/ avós deliciadas prontas/
para serem atropeladas,/ gansos no campo grande,/ guardas a cavalo (…)
São extremamente curiosas algumas difusas marcas autobiográficas
inseridas no texto. A referência à “apetecida
mãe”, ao mesmo tempo que a cidade é adjectivada de clara “ao
portão/ aberto desta clara cidade”. Clara é justamente o nome da
mãe deste filho no universo extra-literário. Ou ainda a referência ao
Natal do Soito, espaço geográfico da Beira Alta a que a família da mãe
está ligada. Mas, mais significativa ainda é a reminiscência que este
Soito traz consigo, a qual nada tem a ver com qualquer espécie de
influência literária, mas tão somente com o rasto que certos textos
deixam na memória quer de poetas quer de leitores de poesia. Com efeito,
o título do poema «Do Lado do Crescente» evoca na minha memória a
poesia «Pelo Souto de Crexente», a conhecida pastorela de Joham Ayras de
Santiago. Só quem não conhece o Soito, aldeia real, poderá estranhar
esta memória medieval tão patente ainda na própria vida da região e
nas pedras dos caminhos, em múltiplos sentidos. No poema de Manuel
Fernando Gonçalves, o Soito é lugar de contraponto ao exotismo:
“Quem me dera passar o Natal no Soito e procurar um tesouro no
Egipto!” o que mostra que não é o Soito que realmente se deseja,
mas sim o espaço de aventura em que pai e filho se irmanam e, embora não
tendo um carro voador, têm sempre uma mesa para debaixo dela se
esconderem pregando sustos à mãe. Mas nem só de ludismo vive esta
relação. Também de alguma repressão que é, evidentemente, formação
- “e lá vais avisando que em
casa/ não se diz gajo,/ isso é uma coisa de marujos” - e do ponto
de vista do sujeito poético, irónica projecção do reconhecimento
social - “jogador de futebol e, também, senhor/ doutor, há não há?”-
num cadinho de lírica inocência: “Deixas,
pai?” Poesia ora de acerada ironia, sobretudo no que ao
imaginário da morte se refere, ora de tom deceptivo tangencial e
raramente elegíaco, nas figurações da perda, no descampado luminoso da
solidão, atingindo também momentos de puro lirismo, não sendo, contudo,
esta a opção predominante no livro, muito mais centrado na indagação
do dizer e nos limites da linguagem. Fernando Manuel Gonçalves não
sacrifica no altar dos poetas que “viram
Deus e voltaram contentes”, numa curiosa imagem de Sérgio Nazar
David, o poeta que citei em epígrafe. Não há aqui nenhuma espécie de
arroubos românticos a que a imaginística do coração se associa, embora
neste livro se faça uso frequente da sinalética da exclamação, o que,
em si mesmo, costuma ser factor de risco e cilada poética. Bem ao
contrário, estamos perante um assumir claro dessa cilada e desse risco,
como nos mostra o poema justamente intitulado «Cilada», verdadeira
ars poética preconizando uma estética da contenção: “Se
for um singelíssimo poema/ que seja de uma imagem só,/ descanse de mil
sóis, espelhos/ que abrem a garganta ao grito/e o grito nunca abranda”.
O princípio paradoxístico que estrutura em grande parte o dizer poético
deste livro, torna-se aqui particularmente visível, através da procura
da alma das palavras, na lama ou na glória. Fortemente significativa se
torna a aliteração “alma/ lama” como desestabilizadora do sentido de
via única: alma sugere elevação; lama induz platitude. Colocadas em
correlação directa, a lama e a glória encenam um jogo de antonímia
dando voz aos opostos, mostrando esta poesia o lugar de confluência do
diverso, à maneira do sujeito de Montaigne “ondoyant et divers”. Estamos ainda perante o camoniano
imaginário do desencontro entre a alma e o corpo: “se
encontrar a alma de uma palavra/ seja ela lama ou glória,/ que não arme
a frágil lágrima,/ deixe, calmo, o silêncio fundo/ nos nervos dessa que
canta”. Fino este jogo de sentido e de sentidos. O infinito (uma das
obsessões literárias do autor empírico) como meta desta poesia, que se
quer de elevação, com traços que revelam subtileza,mas também
fogosidade no olhar:“se houver sentidos que cheguem/ nos mundos, se houver infinitos/ que
valha a pena serem ditos,/avance um homem só,/ dos que têm sangue no
olhar/ doce e vivem sempre em palácios/ nas suas tendas, ao luar.”
Observe-se a ironia entre a projecção e a acção ao finalizar a ars poetica dizendo, num topos
de modéstia auto-referenciada que se quer exactamente como foi dito e que
está longe de ser “rudíssimo,”
adquirindo um ritmo de notável consecução: “Condições
para que te abandone,/ rudíssimo poema!” Em clave de Wittgenstein
A subtileza do dizer engendra uma melancolia difusa
como em «Jogo de luz» indiciando esta fotolatria como percepção de
outra coisa. Melancolia difusa ainda no dizer de uma diferença que cria
uma solidão interior: uma incompletude do irrealizado: “Eu
nunca cumpro as tarefas de ver,/ antes desmaio na luz/ interior de saber
vultos,/toques,/sabores estranhos como o vidro,/areia, gastos pedaços de
papel/ já escrito, a pele, em camadas,/ das árvores velhas do caminho/
que vai para a cidade e nunca chega” Fosse o que fosse, teria sempre
uma desculpa qualquer: um vencidismo inerente à condição do sujeito :
“outra geografia seria precisamente a mesma coisa”. Espreita aqui,
todavia, uma réstia de espanto, através da introdução de um elemento
aliciante: “o ouvido atento de uns
certos olhos pretos/ que agora começo a amar.”
É na realidade interessantíssima esta pluralidade
do olhar, dos olhares e a insistência nessa pluralidade contra o guetto
mental, o fechamento da solução única. A linguagem, se não é
salvação, também não é perdição e poderá ser farol. Não o
caminho, mas aquilo que o ilumina: mapas, cartas de marear, de aterrar no
desconhecido. Será antes de tudo convocatória dirigida às palavras,
enquanto metonímias da vida, única forma de protelar a morte, dizendo-o
exclamativamente como quem diz o nome e faz o esconjuro. A desmesura da
alegria é pretexto para adiar o inadiável, a vingança possível, rindo
do que faz chorar. O sujeito detém o poder de abrir o mundo às palavras,
mas também de o fechar. Subtil vingança contra a usura do tempo, contas
de palavras ajustadas pela procura do sentido precário: “Convocam-se, aqui, as novas palavras:/ algumas são o desenho de
outros mapas;/ estas tratam os males com o silêncio/ e o bem, quando o
houver, ao ar livre,/ por entre árvores e risos desmedidos;/ às mais
comuns só não abrimos o mundo/ porque não queremos: farão sentido/ em
qualquer altura! Falta o verbo:/ morrer!” Um outro aspecto, deveras interessante, da poesia de
Manuel Fernando Gonçalves é a autodialogização discursiva, que lhe
confere coloquialidade, como se observa, nomeadamente, no poema
«Histórias» adquirindo uma função de automotivação, obtida a partir
do tom assertivo -”é mesmo”-
referindo-se ao conceito de infinito, que é nos dois sentidos, o que,
sendo a mais absoluta das verdades, costuma escapar-nos: “a
tua pressa de passar pelo tempo/ todo da tua história. O infinito é nos
dois sentidos./ É mesmo!” O poema faz questão em não contar a “História dos dias e das armas/ com que atrasa os dias”, ou
seja a passagem do tempo que se arrasta, arrastando o paradigma da marca
hesitante, num universo de pensamento em que a certeza será sempre uma
menos valia que a dúvida:” não
é nada de especial que saltes/ alguns meses, cubras a dor,/ hesites em
emoções tão misturadas. É mesmo!” As figurações da
desistência são, no fundo, falsa desistência, ninguém desiste nunca de
nada, pode é parar para tomar fôlego:
“Podes até ter baixado os braços,/ vendido os olhos a outras imagens,/
visitado os estaleiros, as obras,/o imaginado pavilhão do silêncio”.
Em situação-limite algo semelhante à do condenado à morte: “Quem
sabe terás gasto a última chamada/ a que tens direito.” E nem as
encenações eróticas resolvem seja o que for, porque a ferida é mais
funda. O caminho está trocado a razão que o verso dá é sempre inversa.
A fiel amiga será o espelho invertido de uma dupla imagem inaceitável
– a da morte, a do declive do sujeito: “Decerto sentiste/ o bafo da mais fiel amiga,/ entre o teu e o
pescoço dela,/ flutuar na razão inversa/ do que sabias sobre os
movimentos da alma.” A ironia intromete-se no discurso neutralizando
o tom levemente emotivo, através de elementos catalogantes: a etiqueta, a
placa, mostrando que nada disto é etiquetável e terá de ser observado
de um particular ponto de vista: “Por
causa disso nem dormes,/quanto mais pesadelos vulgares,/dos de etiqueta,
catálogo e placa/ de consultório!” A sustentável leveza deste
discurso será ainda outra forma de se automotivar. Alguma coisa indicia
sempre o seu contrário: “Às vezes falas,/ tão alto falas que é mudo o teu olhar.” O
leitor traz consigo memórias de leitura que saltam rente ao texto guiadas
por qualquer fio de cheiro semântico. Assim com a minha memória de
leitura do conto de David Mourão-Ferreira «A Tua Véspera de Natal». O
sujeito poético surge-me aparentado com o protagonista daquele conto,
também ele a contas com a passagem do tempo e a sua passagem pelo tempo.
A estratégia narrativa de auto-reflexividade funciona de forma
equivalente, o que acaba a mostrar-nos que as fronteiras entre os géneros
têm a solidez da linha do horizonte. Linha convencional que pode sempre
ser dilatada. Ao afirmar-se que o infinito é nos dois sentidos
estabelece-se um jogo com o sentido projectivo da flecha do tempo. A
função retrospectiva da memória surge valorizada face à função
prospectiva da esperança. Nem só de esperança futurante vive o homem.
Estamos, neste ponto, na dimensão da análise do Tempo, bem mais do que
no domínio da temporalidade do sujeito. O título do poema seguinte não
o desmente: «Tempo» e naquele domínio é reiterada a luta latente e
indecidida entre a esperança e um discurso de indefinido medo. É preciso
ousar matar o medo que a serpente simboliza. É preciso revalorizar a
memória sabendo, de ciência feita, que a maior das inocências de ousar
será futurar, acreditar que “ao tempo sucede tempo”, percorrendo os meandros do medo: “Quem
pisou a serpente/e lhe esmagou a cabeça/ não tinha nos gestos o medo,/
não lhe faltava nos olhos/ paixão, sabia mesmo/ que ao tempo sucede
tempo a maior das inocências de ousar, - conhece/ da dor a têmpera e
obedece ao mistério/ com a incontida minúcia de quem imagina/ o
universo, sendo, o que imagina, o universo.” Esta a fórmula se
assim lhe posso chamar, de fabrico da felicidade: não saber tudo, não
querer conhecer o para além de. Um antes não resolvido, uns passos
perdidos na passada, trazem o travo do medo escondido na fímbria da
memória. Nada sabemos ao certo do que se trata. Sabê-lo adiantaria
alguma coisa? “Ocupar o lugar que
tem/ na memória/ basta para que se ilumine.” Da luz como metáfora da compreensão e da procura
do sentido fala justamente o poema «Metáforas» onde encontramos de novo
o motivo do farol, como o que protege e indica o caminho com os deuses
vingadores e a lição das epopeias clássicas a assomar à superfície do
texto: “Há luzes tão fortes/
como as dos faróis./ Vimos do mar, dirão./ E se os deuses se zangam,/ se
o vento abana de fúria,/ se o nevoeiro nos cobre/ os ossos e a alma,/ se
as águas se atrevem,/ para nós em desafios/ a que não podemos
responder,/ como salvar o que resta/ deste desespero de náufragos?” O
imaginário ectoplásmico surge ainda como metáfora da procura esfumada,
de solução adiada, se solução houvesse: “Caminhamos/
a meio da noite, fantasmas/ da casa, e chocamos/ contra os móveis,/
tacteantes, em busca do brilho/ mínimo do espelho.” Curiosa a
ironia de se definir uma direcção exactamente na falta dela. A
situação encalhada é aquela que se define ao contrário, a que não
teve em conta o farol e passando ao largo só teria de mais tarde escolher
entre Cila e Caríbdis. Daí a desertificação do sujeito, morto de sede
no mar, em irónico complexo de Tântalo: “É
essa a direcção/ enquanto os objectos nos encalham,/ insólitos,
viajantes à procura de água”. Tudo é o seu contrário: o cigarro
que salva também afunda, é sempre uma questão de avaliação presente
ou de medo do futuro. A consciência crítica do sujeito é “
memória que temos/ do bem e do mal” e a figuração dilemática
aclara-se ou escurece-se neste exacto verso. Subir ao mastro é prazer dos
sentidos e elevação do olhar.É dominar as situações ainda que
provisoriamente desde que o sujeito não tenha tonturas e alguém lhe
ampare a descida: “As casas,/ de
noite, são como o mar:/ tranquilo e subimos ao topo/ do mastro:/ o mundo
é nosso,/ é nossa a escuridão;/ inquieto e ficamos de vigília/ na
amurada, procuramos luz, o medo leva-nos à luz, o medo leva-nos à
luz.” Há uma atracção de infinito nestes versos, um não
contentamento com o chão pisado no aqui e agora do presente: “Pisamos,
é certo, um chão familiar/ e o tão agudo espelho chama,/ desde o
infinito,/ e rasga um caminho certo/ para que, por ele,/ a arca dos
ruídos se feche.” A terceira parte do poema marca um estado de
suspensão, de intermitência, um descentramento do eu com a sua
circunstância. Fuga para o espaço exterior, por não haver fuga
possível no interior : “Saio à
noite, levado/ pela insónia e pelos nervos./ Ruas e ruas desertas./
Minúsculas luzes coloridas/ e intermitentes, sincopadas,/ dizem-te como
seguir.” Sempre a condição de procura sem resposta. Nenhuma
esfinge desvendará o caminho para Tebas: “Segues
como queres”. Toda a liberdade é uma forma de solidão. Teorias
da inquietação «Magirus» como marca, como a escada com que os
bombeiros apagam os incêndios ou sobem a lugares antes inacessíveis,
mostra outra faceta das teorias da inquietação que este livro constrói:
“Se me pedem pressa, hesito;/ se
calma, disparo para a ponte,/ para o rio, para a lonjura/ mais seca que
encontre.” O princípio paradoxístico desenha uma condição
icárica do sujeito, que é outra das coordenadas daquela teoria: “Falo
a quem não conheço/e o imprevisto não chega:/chamam-me em asas de
cera,/ duas ou três memórias irrompem,/ sem respeito nem cálculo.”Desenha-se,
por esta forma, a dualidade entre o ser e a aparência: “estar de”, é trânsito, não necessariamente coincidente com “ser”:
“Estou de funcionário/ e não penso na morte”. Levar a sério
um figurado sofrimento e também a essência da poesia: representação e
experiência. Não sentimento, ou pelo menos a ficção sobre o sentimento
que pode dar verdade inconveniente virada do avesso.A Avenida Vinte e
Quatro de Julho, na Geografia da cidade. A dos Ministérios e dos
mistérios da noite, tão sérios como os golpes sem Betadine na mão do
Cristo-Rei: “e é aqui que
desespero:/ tédio de ansioso, mente corpo,/ mente!” Polissemia
habilidosa, evocando a verdade e a mentira: mens
sana ou mentira do corpo, ambas fazem bem à alma da poesia, mentira
de palavras verdadeiras, paradoxismo da linguagem. Ainda o jogo entre o
ser e a aparência da jurista que gosta de letras e que sabe tanto de
comportar-se. Ou as teias do sujeito que ele mesmo enredou para ter o
prazer perverso de se dizer enredado num enredo de facto, de fato, tão de
fora da sua alma, tão dentro do seu corpo como um Armani de bom gosto.
Deus, seja lá o que Ele for, salva mais do que a poesia, desde que lhe
peçam com cuidado para não se fazer acompanhar por juristas. Um dos poemas mais fortes do livro é precisamente
«Infinitos» onde nos surge em toda a sua plenitude o motivo da morte,
não como meditação sobre ela, mas como reacção a ela. E, sobretudo,
confronto com ela, mas não de mão beijada: “Morrer
sim, mas devagar.”(…) “Morrer, sim, mas com o grito/inesperado, as
memórias da poeira/ leve ao tacto dos pés.” Em vez de elegia,
ironia: “Morrer, sim, se morte houver,/ mas nunca mais!” Saber onde é a
fonte do tempo, medir quantos hectares tem o desejo é outra forma de
matar a morte. O verdadeiro paradoxo é a vida da morte: mata-se fazendo-a
viver: “A morte é como tudo.
Viva./ Mostrem o ouro, a cor da carne,/ o rosário das emoções. A morte/
é uma grande herdade dirigida/ por palavras.” Observe-se a
extraordinária força deste poema através da exploração da noção de
infinito como agenciador das potencialidades desejantes, no fundo, da
revolta pela finitude, encarada a derruição como norma contestante: “E
se o infinito for demais,/ que se partam as janelas, o evidente/
sobressalto, a boca, o fogo, a incólume/ serenidade dos astros. Também
os frutos. Lamento pelos sabores mais frescos.” O tom provocatório
é a única forma de tratar a morte, significando que morte é, no fundo,
a não-vida em vida: “Morre quem
quer. Quem não pode pensar/ a seara, a visita dos amigos, uma viagem,/ os
jardins abertos a extremos./ Morrer, não.” O poema desenha a
geometria da (im)paciência e um programa de revolta como grito
prometaico: “Essa a tua geometria/
de paciência. E revolta.”
A poesia torna-se fala da morte: “Ao
falar/ sobre os mistérios da morte, é a morte/ que fala e só na poesia/
é possível ouvir a fala da morte”, em clara intrusão do
metadiscurso na construção do poema com tremenda dose de ironia : os
itálicos à espreita com medo da morte, os espaços em branco: “toca
a trocar as linhas senão vamos todos desalinhar.” Curiosa também a
intrusão do discurso comum da reprografia como forma de aviltamento da
própria morte e da abjuração do medo: “Com
o medo da morte não se brinca” e a prová-lo a
contrario está o velho senhor agnóstico que admitiu uma missa,”tão
só no descampado luminoso da solidão”. Notável a autoderisão já
que o poeta ao tentar compreender a morte incorre no mesmo “erro”,
entra no mesmo beco sem saída: “perdendo
a fama/ e o proveito rumo ao infinito,/ lugar do compreensível nada./ Há
um nada no fim/ do infinito! É isso que resulta de tanta compreensão dos
factos”.Quando nada se preserva e pouco se deseja, só resta a alma
dos poetas a preservar: “Não
rasguem,/ por descuido, a alma dos poetas,/ os minúsculos seres, do outro
lado,/ não violem as artérias/ que ontem vibraram de justas/
rebeliões!” A frase lapidar do poema e que resume no fundo a
tragédia da finitude humana: “Horrível
é sermos deuses,/ sem poder nem ciência! Os fantasmas somos nós o
terror dos outros/ que carregam mantos negros/ sem a mínima suspeita;/
ululantes correntes que nos conduzem/ os passos…Que barulho fazemos/ nos
corredores nocturnos/ das nossas casas impávidas”. De notar a
ironia das casas metonimizando a do sujeito, bem a polissemia de
sisa-imposto com Siza, patronímico famoso. O arquitecto referenciado logo
a seguir. Ainda a reiteradamente ímplicita língua-casa-do-ser,
Hölderlin retomado por Heidegger: “A nossa família está/ maior, a nossa casa não precisa/ já de
pontuação, em cada página/ de cada sala. O que é uma sala?/ Somos os
únicos donos da obra. Nenhum arquitecto verá as marcas da morte/ onde as
vemos”. Sempre a irónica erosão dos seres, transmutada para o
mundo dos objectos: “móveis só
se forem de betão/ gravado, sujeito a erosão,/ sem marcas de anatomia/
nem cheiros, por mais doces; molduras também vazias”. Curiosíssimo
o final do poema e da vida referindo a luz que entra sempre todos os dias
menos um. A grande questão seria saber qual é esse dia, sendo então a
ignorância dele um ganho, perda adiada. Sabê-lo seria aumentar o medo:
“Um medo de morte.” O poema «Plasticina e sentimentos» é ainda outra
forma de intrusão e fusão de elementos díspares e uma outra forma de
dizer as múltiplas formas da instabilidade, da moldagem sucessiva de
figuras e situações. O cenário habitual do rio “Podes
começar do lado do rio/ que, dizem, tem uma paisagem soberba,/
principalmente de avião” e de novo a ironia como forma de
contenção dos sentimentos. Importante a intrusão dos implacáveis “carros
funerários muito pontuais”, como forma de abolição do sentimento:
“Podes começar, assim, a dizer as
coisas./ Não pelo lado sentimental de quem sabe/ que só a si se
transporta para a ignorada/ margem mas como quem mete as mãos/ na parede
do espaço e já vive em outro/ lugar.” A valorização das ideias
em detrimento do corpo, como forma de atenuar o impacto destrutivo da
morte. O menos que é mais, meia carga: “Saberás
que a preciosa carga não é/ o precioso corpo mas meia carga de ideias,/
alguma alegria de súbito sintetizada,/ amor e ódio que bastaram para
enfeitar/ o acaso de estar vivo.” A vacuidade da vida é visível na
gravata simbólica das aparências -”festas
de príncipes de nada que usam/ gravata e senso-comum”- em
contraponto com o verdadeiro elitismo, a finura de pensamento (“os
grandes lúcidos, os que já nada contam”)que nada têm a ver com o
saber enciclopédico, balofo e bolorento. O quotidiano deceptivo será
tanto mais deceptivo quanto maior for a contenção perante ele: “Esperam-te máquinas desesperadas,/outros livros de palavras secas,
espólios/ de heróis sem armadura que amam/o inútil, paisagens sem rio a
meio.” O metadiscurso intrusado no discurso, como forma de minorar o
dizer outro: “Aqui era fácil
quebrar o ritmo/ das palavras, exactamente aqui, no sítio/ das palavras e
levar-te ao orgulho/ e às lágrimas; era fácil entediar os bons
sentimentos dos bons”. A diferença é assumida nos opostos, nas
soluções antonímicas, porque o sujeito é Príncipe
negro ou príncipe branco conforme a caixa dos caprichos que abre. A
ânsia de absoluto transforma-se em inevitável cepticismo, mistura
explosiva que redunda em desespero, e nada mais amargo que o desespero que
veste as roupagens da demissão: “Para quê/ tanto esforço em unir o frágil corpo/ ao início do
infinito, fim do infinito?”O fim do poema em escada descendente,
como um irónico castelo de cartas em que o imaginário infantil
“resolve” o irresolúvel: um índio armado de laser e plasticina a
desaparecer no rio até às oito da manhã dentro de um bom soninho.A
auto-ironia é ainda uma dramática forma de dizer, desdizendo:”
Para começares qualquer exercício/ de ironia, ó delicado irónico que
atroas/ o palácio, a casa das gargalhadas e danças,/ gritos e lágrimas
do teu tamanho de ter/ um vulcão a conter-se e a explodir/ em cada gesto,
cada olhar minucioso,/ fulgurante, às vezes como se não visses, apenas
fosse certo que as coisas ali estavam,/ nesse sítio de encontrar,
descuidado/ e belo, o que sabias encontrar?” Em Auto Stop» lemos uma poesia à flor da raiva,
onde impera o primado da escrita sobre a vida. Escrita primordial, à
procura do não-dito: o mito do original, de uma pureza iniciática da
linguagem. Palavras que são flores, não do mal, não de mel, mas com
algum fel. Um certo círculo vicioso de palavras feito: “Se
puder ler, cheio de violência,/ o que está escrito nas palavras/ e
resgatar, em cada uma, o sentido/ por dizer, aquilo que não vem nos
livros/ escrito nas palavras anteriores, queimadas,/ amantes ocultas de um
milímetro/ de imprecisão e volúveis, fluidas,/ recolhidas, não como as
abelhas fazem/ às pétalas mas com igual decisão/ e veneno, se puder
ler.” O poeta Manuel Fernando Gonçalves conhece a lição rilkeana
de Malte Laurids Brigge: a experiência como razão da poesia, mas agora
em registo subtraído do corpo: “Há quem escreva pelo que experimenta/ da vida e, dessa maneira, seja
torpe ou ténue,/ nunca diga, do registo do corpo, o que falta/ de novas
feridas, de alegres sobressaltos.” Há quem viva pelo que leu e aqui
estamos perante o leitor crédulo, ou do escritor crédulo que pensa poder
fingir o fingimento sem ambos de transformem em verdade transparente: “Há
quem viva pelo que leu, escritos,/ colados aos poemas, os dias da dor e da
ira/ e não saiba que são cortesias/ de quem tudo sabe sobre as palavras/
que são tudo o que se sabe neste mundo”.Palavras finitas, todavia:
“não chega o que dizem/ por
traírem o que são nos olhos/ de quem não lê o suficiente.” Em
qualquer caso, a supremacia da palavra sobre a vida: “Está tudo nos livros./ É tudo nos livros”. Não sendo esta
poesia nem representação nem simulacro da vida, é tomada de
consciência dos limites do sujeito e por isso cáustica, na descolagem
dolorosa da máscara. Em «Monte das palavras relacionadas», e em
subtilíssima auto-depreciação, o sujeito insiste na diferença que toda
a auto-avaliação pressupõe, no carácter excepcional do próprio olhar
e no artificialismo que tudo isso implica: “Queremos sempre ser/ a excepção/e não parece mal/ sentir as
lágrimas, insistentes,/ na máscara dos olhos” A insistência sobre
os mortos:” Só agora se corre às
ruínas, por força/ dos mortos –espelhos que já brilharam/ em sítios
de escombros.” Ainda a alteridade e a auto-imagem posta em causa na
metonímia do espelho: “Estamos,
ainda, desprevenidos/ de ser/em tudo, espelhos,/ tristes vidros
desesperados/ como se fôssemos nós/ os amigos que partiram”
determinando ou, pelo menos, propiciando as nossas obsessões: “o
medo instável da nossa força.” Sempre a ironia a funcionar como
força motriz desta poesia, as palavras postas em causa e, sobretudo,
chamando a atenção para a translação não evidente entre falar e
pensar:“Bem nos avisaram do uso
das plavras! / Também!!!” A emotividade discreta ao nível do
vocabulário explode nos sinais gráficos particularmente visível no uso
da exclamação. “ Todos julgam
que pensar não dá/ trabalho nenhum!/ Que é só pensar e pronto!”
O poema seguinte - «Só as palavras mantêm a calma» - retomará a ideia
da natureza salvífica das palavras, que agora não valerá a pena deitar
pela janela (como noutro poema se sugeria):“Bem
conheces a tentação de cair/ mas se fores demasiado longe/ para que te
vejam, te ignorem/ na absoluta solidão e no frio,/ estende ao menos, uma
corda de letras, um cabo de palavras por onde desças/ e te salves” Saber ler na face penumbrosa de um livro será uma
forma de decifração de um outro sentido. Sendo este livro um irónico
exercício de rasura do fundo lírico como operador de distanciamento,
surpreenderá, por certo, a fortíssima carga lírica de um poema como
«Adormecendo provocas a noite». E, todavia, será talvez por estas
paragens que convirá encontrar a chave da clave de ironia geral do livro.
Poema de uma extraordinária beleza lacustre. ”Adormecendo,
provocas a noite/ para o duelo da cindida luz/ e aí te abandonas, dama
vegetal,/ como só de ti se pode esperar.” Um dizer de amor dirigido
a uma “adorada sombra entre verdes,” com uma extraordinária
subtileza. O discurso entre o abandono e a não desistência, que tornam
cristalina e suave a palavra poética de que o título é exemplo. “Para
quê alargar-te a sede/se corres para as fontes/ em outros lábios? Vê/
como crescem os limos/por entre gretas sinalizadas/ transgressões de
madeira:/contas, é certo,/ de um vocativo de terrores!” Uma
poética do abandono não derramado, sustentado na relação antitética
do dizer final: “Quando passarem a
paixão e o Estio, terás de procurar/ por entre os limos, verdes musgos,/
indignados,/ por entre vegetais cidades/ de degelo, antes das palavras,/
apesar dos gestos, denúncias,/ cálidas mãos, algumas calúnias,/
cristais de Inverno,/ por entre o cascalho dos moinhos,/ as breves
passadas de evitar/ o desejo. Terás/ de procurar-me desfeito,/
intacto.” E porque nenhum homem é
uma ilha, vale a pena cruzar a leitura do poeta Manuel Fernando Gonçalves
com outros poetas e assim descobrir-se-ão múltiplos fios, vasos
comunicantes, num intrincado labirinto que nada deverá ter de académica
exibição citacional de sabedorias balofas e enciclopédicas, mas de
correntes vivas que atravessam a boa poesia de todas as épocas. É
justamente o caso de Sérgio Nazar David, que intertextualiza David
Mourão-Ferreira à volta do tema da perda e da morte e também uma parte
do imaginário lacustre de Gonçalves. Escreve Nazar: “Não
estenda a mão/ nem erga os braços para amar./ A alma está presa/ nas
conchas, nas algas, no vestido,/ na maresia, na mágoa…/Enlaçá-la é
perdê-la. Este barco negro que o vento/ afunda tem por divisa
servidão.” Ou ainda Floriano Martins, na obra citada em epígrafe -”Somente
a morte não cai/ em desuso. Paciência com os altos ramos da Parca./ É
fato que o amor é uma árvore castigada pelo tempo” - que me traz
em eco Mourão-Ferreira no poema- fecho da sua Obra
Poética (que é ele mesmo um eco do poema com que a abre): “Só
comigo me encontro enquanto me concentro/ nas ancas e Afrodite ou nos
olhos da Parcas// mas sei que sou assim há imenso tempo/ mal fora
iniciada a secreta viagem”. E todos estes poetas
inevitavelmente conhecem a lição de Sylvia Plath: “Love is a shadow./How you lie and cry after it/Liste: these are its
hooves:it has gone off, like a horse.” A poética de Manuel Fernando Gonçalves, sendo exercício de lucidez, é naturalmente uma poética do sentimento vigiado pela razão, de uma profunda ambiguidade desenhada na conturbada relação do sujeito com as palavras. Uma transmutação da linguagem comum, intensificada pela ironia que pressupõe a anulação da matriz confessional, apesar do uso reiterado da primeira pessoa, amiúde dialogizada em auto-reflexividade. Coerência, coesão temática, excelente encadeamento na construção do livro, boa cadência, emoção concentrada, caracterizam, sobremaneira, este poeta. No final de Defense of Poetry Shelley reconhece serem os poetas os espelhos das gigantescas sombras que a futuridade lança sobre o presente. São também as trombetas que conduzem à batalha e não sentem o que inspiram. São influência que não é movida, mas move. E porque move, comove, dando-nos a provar o delicado travo da palavra com sabor de finito, mas que é, em si mesma, um saber de infinito. Vale bem a pena ir à procura do infinito pela mão irónica do poeta Manuel Fernando Gonçalves, coração independente, exímio ordenador de sombras. |
|
Teresa Martins Marques (Portugal, 1950). Investigadora literária e professora (Ministério da Educação), é actualmente responsável pela organização do Espólio literário de David Mourão-Ferreira. Autora de livros como O Imaginário de Lisboa na Ficção Narrativa de José Rodrigues Miguéis (1994) e Leituras Poliédricas (2002). Contato: tmartinsmarques@clix.pt. Página ilustrada com obras do artista Ernesto León (Venezuela). |
| retorno à capa desta edição |
índice geral | banda hispânica | jornal de poesia |